Segunda Parte I o magnetismo e sua história



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Artigos Espíritas
Extraídos da obra
Gabriel Delanne - O Espiritismo Perante a Ciência
Segunda Parte
I - O magnetismo e sua história

II - O sonambulismo natural

III - O sonambulismo magnético



Segunda Parte

I
O magnetismo e sua história


Saindo das graves discussões dos capítulos precedentes, parecerá talvez bizarro a certas pessoas, que entremos num assunto como o magnetismo, ciência que até então não pôde achar direito de cidade nas academias.

Muito tempo desconhecido, ridicularizado e mesmo perseguido, o magnetismo, como todas as grandes verdades, tem vida forte; longe de definhar ao sopro das perseguições, tomou um desenvolvimento considerável e se nos apresenta com seu cortejo de homens ilustres e eruditos, com milhões de experiências probantes, como para mostrar à Humanidade de que aberrações são capazes as corporações científicas.

Há hoje uma reação em seu favor. Em todas as partes, os jornais e as revistas médicas se ocupam com os fatos maravilhosos produzidos pelo hipnotismo, nome novo de que o magnetismo se revestiu. Ao abrigo desse pseudônimo, insinuou-se no santuário dos príncipes da ciência, que o não reconhecendo, a princípio, lhe fizeram boa acolhida; agora, porém, sabendo com que tratam, desejaria negar-lhe o parentesco estreito com o magnetismo, que continuam a proscrever.

Antes de estudar esse recém-chegado em capítulo especial, ocupemo-nos do magnetismo propriamente dito. Na primeira parte desta obra, ficou estabelecido que a ciência não autorizava ninguém a falar em seu nome, quando se trata de combater a existência da alma. Os mais eminentes fisiologistas reconhecem sua incapacidade para explicar a vida intelectual, sem a intervenção de uma força inteligente. A filosofia concluiu pela necessidade do princípio pensante; a experiência, por sua vez, prova à evidência, pelos processos do magnetismo, a presença da alma como potência diretriz da máquina humana.

Há um século pesquisas minuciosas se fazem nesse domínio. Homens sérios, convictos e dedicados mostraram que o charlatanismo não tem parte alguma nas verdadeiras ações magnéticas e que se achavam em face de uma modificação nervosa que era preciso estudar.

Puységur, Deleuze, Du Potet, Charpignon, Lafontaine e outros, homens de ciência e de incontestada honestidade, descreveram, em suas numerosas publicações, milhares de experiências verídicas, que constam em atas assinadas pelos nomes mais honestos e mais conhecidos. Negar hoje os fatos seria infantilidade ou má-fé.

A fim de mostrar nossa imparcialidade, só tomaremos, como demonstração da existência da alma, as experiências bem averiguadas; reportar-nos-emos, em grande parte, ao relatório sobre o magnetismo apresentado à Academia de Medicina, e lido nas sessões de 21 e 28 de junho de 1831, em Paris, por Husson, relator.

Os outros testemunhos serão tomados, ora a adversários das doutrinas espiritualistas, que não poderão ser acusados de complacência, ora a escritores especiais, que trataram destas questões, mas, neste caso, as suas narrativas se apóiam na autoridade de médicos, que as acompanharam em todas as suas fases.

Deste modo, poderemos raciocinar sobre observações autênticas e delas tirar conclusões tão claras como as que se deduzem do estudo da natureza e que foram formuladas sob o nome de leis físicas e químicas.

Histórico

A ciência magnética compreende certo número de divisões, conforme as diferentes categorias de fenômenos. Assinalaremos, aqui, os fatos que se relacionam com o desprendimento da alma, deixando de lado o aspecto terapêutico dessa ciência cultivada pelos nossos antepassados.

Sem fazer a história detalhada do magnetismo, podemos lembrar que ele foi conhecido em todos os tempos. Os anais dos povos da antigüidade formigam em narrativas circunstanciadas, que mostram o profundo conhecimento que do magnetismo tinham os antigos sacerdotes.

