Saberes psicológicos, psicologia e história da educaçÃo em goiáS



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SABERES PSICOLÓGICOS, PSICOLOGIA

E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM GOIÁS
Anderson de Brito Rodrigues

Universidade Federal de Goiás

Ao discutir a história da psicologia em Goiás1 observou-se a existência de uma vinculação histórica entre a educação e a psicologia na constituição dessas duas áreas de saber no Brasil e no Estado de Goiás.

O histórico da psicologia no Brasil revela que em seu processo de desenvolvimento essa área transpõe as fronteiras do estritamente psicológico e estabelece vinculações com outras áreas do saber, tais como a medicina e a educação. A referência aos antecedentes da psicologia no Brasil remete a um período que é anterior à instituição da ciência psicológica, e pode ser observada em diversas publicações. Os estudos realizados nessa época não tratam especificamente da psicologia, mas, de assuntos relativos a outras áreas do saber, por exemplo, medicina, moral, teologia, pedagogia, política e arquitetura, apresentando questões relacionadas à vida psíquica.

A leitura sobre a constituição da psicologia no Brasil reporta ao período colonial (século XVI – XVIII), no qual os conhecimentos acerca dos saberes psicológicos têm influências européias e indígenas. Esse período é considerado bastante fecundo e abriga os primeiros estudos a respeito da subjetividade e do comportamento na cultura brasileira. De acordo com Massimi (1990), uma das primeiras obras portadoras de saberes psicológicos no Brasil, é Tratados da Terra e da Gente do Brasil, escrita por Fernão Cardim durante o período colonial. Dentre esses saberes explicitados tanto no período colonial quanto no período imperial, pode-se evidenciar a explicação acerca da origem das emoções, do comportamento, do caráter e do temperamento.

A difusão do pensamento psicológico no país ocorreu também em grande parte com o auxílio das instituições médicas e Faculdades de Medicina, nas quais os alunos eram obrigados a produzir escritos ao final de seus estudos, que eram a expressão do pensamento médico do período e versavam sobre questões ligadas à psiquiatria forense, criminologia, neurologia, medicina social, neurofisiologia, psicofisiologia e higiene mental entre outros. No interior da medicina, os conhecimentos psicológicos contribuíram para o entendimento do comportamento dos indivíduos, assim como para a higienização e saneamento dos espaços sociais. As práticas psiquiátricas adotavam os conhecimentos médico-psicológicos com o intuito de entender o funcionamento normal e anormal do psiquismo. Ou seja, a atribuição da psicologia na medicina era de conhecer as ações dos indivíduos, de modo a manter o controle da ordem social.

De acordo com Patto (2005, p. 133), a participação dos médicos na psicologia brasileira está diretamente ligada à introdução da psicologia nas instituições. A autora destaca o papel da medicina no desenvolvimento da psicologia por sua atuação na Liga Brasileira de Higiene Mental:

psiquiatras começaram a incentivar a Liga a valer-se das ‘competências em psicologia’ já existentes no país, louvadas não só pelos recursos psicotécnicos de que dispunham, mas pela posse de instrumento imprescindível à luta em defesa da higiene psíquica: a psychoterapia, entendida como ‘tratamento moral’ para ‘dominar as comoções, subjugar as paixões, vencer os ímpetos e educar a vontade’. Foi assim que a Psicologia foi sendo convocada pelos médicos para atuar nos hospícios, nas prisões e nos estabelecimentos educativos, escolares ou não (Grifado no original).

No espaço educacional, a psicologia encontrou campo fecundo para seu desenvolvimento em escolas normais, colégios e faculdades. É interessante dizer que o primeiro laboratório brasileiro de psicologia experimental foi instalado no interior do Pedagogium, o qual era uma instituição de caráter educacional.

As Escolas Normais, instituições que foram instaladas no Brasil a partir da década de 30 do século XIX, foram fundamentais para a incorporação do saber psicológico de forma sistematizada ao pensamento educacional.

A Psicologia encontrou nas escolas normais um dos mais importantes substratos para seu desenvolvimentos, seja pela divulgação de idéias que vinham sendo produzidas nos mais importantes centros europeus e norte-americanos, seja pela aplicação de conhecimentos, pela produção de pesquisas e sobretudo, pela formação de profissionais que viriam a ser alguns dos primeiros a se dedicar exclusivamente a esta ciência (Antunes, 1997, p.43).

Nas primeiras décadas do século XX no Brasil, nota-se um fortalecimento da relação entre psicologia e educação, que se evidencia pela adoção de pressupostos psicológicos como sustentação teórica para fundamentação de métodos e processos pedagógicos.

A relação entre a psicologia e a educação acentua-se com a introdução de estudos concernentes ao movimento escolanovista, que se desejava renovador das práticas educacionais institucionalizadas no Brasil. Isso fica demonstrado no livro de Lourenço Filho intitulado Introdução ao Estudo da Escola Nova, publicado em 1930. No trecho seguinte, Lourenço Filho (2002, p. 111-112) justifica a recorrência histórica da educação à psicologia:

Examinem-se diferentes definições de educação, antigas e modernas, e ver-se-á que elas têm sempre considerado o comportamento do educando como processo global. As mais das vezes, essas definições contêm termos usuais da psicologia, como alma, espírito, faculdades, aptidões, hábitos, interesses, ajustamento, personalidade. Quanto às técnicas educativas, bastará lembrar que todas partem da idéia de uma interferência nas formas de sentir, pensar ou agir do educando – seja para acentuá-las ou reforçá-las ou, ao contrário, alterá-las, contê-las ou combiná-las em novos padrões. A intenção de educar pressupõe a possibilidade de modificar o comportamento do educando, e a idéia correlativa de que nele existe plasticidade, cujas condições hão de ser conhecidas para que os procedimentos didáticos nelas se apóiem (grifado no original).

