Santiago do chile, outubro de 1997 resumo



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EXPORTAÇÃO DE FRUTAS CHILENAS

Reflexões sociológicas sobre uma experiência (madura?)


Sergio Gómez E.**

SANTIAGO DO CHILE, OUTUBRO DE 1997


RESUMO

Este trabalho possui dois objetivos: o primeiro, é o de oferecer uma reflexão, desde o ponto de vista sociológico, sobre o desenvolvimento do setor frutícola chileno destinado à ex-portação, o segundo tem a pretensão de oferecer elementos que, para outras experiências que se incorporam, desde a perspectiva do modelo neoliberal, ao negócio de exportação de frutas, po-dem aproveitar alguns ensinamentos que oferece o caso chileno.

Os antecedentes que se apresentam provêm das pesquisas em que participei na FLACSO — Chile — até julho de 1996. O enfoque conceitual adotado, por sua vez, apresenta continuidade com trabalhos anteriores.

SUMÁRIO

I. Marco Analítico, 177


1 - Marco conceitual, 177

2 - Papel central das empresas exportadoras, 191

3 - Segunda fase do modelo exportador, 196

II. Origens e desenvolvimento da fruticultura no Chile, 197


1 - Antecedentes da atividade frutícola, 197

1.1 - Setor público, 199

1.2 - Setor privado, 200

2 - Elementos que permitem um desenvolvimento vertigino-so (1974-80), 202

2.1 - Condições políticas, 202

2.2 - Nova demanda, 203

2.3 - Experiência acumulada e novas tecnologias, 203

2.4 - Pioneiro na atividade, 204

3 - Da crise financeira de 1981 a crise do cianureto de 1989: crescimento acelerado, 206

4 - Etapa atual (1990-97): ajuste e consolidação da atividade, 209



III - Visão de conjunto, 213

1 - Crescente transnacionalização do setor, 214

2 – A vinculação das empresas exportadoras e o mercado de terras, 215

3 - Esgotamento da primeira fase do modelo, 217

4 - A força do modelo, 217

5 - Debilidade do modelo, 219

Política que pode dar sustentabilidade ao desenvolvimento da atividade: necessidade de apoiar os médios produtores, 222
IV - Principais conclusões, 224

Nota Final, 225

Bibliografia, 226


I - MARCO ANALÍTICO

O marco analítico utilizado para compreender o desen-volvimento da fruticultura chilena inclui (i) os conceito básicos sobre a estrutura agrária; (ii) o papel fundamental cumprido pe-las empresas exportadoras; e (iii) as características da segunda fase do modelo exportador.

Como será visto mais adiante, trata-se de três diferentes níveis de análise que possuem em comum, somente o fato de tentar lançar luzes para compreender melhor o fenômeno que se analisa.
1 - MARCO CONCEITUAL1
O primeiro nível de análise situa-se num plano concei-tual. O marco conceitual que se utiliza, está inserido num “pla-no hierárquico intermédio” como definiu Merton2 e considera categorias do contexto histórico e estruturais. Na definição de ambas as categorias é preciso reconhecer uma forte influência dos tipos ideais weberianos3. Ao final se oferecem algumas in-formações sobre as dimensões que possui a agricultura de ex-portação do Chile.

AS CATEGORIAS DO CONTEXTO


Neste plano interessa caracterizar em que situação se encontra a realidade que se analisa, levando com consideração os parâmetros, as relações e os processos que ocorrem nos âmbitos da economia, da sociedade e da cultura.
a) No plano da economia
Neste plano analisa-se o grau de modernização em que se encontram as diversas estruturas dentro do modelo de desen-volvimento definido, neste caso, o de um modelo neoliberal. Isso tem a ver basicamente com a capacidade de otimizar os re-cursos produtivos, o grau de integração da força de trabalho e a capacidade das empresas para acederem aos mercados.
b) No plano da sociedade
Quando se analisam a sociedade e a política, trata-se do grau de democratização que possuem os atores sociais para re-presentarem os interesses dos grupos que expressam e suas participações nas instâncias de poder.
c) No plano da cultura
Trata-se de determinar os valores que predominam no plano do político-cultural e que determinam os parâmetros nos quais se desenvolvem os agentes econômicos e os atores sociais. Basicamente, referem-se ao tipo de relações sociais predomi-nantes, que derivam dos valores do consenso ou do conflito que predominam nas relações sociais, com as situações interme-diárias que se podem apresentar.

