Saudação Professor boaventura de sousa santos



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Encontro02.08.2016
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Saudação Professor BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS

 

 



Confesso que hesitei bastante. Como iniciar, como apresentar um ícone, agradecer o que não tem preço, a presença do Professor Boaventura entre nós? Dizer que é uma honra tecer algumas palavras para homenageá-lo, além de ser pouco, dá apenas uma pálida ideia de minha alegria e orgulho por ser o anfitrião deste encontro entre o Ministério Público brasileiro e o sociólogo, e jurista, e referência mundial na luta pelos direitos humanos. Mas eis que, na undécima hora, o Presidente do STF, como um heroi de “banda desenhada” (arte apreciada pelo Professor Boaventura), vem de me socorrer. Foi há uma semana, em Brasília, que o Presidente do CNJ, envolto, com a “Justiça em números”, destacou o lado poeta de Boaventura de Sousa Santos, os poemas encantadores do “antimanifesto do Escrita INKZ”. E pronto, agarrei o fio de Ariadne, como o rabo da pipa no céu azul de Jacarezinho/Pasárgada, para evocar o pluralismo vivenciado pelo Professor Boaventura no Brasil do anos 70...

Formalmente, assim, me dispenso de consignar o que já consta dos registros acadêmicos, científicos e políticos: as inúmeras obras, pesquisas de ponta, intervenções sociais, construção do Fórum Social Mundial, os tantos honoris causa. Nem precisaria dizer que o Professor, como imagino que Fabio Konder Comparato o saudaria, é uma figura exemplar, inspiradora para o Ministério Público e, muito especialmente, para este Grupo de Trabalho que, reanimado nesta pajelança, saberá multiplicar, de forma juridicamente consistente e com efetividade, as lutas pelos direitos humanos, uma outra fórmula expressiva para dignidade das pessoas – conceito mobilizador que a hemenêutica diatópica do Professor Boaventura consegue traduzir, no diálogo intercultural, e aproximar do “dharma” hindu e da “uma” do Islã.

 Mas, já que me dispensei, com o Ministro Ayres Britto, da academia, quero encilhar o potro, nestes pagos do Rio Grande, na racionalidade estético-expressiva das artes e da literatura – vale dizer, me permito romper com um certo colonialismo instrumental-congnitivo da ciência moderna e moral-prático do direito e do positivismo jurídico. Ao poeta e artista, e também aos colegas de todo o Brasil, mesmo sabendo que sempre restará muito que não se consegue dizer, quero ofertar, também pelo gesto, o Tempo e o Vento, a mais famosa saga da literatura Brasileira, escrita ao longo de 27 anos por Érico Veríssimo, este gaúcho de Cruz Alta que, um pouco como o Professor Boaventura, um visitante em terras estrangeiras, também lecionou nos Estados Unidos, em Berkeley (de 1943 a 1945), para onde voltou entre 1953 e 1956, como secretário cultural da OEA. Érico que, para não deixar dúvidas, mesmo na época da ditadura e nas suas palavras, se considerava “dentro do campo do humanismo socialista, mas – note-se – voluntariamente e não como prisioneiro”.

Na trilogia que abarca a história do Rio Grande do Sul e do Brasil, o que é dizer da América e do Mundo, de 1745 a 1945, sua literatura nos conduz, das Missões Jesuíticas à Primeira Queda de Vargas, num constante ir e vir de passado e de presente, duzentos anos pelas mãos de personagens inesquecíveis, e sem concessões ao “romance engajado”, ao “panfletismo estéril”. Personagens que têm dúvidas, que são contraditórios, herois e bandidos... Como diz um deles, “a culpa é do vento. A gente fica meio fora de si. É essa maldita ventania”. Sempre o mesmo Minuano, que, de tempos em tempos, nos transborda.  Vento que fustigou o Capitão Rodrigo e, tempos antes, Pedro Missioneiro. Vento que, com sensibilidade, transporta e desvela sofrimentos, violações de direitos humanos tantas vezes invisibilizadas como tais, se me permitem breve digressão. Um vento de viração, que instiga a ampliar o cânone (o tempo científico e político) dos direitos humanos. Um vento que faz o sofrimento, a seu tempo, contar como sofrimento, ser visto como sofrimento – é a pauta da sociologia das ausências, se faço boa leitura.