O ideário da Escola Nova começa a fazer-se presente no espaço educacional brasileiro na primeira metade do século XX, quando o escolanovismo tornou-se pensamento hegemônico no cenário educacional brasileiro.

No processo de consolidação da psicologia brasileira alguns momentos podem ser destacados, por exemplo, a inserção da psicologia como disciplina nos currículos de formação universitária na década de 1930, quando a psicologia torna-se obrigatória em alguns cursos superiores. É interessante ressaltar que esse acontecimento é contemporâneo ao surgimento das primeiras universidades no Brasil.

No que tange à inserção da psicologia no espaço da organização do trabalho foram importantes as contribuições do Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT), do Instituto de Administração da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, e do Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP), que se destacaram quanto a realização de atividades de seleção de pessoal, padronização de testes, desenvolvimento de instrumentos de mensuração para pesquisa psicológica e, ainda, organização de cursos técnicos.

A década de 1950 constituiu-se em um período de reivindicações em relação à regulamentação da psicologia como profissão no país. Nesse período, um acontecimento de destaque foi o surgimento do primeiro curso de graduação em psicologia no país em 1958, na USP. Durante esse ínterim, expandiram-se os cursos de formação específica em psicologia, foram promovidos congressos e debates na área, e foram fundadas associações profissionais e entidades representativas. Todo esse movimento impulsionou a regulamentação da profissão de psicólogo, fato ocorrido em 1962. Pessotti (2004, p. 136) realiza o seguinte comentário a respeito do período de criação e regulamentação da psicologia como profissão no Brasil:

os velhos pioneiros se alegrariam com a criação dos cursos de pós-graduação, a difusão de cursos de Psicologia, a decidida profissionalização do psicólogo na indústria, na clínica e na escola, com a criação dos organismos de controle do exercício profissional, com o progresso editorial no campo da Psicologia. Os caminhos da Psicologia brasileira se multiplicaram e não é possível segui-los todos.

Dentre os diversos caminhos possíveis para o entendimento da história da psicologia brasileira, a mais instigante foi descortinar as origens da psicologia em Goiás, buscando compreender como a psicologia constitui-se e desenvolve-se nesse Estado, assim como em que medida a relação verificada em âmbito nacional faz-se presente em âmbito estadual.

É possível perceber essa preocupação com a reconstituição histórica da psicologia no Brasil no discurso de Massimi (1990):

a documentação histórica e as revisões críticas relativas à psicologia brasileira do século XX são abundantes e podem ser encontradas em revistas especializadas, livros, arquivos de instituições públicas e de psicólogos, anais de congressos e, sobretudo, na memória viva de muitos protagonistas desse processo cultural, ainda atuantes no país. Este é um desafio para os jovens estudantes, para os psicólogos e os historiadores que queiram dedicar-se à recuperação e à preservação do patrimônio histórico da psicologia contemporânea, em nossa nação. É uma tarefa urgente e um recurso essencial para a formação da consciência crítica do psicólogo brasileiro, pois lhe permitiria situar e entender a psicologia no âmbito do mais amplo contexto cultural, social e político, libertando-o de um tecnicismo muitas vezes apontado entre as falhas graves da profissão. É um trabalho enorme a ser realizado abrangendo todo o território nacional (...). Todavia, esse trabalho, de grandes dimensões, poderá ser desenvolvido de forma mais fácil, sistemática e eficaz, na medida em que a preocupação com a memória da psicologia tornar-se uma característica difundida nos vários centros de pesquisa, didática e intervenção que constituem a estrutura dessa ciência no país. Por isso, qualquer tentativa de preservação, coleta ou indagação crítica, relativa a áreas ou âmbitos específicos da psicologia brasileira representa uma contribuição fundamental (1990, p. 75-76).



Saberes Psicológicos em Goiás

A interlocução com a historiografia da psicologia brasileira foi fundamental para o entendimento do objeto aqui problematizado. A historiografia foi tomada como uma prática de pesquisa que permite a apreensão de dados referentes ao objeto. Considera-se pertinente o estabelecimento de relações entre a psicologia, a educação e a medicina em Goiás, no sentido de apreender as condições concretas da psicologia em Goiás e suas possibilidades de contribuição tanto à educação quanto ao campo médico.

O lugar escolhido para produzir os sentidos e as significações a serem decifradas, como já foi dito, foi o Estado de Goiás. O recorte temporal refere-se à busca das origens dos saberes psicológicos até os anos 1950. As fontes às quais foram dirigidas as indagações são documentos oficiais, relatos de viagens, jornais, revistas, livros e relatórios de governo.

A definição do domínio da problemática buscava compreender como a psicologia constituiu-se no cenário cultural goiano, quais influências a psicologia recebeu em seu processo de desenvolvimento no Estado de Goiás, quais os saberes psicológicos constituíram-se e desenvolveram-se no Estado de Goiás, e como ocorreu a inserção da psicologia na Escola Normal em Goiás.

Para o entendimento acerca dos saberes psicológicos, estes são aqui definidos como um conjunto de conhecimentos representativos, explicações, reflexões e indagações acerca de fenômenos psíquicos em um contexto cultural específico antecedente à institucionalização da psicologia como campo epistemológico, e que podem ser interpretados na atualidade como psicologia. A partir disto, se não se pretende afirmar a existência de conhecimentos pertencentes ao campo da psicologia científica nos séculos XVIII ou XIX em Goiás, pode-se afirmar a presença de representações acerca do psiquismo em escritos anteriores à psicologia como ciência.

