Salomão Rabinovich



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Encontro26.07.2016
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12. Trânsito ideal

  

        Você já viu o quanto se mata e o quanto se morre no trânsito do Brasil. Viu do que são capazes nossos motoristas e o drama diário daqueles que têm como única opção o transporte coletivo. Soube por que ser pedestre requer tanta perícia e atenção e por que os motoboys são hoje as principais vítimas do trânsito. Mas também viu exemplos de superação e de humanismo. Exemplos de pessoas empenhadas em trabalhar por um trânsito menos selvagem, caótico. Neste último capítulo, propusemos a alguns dos entrevistados deste livro (e outros, que aceitaram o desafio) sintetizar o que, para eles, seria o trânsito ideal.



 

          "Não vamos conseguir mudar o panorama atual apenas com medidas pontuais. Há que desenvolver uma revolução cultural para moldar conceitos distorcidos da sociedade brasileira e, aí sim, atingirmos o trânsito, por tabela. Sabemos o quanto é trabalhoso e custoso obter uma cidadania efetiva. Cito o exemplo do Japão, onde, após mais de 20 anos de trabalho sério, se conseguiu reduzir o número de mortos no trânsito de 25 mil para 12 mil por ano".

        Salomão Rabinovich,  psicólogo clínico hospitalar e presidente da Associação das Vitimas de Trânsito (Avitran)

 

 



"Existem diversos meios para alcançarmos o trânsito ideal. Para algumas questões pontuais, fiscalização e engenharia resolvem. Para outras, a questão é cultural e depende de educação. Nós acreditamos que a questão do trânsito, mais do que uma questão de Secretarias de Transportes e Polícias Rodoviárias, é um problema de saúde pública, de educação. No Brasil, temos bons exemplos, como a questão do cigarro. Alguns anos atrás era considerado 'simpático' fumar. Hoje, grande parte da juventude diz não ao cigarro".

Maria Edi de Moraes Gonzaga, presidente da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, do Rio Grande do Sul

  

"São Paulo é uma cidade onde os transportes públicos não atendem às necessidades de seus habitantes. Os calçamentos são péssimos, cheios de buracos. Nas esquinas existem grandes valas que devem servir para escoar a água em dias de chuva intensa, mas impedem que se desenvolva uma velocidade uniforme e obrigam a diminuir a marcha para poupar os amortecedores. Muitos condutores têm o hábito de desligar os motores nos sinais, para economizar combustível, o que é compreensível, mas acabam atrasando ainda mais o fluxo. Uma grande parte dos motoristas dirige sem atenção ou diminui a marcha para falar ao celular; outros não têm o menor talento para a direção; outros, ainda, compraram suas carteiras de habilitação... E tem também aqueles que vão diminuindo a marcha já ao meio do quarteirão e param longe das esquinas quando o sinal se fecha, com medo dos assaltantes... Eu acredito que, com uma conscientização da população para esses problemas, melhor distribuição de renda, melhora na educação do motorista, asfaltamento mais adequado, transporte público mais eficiente e segurança maior nas ruas, tudo melhore... E você me pergunta se eu sou otimista... E dá pra ser?"



 Silvio de Abreu, autor de telenovelas.

 

 



"Há saídas para o trânsito do Brasil. A primeira delas é a implementação da educação para o trânsito desde os primeiros anos do ensino fundamental, de maneira clara e contínua. A segunda é preparar os instrutores dos órgãos de trânsito, porque serão eles que formarão os futuros motoristas. Uma fiscalização eficiente também é fundamental para um trânsito mais humano. E, por fim, um Poder Judiciário que faça os culpados ou infratores cumprirem as penas cabíveis, sem exceção".

José Matsuo Shimoishi, professor doutor em Planejamento em Transportes pela Universidade de Tóquio e diretor do CEFTRU da Universidade de Brasília.

 

"Países com fluxo de trânsito superior ao do Brasil e com rodovias de alta velocidade apresentam estatísticas de acidentes menores do que as nossas. Por isso, são necessárias leis rigorosas, com punições severas aos infratores, campanhas de educação no trânsito, divulgação das estatísticas, melhorias nas estradas e na sinalização, fabricação de veículos equipados com air bag, mais segurança e fiscalização nas vias públicas e transportes alternativos de qualidade. Somente essas medidas podem contribuir para redução das estatísticas de acidentes".



José Macedo de Araújo Neto, diretor do Hospital Municipal Souza Aguiar (HMSA), do Rio de Janeiro

 

"O trânsito ideal é aquele em que o cidadão enxerga nas avenidas e ruas da cidade mais do que uma simples via de acesso, mas uma parte da sua própria casa. Nele, o poder público tem que oferecer as melhores condições de tráfego, seja na qualidade da malha viária ou na sinalização; e o cidadão precisa seguir as regras do trânsito, zelar pelas condições do espaço público e respeitar, igualmente, a pessoa que divide o espaço com ele, seja ela um pedestre ou um outro motorista".



 Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo

 

"Enquanto analisarmos o problema como fluxo de veículos e não de pessoas, o trânsito não agüenta. Na definição da utilização do espaço no viário e nas calçadas, a primeira prioridade deve ser o pedestre, vindo depois a prioridade física ao transporte coletivo. Para os demais veículos deve-se utilizar o que for possível do viário sem comprometer a fluidez e segurança dos anteriores. O bom transporte público não é uma utopia. Falta apenas decisão e ação real prática".



Horácio Augusto Figueira, engenheiro civil e consultor independente em Engenharia de Tráfego e Transportes.