Os magos da Caldeia, os brâmanes da índia curavam pelo olhar e por meio dele proporcionavam o sono. Ainda hoje, na Ásia, os sacerdotes estão de posse do segredo dos seus predecessores, e particularmente no Hindostão os faquires cultivam com êxito as práticas magnéticas, como relatam os viajantes que percorreram essas regiões.

Os egípcios colheram sua religião e seus mistérios na grande fonte da Índia; empregavam, no alívio dos sofrimentos, os passes e a aposição de mãos, como os executamos ainda em nossos dias. Cita Heródoto, em muitas passagens, os santuários onde iam ter os peregrinos, desejosos de curar-se com os remédios que os hierofantes descobriam em sonho. Diodoro de Sicília diz positivamente que os doentes chegavam em multidão ao templo de Ísis, para aí serem adormecidos pelos sacerdotes. A maior parte dos pacientes caíam em crise e indicavam, eles mesmos, o tratamento que os devia reconduzir à saúde.

O templo de Serápis, de Alexandria, era afamado, porque restituía o sono aos que dele se viam privados. Conta Estrabão que, em Mênfis, os sacerdotes adormeciam e nesse estado davam consultas médicas. A História está repleta das narrações de curas por esse processo. Arnóbio, Celso e Jâmblico ensinam em seus escritos que havia entre os egípcios, em todas as épocas, pessoas dotadas da faculdade de curar por meio da aposição das mãos e de insuflações, conseguindo, muitas vezes, fazer desaparecer doenças tidas como incuráveis.

Os gregos, por sua vez, receberam dos povos do Egito grande número de conhecimentos e não tardaram a igualar, senão a ultrapassar os mestres. Os hierofantes do altar de Trofônius tinham adquirido grande celebridade nesses misteres. O que prova que o magnetismo estava muito espalhado nessa época é que, no dizer de Heródoto, alguns padres mataram por ciúme certa mágica que fazia curas por meio de fricções magnéticas.

O ilustre taumaturgo Apolônio de Tiana não ignorava essas práticas; ele curava a epilepsia com objetos magnetizados, predizia o futuro e anunciava os acontecimentos que se passavam ao longe. Conserva-se a lembrança do seguinte caso:

Em sua velhice, o filósofo se refugiara em Éfeso. Ensinava um dia em praça pública, quando seus discípulos o viram deter-se, de repente, e exclamar, com voz vibrante: “Coragem, fere o tirano!” Interrompeu-se alguns instantes, na atitude de quem espera com ansiedade, e continuou:

– Perdei o temor, Efésios, o tirano já não existe, acaba de ser assassinado.

Alguns dias depois, soube-se que no momento em que Apolônio falava, Domiciano tombava sob o punhal de um liberto.

Os romanos também tiveram templos onde se reconstituía a saúde por operações magnéticas. Conta Celso que Asclepíades de Pruse adormecia, magneticamente, as pessoas atacadas de frenesi. Galeno, um dos pais da medicina moderna, suprimia certas doenças com a aplicação dos mesmos remédios que o fizeram passar por feiticeiro e o obrigaram a deixar Roma.

Declarou este notável sábio, que devia grande parte de sua experiência às luzes que recebia em sonho. Também dizia Hipócrates que as melhores mezinhas lhe eram indicadas durante o sono. Quem obteve, porém, maior fama nessa matéria, foi Simão, o mágico, que soprando nos epilépticos, destruía o mal de que estavam atacados.

Na Gália os druidas e as druidesas possuíam em alto grau a faculdade de curar, como o atestam muitos historiadores; sua medicina magnética tornou-se tão célebre que os vinham consultar de todas as partes do Mundo. É fácil verificar quanto sua fama era universal, consultando Tácito, Plínio e Celso. Na Idade Média, o magnetismo foi praticado, principalmente, pelos sábios. O clero, ignorante e supersticioso, temia a intervenção do diabo nessas operações um tanto estranhas, de sorte que esta ciência ficou sendo o apanágio dos homens instruídos.