Nos escritos, datados do século XIX, encontraram-se referências acerca de características comportamentais, emoções, costumes, traços de caráter, temperamento, desenvolvimento intelectual, saúde mental, aprendizagem, hábitos e relações sociais. Foi possível ainda perceber a ocorrência de interpretações correlatas aos saberes psicológicos que explicitaram concepções inatistas, ambientalistas e interacionistas.

Uma dimensão que se apresentou bastante evidente nos escritos foi a descrição das características comportamentais da população e a reflexão sobre elas. Denota-se que essas discussões, por vezes, apresentavam concepções inatistas acerca do comportamento humano, percebido como hereditário. Outras vezes, os comportamentos eram representados como influenciáveis por fatores externos como o clima, por exemplo, que por sua ação insalubre, anulava características como a aptidão, o talento e a alegria.

As narrativas de Saint-Hilaire (1975a, 1975b) problematizam diversos aspectos em relação às relações sociais nas cidades de Goiás. Sobre a cidade de Vila Boa, Saint-Hilaire (1975b), no início do século XIX, relata que o concubinato era um ato muito comum na vida da população:

A cidade não tem absolutamente vida social. Cada um vive em sua casa e não se comunica, por assim dizer, com ninguém. Em nenhuma outra cidade o número de pessoas casadas é tão pequeno. Todos os homens, até o mais humilde obreiro, têm uma amante, que eles mantêm em sua própria casa. As crianças nascidas dessas uniões ilegítimas vivem ao seu redor, e essa situação irregular causa tão pouco embaraço a eles quanto se estivessem casados legalmente. Se por acaso algum deles chega a se casar, passa a ser motivo de zombarias. Esse relaxamento dos costumes data do tempo em que a região foi descoberta. Os primeiros aventureiros que se embrenharam nesses sertões traziam consigo unicamente mulheres negras, às quais o seu orgulho não permitia que se unissem pelo casamento. A mesma razão impediu-os de desposarem as índias. Em conseqüência, tinham apenas amantes. (1975b, p. 52-53)

Em contrapartida, Pohl (1976, p. 251) ressalva, na segunda década do século XIX, o fato de os índios da tribo porecamecrã serem monogâmicos:

Relativamente às relações conjugais, estes índios, como os xavantes, são monógamos. Seus costumes são puros. Deve-se dizer, como prova disso, que aqui não se conhece um caso de uma jovem decaída. (...) Aqui não se usa dote. Esses bons índios são tão pobres que nada têm para trocar. A aliança conjugal é indissolúvel; e, se a um índio acode a idéia de separar-se de sua mulher, o que já aconteceu a alguns, sobretudo quando as mulheres envelhecem precocemente, toda a comunidade se opõe a esse projeto e todos índios velhos, cuja autoridade é muito acatada pelos jovens, chamam o insubordinado à ordem.

No início do século XIX, Saint-Hilaire (1975b, p. 123) discorre sobre a necessidade de uma reforma da moral e dos costumes. A religião é vista como a possibilidade de corrigir condutas e comportamentos inadequados:

Uma reforma geral nos costumes é que seria necessária. Seja como for, os habitantes dessa região não vão jamais à missa, não recebem os sacramentos quando estão doentes e se acham privados de qualquer tipo de instrução religiosa e moral. Se ainda têm algumas noções da religião cristã, isso se deve provavelmente a tradição de família que o tempo acabará por fazer desaparecer. A palermice e a grosseria demonstradas por esses infelizes não deve, pois, causar surpresa. (...) Nada há para despertar a sua inteligência, para reavivar os seus conceitos morais, e nada, por assim dizer os liga à sociedade humana.

Saint-Hilaire (1975a, p. 187-188) acreditava que os goianos:

facilmente se tornariam religiosos se fossem instruídos sobre as verdades do Cristianismo e pudesse usufruir de seu inefável consolo. Mas eles não dispõem de um guia espiritual, deixando-se estagnar numa vergonhosa ignorância e substituindo a religião por superstições absurdas. Como a maioria dos brasileiros do interior, acreditam em feiticeiros, em fantasmas, em lobisomens, em demônios familiares, cujas façanhas são narradas mil vezes. Levam ao pescoço amuletos e bentinhos, e quando adoecem recorrem a simpatias e a palavras mágicas.

Saint-Hilaire (1975b, p. 53) ainda destaca a comportamento inadequado de alguns religiosos:

Os próprios padres, cuja vida deveria constituir um permanente protesto contra desregramentos que contrariam não só as leis da religião e da moral, mas também o progresso da civilização e a instituição da família e da sociedade, autorizam por seu mau comportamento a devassidão dos fiéis que lhes estão confiados. Suas amantes moram com eles, seus filhos são criados ao seu redor, e muitas vezes – digo-o com relutância – o padre faz-se acompanhar da amante quando vai à igreja. Se esses lamentáveis abusos ainda não tiverem sido sanados no momento em que escrevo, espero que minhas palavras possam contribuir para chamar a atenção daqueles que disso precisam ter conhecimento, incitando-os a se esforçarem para que retorne ao caminho do cristianismo e da verdadeira civilização um povo que, à época de minha viagem, tendia cada vez mais a se afastar dele.

