Sabrynne sampaio de sena


Capítulo 2 Educação Musical e deficiência Visual



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Capítulo 2

Educação Musical e deficiência Visual


O objetivo especifico da educação musical é musicalizar, ou seja, tornar um indivíduo sensível e receptivo ao fenômeno sonoro, promovendo nele, ao mesmo tempo, respostas de índole musical”
(HEMSEY DE GAYNZA, Violeta Estudos de psicopedagogia musical).
Deficiência Visual e Educação Musical

“A educação musical dá uma enorme contribuição significativa e sistemática no desenvolvimento humano. Uma de suas principais tarefas consiste em estudar para chegar a influenciar positivamente a conduta do homem em relação ao som e a música...”. (Gaynza).

A musicalização de pessoas com deficiência visual, principalmente no que diz respeito às outras deficiências (mental e múltipla) principalmente, só é vista como possibilidade para a reabilitação. “Muitos acreditam que a música para pessoas com deficiências, deva ser direcionada somente com o objetivo de reabilitar”(Louro, Viviane). Muitas escolas de ensino regular deixam de matricular o aluno portador de necessidades especiais por não saber preparar os conteúdos e até mesmo por não saber como arcar com as responsabilidades de cuidar dessas pessoas. Da mesma forma, esta situação também se apresenta nas escolas específicas de música.

Como julgar o que um deficiente é capaz de realizar sem nem ao menos conhecê-lo? Como dizer que ele não está apto para executar determinadas atividades musicais sem lhe proporcionar o contato com elas?

Surgem então os questionamentos: será que o educador musical terá que ser musicoterapeuta também, para ter em sua sala de aula de musicalização, um aluno cego?

Viviane Louro diz que “a Educação musical não distingue o sujeito que se educa, mas os recursos e as formas que esse conhecimento é transmitido ao aluno. Nenhum aluno é igual ao outro são todos diferentes” (2006:p).

Baseado nisto, o que dizer de um dos músicos mais brilhantes do séc. XX Ray Charles15. Uma canção composta por Tunai, homenageia vários músicos cegos, inclusive o Ray.
Olhos do Coração

Tunai

Composição: Tunai/Sérgio Natureza

Que coisa forte bonita

Que vida, que pulsação

Quem ouve, sente, acredita

Nos olhos do coração.

Rei Negro chamado Charles

Reinando em tantas canções venha

Stevie maravilhando

O mundo com outra visão são...

Eles...


Som que vai longe

Eles...


Sempre com a gente

São eles


Brilho na escuridão

Luz que não se apaga nunca,

Iluminação.

José que traz Porto Rico

No sangue voz e violão yeah

Feliciano lamento

Trazendo dentro um vulcão. São...

Eles...


Quanto a metodologia e as técnicas utilizadas para ensinar os cegos, serão as mesmas aplicadas a pessoas que enxergam, só precisa se feito algumas adaptações.

A diferença observada no âmbito da leitura de partituras, é que os cegos necessitam fazer a leitura em Braille. Decorar a partitura e depois executá-la é também a tarefa que todo músico realiza inclusive os cegos, pois essa é a sua única forma de conhecê-la. Alguns músicos têm mais dificuldades nesta tarefa. Mas isso não é um grande problema ou um grande esforço de concentração, ao contrário do que os leigos pensam. Para que a concentração e a audição sejam trabalhados fortemente, alguns músicos fecham os olhos. Esta é umas das técnicas utilizadas para ter segurança da música e para ouvi-la melhor, enquanto se executa. Como “vêem”, os olhos não são nenhum problema para os cegos tornarem-se músicos.

A música sempre foi levada a sério “em praticamente todas as instituições educacionais para cegos do mundo”(OLIVEIRA, Flávio. FUNARTE, cadernos de textos 4).

A utilização da música na educação de crianças cegas e as primeiras experiências na educação formal, não foi por acaso:


“A partir do século XVIII a pedagogia passou a se preocupar intensamente com o aprimoramento dos sentidos como forma de se educar física, moral, estética e intelectualmente as crianças, produzindo no futuro, adultos mais livres e autônomos com elevado grau de sensibilidade e razão” (OLIVEIRA, Flávio. FUNARTE, cadernos de textos 4).
Sendo assim, a educação musical de cegos tinha uma importante tarefa na pedagogia, e talvez por isso, tenha se alastrado pela Europa, pelos EUA, e pelo Brasil, em meados do séc. XX.