No vento das letras, a saga, segundo a árvore genealógica da família Terra Cambará, começa, num pilar, com Pedro Missioneiro, o menino que vive numa das missões jesuíticas e assiste à derrota de seu povo – melhor, cabe precisar, começa antes: Pedro era filho de um bandeirante paulista e de uma índia, uma guarani! E se a história prossegue, naquele mosaico de violência crua, política e doméstica, guerreiros nômades, revoluções com degola, a trama da família, todavia, nunca será dominada pelos homens poderosos. São as mulheres as protagonistas, as vozes femininas, enlutadas, oprimidas, o ângulo das perdedoras, frágeis numa sociedade machista, mas que resistem e garantem a subsistência e o futuro de seus descendentes. Ana Terra, Bibiana Cambará, Luzia Silva.  Noutros tempos, mulheres de Atenas, mirem-se no seu exemplo...

Mas, voltando ao vento e saltando no tempo, dentre os guaranis-kaiowás que sensibilizaram o país na semana passada, de Mato Grosso do Sul para o mundo, será que não encontraremos, na tribo acossada e dispersa, reduzida, um tataraneto da mesma índia guarani mãe de Pedro Missioneiro? Brasileiros e índios que nos disseram, em comunhão com suas terras, numa carta comovente: “... não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa...” – mensagem que alguns lemos como ameaça de suicídio coletivo e que, de todo modo, engordaria uma das mais altas taxas de mortalidade em todo o mundo (70 suicídios por cada 100 mil habitantes, contra a média “aceitável” da ONU, de 12 por 100 mil). Aliás, no “Arquipélago”, terceira parte da saga, já se observa a migração, a grande marcha para oeste de agricultores gaúchos... A utilização de agrotóxicos, a monocultura da soja, o direito ao desenvolvimento, nossos dilemas civilizatórios, há uma série de pistas que a racionalidade estético-expressiva permite vislumbrar – e que nos cabe perseguir. Deram-se conta do nome da Fazenda objeto da reintegração de posse no conflito do Mato Grosso do Sul? Fazenda Cambará!

E assim vamos nós, no tempo de nossas lutas e resistências, ao vento de prosa e verso. O Professor Boaventura, noutra transgressão de sensibilidade multicultural, escreveu o “Rap Global”, que se não me engano vai virar ópera. A arte afirma seu poder revolucionário na medida em que colabora com o projeto de emancipação social, diz o sociólogo, certo de que o rap e o blues não poderiam ter sido inventados pela classe dominante. Lembrei de duas músicas brasileiras, da nova sofra. Na primeira, Thaís Gulin, ao título de “Cinema americano”, refere, lá pelas tantas: “... Tão quadrado tão fundamental/Tão bom tão lindo tão livre tão Nova York/Tão grana tão macho tão western tão Ibope/Racistas paternalistas acionistas/Prefiro os nossos sambistas...”.  E, num rap chamado “Linhas tortas”, Gabriel o Pensador explica porque desistiu de um cachê por um show musical, mas compareceu à Feira do Livro de uma cidade do interior gaúcho, próxima daqui: “Tudo começou na aula de português (...) Então eu descobri que já nasci com esse problema/Eu gosto de escrever, eu gosto de escrever, crer, ver/Ver, crer, eu gosto de escrever e escrevo até poema/Meu Pai, eu confesso, eu faço prosa e verso”.

Professor Boaventura, peço que leve sete livros que simbolizam nosso tempo e nosso vento. Deixe-nos em troca, apenas, sua prosa e verso. Não se perderão no vento e ajudarão nas lutas de todos os tempos.

Muito obrigado por sua presença exemplar.

Muito obrigado por tudo que nos tem proporcionado.



 


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