Nossa hipótese, para o caso chileno, é de que o setor agropecuário, a finais dos anos 90, pode ser definido como uma situação de modernização econômica parcial, com uma demo-cratização insuficiente e onde predominam os valores dos acor-dos.


2) AS CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS
Quatro são as categorias que se consideram como um todo para a análise da situação rural. São elas:

a) a estrutura agrária como eixo ordenador que predomina em um espaço e momento dados;

b) os atores sociais que podem ser derivados dessa estrutura;

c) as organizações sociais que estes atores estabelecem; e

d) as demandas que estas organizações expressam e canalizam.
a) Estrutura agrária

Entendemos por estrutura agrária o conjunto de relações sociais geradas a partir da propriedade da terra e das instalações, de trabalho e do destino da produção. Ela está conformada por 250.000 unidades de produção no país. Uma parte importante encontra-se ligada e/ou integrada com o setor agroindustrial.

Oferecemos, a seguir, uma primeira desagregação desde as formas mais simples até as mais complexas. São elas:
i) As unidades camponesas que correspondem ao que, na literatura, se conhece como agricultura familiar ou pequena agricultura.

Dentre elas devem ser distinguidas três tipos:


a) Pequenos agricultores integrados aos setor agroindustrial. Entre 30 a 40 mil camponeses derivados da reforma agrária e outros estratos camponeses acomodados que tiveram a possibili-dade de optar por produções rentáveis e que conseguiram inte-grar-se às cadeias agroindustriais através das quais obtêm finan-ciamento, capacidade de gestão, e, ainda, condições para come-çarem a ascender aos benefícios da modernidade.
b) Pequenos agricultores com potencial agropecuário. Estes representam algo entre 50 a 60 mil camponeses que contam com recursos limitados e, por sua localização geográfica, requerem apoios específicos para poder ascender a uma estrutura produti-va rentável.

c) Pequenos agricultores com escasso potencial agropecuário. Reúne um universo de 120 a 140 mil famílias de minifundistas que somente podem desenvolver uma produção orientada para a subsistência e cuja renda provém basicamente de outras fontes (subsídios para os mais velhos e salários para os mais jovens).


ii) As empresas agrícolas precisam ser diferenciadas entre tradicionais e modernas.
As empresas tradicionais são aquelas que não tiveram capacidade de integrarem-se ao processo de modernização. Uti-lizam métodos artesanais de produção e mantêm práticas de “te-nência” tradicionais como é o sistema de “mediarais”. Podem subsistir na medida em que possuem uma débil relação com o sistema financeiro.

Já as empresas modernizadas somente se dedicam à produção primária com uma alta eficiência. No Chile, este fato pode ser observado, por exemplo, entre os produtores de milho da VI Região que alcançaram rendimentos que podem competir com as regiões mais avançadas de qualquer lugar do mundo. Trata-se de 9.900 empresas modernas, localizadas no Valle Central com irrigação entre Capiapó e Curicó e também na pe-cuária do sul. Elas apresentam elevado nível de integração, boa gestão, tecnologia de ponta e estreita ligação com os mercados, além de participarem da produção primária, agregam valor à produção.

Alguns exemplos simbólicos são os casos do Sr. Manuel Ariztía, produtor de flores em Longotoma, V Região e que as exporta; La Rosa Sofruco: Don Recaredo Ossa em Peumo, VI Região que produz uma ampla gama de produtos que são processados no mesmo estabelecimento; a fazenda Nuble Ru-panco, que até pouco tempo era propriedade de um Xeque Ára-be na X Região. Aqui também se localizam os produtores de milho da VI Região; os triticultores da zona sul que alcançam altíssimos rendimentos. Todos eles têm em comum estabele-cimentos de uma certa envergadura, usam tecnologia de ponta, agregam valor aos seus produtos e possuem uma vinculação direta com os mercados.

