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O ESTÁGIO CURRICULAR NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: DIVERSOS OLHARES

SANTOS, Helena Maria dos – Univap


GT: Formação de Professores / n.08

Agência Financiadora: CAPES


Movimento em busca do significado do trabalho

Este trabalho tem por objetivo analisar como o Estágio Curricular vem sendo assumido pelos alunos, no Curso Normal Superior da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), a partir do projeto de estágio elaborado com bases no Projeto Pedagógico do referido Curso, bem como perceber a sua contribuição no processo de formação de professores polivalentes para a Educação Infantil e primeiras séries do Ensino Fundamental.

O motivo pelo qual fiz a opção por estudar esse fenômeno, deve-se ao fato de perceber que, durante a minha trajetória profissional, a prática pedagógica dos professores sempre foi um elemento desafiador da minha própria prática profissional.

Contudo, para pensar na prática pedagógica dos professores, faz-se necessário considerar a raiz desse problema que está, também, vinculado ao processo de formação inicial dos professores desenvolvido em instituições destinadas à essa finalidade.

Como os cursos de formação inicial de professores têm considerado o componente da prática pedagógica em seus currículos? Qual lugar tem ocupado, no percurso de formação inicial dos professores, a questão da prática pedagógica? Qual a seriedade com que vêm sendo assumida a orientação e a realização do Estágio Curricular na formação inicial de professores? Quais questões são privilegiadas pelos alunos e professores, na efetivação do Estágio Curricular?

Essas, entre outras questões, impulsionam-me a discutir, neste trabalho, o papel do Estágio Curricular na formação inicial dos professores, considerando que, durante toda a história de formação de professores no Brasil, independente dos diferentes enfoques, o Estágio Curricular foi assumido como um componente curricular responsável para contribuir na formação prática dos professores.

Um percurso em meio às produções sobre o Estágio Curricular nos ajudou a construir um referencial teórico, em que privilegiei quatro categorias, consideradas como fundamentais para entender o papel do Estágio Curricular na formação inicial de professores:


  1. O estágio como espaço de construção de aprendizagens:

Um dos objetivos centrais do Estágio Curricular é ser um espaço de construção de aprendizagens significativas no processo de formação dos professores. Ou seja, junto com as disciplinas teóricas desenvolvidas nos cursos de formação, o estágio, também, apresenta-se como responsável pela construção de conhecimentos e tem potenciais possibilidades de contribuir com o fazer profissional do futuro professor (Cf. FREIRE, 2001).

Nesse sentido, ao discutir as diferentes modalidades em que o estágio pode ser realizado na Unidade Escolar (observação, participação, regência, entre outros), Carvalho (1985) procura deixar claro que a aprendizagem se constrói à medida que as experiências vivenciadas nos estágios sejam discutidas e teorizadas num momento destinado a essa finalidade no interior do curso de formação inicial.

Sendo assim, não basta ir à escola-campo. É necessário, depois, que as observações e/ou participações realizadas pelos alunos sejam consideradas no currículo do curso de formação; dentro de um espaço/tempo, privilegiado para uma análise crítica e diálogo, na tentativa de interagir a realidade profissional com os elementos estudados no curso (Cf. CARVALHO, 1985).


  1. O estágio como elemento articulador no currículo do curso de formação de professores:

Um primeiro aspecto a ser entendido do Estágio, enquanto articulador do currículo, diz respeito à importância que é dada, na organização curricular, às disciplinas e à prática, ao saber e ao fazer, nos cursos de formação inicial de professores.

No entender de Castro (1989), disciplinas e práticas não estão colocadas, hierarquicamente, umas sobre as outras, pelo contrário, devem manter uma relação de complementaridade nas suas funções específicas no interior do curso de formação de professores.

Um segundo aspecto diz respeito à possibilidade do Estágio ser assumido como elemento colaborador à avaliação de currículo, como nos mostra o estudo realizado por Almeida (1978) que, ao abordar o estágio de um modo geral, intentou verificar a possível relação entre o estágio e a avaliação curricular, a partir da compreensão do estágio como uma trajetória de mão dupla, em que, ao mesmo tempo, o aluno se beneficia com o cumprimento do mesmo para conclusão do seu curso e para sua formação, e, a Universidade, enquanto centro de formação, apropria-se das vivências do estágio de seus alunos para corrigir sua trajetória curricular (Cf. ALMEIDA, 1978).