Para o autor era preciso enviar ao Estado de Goiás padres que dessem conselhos úteis aos habitantes, e fossem exemplos de virtudes. Esse discurso explicíta a necessidade do “bom exemplo” como fundamental para a formação de um caráter virtuoso pelos indivíduos. Desta forma, um modelo de identificação é basilar para a formação e desenvolvimento da personalidade humana.

O trabalho também aparece nos escritos como um elemento de modificação do comportamento. Saint-Hilaire (1975b), no início do século XIX, destaca que uma administração séria e inteligente poderia despertar a população da apatia. Saint-Hilaire (1975a, p. 188) destaca ainda que:

Acontece com o povo goiano o mesmo que ocorre com seu solo: atualmente só nascem plantas estéreis. Um pouco de cultura e algumas medidas inteligentes bastariam para fazê-lo produzir colheitas abundantes. O governo levou a uma verdadeira degradação os infortunados colonos de Goiás. Já é tempo de que faça algum esforço para devolver-lhes a dignidade de homens e de cristãos. Germes promissores estão latentes neles, basta apenas fecundá-los.

Nos escritos também aparecem referências ao parto, amamentação e criação dos filhos em algumas tribos indígenas. Pohl (1976), ao percorrer a Capitania de Goiás, na segunda década do século XIX, enfatiza que o banho do recém-nascido indígena e da mãe era uma prática comum durante todo o período de lactação. As mães procuravam amamentar os filhos até os cinco anos, sempre os mantendo junto ao seu corpo.

Referências a tais questões podem ser encontradas em escritos brasileiros datados do século XVI, por exemplo, no livro Tratados da Terra e Gente do Brasil Fernão Cardim (1925) relata que as índias, após o parto, vão lavar-se no rio e em seguida amamentam seus filhos.

A infância nas sociedades indígenas de Goiás aparece como um momento da vida que se encerra bem cedo, por ocasião do noivado e da inserção dos jovens na vida produtiva da comunidade. Essa idéia aparece citada em Pohl (1976, p. 251):

Os futuros cônjuges ficam noivos muito cedo, os meninos ordinariamente já aos dez anos. Depois de noivado, o jovem, em geral, fica em casa da noiva, ajudando os pais dela nos serviços domésticos. E já compartilha a cama com a noiva. Nessas circunstâncias, é duplamente interessante a observação do fato (...) de ser conservada a virgindade. Um ou dois anos mais tarde depois do noivado, o jovem pede formalmente a mão da noiva e são celebradas as bodas solenes.

Em relação às crianças das cidades de Goiás, Saint-Hilaire (1975a, p. 188) afirma que as crianças cresciam destituídas do convívio familiar:

Criadas nessa total ausência de sentimentos religiosos, praticamente abandonadas aos seus instintos e tendo diante dos olhos unicamente maus exemplos, as crianças se entregam desde a mais tenra idade aos prazeres mais condenáveis. Nunca são vistas brincando juntas, e não têm nem alegria, nem inocência.

A respeito das concepções de infância prevalecentes entre os brancos no século XIX, Gouvêa (2003, p. 205) afirma:

É importante ressaltar que as formas de apreensão das diferentes infâncias tinham em vista não apenas o momento cronológico do indivíduo, mas sua identidade étnica, de gênero, grupo social. A definição de infância não assume um significado unívoco, remetido exclusivamente à faixa etária. A identidade infantil constrói-se associada à condição social da infância, à inserção da criança num grupo social, étnico e de gênero que se superpõe à condição geracional.

A educação é um dos elementos que concorrem para a composição de um conjunto de saberes psicológicos em Goiás. Em alguns textos, a educação é entendida como sendo o grau de civilização da sociedade.

A educação no Estado de Goiás é quase que exclusivamente destinada aos meninos, uma vez que o conhecimento é compreendido como elemento de poder.

Em relação ao descaso com a educação das crianças na cidade de Corumbá no final do século XIX, Leal (1980, p. 123) afirma:

É para lamentar-se haver falta de escolas boas, particulares, onde a mocidade se eduque, assim como é para lamentar o pouco caso que têm os paes na educação de seus filhos, os quaes crescem muitas vezes em plena ignorancia, sem nenhumas noções de civilidade, no meio brutal em que vivem.

Leal (p.162), também discorre a respeito do preparo dos professores goianos:

No Estado de Goyaz ha alguns professores habilitados é verdade, mas tambem ha outros que... benza-os Deus. E as professoras, n’essas não fallemos. A ignorancia póde fazer cara feia, julgando-se offendida. A educação da mulher em Goyaz é cousa em que ninguem cogita. Lêr um pouco e mal, fazer crochet, esperar o casorio ou ficar para tia... Isto tudo só por culpa dos paes e pela persistencia d’estes em imitar os usos de seus antepassados.

Em relação à educação dos indígenas, essa aparece em alguns escritos como sinônimo de adaptação, instrução e adequação. Entendido nessa acepção, o ato educativo tem a função de modelar o comportamento dos indivíduos, procurando adequá-los aos modelos urbanos.

O desenvolvimento intelectual também é ressaltado em diversos relatos ao longo do século XIX. Leal (1980, p. 78-79) apresenta um caso hipotético a respeito do desenvolvimento da inteligência:

Uma rapariga, que desde os primeiros dias da infancia principia a conhecer o mundo, a lançar a vista sobre o bom e o mal, ilustrando-se e desenvolvendo-se de dia para dia, chegada a hora em que se avisinha do precipicio, terá forças, saber, e conhecimento para evital-o, porque o cultivo da intelligencia e a pratica da vida, fazem-na poder distinguir o visivel do apparente. Outro tanto não sucede á menina tôla, inexperiente, sem rudimentos de convivência.