As empresas tradicionais somam aproximadamente 20 mil e são aquelas que não tiveram capacidade de modernizarem-se, utilizam tecnologia em um nível médio e métodos artesanais, baixa capacidade de gestão e enfrentam situações financeiras complicadas. Muitas vezes, mantêm práticas tradicionais de “subtenencias” (mediarías).


iii) As empresas com agroindústrias, que são aquelas que somente possuem uma integração para frente, vale dizer, além da produção primária encontram-se ligadas a um processo agro-industrial. Este é o caso dos produtores de frutas médios e gran-des que possuem plantas embaladoras de fruta.
iv) Os complexos agroindustriais completos, que são aqueles que possuem integração para frente e para trás, vale dizer, co-brem uma cadeia produtiva completa desde uma atividade for-necedora de insumos, o processo de produção primária à agroindústria. No Chile, estes casos encontram-se representados pelos grandes complexos frutícolas e florestais e não passam de uma centena.
Trata-se de complexos onde a produção primária é so-mente uma parte subordinada de um conjunto de elos. Eles co-meçam com a produção de insumos, produção primária, proces-samento e chegam até o consumidor.

Além disso, são empresas agrícolas, que se integram em complexos processos industriais, e muitos deles possuem inte-resses em diversos setores da economia. Além de serem grupos altamente transnacionalizados.

A partir do ponto de vista de caracterizar os proprietá-rios, podem-se distinguir três situações:
a) Nacionais. Em um dos principais complexos avícolas, como é o caso da Super Pollo, a produção de aves é somente um elo en-tre vários que se outorgam sinergias.

b) Transnacionais. Um exemplo é o caso da DOLE, uma das principais comercializadoras de frutas e verduras do mundo.

c) Joint Ventures. Neste caso pode ser incluída a empresa transnacional PARMALAT onde produtores nacionais de leite ligados à Leche Sur estabelecem um negócio conjunto com a transnacional.
O fato destacado de que seu número é de 100 CAIs, so-mente pretende transmitir a idéia de que o crescimento do setor é extraordinariamente concentrado e polarizado. Este setor cres-ce, arrastando e, às vezes, sugando, o resto.

Como se pode observar, este grupo, será parte funda-mental da análise que se efetuará neste trabalho.


v) Outras estruturas emergentes. Sob esta denominação inte-ressa dar conta de estabelecimentos de diversas formas de re-creação para setores médios e altos urbanos com finalidade de recreação, num contexto de elevada ruralidade. Trata-se do ex-plosivo crescimento de “parcelas de agrado” nas periferias ru-rais de cidades médias e grandes e em regiões com especiais condições para o turismo não convencional. Estas regiões, onde os setores urbanos tentam melhorar suas condições de vida, as-similando a “vida rural” e criando uma explosiva demanda de trabalho de serviços. Transformam-se, assim, os valores das propriedades rurais, criando-se condições para o desenvol-vimento do turismo rural, etc. Trata-se, portanto, de um fenôme-no emergente que será necessário incluir em futuras análises sobre o campo.

Contudo, o pólo dinâmico encontra-se nas empresas altamente integradas. Através destes complexos, passa o grosso da atividade do setor e em torno deles foram sendo constituídos os fatores reais de poder no campo.

A consideração da noção de matriz em vez de uma aná-lise bipolar ou dicotômica na relação agricultura/indústria, têm a vantagem de levar em conta situações intermediárias ou cinzas, permitindo a análise da inter-relação entre os diferentes tipos de estruturas agrárias. Ou seja, como os CAI’s afetam as empresas modernizadas, as tradicionais, os camponeses e os assalariados rurais e, por sua vez, como estes influenciam os CAI’s, esse nos parece um enfoque mais rico.

Uma vez definida a estrutura agrária, que tem sido consi-derada como eixo ordenador das categorias que se estabelecem mais adiante, pode-se passar aos atores sociais.


2 - ATORES SOCIAIS
Na medida em que o enfoque privilegiado é o da análise sociológica, os atores sociais são tratados deixando-se em se-gundo plano os agentes econômicos.

Sob o termo de atores sociais se estabelece uma versão modernizada das tradicionais concepções ligadas aos sistemas de estratificação e às classes sociais. Entre os atores sociais ru-rais, definidos por sua posição na estrutura agrária considerada como um sistema social, destacam-se os empresários agrícolas, o campesinato como tal e os assalariados rurais.



  1. Empresários

Normalmente se tem considerado o proprietário da terra como o empresário agrícola e sua função consiste em organizar o processo produtivo e vincular a posse da terra com os merca-dos de insumos, financeiros, de produtos e de trabalho.