Um terceiro aspecto diz respeito à própria seleção e organização dos conteúdos escolhidos para serem trabalhados nas diferentes disciplinas do curso que, segundo Almeida (1994), deve originar-se das salas de aula, futuro campo de trabalho dos professores que estão em formação, uma vez que é nesse cotidiano que os professores encontram as maiores dificuldades e os maiores desafios para atuarem, profissionalmente.

Finalmente, um quarto aspecto a ser considerado é apresentado pela contribuição que Riani (1994) nos oferece ao defender que o Estágio deve envolver a “totalidade das ações do currículo dos cursos” (RIANI, 1994. p. 154). Ou seja, as diferentes disciplinas estruturadas pela matriz curricular do curso devem contemplar, também, uma dimensão prática, a fim de promover vínculos entre o pensar e o fazer.


  1. O estágio como elo entre diferentes níveis de ensino:

Nos estudos realizados por Carvalho (1985), encontramos a definição do estágio como uma “Grandeza Vetorial”, uma vez que este se apresenta como um elemento de ligação, um “canal” entre o Ensino Superior e a Educação Básica, no caso específico da formação de professores.

Esse vínculo entre a Universidade e a Escola de Ensino Fundamental e/ou Infantil, que é articulado por intermédio do Estágio, é muito importante e produtivo quando se reconhece, por um lado, a distância existente entre esses dois níveis de escolaridade; e, por outro, a não supremacia de uma instituição sobre a outra, evidenciando e acolhendo a contribuição que cada uma das instituições, dentro de sua especificidade, deve oferecer à “missão” da outra (Cf. KULCSAR, 1994).

Essa reciprocidade demonstra a necessidade da articulação entre a teoria e a prática, em função da formação de professores, a fim de que o ensino na Universidade não seja descontextualizado, mas enriquecido com a problemática do cotidiano escolar, e nem a prática da escola seja, somente, fruto do senso comum, ou uma prática pautada pelo saber tácito, construído pela rotina, reprodução ou repetição das ações, mas fruto de uma ação crítica e reflexiva sustentada por um consistente referencial teórico (Cf. BEHRENS, 1991).

Confirmando a relevância do estágio como “lócus de formação, aprendizagem, partilha de saberes e experiências (CASTRO, 2000, p. 16) entre os professores e os alunos que realizam os estágios, a autora afirma a necessidade de estabelecer uma parceria produtiva entre o estudante e os profissionais experientes.

Contudo, estabelecer tal parceria com os profissionais das escolas-campo é uma situação delicada e conflituosa na realização dos estágios, uma vez que a relação entre professores e estagiários ainda não é vista como uma situação de complementaridade, de interdependência entre os indivíduos envolvidos no processo para construção de conhecimento. Muito pelo contrário, essa relação ainda é marcada por inúmeras situações constrangedoras em que o estagiário é visto como aquele que está para “julgar” uma prática pedagógica profissional alheia. Sobretudo, porque a escola, principalmente a pública, apresenta-se tão vulnerável, fragilizada, insegura, que qualquer aproximação externa pode desencadear situações “mal entendidas”.


  1. O estágio como elemento articulador da relação teoria e prática:

A compreensão do estágio como elemento facilitador da articulação teoria-prática sempre foi assumida como um das funções elementares desse componente curricular, obrigatório no processo de formação de professores, uma vez que, por intermédio dele, os alunos têm a oportunidade de, participando da formação oferecida pelas Universidade, ao mesmo tempo, ter um contato com a realidade educacional desenvolvida nas escolas (Cf. PIMENTA, 2001).

Ser identificado como uma aproximação da realidade, o estágio não é a prática, como afirma Pimenta (2001), uma vez que os alunos, por não fazerem parte, integralmente, da realidade da qual se aproximam, também permanecem ali por um período de tempo limitado, sem conquistar um espaço considerável de autonomia. Logo, não realizam a prática, mas se aproximam dela para efetuar algum tipo de atividade considerada pertinente ao seu processo de formação.

É interessante pensar nessa aproximação da realidade desenvolvida pelo estagiário na dimensão de um “olhar estrangeiro”, ou seja, de alguém que está de fora, que veio de um outro contexto, que não está condicionado ao cotidiano daquela prática, tendo, por assim dizer, condições diferenciadas para refletir sobre aquela realidade.

