Salazar e o fascismo 1 Carlos Veloso



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Salazar e o fascismo 1

Carlos Veloso
O “historiador” José Hermano Saraiva juntou, recentemente, ao seu especial talento para reescrever a História recente de Portugal, a veia humorística… Isso aconteceu quando pôs todo o País a rir-se, ao declarar, no programa televisivo de Herman José, que “Salazar foi um antifascista”!!! Tratando-se de um programa com forte componente cómica, cabe-lhe a palma de ter conseguido bater o famoso actor no seu próprio terreno…

No entanto, passado o acesso de riso, muitos cidadãos ficaram a pensar que este senhor, antigo ministro da educação do “Estado Novo”, já não perde uma oportunidade de fazer o branqueamento do regime com que colaborou e de que foi um dos mais odiosos serventuários. A sua actuação na crise académica de 1969 ficou gravada na memória dos estudantes portugueses, especialmente nos que, em Coimbra, foram reprimidos com a prisão, com as mais violentas cargas policiais de que há memória durante a “primavera marcelista” e, em muitos casos com a incorporação antecipada no serviço militar, como aconteceu com tantos e tantos dirigentes estudantis. Aquilo a que o regime chamava “servir a Pátria” era, afinal, um castigo para os cidadãos recalcitrantes… A prova disso era o facto de serem mobilizados para as “Províncias Ultramarinas” — para a guerra, portanto —, em primeiro lugar os cadetes do Serviço Militar obrigatório que haviam obtido as classificações mais baixas nas respectivas recrutas, ficando os mais bem classificados colocados no Continente…

Como é sabido, Hermano Saraiva nega a pés juntos o envio de polícia de choque para Coimbra, em 1969, contra-acusando os estudantes de então de se estarem a autopromover como “heróis”… O nosso povo chama a isto “mandar poeira para os olhos”, e não sei que credibilidade é que pode ainda merecer um indivíduo, ainda por cima “historiador”, que nega os factos testemunhados por milhares de cidadãos, comprovados por centenas de fotografias entre as milhares que foram confiscados pelas “autoridades”, denunciados em inúmeros comunicados associativos e noticiados no estrangeiro, já que em Portugal tais notícias só podiam passar nas entrelinhas das páginas censuradas dos jornais! Aliás, o próprio ministro se encarregou, num comunicado ao País transmitido pela RTP, de tentar intimidar os estudantes com torvas ameaças de repressão, logo nos dias seguintes concretizadas com a maior selvajaria…

Tal como aquando destas chocantes tentativas para “corrigir” a História recente do nosso País, também durante o programa humorístico citado e nos dias seguintes, diversas pessoas reagiram e decerto continuarão a reagir a tanta mistificação de factos que ainda estão bem frescos na memória de boa parte da população. Relativamente às suas mentiras sobre a crise académica de 1969 e a negação das célebres cargas policiais de que eu próprio fui vítima, desafiei-o, nas páginas do “Expresso”, a processar-me em tribunal, por difamação… até hoje!