Paradigmas da educação especial

Nos últimos anos, a proposta educacional voltada para pessoas com necessidades educacionais especiais, obteve um crescimento de forma significativa na sociedade vigente. Vejamos porque:

No ano de 1950, a abordagem com relação à qualquer tipo de deficiência, era voltada para o Paradigma de Institucionalização, tendo como ponto chave à segregação de pessoas com deficiência, mantidas dentro das residências ou escolas especiais, longe de suas famílias. Na década de 60, o Paradigma das Instituições esteve sendo refletindo e criticado sobre a necessidade de se discutir temas educacionais relevantes e significativos como: sexo, sistema político e seus efeitos em relação à sociedade (LOURO, 2006).

A declaração Universal dos Direitos Humanos, outorgados pela Organização das Nações Unidas-ONU em 1948, afirma que “A liberdade e a igualdade de todos os seres humanos em dignidade e direitos, independente de sua raça, cor, sexo, língua e outras características, bem como o direito a educação gratuita é assegurado a todos” (LOURO, 2006).

O surgimento de mais conceitos e questionamentos com relação a proposta educacional voltada para a pessoa portadoras de necessidades especiais surge o conceito da palavra INTEGRAÇÃO, no sentido de tentar proporcionar uma efetiva participação dos deficientes na sociedade.

A palavra integração surgiu como referência a necessidade de modificar a situação social das pessoas portadoras de necessidades especiais, de modo a torná-lo o mais apto possível de estar participando das atividades cotidianas e corriqueiras como as das demais pessoas. A partir daí, a integração profissional na sociedade ficaria mais fácil.

Baseado na palavra Integração, foi criado um novo modelo chamado de Paradigma de Serviços, que visa a modificação do sujeito portador de necessidades especiais, tornando-o mais “normal” através da assistência educacional e social.

Partindo do pressuposto que uma pessoa com necessidades especiais é um cidadão, independente de suas limitações, tendo os mesmos direitos que qualquer cidadão, o Ministério da Educação (2002) define: Cada pessoa é única, com características físicas, mentais, sensoriais, afetivas e cognitivas diferenciadas. Portanto, há necessidade de se respeitar e valorizar a diversidade e a singularidade de cada ser humano [...]

Baseado nessa citação surge o Paradigma de Suporte, que afirma que a pessoa com qualquer deficiência tem direito a convivência não segregada e ao acesso imediato e contínuo disponível aos demais cidadãos (LOURO, 2006).

Só determinar o paradigma não resolve o problema da segregação. A adotar medidas realmente significativas neste campo se faz urgente. É necessária uma movimentação social e econômica, no intuito de provocar uma mudança de compreensão e de atitudes perante os portadores de necessidades especiais. É necessário que a sociedade tenha uma consciência aberta à inclusão.

Sendo assim, a música, objeto de estudo dessa pesquisa e sua relação com deficiência visual, utiliza-se da Musicografia Braille como instrumento de integração de facilitador para o desempenho das funções musicais dos cegos.


O Ensino da música e a inclusão de alunos com necessidades especiais.

Segundo Birkendhaw- Fleming “quanto mais se tem informação sobre o aluno, maior é a segurança do professor para adequar suas propostas de ensino e promover o desenvolvimento dos alunos, conhecendo as dificuldades e limitações de cada um”.

Concordamos que a proposta educacional possui uma adequação muito melhor quando se conhece o público do qual está se dirigindo. O conhecimento prévio de cada aluno é importante até mesmo para saber que tipo de atividade pode ser aplicado a ele, respeitando suas limitações, aproveitando e valorizando seus conhecimentos prévios. Podemos destacar os seguintes pontos relevantes para o educador que trabalhará com cegos:


  • Conversar com as pessoas que participam do convívio com os alunos tais como: os pais, professores, coordenadores, diretores e profissionais que trabalham na escola (merendeira serviços gerais, secretária que de alguma forma tenha contato com esta criança) e saber como eles vivenciam a deficiência. Como podem ajudá-lo a sentir-se como parte de um processo educativo global.