Na verdade, a inserção na realidade deve proporcionar a possibilidade de um olhar mais centrado e profundo sobre a complexidade que se instaura em torno do processo de ensino e de aprendizagem que se desenvolve na realidade educacional, impelindo os alunos a estabelecerem, em torno dessa “prática”, um exercício de reflexão que contribua, por um lado, para a compreensão de tal realidade, e, por outro, para a construção de novos conhecimentos a partir da realidade da escola (Cf. BEHRENS, 1991).

O convite feito aos estagiários é que desenvolvam um olhar crítico sobre a realidade que vivenciam no cotidiano escolar. Ou seja, que façam, em seu processo de formação, o exercício da práxis a partir da realidade do trabalho educativo contextualizado, a fim de que essa prática se torne constante por ocasião do seu exercício profissional (Cf. LIMA, 1995).

O desenvolvimento desse olhar crítico, enquanto contribuição da experiência do estágio, longe de se instaurar na dimensão dos relatos que permeiam aspectos comportamentais dos profissionais que atuam em sala de aula, deve se estabelecer como tentativa de favorecer um olhar mais amplo sobre a realidade escolar, com o intuito de compreendê-la, não só a partir de uma determinada teoria, mas a partir de relações possíveis de serem estabelecidas entre a teoria e a prática, tendo em vista a sua futura atuação profissional (Cf. DONATONI, 1991).

É somente nesse movimento de transitar por entre o saber e o saber fazer, de idas e vindas, por entre a teoria estudada nas diferentes disciplinas do curso e a prática observada e/ou participada no ambiente escolar, em que os professores exercem, realmente, a sua prática profissional, que é possível construir uma prática de Estágio Curricular que seja significativa para o processo de formação inicial de professores.
Percurso Metodológico

Privilegiei, para este trabalho, a abordagem qualitativa de pesquisa em educação por entendê-la como uma abordagem que corresponde aos objetivos do mesmo, e, por enfatizar a necessidade de compreensão do objeto de estudo, nesse caso, o Estágio Curricular, considerando as relações existentes entre este e os sujeitos envolvidos na questão, a partir da significação que esses sujeitos atribuem ao fato pesquisado (CF. CHIZZOTTI, 2001).

Esta pesquisa pretende ser um trabalho crítico-investigativo de um processo que vem sendo construído com o Estágio Curricular, no Curso Normal Superior da Univap, como alternativa de superação dos modelos convencionais, que prevalecem até os dias de hoje, na formação inicial de professores.

Optei pelos seguintes procedimentos: Num primeiro momento, a análise documental permitiu-me a construção de um arcabouço teórico, utilizado como referência na análise dos dados recolhidos nas etapas seguintes.

Posteriormente, em um segundo momento, realizei entrevistas semi-estruturadas com 12 alunos, a partir de roteiros previamente preparados.

É importante ressaltar que os alunos participantes são alunos do quinto período do Curso. Esse critério se deve ao fato de ser esse período o mais avançado na ocasião da realização desta pesquisa, e os alunos, obviamente, participaram de todo, ou quase todo, o processo de Estágio Curricular.

Em um terceiro momento, outro procedimento metodológico adotado foi o de organização de alguns encontros, definidos como grupos focais, com o objetivo de identificar percepções, sentimentos, atitudes e idéias dos participantes sobre o assunto, bem como, aprender como os participantes interpretam a realidade, seus conhecimentos e suas experiências. Sendo assim, o “objeto de análise é o conteúdo das reuniões em grupo” (OLIVEIRA e FREITAS, 1998).

Esses encontros foram realizados com os 11 alunos, também do quinto período, divididos em dois grupos de discussão, com objetivo e planejamento, previamente definidos, sobre o Estágio Curricular, a partir de quatro eixos suscitados pelo referencial teórico construído no percurso desta pesquisa.

Para a análise dos dados recolhidos, procurei, primeiro, organizar os dados coletados, nas entrevistas e nos grupos de discussão, em quadros temáticos, procurando identificar os temas centrais expressos pelos alunos e professores, em suas falas. Posteriormente, a partir de diversas leituras e análise do material coletado, busquei interpretar a fala dos sujeitos a partir das categorias de codificação, de acordo com o referencial teórico construído.