A figura do empresário agrícola tradicionalmente na América Latina foi sendo identificada com a do fazendeiro e lo-go com os personagens adscritos às empresas agrícolas moder-nizadas e aos latifúndios tradicionais. Portanto, associa-se ao empresário agrícola uma maior dose de eficiência, enquanto ao latifundiário maior tradicionalismo e arcaísmo.

De qualquer maneira, nos diagnósticos prevalecentes da década de 60, quando se privilegiava o complexo latifúndio-minifúndio, não foi dada relevância a um importante setor de médios empresários que se encontravam entre os camponeses acomodados e os grandes empresários. Este setor era muito importante na zona sul do país.

No caso dos empresários agrícolas pode-se observar uma ambigüidade na literatura entre a estrutura e o ator social derivado dela. Nem sempre fica claro a qual unidade de análise se está referindo. Para ser rigoroso com o marco conceitual que se está propondo, deve-se diferenciar quatro tipos de empresários:

i) Os tradicionais, que correspondem à categoria que se encontra sob a designação de “empresa camponesa”, mas que não são trabalhadores diretos; destinam toda a produção ao mer-cado e utilizam diversas formas de acesso à terra (meia, arren-damentos parciais, etc.). Trata-se de empresários que ocupam formas bastante tradicionais de produção e que tendem a flores-cer em épocas de crises.

ii) Os modernizados, que são os empresários basica-mente dedicados à exploração agrícola, muito vinculados aos mercados, capitalizados e que utilizam tecnologias de ponta, o que os diferencia das categorias apresentadas a seguir é que somente se dedicam à agricultura e à fase de exploração pri-mária.

iii) Os que estão inseridos em complexos agroindustriais incompletos, são aqueles empresários que além de explorarem a fase primária, agregam um valor a sua produção. Um caso típico é dos fruticultores que possuem uma planta processadora e equi-pamentos de refrigeração. Eles se dedicam basicamente a esta atividade.

iv) Os que se inserem em CAI’s completos são aqueles empresários que não somente possuem uma faceta agrícola mas também interesses bastante diversificados em muitos ramos da economia e se movem entre eles, dependendo dos diferenciais de taxa de lucro que se observam em cada um deles. Dentre es-tes é preciso diferenciar os empresários nacionais dos trans-nacionais.

Outra classificação que pode ser útil é a que consiste em considerar a origem do empresário e, assim, poderíamos ter as seguintes categorias:


  1. Transnacionais. Que contempla a origem estrangeira dos pro-prietários, seja com capitais basicamente no Chile ou em vá-rios países.

  2. Transagrícolas. A origem se encontra em empresários que possuem interesses em vários setores da economia, como po-de ser o financeiro, siderúrgico, profissionais liberais, etc.

  3. Somente agrícolas, novos. Trata-se de agricultores que che-garam ao campo vindos de outras atividades.

  4. Somente agrícolas, antigos. São agricultores de famílias tra-dicionais vinculados à agricultura.

Podem ser estabelecidas outras classificações, como ta-manho, estrutura produtiva predominante, etc. Os critérios a se-rem utilizados dependerão do objetivo que possuam ou conhecimento a ser alcançado.

A categoria que melhor permite captar o dinamismo entre os empresários é a situação em que se encontram dentro do processo de acumulação, seja na atividade agropecuária ou em outros ramos de produção.
2) Camponeses.

Por campesinato estamos entendendo aquele grupo integrado por chefes de famílias que compartem as seguintes características básicas:


i) Trata-se de um trabalhador direto da terra; ii) encontra-se ligado à terra por alguma forma de acesso a ela; iii) utiliza força de trabalho familiar, que normalmente não é remunerada com salário; e iv) não comercializa toda a colheita, já que somente uma parte é destinada ao mercado, enquanto que a outra para o autoconsumo e muitas vezes também seleciona para ser utilizada como sementes para sua própria produção.

Apresentado dessa forma, trata-se de um conceito relativamente estático, sendo conveniente agregar outros dois para captar situações mais dinâmicas, como as que se encontram na realidade. Estes são, diferenciação camponesa e economia camponesa.