Esse pensamento apresenta uma concepção de que o desenvolvimento do intelecto não prescinde do desenvolvimento social. Essa idéia apresenta uma noção interacionista de desenvolvimento do homem, na qual a inteligência se desenvolve processualmente através de relações estabelecidas entre os seres humanos e entre estes e o espaço social que o circunda. Algumas concepções a respeito desses processos evidenciados nesse escritos podem ser relacionadas ao pensamento de Vigotski (1998, p. 118):

o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. Assim, o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas.

A população de Goiás é referenciada nos textos como talentosa e habilidosa, sendo que essas características podem ser desenvolvidas por meio de uma aprendizagem direcionada, ou pelo autodidatismo. Os escritos permitem ainda uma interpretação acerca dos talentos, habilidades e aptidões como naturais, engendrando uma concepção inata, ou adquirida pela aprendizagem.

A respeito de uma compreensão de habilidade que se desenvolve por meio da reprodução de modelos pré-existentes, Saint-Hilaire (1975a, p. 187) faz a seguinte afirmação:

Encontram-se em Vila Boa artesãos extraordinariamente hábeis, capazes de copiar com perfeição qualquer modelo que se lhes apresente. No entanto nunca tiveram mestres. Mas, como já tive a ocasião de dizer, os goianos não encontram em geral ocasião de cultivar suas faculdades intelectuais e sua aptidão para a indústria.

Os textos também se referem à questão do caráter, do comportamento e do temperamento das pessoas. São destacadas algumas características como timidez, astúcia, egoísmo, inibição, agressividade, ociosidade, estupidez, pacificidade e crueldade. É interessante dizer que não se demonstra uma preocupação dos autores das narrativas em distinguir o que seja cada um dos termos e, muitas vezes, estes são empregados em uma relação sinonímica.

A respeito do comportamento dos indígenas em Goiás na década de 1860, Magalhães (1974, p. 103) relata que a tribo dos canoeiro era considerada pelas outras tribos como aguerrida, feroz e inteligente. “Mais guerreiros do que os outros, são também muito mais disciplinados. Obedecem cegamente a seus chefes e atacam em boa ordem”. O autor também afirma que os habitantes da capitania possuem um gênio pouco ativo e são inclinados ao ócio.

Pohl (1976) relata que no início do século XIX, prevalecia entre os brancos e os mulatos habitantes de Goiás uma preguiça, que era hereditária. Esse pensamento traz uma concepção biologicista acerca do comportamento humano.

Outro aspecto bastante referenciado nas narrativas dos viajantes são as emoções. Dentre elas é possível destacar o amor, a paixão, o ciúme, a monotonia, a saudade, a tristeza, a cólera, a melancolia, a vingança, a alegria, a nostalgia o tédio, a obsessão, o desejo, o ódio, entre outras.

Ao raciocinar sobre a forma das pessoas se relacionarem sentimentalmente com as outras na sociedade Saint-Hilaire (1975b, p. 109-110.) realiza uma reflexão acerca das próprias emoções:

Essa época foi certamente uma das mais felizes de toda a minha viagem. Desde o Rio dos Pilões eu não tivera a mais leve censura a fazer aos meus homens. Gozava de perfeita saúde e me ia habituando cada vez mais às fadigas e privações de cada dia. Chegava quase a lamentar que esse tipo de vida em breve fosse acabar. A paz e a liberdade que eu desfrutava naquelas solidões seriam certamente um dia motivo de nostálgicas lembranças. As pessoas que eu conhecia, nem que fosse por poucos instantes, mostravam-me apenas o seu lado bom... E me assustava a idéia de me ver de novo numa sociedade onde as pessoas se acham tão próximas umas das outras que em todas as coisas que fazem, por menores que sejam, acabam sempre por se magoar; onde as paixões atingem o mais alto grau de exaltação e onde parece sempre haver alguém pronto a achar erros nos outros para prejudicá-los.

Ainda aparecem nos escritos questões relacionadas à saúde mental dos indivíduos. Na década de 1860, Alencastre (1979), por exemplo, utiliza o termo loucura para explicar o comportamento de um religioso que se tornava extremamente violento ao menor sinal de aborrecimento. O autor afirma que para impedir o padre de continuar cometendo arbitrariedades foi convocada uma junta médica que atestou sua alienação mental.

Em outra passagem do texto, Leal (1980, p. 86) destaca um episódio em que em um acontecimento festivo em sua casa, realizou experiências de hipnose e magnetismo. Fez uso da hipnose procurando curar o problema de um rapaz que sofria de enxaqueca:

N’essa occasião os nevroticos viram-se verdadeiramente confundidos diante do somnambulismo magnetico. Eis ahi o resultado de uma experiencia: o jovem Francisco Gordo soffria de uma enxaqueca. Deitado sobre uma cama, tentei a hypnotisação pela fixação de um objecto brilhante. Ao cabo de quatorze minutos sobreveiu somno profundo, conservando-se a audição. Fez-se a suggestão que constou do seguinte: – accordará bom e dormirá profundamente. Por um simples aceno o rapaz mostrou-se crente e obediente. Quando despertou sentia-se com effeito bom e apenas se queixava de fraqueza.

A menção aos fenômenos psicológicos e aos distúrbios psíquicos ora apresentados evidencia uma preocupação de Leal com a saúde mental dos indivíduos. É interessante destacar que a referência à prática da hipnose apresentar por Leal, em Goiás no final do século XIX, é concomitante às experiências de Charcot em Paris que foram, em certo sentido, precursoras da psicanálise.

