Sabrynne sampaio de sena



Baixar 163.63 Kb.
Página2/6
Encontro19.07.2016
Tamanho163.63 Kb.
1   2   3   4   5   6

Capítulo 1

Louis Braille: vida, música e linguagem.


Os pontos Braille são sementes de luz levadas ao cérebro pelos dedos, para germinação do saber”.
Helen Keller

Biografia de Louis Braille

Louis Braille nasceu em quatro de janeiro de 1809, na cidade de Coupvray no distrito de Seine-Marne, situada a 45 km da cidade de Paris, França (American Foundation for The Blind-1969).

Seu pai, Simon René Braille, trabalhava num curtume e era um conceituado seleiro4, produzia também outros objetos em couro e trabalhava para todos daquela região. Sua mãe, Monique Baron, casára-se com Simon Braille em 1792, dezessete anos antes do nascimento de Louis Braille (Veiga, 1983:17).


“No ano de 1812, não se sabe exatamente em que dia e mês, o pequeno Louis brincava na oficina como de costume. Em certo momento apanhou um dos instrumentos de retalhar o couro e experimentou imitar o trabalho de seu pai. Ao tentar perfurar um pedaço de couro com a sovela pontiaguda afiada, aproximou-a do rosto. O couro era rígido e o pequeno forçava para cortar. Em dado momento a sovela resvalou e atingiu-lhe o olho esquerdo, causando grave hemorragia” (Kugelmass 1955:13).

Diante da tragédia descrita na citação, acrescentamos as seguintes informações:

O único médico existente na região era o veterinário Dr. Horace Duclos que não pôde ser muito útil pela gravidade do problema existente. (Kugelmass 1955:22).

No momento do acontecido, o pai de Braille trabalhava fazendo as rédeas do cavalo de um advogado da cidade. Este mesmo se prontificou para levar a criança a um médico muito respeitado em Paris, mas quando chegou na cidade, já era tarde. Não tinha mais salvação para a visão de Louis Braille.

O advogado amigo de Simon Braille recorreu a seu amigo pessoal Napoleão Bonaparte5, que sensibilizado com o problema, encaminhou a criança aos cuidados do médico Dr.Armand Fontaine.

Por falta de cuidados médicos específicos na hora do acidente para eliminar o centro da infecção, veio à conjuntivite6 e depois a oftalmia7. Meses depois, a infecção generalizada atingiu ambas as córneas e a cegueira total adveio quando Louis tinha 5 anos.

A citação a seguir nos esclarece sobre o tratamento médico realizado no século XIX. Um pequeno livro intitulado "Medicina Popular" escrito pelo Dr. Leopold Turk, muito conhecido na época, nos fornece informações sobre o tratamento de um ferimento no olho, naquele época:
O quarto deve permanecer no escuro e o olho deve ser coberto com compressas de água fria. Em caso de hemorragia, aplicações de sanguessugas ao redor do olho, dieta e uma dose de calomelano são os métodos usualmente empregados neste caso e em todos aqueles no qual o olho tenha recebido ferimentos sérios (Wilson, 1995:52).
Não era de se estranhar que temos poucos relatos de cura de problemas oftálmicos naquela época.

A real condição social dos cegos no século XVIII

No século XVIII, os cegos se apresentavam para a sociedade como seres desprezíveis e como mendigos. Por isso, não iam a escolas e viviam jogados nas ruas. Essa conduta social os predestinava profissionalmente a se especializarem em mendicância. Em alguns países da Europa e da Ásia, eles eram expulsos de casa quando meninos, pois as pessoas acreditavam que os cegos eram tidos como seres malditos. Eram então explorados ou alugados pelos próprios parentes ou pessoas interessadas em “arrumar um emprego para eles” (Kugelmass 1955:22).
Na maioria das vezes o cego era vendido a uma fábrica, onde por toda a vida padejava carvão e dormia no chão ou então amontoavam pilhas de esterco para os que negociavam esta mercadoria (Kugelmass 1955:22).
Sobre a condição humana e social dos cegos no séc. XVIII podemos salientar o menosprezo e a negação da sociedade para com eles.(Kugelmass 1955:22). Não podiam prestar serviços remunerados e se sustentavam da própria desgraça. Podemos destacar algumas situações que comprovam esta afirmativa: como deficientes visuais que pertenciam as companhias de circo e viraram palhaços (fazendo os outros rirem da sua própria infelicidade). As pessoas ditas videntes se arrogavam superiores porque foram culturalmente preparados a encararem a cegueira como invalidez e como algo que devesse ser esquecido na sociedade.