José Hermano Saraiva, bem demonstrou, durante o tempo das suas funções ministeriais, a total falta de seriedade e interesse pelos assuntos estudantis, como se pode comprovar na “entrevista” que concedeu à Comissão Pró Eleições para a Associação Académica de Coimbra, em 1968, como relata Celso Cruzeiro — então dirigente estudantil —, no seu livro Coimbra, 1969: “De uma vez, na altura da luta por eleições, em audiência concedida à CPE, começou a falar em catadupa de coisas prosaicas e sem qualquer relação com o motivo da audiência. Enquanto falava, oferecia bebidas para ocupar a Comissão cujos membros, um a um, em vão o tentavam interromper para lhe colocarem os problemas em agenda. Mas tal era impossível, o ministro não deixava. Até que, quando um de nós se encontrava no uso da palavra, apareceu, pressuroso, um dos seus secretários clamando preocupadíssimo que o Sr. Ministro se esquecera não sei de que reunião que àquela hora já começara. Então o ministro, pondo a mão na testa, actuando em pleno palco, fingiu-se espantado, com exclamação pretensamente convincente, de como se pudera esquecer de coisa tão importante. E lá partiu de rompante, acolitado pela secretário e pedindo mil desculpas, despedindo-se à pressa e marcando a discussão dos assuntos para outra reunião!”. Só alguns meses depois, ao receber uma delegação da entretanto eleita Direcção da AAC, durante um almoço na pousada de Azeitão — único momento e local que conseguiu disponibilizar para esse fim… —, os dirigentes estudantis lograram, finalmente, fazer-se ouvir pelo ministro que, “dessa vez com a boca tapada se viu obrigado então a abrir os ouvidos”… Caricatura e antítese do verdadeiro Historiador, Democrata e homem de Cultura que foi o seu irmão António José Saraiva, bem podia ter vergonha do triste papel a que se presta em defesa do ditador que governou Portugal como se da sua quintinha se tratasse, confundindo os seres humanos com gado e enfiando a cabeça na areia quando lhe convinha ignorar os verdadeiros problemas do País.

Sobre a natureza “antifascista” de Salazar muito haveria a dizer, e disseram-no e escreveram-no já, cristalinamente, muitos verdadeiros antifascistas… Mesmo assim, agarrados a pormenores “técnicos” que distinguiriam o salazarismo do regime fascista italiano de Mussolini, alguns dos “democratas” que, em 1974, brotaram do chão como cogumelos, tentaram criar “escola” que defendesse essas “diferenças”…

Num pequeno livro publicado entre nós há menos de um ano, Cinco Escritos Morais, o ensaísta e romancista italiano Umberto Eco, num pequeno mas brilhante texto intitulado “O Fascismo Eterno”, indica com rigor científico os pontos comuns a uma série de ditaduras estabelecidas na Europa a partir dos Anos Vinte, incluindo a Itália, Portugal, Alemanha, Espanha e vários países dos Balcãs, demonstrando que, entre as características basicamente fascistas que identificou nessa época, estas, na sua maioria, mesmo “desencontradas”, aplicam-se como uma luva a todas as referidas ditaduras. Diz ele: “O termo ‘fascismo’ adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou vários aspectos, e poder-se-á sempre reconhecê-lo como fascista. Retire-se ao fascismo o imperialismo, e teremos Franco e Salazar; retire-se o colonialismo e teremos o fascismo balcânico […]”.

As catorze características apontadas por Eco ao “Fascismo Eterno” ou “Ur-Fascismo” são, muito simplificadamente, as seguintes: o culto da tradição por vezes associado a práticas esotéricas e ao reviver de comportamentos pretensamente ancestrais; a rejeição da modernidade; o irracionalismo centrado na “acção pela acção”, que leva ao anti-intelectualismo; a rejeição de toda e qualquer crítica — “o desacordo é traição” —; o medo da diferença conduzindo ao racismo; o apelo às classes médias frustradas como base social de apoio do regime; o nacionalismo e a xenofobia; a falta de objectividade na caracterização do “inimigo”, tão depressa invejado, como inferiorizado; a exaltação da guerra; o elitismo; o culto do Herói e da Morte — consubstanciado no culto do Chefe —; o machismo e consequente misoginia; o “populismo qualitativo” e o antiparlamentarismo; a simplificação do discurso político a um número de ideias muito limitado, destinado a fanatizar as massas populares… Encontramos aqui, pontualmente, aspectos que podemos assacar a algumas democracias do nosso tempo, mas é perfeitamente evidente a presença da maioria destas características no “Estado Novo” de Salazar! Perante isto será possível continuar-se a afirmar o “antifascismo de Salazar”? Não seria mais “lógico” afirmar o anti-salazarismo de Salazar? …




1 Publicado no Cidade de Tomar em 19-3-1999


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