Os saberes psicológicos em Goiás também apresentaram em sua origem relação com o conhecimento médico. As preocupações com a saúde dos habitantes do Estado de Goiás datam do inicio do século XVIII, período no qual se inicia o processo de ocupação do território goiano.

No século XIX, havia carência de médicos em Goiás, e as doenças eram, por várias vezes, tratadas a partir da crença em superstições, amuletos e ervas medicinais. Saint-Hilaire (1975b, p. 52) faz referência à precariedade dos serviços médicos em Goiás no início do século XIX:

À época de minha viagem não havia em Vila Boa nenhum médico. O único cirurgião disponível (...) era, segundo diziam, de uma displicência total, aliada a uma absoluta ignorância. Os comerciantes de tecidos e de miudezas costumavam vender alguns remédios que recebiam do Rio de Janeiro, mas ninguém tinha a menor noção do que fosse uma farmácia. O capitão-geral reclamara várias vezes ao governo central sobre a absoluta falta de recursos médicos na região, mas suas palavras não foram ouvidas. A administração geral, no Rio de Janeiro, era na época quase tão negligente quanto a de Goiás.

Os rituais mágicos eram bastante disseminados entre a população e os curandeiros eram muito requisitados no período. A respeito da recorrência aos curandeiros no final do século XIX em Goiás, Leal (1980, p. 197) afirma:

não existem medicos, porque com excepção dos poucos filhos do estado, nenhum outro se tem querido aventurar a tão remotas terras, onde o curandeiro e o charlatão são devidamente apreciados pela maioria do publico, que falla d’elles pelos cotovellos, ao passo que simulando graça, lhes rende homenagens de face a face.

Cabe ressaltar que, em Goiás, a medicina institucionalizou-se tardiamente, sendo que o único hospital presente por muito tempo no Estado foi o Hospital de Caridade São Pedro de Alcântara, fundado em 1826, e que as instituições universitárias de formação médica só foram implantadas na segunda metade do século XX, já em Goiânia. O Hospital de Caridade São Pedro de Alcântara impôs alterações nos comportamentos da população. Moraes (1995, p. 79) ressalta que, nesse hospital

buscava-se uma totalidade, uma mudança de hábitos e costumes enraizados não somente na região dos ‘Guayazes’, mas em todo o país. Ele se torna uma escola, um local onde se ensinaria (sic) novos hábitos de higiene física e mental – individual – para serem difundidos no espaço privado popular. Os doentes seriam os privilegiados a desfrutarem de tanto conforto ou de tais hábitos.

Os saberes médicos encontraram na psicologia no final do século XIX, uma importante aliada. O estabelecimento de um padrão de limpeza do espaço urbano em Goiás significou uma preocupação com a higiene mental e corporal dos habitantes, fazendo parte durante o século XIX e começo do século XX de um ideário de purificação, higienização e controle dos espaços sociais.



Psicologia e Educação em Goiás

Embora a medicina no Estado de Goiás comportasse no século XIX saberes psicológicos que colaboraram para a história da psicologia, foi no campo educacional que a ciência psicológica logrou espaço para a sua constituição e seu desenvolvimento.

A educação contribuiu para a sistematização e institucionalização dos conhecimentos psicológicos por meio dos cursos de formação de professores sediados nas escolas normais. Os conhecimentos sobre os aspectos psicológicos produzidos no interior da área educacional foram elementos importantes para a consolidação da psicologia como campo de saber no Estado de Goiás.

O ensino de Psicologia estava presente no currículo nas Escolas Normais em Goiás em 1884, incorporado à disciplina de Pedagogia. O Correio Oficial nº 18, de maio de 1884 (p. 4), apresentava o conteúdo psicológico presente na disciplina de Pedagogia: “Princípios de psychologia. Necessidade que tem o educador de conhecer as leis que presidem a evolução da intelligencia”.

A psicologia também era parte integrante do programa da disciplina Filosofia dos exames gerais de preparatórios para o ingresso no Liceu em Goiás. No Correio Oficial, nº 28, de 23 de julho de 1887 são destacados os conteúdos dessa disciplina. Os conteúdos psicológicos eram os seguintes (p. 3-4):

Psycologia

7. – O composto humano, passagem da physiologia á psychologia. Dos factos psychologicos. Faculdades da alma.

8. – Da sensibilidade em geral. Da sensibilidade physica. Das sensações.

9. – Da sensibilidade intellectual e moral. Sentimentos e affeições.

10. – Da intelligencia em geral. Da consciencia ou percepção intima.

11. – Da percepção externa. Elementos da percepção. Os sentidos e seus erros.

12. – Das idéas em geral: definições, differenças caracteristicas, origem e formação.

13. – Da attenção. Da reflexão. Da comparação.

14. – Da rasão pura. Noções e verdades primarìas.

15. – Do juizo. Do raciocinio.

16. – Da memoria. Da associação das idéas.

17. – Da abstracção. Da generalisação. Da imaginação.

18. – Da linguagem: difinição. Differenças, classificação, origem e actualidade.

19. – Da vontade: do instincto e do habito. Da actividade livre.

20. – Da liberdade e suas provas: Difficuldades e theorias.

21. – Da unidade, identidade e espiritualidade da alma. Argumentos e objeções. União da alma com o corpo.

A referência a esses conteúdos é fato muito importante para a compreensão da história da psicologia em Goiás. Muitas dessas questões fazem parte na atualidade da formação dos psicólogos. No programa da disciplina percebe-se preocupações com as emoções, as percepções, as sensações, o intelecto, a volição, a linguagem, a consciência, a separação entre corpo e alma, a racionalidade e o comportamento.