Paris no século XIX possuía mais cegos do que em qualquer outra época. Isso, devido às guerras napoleônicas. O governo dava uma remuneração para o contingente que ficara cego na guerra, mas nada fazia com relação aos outros tipos de cegueira. Não se sabe bem o porque desta situação, mas os cegos portadores de doenças congênitas ou adquiridas, arrumavam quando as oportunidades apareciam, atividades que dependiam de outros sentidos e não da visão. A música, por exemplo, era uma delas.

A situação descrita abaixo mostra bem, qual era a real condição das pessoas cegas da época e nos mostra que a cegueira só sevia para o divertimento do público. O respeito aos cegos era inexistente.

Cegos de chapéus pontudos compunham a “orquestra muda”. O maestro agitava no ar um pedaço de cabo de vassoura diante de uma folha de música e os cegos estufavam as bochechas ou fingiam tocar com instrumentos de pedaços de pau, e em violinos sem cordas. “Quando o maestro batia nos músicos, as pessoas atiravam moedas e todos riam” (Kugelmass, 1955:22).

A vida escolar de Louis Braille

Braille almejava caminhos mais significativos para os cegos e por isso, pediu aos pais que o colocasse em uma instituição para cegos em Paris. Essa instituição já havia sido cogitada pelo advogado, amigo da família, que na época do acidente, ajudou Louis Braille levando-o a um médico em Paris. No entanto, o contato efetivo com a instituição só foi atendido, quando Braille completou 10 anos de idade.

Em 1784 foi fundado o “Institut Nationale dês Jeunes Avengles” que pertencia ao senhor Valentin Houi.

Valentin tinha assistido na feira dos Bálcãs, uma apresentação da orquestra muda de cegos e chegou à conclusão de que os cegos possuíam uma grande sensibilidade nos dedos e eram sensíveis à música. Seu intuito era provar que havia uma chance de reintegração na sociedade. Sendo assim, criou o “Institut Nationale dês Jeunes Avengles” Instituto Nacional para menores cegos. A matrícula e a pensão8 eram gratuitas para aquelas pessoas que não tinham condições de pagar e para aqueles que os pais tinham boas condições financeiras, lhes custavam 75 francos.

No Instituto Nacional para Cegos as salas de aula eram em forma de anfiteatro, em fileiras circulares, cada carteira mais alta que a outra e o podium para o professor, ficava no centro em baixo (Kugelmass 1955:22).

O professor dentro da pedagogia militar da educação na época, era quase como um Deus. Batia as mãos e logo vinham dois serventes com enormes livros escritos em relevo. Esses livros foram confeccionados pelo Sr. Haui com o intuito de facilitar a educação para os cegos. Como educador, Haui queria mostrar aos cegos, que eles poderiam ler, se quisessem.

As aulas eram ministradas da seguinte forma: primeiro era estudado o alfabeto, (Figura 1). Em seguida, o professor encaminhava os cegos para as atividades escolares em grupos.
F
igura 1
: Alfabeto Moon

O Institut Nacionale dês Jeunes Avengles era diferente das demais escolas da época devido ao fato de ser a primeira escola destinada para o ensino dos cegos. Por isso mesmo, faltavam profissionais especializados para o trabalho de educador nesta instituição.

Valentin contratou vários enfermeiros acostumados a cuidar de pessoas com doenças mentais, para cuidar dos cegos. Este fato colaborou para o fracasso do programa, pois os maus tratos eram freqüentes e os objetos dos cegos eram roubados constantemente. Valentin num ato de heroísmo demitiu todos os enfermeiros e resolveu cuidar sozinho dos cegos.

O trabalho pioneiro de Haui constatou que a facilidade dos cegos para a questão gestual e de tato era muito grande. Neste sentido, a possibilidade de aproveitamento desta facilidade para o ensino da música foi perfeita. Assim fez e à partir deste momento, criou instrumentos adequados ao ensino do cego, valorizou as diferenças individuais e substituiu as tarefas individuais já nesta época, pela educação coletiva.