É importante esclarecer que, no processo de análise das respostas obtidas, procurei observar a significância do objeto em estudo para os sujeitos, mesmo não sendo recorrentes. Busquei detectar os elementos que trouxeram reflexões significativas à temática.


Compreendendo a Realidade

  1. Estágio Curricular: Espaço para aprendizagem

A compreensão do Estágio Curricular como espaço de aprendizagens é apresentada pelos alunos, considerando o que eles apontam como construções significativas desenvolvidas, tanto no momento de Orientação e Planejamento de Estágio, ocorrido na Universidade, quanto da realização do estágio nas escolas-campo.

Uma primeira questão apontada é a organização do estágio a partir dos centros de interesses. Ter um foco, um referencial, um direcionamento é uma questão que se apresenta como segurança para o estagiário nas escolas-campo e confere um sentido, até às atividades básicas de observação. Assim, o permanecer na sala de aula como observador possibilita ao estagiário o desenvolvimento de um processo investigativo cujo objetivo já foi delineado por ele mesmo e/ou pelo grupo.

Associada a essa questão, os alunos consideram que a fundamentação teórica, para a realização das atividades de estágio, é de uma contribuição ímpar, sobretudo pelo papel que a teoria exerce na formação profissional, oferecendo perspectivas de análises para, de um lado, compreender a realidade escolar que se mostra cada vez mais complexa e, por outro lado, por contribuir para que a relação teoria-prática se constitua como um processo de práxis, a todo o momento, possibilitando que o ato de fazer estágio tenha significado na formação inicial dos professores.

Particularmente, para os alunos que já exercem a docência, o estágio foi apontado como um instrumento que favorece a reflexão sobre a sua própria prática pedagógica, na perspectiva de auto-avaliação, uma vez que, para quem atua como professor, não basta fazer estágio e considerar a prática do outro. É preciso que o estágio também realize esse papel de possibilitar o confronto do que se vivencia na escola-campo, enquanto aluno, com o que se vivencia no espaço de trabalho, enquanto professora.

A vivência da troca de experiências é apresentada pelos alunos como possibilidade de partilha com o professor da escola-campo que abre espaço, no seu cotidiano, para a realidade do estagiário, no sentido de percebê-lo como alguém que, também, é comprometido com a profissão do professor; que tem capacidades para desenvolver trabalhos importantes em sala de aula; que traz importantes conhecimentos, e que, na maioria das vezes, é bastante atualizado; que tem vivências e experiências significativas; que apresenta novas idéias, novas propostas à escola.

A troca de experiências, também, é apresentada pelos alunos, como o espaço, na própria Universidade, por intermédio da Orientação e Planejamento de Estágio que é destinada, no currículo de formação, propício a essa vivência.

A socialização das experiências vivenciada no estágio, para os alunos, é considerada um momento muito importante no currículo. Primeiro, porque confere ao aluno o protagonismo da aula e o exercício do trabalho coletivo, do respeito, da escuta, da análise, e, principalmente, da ética para com o professor com o qual é realizado o estágio na escola-campo.

A possibilidade de construir conhecimentos com a prática do outro é uma aprendizagem, descrita pelos alunos como sendo uma mostra do que se deve e do que não se deve fazer. O saber fazer bem é assumido, pelos alunos, como sendo um “modelo”, não a ser seguido, mas que serve como uma referência à sua própria prática futura.



  1. Estágio Curricular: Articulador do currículo de formação de professores.

A compreensão do Estágio Curricular, como um elemento articulador no currículo de formação de professores, é representada, pelos alunos por intermédio das relações que eles realizam entre as diversas disciplinas desenvolvidas no Curso, e a realização do estágio, propriamente dita, na escola-campo.

As metáforas da “ponte”, do “enraizamento”, do “linking”, entre outras, são utilizadas pelos alunos para representar, justamente, essa relação possível de ser feita entre o estágio e outras disciplinas que caminham na direção da interdisciplinaridade, uma vez que uma ação completa a outra.

Outra questão apontada pelos alunos diz respeito à possibilidade de ampliação dos conteúdos trabalhados nos diferentes componentes curriculares do Curso, não só no momento do estágio, como também na sua prática em outra instituição.