As Escolas Normais foram um espaço de ampla inserção do ideário psicológico em Goiás. As concepções advindas da corrente de pensamento escolanovista tomavam o educando como o centro do processo ensino-aprendizagem. A influência de conhecimentos escolanovistas nas políticas educacionais nas primeiras décadas do século XX em Goiás é destacada por Canezin e Loureiro (1994, p. 53):

A escola deveria ser reinventada pela renovação dos métodos e técnicas de ensino e das formas de organização administrativa. Ao professor caberia a função de estimulador e orientador e, aos alunos, as iniciativas de direção das atividades. Na relação professor-aluno, dever-se-ia minimizar a autoridade, enfatizar a qualidade de agrupar os alunos de acordo com os interesses motivadores determinados pelas diferenças individuais. Os métodos e as técnicas de ensino tornariam os alunos mais ativos, participantes e democráticos. A integração do indivíduo na sala de aula e na sociedade era mais importante do que o somatório do conhecimento imposto pelo professor. A experimentação e a observação contrapunham-se à memorização do conhecimento. Enfim, a escola deveria ser redimensionada de tal forma que se constituísse em um espaço de lazer/prazer, em que a disciplina e a imposição cedessem lugar à criatividade e à participação democrática de alunos e de professores.

As influências da Escola Nova e da Psicologia Educacional no Estado de Goiás podem ser evidenciadas também no Decreto nº 8.538, de 12 de fevereiro de 1925 (p. 11), que ao estabelecer o regulamento e os programas de ensino dos grupos escolares expressava:

As lições cingidas ao programa do grupo, serão práticas, concretas, essencialmente empíricas e com exclusão completa das regras abstractas. (...) As faculdades das crianças serão desenvolvidas gradual e harmonicamente, por meios de processos intuitivos, tendo o professor sempre em vista desenvolver a observação.

O pensamento escolanovista em Goiás teve influência do Estado de São Paulo. O governo de São Paulo atendendo a um pedido do governo de Goiás indicou três professores para contribuírem na organização do ensino primário e normal de Goiás. Os professores que compuseram esse grupo denominado “Missão pedagógica paulista” eram Humberto de Souza Leal, que chefiava a missão e era técnico em ensino normal; José Cardoso, técnico em métodos pedagógicos, principalmente Decroly e Ferrière, e diretor de ensino; e Cícero Bueno Brandão, especialista em educação física escolar.

Na década de 1930, a Seção Pedagógica do Correio Oficial, que tinha como redator-chefe o professor José Cardoso, teve um importante papel na propagação do pensamento educacional renovador. Em texto publicado no primeiro número da Seção Pedagógica José Cardoso atribui um importante papel a ciência psicológica (p. 5):

se a criança é o centro de todo o trabalho escolar, se ella é, principalmente nos dias presentes, o que mais importa ao educador, como suscitar e desenvolver nella os estados physicos e mentaes, estes, sobretudo, preparando-a para a vida real, se se ignoram quaes são esses estados, quaes as leis que os regem, quaes os cuidados merecidos? Como governar o educando, senão travando relação com os principios directores do seu natural desenvolvimento, para o conhecimento indispensavel dos interesses proprios a cada etapa do seu crescimento espiritual? E isto como conseguir? Com o estudo da pedagogia? Com os principios da didactica? Ninguem, uma vez conhecedor da finalidade dessas disciplinas affins, responderá pela affirmativa. Somente a psychologia como sciencia, desvendando os arcanos da alma infantil com o desdobrar dos phenomenos conscientes á analyse attenta do estudioso, poderá offerecer ao educador a base de que não póde prescindir para realizar proveitosamente a sua tarefa. Não se concebe, é mesmo inadmissivel que a educação se faça intelligentemente, sem o concurso das verdades psychologicas, que indicam ao mestre o caminho a percorrer para attingir a finalidade social da escola e do seu mistér.

O pensamento escolanovista em Goiás evidenciava também o deslocamento de questões sociais do âmbito da produção para o âmbito da educação. O governo de Goiás durante esse período, ao mesmo tempo em que deu subsídios à expansão do ensino privado, incentivou e subsidiou a ampliação da rede de ensino normal, alterando seus processos pedagógicos sob a égide dos princípios escolanovistas.

É importante destacar que o discurso da segregação social difundido nos séculos XVIII e XIX em Goiás mantém-se presente na legislação da década de 1930. O decreto nº 3.261 (CORREIO OFICIAL, nº 2.458, p. 2), por exemplo, vetava a matrícula de crianças que padecessem de moléstias contagiosas ou repugnantes, as que não fossem vacinadas, e ainda, “as imbecis e as que por defeito organico não puderem receber instrução” (grifo nosso). Dessa forma podemos dizer que quando o novo interessava era chamado o discurso escolanovista, e quando o antigo interessava era chamado o discurso higienista.

No ano de 1942 foi realizado em Goiânia o VIII Congresso Brasileiro de Educação, evento este realizado durante os festejos do Batismo Cultural de Goiânia. Esse congresso, com a temática A educação primária fundamental – objetivos e organização: nas pequenas cidades e vilas do interior; na zona rural comum; nas zonas rurais de imigração; e nas zonas do alto sertão, contou com a presença de diversos profissionais atuantes no espaço educacional, dentre os quais pode-se referenciar Helena Antipoff e Ulisses Pernambucano, educadores que muito contribuíram para o entendimento tanto dos processos educacionais quanto dos processos psicológicos.