Utilizando o tato, Haui fabricou as 26 letras do alfabeto, com varetas trabalhadas de mais ou menos 15cm de comprimento (Figura 2). Pendurou-as numa armação e assim era possível que os cegos tateassem as letras do alfabeto.

Figura 2: alfabeto de Valentin Hauy

Como surgiu a idéia da leitura em relevo?

A idéia de impressão em relevo surgiu quando Haui conversava com o dono e com o porteiro cego da escola. Ao tatear uma correspondência endereçada ao diretor, o porteiro perguntou por que não se faziam livros para que os cegos tateassem. Passados 2 anos, a biblioteca da escola já possuía 3 livros divididos em 20 capítulos.

O ensino da leitura para os alunos consistia em fazer com que repetissem as explicações dos textos ouvidos. Alguns livros escritos no sistema de Valentin Haui permitiam a leitura suplementar, ou seja, a leitura tátil em relevo. Apesar de em pequeno número, esses livros eram os únicos existentes. Prevalecia unicamente a escrita linear9 correspondente à primeira das tendências de se criar uma leitura para cegos.

Simultaneamente, em vários locais da Europa, diversas organizações para o ensino de cegos proliferaram. Algumas com mais, outras com menos êxito. Quanto ao aspecto do ensino da música, podemos observar que o trabalho educacional também era feito através da repetição.
Louis Braille era um ótimo estudante e dedicou-se profundamente aos estudos.

Gostava de música clássica e como os professores do Conservatório vinham dar aulas gratuitas na Instituição, dedicou-se ao estudo que consistia em ouvir e repetir o que era ouvido. As condições não eram ideais, mas Braille tornou-se um excelente pianista e mais tarde um talentoso organista da igreja de Notre Dame des Champs (Henry,1952:13) Segundo Bourdieu (1998:63).



A vida Musical de Louis Braille

Braille foi levado à casa de Teresa Von Paradis, uma senhora cega e excelente pianista. Recebeu vários conselhos de Teresa com relação à carreira musical e Teresa conseguiu entusiasmá-lo bastante para a música. Dias após o encontro, Braille foi conduzido até a igreja de Santa Ana (Paris) para ser aluno do organista Raul Delacorte, que fez vários questionamentos ao senhor Haui (dono do Instituto onde Braille estudava) “Como poderia ensinar música a um cego? Como o cego poderia ler as notas e entender a teoria musical? Do que adiantaria a música para um cego?”.

Haui pediu ao organista que pelo menos tentasse durante um mês, e o organista meio confuso, resolveu tentar começando pela apresentação do instrumento órgão de tubos á Braille. Em seguida, o professor tocou alguns acordes e pediu que o menino os repetisse. O menino conseguiu repetir na íntegra, todos os acordes executados. Isso foi uma surpresa para Raul Delacorte. Braille se dedicava cada dia mais ao estudo do instrumento e por longos anos de sua vida, estudou música até profissionalizar-se.

Quando foi convidado a ser organista da igreja de Santa Ana, Braille tinha apenas 14 anos e passava por problemas pessoais sérios devido a morte de seu pai e também devido a morte de seu grande amigo Haui. Para Braille a música aliviava seus temores, ajudava nos sentimentos e ainda profissionalmente, servia para ganhar dinheiro. Ele investia seu salário na compra de bustos de compositores e custeava também o estudo de outros dois estudantes cegos.

A vida de Braille aos 16 anos de idades já era cheia de responsabilidades. Além de organista da igreja, trabalhava tocando na noite. Também assumira algumas responsabilidades delegadas pelo novo diretor Leopod Erhardt dentro do Instituto.

Braille começou a freqüentar os bares e café Parisiense. Em uma de suas noitadas, conhecera uma moça que lhe ajudou por muito tempo. Denise se transformou nos olhos de Braille. Ela levava-o aos bailes, restaurantes e assim, socialmente, ia alargando seu ciclo de amizade e o convívio social. Como agradecimento a toda essa ajuda, Braille deu de presente a moça, um violoncelo. Já que a mesma, no entanto não demonstrou nenhum interesse musical, Braille se viu curioso e interessado nos instrumentos de cordas.