A diferenciação entre o camponês e o empresário agrícola expressa-se nos seguintes fatos:

i) o camponês é um trabalhador direto da terra; ii) também recebe ajuda de trabalho familiar e iii) existe um traço cultural que consiste em que a agricultura para o campesinato é uma forma de vida mais que somente um simples negócio.

As classificações que podem ser estabelecidas devem levar em consideração a origem histórica dos grupos de campo-neses e os espaços regionais que ocupam.

Em uma versão mais moderna do campesinato deve ser considerada a crescente integração que vai sendo alcançada nos diferentes mercados, na medida em que avança o processo de modernização na agricultura.

Assim, por exemplo, é importante considerar a integra-ção da produção proveniente deste setor nos CAI’s. Esta relação é a que se vem denominando de “agricultura de contrato”. O produtor possui acesso à informação do preço que receberá por seu produto, antes mesmo de plantá-lo, e recebe abastecimento de insumos, financiamento e assistência técnica. Do ponto vista do camponês, assegura-se, dessa maneira, o acesso ao mercado. Por sua parte, sob a ótica das empresas agroindustriais, elas pos-suem a vantagem de contar com uma diversidade de produtores que as abastecem.

Para caracterizar os diferentes tipos de camponeses é conveniente identificar os sistemas de produção predominantes para as diferentes regiões e estratos. Em função de uma tipolo-gia que considere esta variáveis, é possível definir os interesses centrais que cada um deles possui. Isso será fundamental para determinar o conteúdo das atividades que deverão possuir os programas de apoio e os tipos de organização que conviria esta-belecer.


3) - Assalariados rurais.

É uma categoria que não tem uma relação de proprie-dade com as empresas agrícolas ou agroindustriais e que vende sua força de trabalho a elas.

O assalariado rural, em geral possui conotações similares ao de todos os assalariados, com algumas particularidades já que em um esquema tradicional, estes se encontravam em uma situação onde viviam em um relativo isolamento e o lugar de trabalho coincidia com o lugar de residência.

Na atualidade ocorrem importantes transformações já que desde uma situação mista de produtor-assalariado próprio da fazenda (morador no Brasil, huasipungo no Equador, inquili-no no Chile) passam a proletarizarem-se, vale dizer a ser so-mente assalariado.

Por sua vez, estes assalariados, em sua maioria deixam de ser permanentes e passam a ser temporários, que na atuali-dade é a força de trabalho assalariada predominante na América Latina. A maioria deles possuem residência urbana, relações de trabalho intermitentes e em algumas tarefas, pode-se observar um forte componente feminino.

Também surgiu uma figura, o “contratante” de força de trabalho temporário, que se difundiu nos setores mais modernos da agricultura da América Latina. Eles são conhecidos por várias denominações de acordo com os países, como por exem-plo, “gatos” no Brasil, “enganchadores” no Chile, “coyotes” no México, etc. No Chile se encontram antigas experiências como as chamadas “comparsas de esquila” em Magallanes e as empre-sas de serviços florestais.

Trata-se de empresas que, com diferentes graus de for-malização, recrutam, mobilizam e vendem força de trabalho a empresas do setor agropecuário para a execução de determi-nadas atividades. Os serviços são contratados pelas empresas agropecuárias diretamente ao “contratista”, normalmente em função da realização de uma tarefa, e este por sua vez paga o as-lário aos trabalhadores.

Em outras palavras, trata-se de empresas especializadas na venda de força de trabalho, onde as empresas agropecuárias externalizam a função de recrutamento e pagamento da força de trabalho assalariada.

Como já estabelecemos anteriormente, esta é uma forma de organizar a força de trabalho que se impõe aos setores mais modernos da agricultura latino-americana e possui uma dupla funcionalidade: aos trabalhadores oferece a oportunidade de emprego sem precisar buscá-lo; e, aos empresários, permite dispor de força de trabalho de maneira oportuna e segura, espe-cialmente quando se trata de curtos períodos.

Junto com o estabelecimento de categorias de perma-nente e temporários, os assalariados rurais podem ser classifi-cados segundo o lugar de residência e os níveis de qualificação.

Convém, ainda, estabelecer tipologias de assalariados em função de algumas variáveis, como podem ser, seu nível de especialidade, o multiemprego, a combinação entre ser assala-riado e desenvolver atividade por conta própria, etc.