  • Evitar: Conceitos pré-fixados (Portador de Necessidades Especiais, cadeirante, aluno de inclusão, ceguinho, surdo-mudo e mudinho, mongol...) para alunos com N.E. (Necessidades especiais).

  • Evitar: Excesso de proteção (permitir que um cego se alimente sozinho, não colocar comida na boca deles, etc...).

  • Perceber as potencialidades de cada um de forma a valorizá-las.

  • O professor tem que se manter encorajado para dar forças ao aluno a vencer suas barreiras e dificuldades. Isso não acontece somente para os alunos do Ensino Especial, mas deve acontecer com todo e qualquer aluno.

Conselhos para educadores musicais trabalharem com os cegos segundo Fleming



  • Quando o professor faz com que os alunos executem atividades com sucesso ele reforça a auto-estima. O aluno respeita suas limitações e possibilidades, mas acredita ser capaz de melhorá-las.

  • A interação: através da música isto é possível, partindo do pressuposto de se ter um programa de Educação Musical bem estruturado. É possível um desenvolvimento significativo intelectual, cognitivo, perceptivo e qualitativo para o aluno com necessidades especiais.

  • O ambiente: deve ser aconchegante, seguro e motivador. No caso dos cegos, materiais que atrapalhem a locomoção, móveis que perfurem ou machuquem devem ser eliminados. Situar o aluno cego com o ambiente, com os objetos e com as pessoas que se encontram dentro do recinto. Na sala de música, descrever para o aluno cego como é o material utilizado na aula, dar o instrumento para manuseá-lo, sentir o peso e ensinar os cuidados que devem ser tomados para não deixar que o instrumento o machuque e nem quebre.

  • A rotina processual e metodológica deve propiciar a segurança.

  • Os Movimentos corporais: aliviam tensões, auxiliam o corpo na assimilação de conceitos e ajudam a melhorar os contatos sociais. (Danças, jogos, movimentos e expressões corporais).

Alvin, no livro Música para el niño disminuido, diz que a música pode representar para o aluno N.E. um mundo não ameaçador com o qual se comunique, se interage e se auto identifique.

Um mundo se torna ameaçador para uma criança com necessidades especiais dependendo de como seus familiares os auxiliam para sentirem-se seguros em enfrentar as dificuldades.

Os professores também tem um papel importante nesse sentido pois a falta de acessibilidade e de materiais didático que auxilie o ensino, são alguns dos vários problemas sérios enfrentados pelos que trabalham com portadores de necessidades especiais. Não vamos falar de um mundo seguro e justo onde o cego não bata a cabeça em telefones públicos, ou onde o deficiente físico consiga trafegar nos ambientes públicos e avenidas adaptadas com rampas para cadeiras de rodas e tantas outras situações almejadas, mas ainda pouco presentes em nossa sociedade. As leis existem e deveriam ser cumpridas, mas no nosso país, esta não é a realidade.

As pessoas com Necessidades Especiais são sim pessoas “diferentes”, mas podem conviver com a deficiência de maneira natural e fazer das diferenças um aprendizado. Os portadores de necessidades especiais sabem das dificuldades, das limitações e por isso mesmo só fariam as atividades que lhes promovessem segurança. A educação deve adaptar essas pessoas ao convívio com a sociedade, sem menosprezar suas potencialidades, dando possibilidades de desenvolver suas habilidades.

As aulas de música, aulas de mobilidade, de bengala, de sensibilidade, de como se sentar a mesa para fazer as refeições, aulas de Braille (linguagem de escrita para deficientes visuais) e outras aulas, é uma forma de fazer com que os cegos não se sintam excluídos da sociedade. Educá-los para serem capazes de pegar um ônibus sozinho, de ler um livro em Braille, jogar futebol e outras atividades é dever de todos nós educadores. É lógico que com materiais adaptados para as atividades, isso seria melhor e mais eficiente.

Com relação à música, o cego deve participar das aulas de musicografia Braille, onde terá a oportunidade de ler uma partitura em Braille, utilizando os sinais musicográficos em Braille da mesma forma que o colega de classe que enxerga, lê sua música.

As adaptações são necessárias para fazer com que a inclusão exista e aconteça, fazendo a diferença na vida desses alunos com necessidades especiais e na vida de todos nós, educadores e cidadãos.





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