O reconhecimento do limite da aula na Universidade favorece a compreensão de que ela não é suficiente para formar um professor, e que as questões nela problematizadas podem ser trabalhadas, posteriormente, durante o estágio, contribuindo com o processo de formação e com a articulação das outras disciplinas no momento do estágio, conferindo-lhe uma característica que ultrapassa a mera prática interpretada como aplicação.

Perceber que é possível, durante o estágio, realizar algumas experiências desenvolvidas nas disciplinas é apontado como positivo, uma vez que não se trata somente de levar o que se constrói em outras disciplinas para o estágio. A problematização realizada anteriormente para a atividade do estágio, o levantamento de hipóteses, a construção teórica em torno da prática a ser vivenciada, o registro da atividade, a análise dos resultados, considerando as limitações e os sucessos, são processos desenvolvidos nessa trajetória de levar à escola-campo qualquer tido de atividade construída nas demais disciplinas do curso.

Um aspecto interessante apontado pelos alunos, quanto à articulação do estágio no currículo de formação, faz referência à permanência do aluno no próprio espaço de aula, na Universidade.

Sentir-se estagiário é uma atitude desenvolvida pelos alunos que, mesmo nas aulas de que participam, no Curso, desenvolvem um processo de observação frente à postura do professor que contribui para a reflexão de sua formação, tendo o professor como referência de alguém que desenvolve uma prática que será a posição do aluno, futuramente, quando formado.

Perceber o estágio como elemento de articulação no currículo de formação atinge o ápice quando os alunos são capazes de transitar em diferentes direções. Ou seja, levar da disciplina para o estágio e trazer do estágio para a disciplina, numa seqüência que não obedece a uma ordem linear lógica.



  1. Estágio Curricular: Elo entre diferentes níveis de ensino

A compreensão do Estágio Curricular, como elo entre diferentes níveis de ensino, é apresentada de diferentes formas pelos alunos, a partir de algumas de suas experiências nas escolas-campo.

No que concerne à instituição como um todo, a rejeição do estagiário, a compreensão equivocada do papel do estagiário na escola-campo são apresentadas, pelos alunos como uma realidade perceptível em diversas instituições.

A utilização do estagiário como alguém que deve estar pronto para fazer qualquer coisa na escola-campo é interpretada pelos alunos como aquele que vivencia o papel de “coringa” dentro da escola-campo. Aquele que deve estar preparado para substituir qualquer outro profissional ou fazer outros serviços, mesmo que não sejam compatíveis com a formação que o estagiário está construindo na Universidade.

Em contrapartida, alguns alunos também experienciam o acolhimento por parte das escolas-campo, o diálogo com os professores que atuam nessas instituições, o exercício da integração do estagiário nos trabalhos desenvolvidos na escola.

Outra questão apresentada diz respeito à percepção quanto à falta de preparação ou, até mesmo, a insegurança de professores para receberem, em suas salas de aula, os estagiários.

Essa insegurança do professor é apontada pelos estagiários quando eles percebem que o professor da escola-campo compromete-se em assinar as fichas de estágio e dispensar o estagiário da permanência deste em sala de aula.

Outra manifestação de insegurança do professor da escola-campo apresentada pelos estagiários, diz respeito à atitude de antecipação do professor nas relações de ensino e de aprendizagem, estabelecidas entre o estagiário e os alunos da escola-campo.

O desconforto com a possibilidade de o estagiário vir a pensar alguma coisa de sua prática se os alunos, por exemplo, responderem algo errado, faz com que o professor adiante-se, interferindo nas respostas que devem ser dadas pelos seus alunos ao estagiário. Ou seja, existe a necessidade de afirmar, de alguma maneira, que sua prática pedagógica é correta, que está sendo bem desenvolvida, que seus alunos estão construindo conhecimentos.

Estágio Curricular: Articulador da relação teoria-prática

A relação teoria-prática é uma experiência bastante complexa na formação de professores, sobretudo porque suas manifestações estabelecem vínculos tanto no espaço de formação inicial, a universidade, como no espaço de trabalho, a escola-campo, onde os alunos realizam seus estágios.

Uma das compreensões do estágio como elemento articulador da relação teoria-prática é testemunhada pelos universitários como uma relação que, apesar dos elementos serem construídos, separadamente, em lugares específicos, é possível relacioná-los em um momento, sobretudo no momento da prática. Também, percebem tal relação como algo indissociável, que é impossível perceber uma demarcação definida do que é a prática e do que é teoria.