No ano de 1834, Braille encontrava-se profissionalmente em sua melhor fase. Aos 25 anos deu um concerto em Paris onde foi aclamado como um dos maiores músicos da Europa. Escreveu muitas composições que foram registradas pelos os amigos no papel (partitura em tinta). Dava aulas sobre o sistema Braille e de música no Instituto e sua rotina de trabalho era de sete à oito horas, ministrando aulas. Ele ainda destinava horários de estudo destinados ao piano, para as apresentações de recitais.

Braille terminou sua vida organizando recitais, musicais e encontros literários10 para a sociedade burguesa do país.

A Sensibilidade musical de Braille

Pelo ouvido é que os cegos hão de encontrar o caminho da libertação (Kugelmass,1955:28).


Com relação à sensibilidade dos cegos para a música, Braille falava que “a sensibilidade, o sentido cromático e a aguçada audição, eram natos nos cegos...” (KUGELMASS,1955:28).

Devido ao fato dos cegos compensarem o sentido da visão ausente a outros órgãos, principalmente o tato e a audição eram muito desenvolvidos.

Braille cobrava dos governantes a falta da Educação Musical para cegos. Essa sua visão política, até hoje não foi divulgada no Brasil.

Em um dos seus serões musicais, ele proferiu a idéia de que “deveria ter sido reservado aos cegos a missão de criar música para o mundo”. Ele reuniu mais de 100 cegos para propor soluções com música para a vida deles. “Queiram me ajudar com firmeza e em 1 ano, talvez menos, em 6 meses, muitos dos senhores serão pessoas valiosas e cheias de dignidade. A música me parece um ótimo meio de transformá-los”.

Braille, apesar de cego teve muita visão.

O Sistema Braille - Alfabeto Romano

O Braille é um sistema de leitura e de escrita tátil desenvolvido para cegos (Tomé). O Sistema Braille é constituído por seis pontos, dispostos em duas colunas de três pontos. Os seis pontos são chamados de "Cela Braille". Para facilitar a sua identificação, os pontos são numerados da seguinte forma: do alto para baixo, coluna da esquerda: pontos 1 - 2 - 3 do alto para baixo, coluna da direita: pontos 4 - 5 - 6.
Figura 3 Figura 4


A “cela Braille” permite 64 combinações (incluindo a cela vazia (Figura 3)) ou símbolos Braille em células preenchidas (Figura 4).

Obs: As dez primeiras letras do alfabeto (A a J) são combinações possíveis dos quatro pontos superiores (1 -2 e 4 - 5).



Figura 5

Da letra K a letra T, acrescenta-se o ponto 3 que se apresenta somando os pontos anteriores (que formam a 2ª linha de sinais).



Figura 6

A 3ª linha é formada pelo acréscimo dos pontos 3 e 6 às outras combinações da 1° linha.



Figura 7



Algarismos

Para designar os números, são utilizados a primeira linha (A a J) (Figura 5) que compreende os números de (1-0) precedidos pelo sinal de número, formado pelos pontos 3 - 4 - 5 - 6.



Figura 8



Pontuação

Os sinais de Pontuação correspondem aos 10 sinais da primeira linha a partir dos pontos 2 - 3 - 5 - 6.



Figura 9

Obs: Os vinte e sete sinais restantes são destinados às necessidades específicas de cada língua (letras acentuadas e abreviaturas).



Figura 10

Doze anos após a invenção desse sistema, Louis Braille acrescentou a letra "W" ao 10º sinal da 4ª linha (Figura 10) para atender às necessidades da língua inglesa. (Kugelmass,1955:28).

O Sistema Braille é empregado por extenso, isto é, escrevendo a palavra letra por letra ou de forma abreviada, adotando códigos especiais de abreviaturas para cada língua ou grupo lingüísticos.

O Sistema Braille aplica-se à estenografia11, à música e as notações científicas em geral, através do aproveitamento das 64 combinações em códigos especiais. Abrange todas as línguas e escritas da Europa, Ásia e África e ainda os símbolos atemáticos, químicos e musicográficos. Tem como vantagem o fato das pessoas cegas poderem facilmente escrever por esse sistema, com o auxílio da reglete12, computador, maquina perkis13 e outros.