O conceito que permite captar a dinâmica dos assa-lariados é o grau de proletarização em que se encontra. Uma vez definidos os atores sociais, pode-se tratar o tema das organi-zações sociais que eles constituem para expressar seus inte-resses.


4) Organizações Rurais4

Antes de abordar o tema da organização de interesses, vale a pena estabelecer algumas considerações. Em primeiro lugar, as peculiaridades próprias do setor rural acrescentam a necessidade que possuem seus habitantes para estabelecerem organizações. Em segundo lugar, deve-se assinalar que por si mesmas as organizações não resolvem nada, sem elas, as difi-culdades para resolver os problemas são ainda maiores. Em terceiro lugar, é preciso estabelecer diferenças entre a existência de organizações que respondem às necessidades e aos interesses de quem as compõem, daquelas organizações que estabelecem os agentes de desenvolvimento para facilitar suas tarefas buro-cráticas. Em quarto lugar, quando se trata de organizações rurais, necessariamente deve-se considerar o complexo tema das histórias locais, das relações familiares, etc.

Para abordar o tema sugere-se analisar duas ordens de questões. Por um lado, uma tipologia de organizações, e, por outro, um marco analítico para compreender as atividade que realizam.

Seguindo Moyano5, estabelecemos uma tipologia que distingue organizações de três tipos:

1) Organizações gremiais ou de representação que se carac-terizam por perseguirem fins de natureza universais e integrais, realizam ações que afetam o conjunto de setores e seus dis-cursos contêm um fundamento ideológico explícito.

2) Organizações profissionais ou corporativas, caracterizadas por perseguirem os objetivos gerais de seus filiados, sejam estes produtores ou assalariados, e que não possuem uma ideologia explícita para além de perseguir o bem-estar de seus filiados.

3) Organizações econômicas ou instrumentais, que perseguem fins exclusivos e particulares, e o âmbito de suas ações afeta so-mente facetas de seus afiliados e seus discursos carecem de uma dimensão ideológica.

Para o marco analítico, propõe-se considerar para o estu-do das organizações camponesas seus antecedentes históricos, uma caracterização de suas bases dirigentes, estrutura, formu-lação ideológica e as relações com o entorno.


4 - DEMANDAS: ALIANÇAS E CONFLITOS
A demanda corresponde à forma como os diferentes atores expressam seus interesses através das organizações. A de-manda no sentido utilizado neste trabalho tem sua origem na noção de “ação social” de Weber, entendida como a conduta que se encontra referida à de outros. Nesse sentido, supõe refe-rências a outros e uma certa racionalidade compartida que lhe outorga sentido.

Antes de terminar, alguns antecedentes básicos sobre o desenvolvimento da fruticultura chilena. Não pretendemos fazer qualquer caracterização da fruticultura chilena. Apresentaremos brevemente apenas alguns elementos com uma série de vari-áveis com respeito à atividade frutícola a ser analisada, como é o caso da superfície empregada, número de empresários envol-vidos, principais espécies e o destino da produção.

Em primeiro lugar, a superfície frutívora está estabili-zada em 180 mil hectares, considerando as novas inversões (que são maiores) e as reposições que, em algumas regiões, efeti-vamente baixaram.

Em segundo lugar, participam deste negócio uns 10 mil produtores, sendo um elevado número de camponeses que não alcançam 10 mil hectares, existindo assim uma forte concen-tração em um número reduzido de produtores que integram os Complexos Agro-industriais, tema que trataremos mais adiante, e um número significativo de pequenos e médios agricultores que enfrentam diferentes situações.

Em terceiro lugar, o Chile é o mais importante expor-tador de fruta do hemisfério sul. Sendo a exportação de uva a mais importante, vindo a seguir as maçãs, pêras e kiwis.

Em quarto lugar, o principal mercado de destino é a América do Norte, seguindo com menos da metade deste volu-me exportado, a Europa, América Latina e o resto mundo.


2 – PAPEL CENTRAL

DAS EMPRESAS EXPORTADORAS


O segundo nível de análise pretende destacar a impor-tância que possui um dos elementos que têm sido tratados até agora: as empresas exportadoras.