A percepção de que a relação teoria-prática não é uma realidade linear, é apresentada pelos alunos quando eles percebem que, na prática de estágio, vivenciada, automaticamente, eles acessam teorias, conhecimentos construídos em outras etapas do Curso.

Uma situação bastante comum, quando se trata da relação teoria-prática, é o exercício da comparação, realizada no estágio, entre o que está se construindo como conhecimento na universidade e o que está acontecendo nas escolas-campo.

Nessa comparação, é comum o reconhecimento, por um lado, da distância entre a teoria e a prática, no trabalho pedagógico desenvolvido nas escolas-campo, bem como a intenção de compreender que cada situação didático-pedagógica apresenta uma realidade, uma história que deve ser respeitada.

A acomodação de alguns professores na escola-campo em uma prática que “dá certo” é analisada, por alguns estagiários, como sendo extremamente prejudicial ao processo de construção de conhecimento que os alunos da escola-campo devem desenvolver. O estacionar em algumas práticas que se tornam repetitivas, não favorece um processo de relação teoria-prática.

Por outro lado, a dificuldade dos estagiários para enfrentarem a contradição existente entre esses dois pólos, teoria e a prática, do fazer pedagógico gera conflitos difíceis de serem trabalhados num primeiro momento. Contudo, superar tais contradições é possível, justamente, a partir do constante e do livre trânsito entre a teoria e a prática.

A relação teoria e prática, por intermédio do estágio, é percebida, também, no sentido de assumir a contribuição que a prática do outro pode oferecer à revisão da própria prática pedagógica dos alunos que já atuam como professores.

Outra questão apontada é a importância de ter o domínio da teoria para poder se posicionar com segurança nas discussões em torno da prática, a fim de que a teoria possa contribuir para o movimento constante de transformação da sua prática.

É interessante perceber que para os alunos a relação teoria-prática não é uma situação a ser vivenciada somente nas escolas-campo, por ocasião do estágio. Percebem que a universidade também precisa pensar nessa relação, e questionar-se enquanto instituição formadora, para buscar adequações curriculares frente às exigências que a realidade escolar apresenta aos profissionais da educação.

Para os alunos, pensar em relação teoria-prática na universidade é compreender a necessidade de uma relação coerente entre os professores que trabalham com as diversas disciplinas e com o estágio.


Considerações finais, porém, provisórias

Confiro a essas últimas palavras o caráter de provisoriedade, uma vez que acredito no processo de inconclusão, no qual esse trabalho está mergulhado, bem como na convicção de que os momentos mudam, de que as idéias evoluem, de que os trabalhos se aperfeiçoam, de que as práticas se transformam, de que as pessoas progridem, de que as questões apresentadas e respondidas, há algum tempo, já apresentam outras interpretações, justificativas e certezas.

Os resultados provisórios alcançados abriram caminhos para que outras questões se apresentassem e que, enquanto pessoas envolvidas com a formação de professores devemos considerar, analisar e assumir novas trajetórias em prol do desenvolvimento de um Estágio Curricular mais significativo e, mais comprometido com os alunos e com as escolas-campo.

Que o estágio é um espaço para aprendizagem, sem dúvida, muitos alunos testemunharam esse fato. Contudo, ele passa ser um estágio que contribui para a aprendizagem, a partir do momento em que foi configurado de uma outra forma; quando as atividades “tradicionais” de estágio (observação, participação e regência) passaram a ser retomadas, em sala de aula, para análise e reflexão; quando outras atividades, vinculadas ao currículo de formação, passaram a fazer parte do estágio; quando, a partir do currículo de formação e do Projeto Pedagógico do Curso, a Orientação e Planejamento de Estágio conquista um espaço significativo no Curso, para que o estágio pudesse, de fato, contribuir, significativamente, no processo de formação inicial de professores.

Identificar algum tipo de aprendizagem construída a partir do estágio, foi a forma que os alunos encontraram para materializar essas aprendizagens que estão, intimamente, vinculadas com a atividade profissional do professor, tanto para aqueles que já atuam por serem habilitados em magistério do Nível Médio, como para aqueles alunos que ainda não têm experiências em sala de aula.