As letras são pontos salientes; a leitura, suave carícia, na meticulosa satisfação da intimidade táctil. Para não haver solução de continuidade, quando o indicador da mão direita chega ao fim da linha, o da esquerda já decifrou os primeiros sinais subseqüentes. Chegam a ler cento e trinta palavras por minuto, como na leitura visual corrente.Os nascidos sem ver a luz, aliás em menor número, nutrem a sensibilidade estética de sensações requeridas pelas metáforas (MATA MACHADO, 1931:14).

O sistema Braille possibilita que o cego aprenda diferentes profissões e diferentes caminhos."O livro: “Dá vista aos cegos”, (escrito pelo Sistema Braille"), escreveu Eduardo Frieiro, possibilita uma forma criativa de se trabalhar a imaginação de quem não enxerga.


Os cegos de profissões intelectuais, naturalmente em minoria como entre os que enxergam, educam a atenção para se aproveitarem da leitura mediante olhos de outros, e da voz que o gravador pode conservar para mais fácil repetição. Com isso, têm acesso a todo e qualquer livro publicado. Caso sejam escritores ou professores, podem ombrear com os companheiros das letras e do magistério. As dificuldades tratam de enfrentá-las, sem esmorecimento, nem ilusões quanto às limitações inevitáveis (KUGELMASS,1955:28).

Os cegos e os demais portadores de necessidades especiais, anseiam por esta vontade de estar lado a lado com as outras pessoas (ditas normais). A criação do sistema Braille e até de instrumento que facilitam a vida do cego na comunicação a ter uma autonomia, apesar das limitações é o que faz com que nós educadores, busquemos uma forma de inseri-los na sociedade sem que haja uma exclusão da parte educacional.


Historia dos cegos no Brasil.

Na historia da educação dos cegos, o nome de José Álvares de Azevedo é citado como o pioneiro. Missionário e idealista da Educação dos Cegos no Brasil, foi considerado o “Patrono da Educação dos Cegos no Brasil”. Ele foi o primeiro cego a exercer, particularmente, na cidade do Rio de Janeiro, a função de professor para cegos. Após ter tido a oportunidade de ser educado em uma escola para cegos na França, José de Azevedo trouxe para o Brasil e para a América Latina, o método Braille e foi o idealizador da primeira escola destinada a cegos, tendo por modelo a instituição onde havia estudado na França.

A escola na qual José Álvares de Azevedo estudou, foi à mesma que a de Louis Braille. Na época, Braille estava na fase de experimentação do seu método na escola. Sendo assim, José Álvares vivenciou todo o processo de leitura e de escrita desenvolvida por Braille, e ao mesmo tempo, José Álvares estudou também o método tradicional aplicado pela escola, que era o sistema de caracteres comuns em relevo, de autoria de Valentin Haui (Fundador da instituição “Instituto Real de Jovens Cegos de Paris”).

José Álvares foi um excelente aluno e possuía uma boa formação cultural e intelectual. Ao retornar ao Brasil, veio com um propósito: o de difundir o Sistema Braille pelo país e criar uma escola para cegos, parecida com a escola que havia estudado na França. Sendo assim, passou a fazer palestras com intuito de difundir o Sistema Braille e mostrar que era possível um cego ler e escrever.

Escreveu e publicou sobre as possibilidades das pessoas cegas e citou suas próprias experiências. Foi o primeiro a apresentar aos brasileiros, o Sistema Braille. Como professor, deu oportunidade a várias pessoas cegas de aprenderem a ler e a escrever. Teve como aluna uma das filhas do Dr. Xavier Sigaud14.

Foi por meio do Dr. Xavier Sigaud e do Barão do Rio Bonito que o jovem cego Álvares de Azevedo conseguiu ter uma entrevista com o Imperador do Brasil, D. Pedro II. Neste encontro, fez uma demonstração de como uma pessoa cega podia escrever e ler corretamente pelo Sistema Braille.

O Imperador D. Pedro II vivamente interessado e sensibilizado com tal demonstração proferiu a célebre frase histórica: “A cegueira já quase não é uma desgraça”.

Esta frase justifica as informações transportadas das sociedades européias para o Brasil. Toda situação comentada no capítulo: “A real condição social dos portadores de necessidades especiais”, é no Brasil reproduzida.