É importante ressaltar a importância das empresas ex-portadoras na atividade. Existe consenso no fato de que as em-presas exportadoras desempenham um papel chave na cadeia de exportação de frutas. São elas que decidem, em cada temporada, quais serão os produtores que os abastecerá e quem receberá a fruta. Esta situação os obriga a estabelecer uma detalhada pro-gramação para dispor dos insumos necessários, das instalações, mão-de-obra, transporte, etc. na oportunidade precisa e na quan-tidade que seja requerida.

É importante, portanto, destacar que, ao longo da cadeia que vai desde a produção de fruta no pomar até a apresentação do produto final na prateleira de um supermercado, a empresa exportadora encontra-se em situação de impor as condições ao produtor e quem negocia as condições com os elos posteriores da cadeia. Com respeito aos produtores, trata-se de uma multi-plicidade atomizada, que recebe materiais, insumos, recursos fi-nanceiros e assistência técnica da exportadora. Ademais, os pro-dutores competem com a própria exportadora na medida em que, em muitos casos, aquelas empresa atuam também na qua-lidade de produtores por possuírem terras próprias.

Como conseqüência, é preciso ter precaução quando se usa o conceito de cadeia produtiva, já que se poderia supor que todos os elos possuem peso e importância similar. Em estudo da CEPAL, destaca-se que “o exportador não é um elo a mais, mas sim o eixo central em uma rede de relações e de compromissos comerciais que enlaçam todos os participantes da cadeia.”6

O fato de as grandes exportadoras estarem envolvidas na construção de centrais frutícolas e de adquirirem aquelas que pertenciam ao Estado, reforça sua importância: “a propriedade das centrais e o controle da comercialização outorga ao exporta-dor um grande controle sobre o negócio, ainda que pela grande concorrência, ela não tenha se traduzido necessariamente em um grande poder de negociação com relação ao produtor.”7 Tudo isso é possível na medida em que os produtores operam com mais de um exportador.

Não obstante, esta afirmação sobre a eventual posição hegemônica das empresas exportadoras sobre os produtores de-ve ser matizada através de elementos que permitam dar conta da heterogeneidade que pode ser observada, tanto no interior das empresas exportadoras como entre os produtores. Uma tipologia de ambos pode ajudar a complexificar a situação num primeiro momento, para simplificá-la posteriormente.


Tipologia das empresas exportadoras.
No caso chileno, as principais exportadoras podem ser diferenciadas de acordo com a origem do investimento dos pro-prietários e o âmbito de ação que possuem as empresas. Assim podemos distinguir:

a) Empresas multinacionais mundiais. No caso do Chile exis-tem duas dessas empresas: DOLE Food Company e The Chiquita Brands.

Ambas são de empresas mundiais que possuem como atividade principal o comércio de frutas e produtos vegetais. O negócio que realizam no Chile é parte de uma operação em nível mundial.



b) Empresas multinacionais no Chile. Trata-se de empresas dedicadas ao comércio de frutas e vegetais com capitais es-trangeiros e que operam no mercado mundial com fruta chilena. As duas empresas que se encontram nesta condição são a United Trading Company e UNIFRUTTI, pertencente a uma família italiana com longa trajetória na Arábia Saudita.

c) Empresas nacionais. São as principais empresas que conseguiram sobreviver ao desenvolvimento e crescimento da atividade. Trata-se da David del Curto e Compañia y COPEFRUT.

A empresa David del Curto, identifica-se com a ativi-dade desenvolvida no Chile pelo imigrante italiano David del Curto, em finais de anos 40. Nos anos 50, estabeleceu-se como agricultor e no comércio de “frutas do país”. David del Curto é o pioneiro na exportação de frutas chilenas com uma certa di-mensão e em instalações de modernas plantas processadoras. Parte importante da estabilidade da empresa Del Curto está nas relações de cooperação que estabeleceu com grandes produtores que o abastecem e ao profissionalismo de seus executivos, que comseguiram manter a empresa depois do falecimento de seu fundador.

COPEFRUT é originalmente uma cooperativa de produtores de maçãs da VII Região estabelecida em meados dos anos 50. Trata-se basicamente de agricultores não tradicionais, comerciantes com capacidade de acumulação, que conseguem articular os benefícios dos programas governamentais. Poste-riormente, passou a constituir-se como uma sociedade anônima.

Assim como se observa uma forte heterogeneidade entre as empresas exportadoras, outro tanto pode ser observado entre os produtores.