 

 



"Acreditamos na educação como o único meio de transformar a sociedade. É difícil mudar comportamentos e, principalmente, a forma equivocada como a maioria das pessoas se relaciona com o trânsito. Portanto, este trabalho de conscientização para novas condutas acontece de forma gradual. São necessárias diversas frentes de trabalho – teatro, televisão, livros, campanhas, músicas e filmes – e persistência para que se consiga o trânsito seguro a que temos direito. Para se chegar a esse patamar no Brasil ainda há muito trabalho pela frente".

Alice Giordano, atriz da companhia de teatro paulista Via Certa Teatral

 

"Não acho que o trânsito ideal no Brasil seja uma utopia, mas creio que não estamos próximos de tê-lo. O quadro atual, entretanto, pode melhorar muito se tivermos fiscalização e punição mais visíveis e se diminuir a impunidade hoje reinante. Sobre a relação entre álcool e direção, creio que cabe às famílias ensinar a seus filhos que o álcool é uma droga psicoativa e que não pode ser ingerido por menores de dezoito anos. Não pode haver, como há, infelizmente, uma complacência dos pais com relação ao uso do álcool pelos adolescentes. O primeiro pileque para os meninos, 'troféu' que celebra um rito de passagem, na verdade marca o início de uma relação sem responsabilidade com a bebida".



Júlia Maria D'Andréa Greve, médica fisiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo

  "É possível encontrar saídas reais para um trânsito não violento no Brasil, desde que haja políticas sérias de prevenção, com fiscalização e punição dos infratores. A elaboração de estratégias preventivas e de educação em escolas tem se mostrado eficiente na mudança de atitude e na disseminação de informações sobre o uso do álcool sem, contudo, mudar o padrão vigente de consumo. Medidas como a melhora da auto-estima dos estudantes e o incentivo de práticas esportivas são exemplos dessas estratégias. Mas ainda são necessários programas e campanhas educativas permanentes, acompanhados de fiscalização efetiva para levar à mudança de comportamento".



Arthur Guerra de Andrade, psiquiatra, especialista em dependência química, presidente-executivo da ONG paulista Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool)

  

"São poucas as campanhas antiálcool no trânsito e todas se limitam à iniciativa do Denatran, por meio de inserções nos horários livres da TV. Isso não forma consciência do perigo da embriaguez ao volante. Há necessidade, principalmente, do envolvimento das 17 indústrias automobilísticas do Brasil. Mas elas querem?"



Cyro Vidal, advogado e presidente da Comissão de Assuntos e Estudos sobre o Direito do Trânsito da OAB-SP

 

"O transporte público de qualidade é perfeitamente possível no Brasil. Temos uma grande indústria de fabricação de veículos, empresas com enorme experiência na operação e técnicos governamentais preparados. Temos também um grande público usuário. O que precisa ser feito é reduzir ou eliminar os maiores problemas, que são a falta de recursos públicos para garantir a infra-estrutura viária e de sinalização necessária, a falta de prioridade efetiva na circulação e o controle deficiente da qualidade do serviço prestado. Falta, igualmente, restringir o uso inadequado ou indesejável do carro".



Eduardo Vasconcellos, consultor da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP)

  

"O trânsito é muito mais amplo do que o ir-e-vir de veículos e pessoas. E um trânsito humanizado, que permita o acesso indiscriminado de qualquer indivíduo, provavelmente traduza melhor as necessidades de circulação. Um sistema de transporte coletivo que atenda com agilidade e conforto é o fundamento imprescindível de uma adequada mobilidade urbana. Enquanto tivermos um transporte predominantemente individual e a aquisição de um automóvel for o bem mais esperado pela maioria das pessoas, não poderemos sequer pensar na melhoria da qualidade do trânsito".



        Equipe de educadores da Gerência de Educação de Trânsito da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), de São Paulo.

 

"De 1991 para cá, data do acidente com minha mãe, os números não tiveram uma redução significativa. Por outro lado, apesar de o Brasil não ter um departamento de estatísticas precisas, penso que a adoção sistemática do uso do cinto de segurança, investimentos em sistemas de resgate e a adoção de noções de primeiros-socorros para os candidatos à CNH contribuíram muito para a redução do número de mortos, lesados permanentes e feridos. A violência no trânsito, no meu entendimento, é um dos problemas sociais mais graves que o País tem que enfrentar. Infelizmente, o governo não percebe a gravidade da situação".



       Rosana Antunes, do Núcleo de Humanização do Trânsito e Meio Ambiente (NHTrans) do Centro Universitário Newton Paiva, de Minas Gerais.

 

 



"Sim, há saídas, desde que houvesse, no meu entender: campanhas efetivas de educação da população, seguidas de repressão quanto às infrações cometidas; campanhas de educação escolar; conserto de todas as rodovias; retirada de circulação definitiva dos veículos sem condição de trafegar; e patrulhamento das rodovias de maneira ostensiva. Sou um otimista, apesar de acreditar que dificilmente algo venha a ser feito".

        Pedro Eurico Salgueiro, médico ortopedista e legista e chefe de Núcleo do IML de Paranaíba, Mato Grosso do Sul



  

"O trânsito perfeito é uma utopia. Não existem carros sem falhas mecânicas, engenharia perfeita das vias e pedestres e condutores 100% conscientes e bem-comportados. Mas existem bons exemplos, como o de São Paulo, onde perdiam a vida no trânsito cerca de três mil pessoas por ano na década de 1980 – número que caiu pela metade, atualmente. Se em São Paulo funciona, garanto que o mesmo acontece em qualquer outra cidade do País".



Ailton Brasiliense, ex-presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo

 

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