O reconhecimento, pelos alunos, de que o Projeto de Estágio provocou um diferencial no encaminhamento do Estágio Curricular é apontado, sobretudo por ele provocar, a partir de sua concepção, o desenvolvimento de posturas investigativas, a aproximação mais comprometida da prática pedagógica nas escolas-campo, objetivando a sua compreensão, a abertura de espaços para discussões, o apelo para o exercício da interdisciplinaridade.

Em contra partida, assumir, integralmente o Projeto de Estágio no Curso, não se apresenta como uma situação tão simples assim, uma vez que várias situações agravantes apresentam-se como complicadoras no processo.

Muitos alunos manifestam uma certa frustração por não conseguirem realizar o estágio curricular de acordo como é apresentado pelo Projeto, no Curso, e como eles gostariam de desenvolvê-lo.

A maioria dos alunos do Curso Normal Superior da Univap freqüenta o Curso no período noturno e desenvolve uma atividade profissional durante o dia. Se o trabalho está vinculado à área da educação, o estágio passa a ser realizado dentro do próprio espaço de trabalho, nas salas de aula de seus colegas, impossibilitando, assim, a vivência de experiências em outras escolas, em outras realidades, em outros contextos educacionais.

Há também aqueles alunos que são contratados e encaminhados, pela empresas de integração, às escolas-campo, para realizarem o que se convencionou chamar de “estágio remunerado”. Nessas escolas, os alunos se responsabilizam por algumas atividades (provenientes da deficiência apresentada pelo quadro de funcionários) que se tornam permanentes durante o período de permanência do aluno na escola.

Dificilmente, o estagiário, que se encontra nessa situação, tem a liberdade e a possibilidade de deixar o seu “serviço” para participar de outra atividade na escola, para acompanhar outra situação pedagógica com um outro professor que, talvez lhe seria interessante para o processo de sua formação dentro da escola.

Na verdade, para os alunos, esse tipo de estágio tornou-se uma fonte de renda, um trabalho com uma baixa remuneração, uma oportunidade para o ingresso no mercado de trabalho, onde as atividades desenvolvidas, pelos estagiários, estão centradas, muito mais, na resolução de problemas apresentados pelo cotidiano das escolas-campo, do que voltadas para contribuir com as necessidades do processo de formação do aluno que se encontra na escola-campo, na condição de estagiário.

O problema se agrava, ainda mais, quando o aluno desenvolve sua atividade profissional fora da área da educação. Como é caso de alunos que trabalham no comércio, na indústria ou em outros setores mais diversificados, por tempo integral, o que significa não ter tempo, durante o dia para a realização do seu estágio, sistematicamente.

Para esses alunos, o estágio acaba por se concentrar num período único de férias ou de licenças, assumindo a característica do simples cumprimento das horas necessárias; impossibilitando o desenvolvimento de atividades de estágio vinculadas ao currículo de formação; dificultando a real articulação entre a teoria e a prática; bem como, o acompanhamento mais sistemático desse aluno que, por intermédio do estágio, está experimentando uma primeira aproximação da prática pedagógica desenvolvida por professores nas escolas-campo.

Essas questões pontuadas nos fazem pensar na própria organização do Estágio Curricular que deve atender as necessidades desse corpo discente que apresenta essas diferenças que são contrastantes. Responder a essas necessidades é um imperativo ético do Curso que se propõe formar professores. Logo, todos os alunos, independente de suas condições, têm o direito de ser considerado por um processo de formação profissional de qualidade.

No desenvolvimento do Estágio Curricular também foi apontado, pelos alunos, como uma situação a ser construída e enfrentada pela universidade, a integração da mesma com as escolas-campo, uma vez que, é de responsabilidade da Instituição Formadora, o desenvolvimento e o acompanhamento do Estágio Curricular realizado nas escolas-campo.

A distância entre a universidade e as escolas-campo é ainda agravada pelo grande número de alunos que, atualmente, freqüentam o Curso Normal Superior da Univap, e, estão em situação de estágio; pelo grande número de alunos que assumem o estágio a partir das empresas de integração e passam a ser considerados como um “funcionário” da escola e não como um aluno universitário em formação; pelo grande número de escolas-campo que recebem o estagiário, e, finalmente, pelo pequeno número de professores envolvidos com as questões pertinentes ao Estágio Curricular, o que inviabiliza a proximidade com todas as escolas-campo.