Tipologia de produtores de frutas.
Os produtores que abastecem as grandes exportadoras podem ser classificadas de acordo com o tamanho de suas plan-tações, da experiência que possuem como produtores e da situ-ação financeira em que se encontram.
Produtor A

Este produtor, com 15 anos de experiência, dispõe de uma superfície de 250 hectares de espécies acordadas com a empresa exportadora. Possui um manejo de tecnologia de suas espécies e se encontra em dia com as novas variedade que se encontram no mercado. Finalmente possui uma relação normal com o sistema financeiro, administrando uma conta para a exportação anual do estabelecimento.

Este tipo de produtor é o ideal para a empresa expor-tadora manter como cliente a médio e longo prazos. Por sua vez, este produtor, conhecendo o interesse que desperta para as em-presas exportadoras, encontra-se em condições de estabelecer relações equilibradas com as empresas com que possui contrato.
Produtor B

Possui uma superfície de 50 hectares, hipotecada ao Banco, com várias espécies que sucessivamente estiveram na moda nos últimos anos. Seu manejo tecnológico é débil e de-pende da assistência técnica que lhe possa proporcionar a em-presa exportadora. Por sua vez, sua situação creditícia indica que sua base patrimonial encontra-se comprometida e não pos-sui condições de abrir novas linhas de crédito de operação.

Este tipo de produtor é o que se transfere a cada ano entre empresas exportadoras até que, no final, uma empresa acaba estabelecendo com ele um contrato de 10 anos de duração para transformá-lo em um maquiador da exportadora. Concluin-do, a empresa exportadora não toma o estabelecimento porque não é interessante.

O que é importante mostrar é que a diversidade de situa-ções que se encontra aponta para a necessidade de que se esta-beleçam matizes às afirmações formuladas.

Portanto, a importância que pode ter a firma exportadora frente aos produtores depende da demanda que as primeiras tenham por fruta e da situação de oferta que tenham os se-gundos. Por exemplo, frente a situações de relativa escassez de fruta, os produtores se encontram em uma posição privilegiada. No caso contrário, serão os exportadores. Em situações relati-vamente normais, não se estabelece uma situação de dominação de um sobre o outro, mesmo possuindo a empresa exportadora condições para realizar a atividade exportadora ao possuir infra-estrutura, os serviços, as condições, os contatos comerciais e o conhecimento necessário.

3 – SEGUNDA FASE DO MODELO EXPORTADOR8


Sustenta-se que o Chile recorreu, com um relativo êxito, à primeira fase do modelo exportador. Esta caracterizou-se pela exportação de produtos primários, bastante ligados às vantagens de dotação de recursos naturais, com pequeno valor agregado e com o aproveitamento dos baixos custos da força de trabalho.

Na atualidade encontram-se condições de transitar para a Segunda fase, para poder manter o dinamismo de seu cresci-mento e avançar no plano da eqüidade.

Isso implica avançar numa maior elaboração dos pro-dutos que exporta, alcançar um ajuste entre trabalhadores, em-presários e o Estado e uma consolidação dos mercados.

Trata-se, então, que a Segunda fase seja assumida como uma tarefa do país enquanto nação.

Para conseguir esta mudança de fase do modelo exporta-dor são necessários ajustes importantes na área trabalhista, empresarial e no papel a ser desempenhado pelo Estado. Na área trabalhista deveria significar um desafio do movimento sindical para tratar de atrelar suas remunerações à produtividade do salá-rio; na empresarial significaria modernizar a organização das empresas de modo a aceitar uma organização sindical moderna que possa discutir a política de investimentos em função das re-lações trabalhistas modernas; e o Estado, por sua vez, deveria desempenhar um papel mais ativo mediante uma política de in-vestimentos em infra-estrutura e, sobretudo, regulando o funcio-namento da atividade produtiva e exportadora.

O tema da qualidade da produção que se exporta passa a ser chave nesta segunda fase do modelo exportador e deve contar com mecanismos institucionais para assegurar que esta qualidade dos produtos seja conseguida.

Em resumo, o marco analítico foi considerado em três níveis:

a) um marco conceitual;

b) um destaque para a importância das empresas exportadoras e

c) uma segunda etapa do modelo exportador.

O conjunto deles deve lançar luz para que se entenda o desenvolvimento da fruticultura chilena.

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