Avicena, doutor famoso, que viveu de 980 a 1036, escreveu que a alma age não só sobre o seu próprio corpo, senão ainda sobre corpos estranhos que pode influenciar, à distância.

Ficin, em 1460, Cornélio Agripa, Pomponáceo em 1500 e sobretudo Paracelso, contemporâneo deles, estabeleceram as bases do magnetismo moderno, como devia ser ensinado mais tarde por Mésmer.

Arnaud de Villeneuve foi buscar nos autores árabes o conhecimento dos efeitos magnéticos e seu êxito foi tão grande que ele atraiu o ódio de seus confrades e foi condenado pela Sorbona.

Em 1608, Glocênius, professor de medicina em Marbourg, editou uma obra que tratava das curas magnéticas. Desde essa época ele procurou dar uma explicação racional desses fenômenos.

Van Helmont dizia, reabilitando a memória de Paracelso, de quem ele foi o continuador: O magnetismo só tem de novo o nome, só é um paradoxo para os que riem de tudo e que atribuem a Satã o que não podem explicar. Há no homem – diz mais adiante – uma tal energia, que ele pode atuar fora de si e influenciar de maneira durável um ser ou um objeto de que está afastado. Tal força é infinita no Criador, mas limitada na criatura, pelos obstáculos naturais. Estas concepções novas, estas vistas ousadas foram atacadas pela Igreja, que se encontra sempre na rota dos inovadores, empenhada em lhes impedir a passagem, e o célebre médico foi obrigado a refugiar-se na Holanda, onde já estava o grande Descartes.

Socorreu Van Helmont, em sua luta, o escocês Robert Fludd; mais tarde, Maxwell, em 1679, sustentou as mesmas idéias. O padre Kircher, falando de Fludd, dizia que seus escritos foram inspirados pelo diabo; cita, entretanto, numerosos exemplos de simpatias e antipatias e dá, mesmo, indicações para bem magnetizar.

Em 1682, assinalaremos Greatrakes, na Inglaterra, que fez milagres, simplesmente com as mãos, sem procurar, aliás, saber a maneira pela qual a ação se dava.

Em França, Borel e Vallée, no começo do século XVII, empregaram o magnetismo por insuflações para combater as moléstias nervosas rebeldes a qualquer outro tratamento. Gassner encheu a Alemanha com o ruído dos resultados obtidos pelo magnetismo, como é ele praticado em nossos dias. Fixava energicamente o olhar nos olhos do doente e o friccionava de alto a baixo, sacudindo os dedos, quando chegava à extremidade, para expulsar os princípios maus.

Não narraremos a odisséia de Mésmer; ela é bastante conhecida e por isso cremos desnecessário reproduzi-la; basta assinalar que a vulgarização da ciência magnética lhe é devida.

O magnetismo é hoje estudado metodicamente, e uma notável propriedade descoberta pelo marquês de Puységur lhe fez dar passos de gigante: queremos falar do sonambulismo provocado, que será objeto de nosso próximo estudo. Não tendo o intuito de estender-nos sobre a história do magnetismo, paramos aqui. Era apenas nossa intenção mostrar que esta ciência, motejada pelos ignorantes ou parciais, tem uma genealogia gloriosa e remonta a épocas bem afastadas.

Ainda há pouco tempo, atribuíam-se à credulidade e à superstição as narrativas dos antigos relativas às curas magnéticas. Atualmente, as pesquisas nesse campo tendo-nos feito ver que se podiam obter os mesmos resultados, enchemo-nos por isso de admiração por esses sacerdotes que possuíam uma ciência tão completa da vida e que a exerciam com tanta habilidade.

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