Um outro movimento apresentado como necessário, para o bom desenvolvimento do Projeto de Estágio, diz respeito a sua dimensão coletiva, que atinge seu ápice no exercício da interdisciplinaridade, entendida como a disposição para o estabelecimento de parcerias entre os profissionais envolvidos no Curso e entre as disciplinas, o exercício do diálogo para que, na troca do trabalho realização por cada disciplina, o estágio pudesse assumir-se enquanto articulador.

Na verdade, essa dimensão da interdisciplinaridade, entre os professores, fica comprometida quando percebemos que, institucionalmente, esse espaço para o diálogo e para a troca não se sistematiza como necessário ao desenvolvimento do trabalho.

A tendência do trabalho individualizado que ainda atinge muitos professores, na academia, impossibilita uma tentativa natural do exercício dessa interdisciplinaridade solicitada pelo Projeto Pedagógico e pelo Projeto de Estágio, ficando, esse exercício, relegado aos momentos de corredores, nos intervalos, nas conversas informais, onde, em geral, o professor que assume a Orientação e Planejamento de Estágio precisa estar a par do que outros professores estão trabalhando para conduzir as atividades de estágio em coerência com o que está sendo desenvolvido naquele semestre com os alunos.

Em contra partida, é interessante perceber que os alunos testemunharam, por diversas vezes, a experiência da interdisciplinaridade realizada por eles mesmos, no momento do estágio, na escola-campo, ou na universidade, motivados pelas discussões emergidas na Orientação e Planejamento de Estágio, e, pelas relações que foram possíveis de serem feitas a partir desses momentos privilegiados no currículo.

Considerando a Orientação e Planejamento de Estágio como um dos espaços destinados, no currículo de formação inicial de professores do Curso Normal Superior da Univap, para a articulação entre a teoria e a prática, evidenciamos que, para os alunos, esse espaço apresenta-se como um espaço enriquecedor no currículo, que acaba por dar sentido ao estágio realizado nas escolas-campo, uma vez que é possível, nesse espaço, dialogar, trocar experiências, buscar informações, construir conhecimentos, instigar a realidade, desenvolver a criticidade, refletir sobre a própria prática na dimensão da auto-avaliação.



Finalmente, a partir dessas considerações delineadas pela trajetória percorrida, podemos concluir, embora de maneira provisória, que:

  • O ponto de partida para a organização do trabalho com o Estágio Curricular é determinado pelo Projeto Pedagógico do Curso, que deve ser assumido pelo coletivo de seus protagonistas, professores e alunos.

  • O Estágio Curricular cumpre o seu papel, no curso de formação inicial de professores, quando é interpretado enquanto uma postura a ser assumida, antes de ser um rol de atividades a serem desenvolvidas.

  • O Estágio Curricular, sendo um componente obrigatório no curso de formação inicial de professores, é significativo quando possibilita a construção de aprendizagens relevantes, a partir da aproximação da prática pedagógica nas escolas-campo.

  • É possível construir aprendizagens relevantes no desenvolvimento do Estágio Curricular quando sua realização esta, intimamente, vinculada ao currículo de formação, possibilitando, assim, a real articulação entre a teoria e a prática, mediante o exercício da reflexão sobre a prática.

  • O Estágio Curricular realiza o seu papel quando é possível efetivar a relação entre os diferentes níveis de ensino, considerando que a universidade, responsável pelo aluno e pelo estágio, deve tomar a iniciativa de colocar-se como parceira das escolas-campo, e valorizar a contribuição destas, no processo de formação inicial de professores.

  • O espaço para a Orientação e Planejamento de Estágio cumpre o seu papel quando o exercício da interdisciplinaridade, entre os professores e as disciplinas, assume um papel relevante na organização do Curso.

Ao rafirmar a provisoriedade deste trabalho, desejo que o mesmo estimule um redimensionamento, frente ao Estágio Curricular, bem como, novos estudos, novas discussões, novas tomadas de decisões.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Célia Schmidt. Estágios curriculares como mecanismo de retroalimentação do sistema de ensino. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1978.

ALMEIDA, Jane Soares de. Estágio Supervisionado em prática de ensino – relevância para a formação ou mera atividade curricular?. IN: Revista ANDE, v. 13, nº 20, 1994. p. 39 – 42.

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