A respeito das idéias escolanovistas em Goiás, é importante explicitar ainda o posicionamento da professora Floraci Artiaga Mendes apresentado na revista Oeste em 1944 (1983, p. 682):

Concentraram-es, logo após, milhares de educadores notáveis, dos mais cultos paízes e, em Genebra, sob os céus puros dos Alpes, entre paisagens sonhadoras e tranquilas de alvas neves e lagos azuis, creou-se um novo Evangelho de paz para a humanidade ferida que se ia tentar redimir por uma política educacional baseada em puríssimos princípios filosóficos (...) ‘E assim como aproxima os homens, a Escola Nova visa aproximar as nações’, é a legenda que nesse quadro de bíblica beleza inscreve o nosso Lourenço Filho. A política panamericana encontra um perfeito astímulo nêsse espírito da Escola Nova e assim se tornasse tambem legítima realidade essa união fraternal entre todos os póvos do mundo! Infelizmente, o sonho dos apóstolos de Ferriére se interrompeu dentro de vinte anos, com a barbárie rediviva dos hunos do novo Átila da cruz swastica.

Essa professora apresenta também na revista Oeste (1983, p. 878), a euforia das alunas ao terem contato com as teorias escolanovistas:

Dou constantemente exercícios práticos tais como aplicação de testes e redação de composições pedagógicas, lidas e comentadas em classe para estímulo e formação de senso crítico. Além disso, não perco oportunidade para pregar o Amor ao magistério, fazendo o panegírico mais inflamado, porque sincero, da belíssima carreira imortal de D. João Bosco e Pestalozzi, de Maria Montessori e Decroly (...) Algumas alunas, ao estudar ou comentar, por exemplo, os Sistemas da Escola Nova em vários paízes, na França, na Bélgica, na Itália, na Inglaterra, nos Estados Unidos, etc., demonstram espontâneo entusiasmo pela criação de um sistema educacional Brasileiro, Nacional, que seja só nosso, autenticamente nosso. Deixo-me contagiar por êsse entusiasmo idealista e sou, ao lado da classe, um a mais a sonhar... Idolatram Lourenço Filho com o seu apóstolado nacionalizador e encontram na referência à Escola Regional de Merity, uma esperança aurifulgente, bem verde-amarela, como a própria flâmula sagrada, ‘que a brisa do Brasil beija e baloiça’... Entusiasmam-se com as investigações psicológicas educacionais e se encantam aos primeiros contactos e experiências com classes escolares de verdade...

Na cena política, um bom exemplo da força dos ideais da Escola Nova é o trecho de um discurso de Pedro Ludovico Teixeira, por ocasião da inauguração de um grupo escolar na cidade de Piracanjuba, publicado na revista Oeste em setembro de 1944 (OESTE, 1983, p. 803),

o ideal é fazer-se o ensino bem planificado, tècnicamente organizado, pois, o professorado é hoje uma técnica. Quem não tiver os conhecimentos modernos necessários a essa missão, não está à altura do momento educacional que vivemos. As noções da Escola Nova, da pedagogia atual não são produtos de ciência abstrata. São conhecimentos perfeitos de experiências que se fizeram no correr dos séculos. São elementos positivos, de real valor na educação das crianças. O aproveitamento obtido pelos métodos modernos não se compara com o adquirido pelos antigos processos. Atualmente, na escola se plasma o homem do futuro. Dá-se à criança a estrutura que se quer. Plasma-se nela o homem que se deseja para a vida das nações. Uma prova concreta do que afirmamos se vê na Alemanha, na Rússia. Idealizou-se naqueles países um homem político e econômico, de acôrdo com as diretivas dos propósitos dos seus regimes governamentais. Com a educação cientìficamente orientada consegue-se um tipo física e espiritualmente estruturado, conforme as bases projetadas. Por essa observação se conclue, se aquilata a responsabilidade dos governos pela educação dos seus povos. Desde que na escola se faz o homem, impõe-se um zêlo, um carinho, um esfôrço enorme para que se constitua bem êsse homem. Esta é a razão primordial por que hoje os administradores cuidam com extremo desvêlo da educação de sua mocidade. Nela está alicerçada a grandeza dos povos.


Conclusão
A partir do final da década de 1940 a psicologia conquistou cada vez mais espaço nos cursos de formação de professores contribuindo para as discussões e proposições de métodos pedagógicos eficazes no processo de formação de indivíduos ativos que se adaptassem ao modo de produção capitalista. Ao final desta década nova regulamentação passou a dispor sobre o funcionamento do ensino normal em Goiás, inserindo a psicologia como componente curricular em cursos de especialização do magistério e de habilitação para a administração escolar. Nota-se que as políticas educacionais, nesse momento, continuavam apresentando um caráter de flexibilização do currículo e adoção de métodos pedagógicos ativos.

É possível afirmar que o pensamento escolanovista fez-se presente na primeira metade do século XX, influenciando de maneira significativa o desenvolvimento do campo educacional no Estado de Goiás, e que a renovação educacional ocorreu ao menos no plano legislativo, antes mesmo do governo provisório de Pedro Ludovico iniciado em 1930.

A psicologia que ganhou maior espaço em Goiás na primeira metade do século XX foi a psicologia de Dewey, Claparède, Montessori, Ferrière, Froebel, Pestallozzi, Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, entre outros renovadores que defendiam a Escola Nova, seus métodos revolucionários, e a psicologia ativa por ela representada.

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1 Cf. RODRIGUES, A. B. (2007).



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