Na mesma ocasião do encontro com o Imperador, José Álvares de Azevedo apresentou uma proposta para a criação de uma escola para cegos, semelhante à escola de Paris. Com a devida autorização do Imperador, foi iniciada o processo para a criação dessa escola e José Álvares de Azevedo participou intensamente de todas as providências iniciais e decisivas que resultaram na fundação do “Imperial Instituto dos Meninos Cegos”, inaugurado em correu no dia 17 de setembro de 1854.

O idealizador não esteve presente na inauguração do Instituto devido a uma tuberculose que o levou a morte. Seu sonho no entanto foi realizado.

Os últimos anos da vida de José Álvares de Azevedo foram dedicados também, aos estudos para aprofundamento de sua cultura. Em poucos anos, aumentou seus conhecimentos e dedicou-se a pesquisas. Valendo-se dos ledores (pessoas que lêem para pessoas cegas), consultou manuscritos da Biblioteca Nacional para o domínio do conhecimento de fatos da História do Brasil e assim, documentou e escreveu sobre a vida dos cegos. Desses seus estudos e pesquisas, deixou alguns trabalhos escritos conforme referência do Dr. Xavier Sigaud, em seu discurso na inauguração do “Imperial Instituto dos Meninos Cegos”, hoje, Instituto Benjamin Constant situado no Rio de Janeiro. O instituto realizava a função de promover a socialização, a educação e a reabilitação de pessoas cegas. Foi o primeiro passo importantíssimo para que o nosso país prestasse mais atenção aos seus cegos.

O Brasil foi o primeiro país a adotar oficialmente o sistema Braille (Tomé, Dolores 2003). Inventado por Louis Braille, o sistema leva seu nome.

A educação de cegos no Brasil começou no ano de 1854 no Rio de Janeiro com a criação do instituto que se localizava na Avenida Pasteur, 350/368 no bairro da Urca. A escola especializada foi inaugurada e aprovada por Dom Pedro II que batizou de Instituto Imperial dos Meninos Cegos (atualmente Instituto Benjamin Constant-IBC).

Esta foi à primeira escola para cegos administrada pelo governo estadual e a primeira a oferecer não somente a instrução básica, como também o ensino musical e técnico. Possibilitou oportunidades de emprego para os cegos e serviu de modelo para o Instituto São Rafael em Belo Horizonte, Minas Gerais, inaugurado em dois de setembro de 1926.

Segundo Couto e Silva de Oliveira (1995:2), o trabalho realizado pelo Instituto São Rafael assumiu proporções enormes de repercussão, justamente pelos benefícios que a formação musical oferecida pela escola causou na vida de um grupo de alunos, músicos formados, que se instruíram na pedagógica da musicografia Braille. Todos os alunos leigos que tiveram oportunidade de estar em contato com a música, na maior parte das vezes, acabavam efetivamente por se profissionalizar.

O Instituto São Rafael funcionava em regime de internato e semi-internato e oferecia diversos cursos profissionalizantes. A música dentro do instituto, possibilitava aos alunos a participarem de outras áreas, tais como a marcenaria, bordados...(trabalhos manuais).

Ainda segundo a pesquisa de Couto e Silva de Oliveira:
Dizendo de outra forma, a música, arte essencialmente ligada ao sentido da audição, viabilizava aos estudantes, além de fugirem ao espaço normatizado da instituição, serem reconhecidos como pessoas competentes e de certa maneira, no exercício dessa profissão, pouco importava que eles fossem cegos. Entretanto, há que se dizer que, conforme os resultados desta pesquisa, embora meninas e meninos tivessem igual liberdade para adquirir a formação musical, e o faziam igualmente, eram quase somente esses últimos, que de fato acabaram por se profissionalizar e freqüentar os ambientes musicais das cidades pelas quais passaram (Os Signos de Deleuze nos Relatos de Vida de Músicos Cegos,1995:3).
Os alunos após adquirirem certo aperfeiçoamento teórico e técnico, abandonavam a posição erudita conservatorial ensinado pela escola musical, e freqüentavam alguns lugares da cidade, onde o foco principal era a música popular. Foi justamente nesses lugares, que os estudantes cegos completaram sua formação musical.

A importância da música na formação do cego tem um papel bastante significativo, pois além de romper barreiras (na questão teórica e prática), derruba o preconceito, gerado da segregação social que confunde deficiência com a capacidade de criar e de viver.


1   2   3   4   5   6


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal