Segunda Parte I o magnetismo e sua história



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Vemos nesta observação um homem sujeito a ataques epilépticos durante dez anos. O magnetismo atua nele, embora ele ignore o que se lhe faz. Torna-se sonâmbulo; melhoram os sintomas da doença, os acessos diminuem; as dores de cabeça e a opressão desaparecem, sob a influência do magnetismo; ele prescreve um tratamento apropriado à natureza do seu mal, com o qual promete a cura. Magnetizado, sem o saber e de longe, cai em sonambulismo, donde é retirado com a mesma prontidão com que é magnetizado de perto. Indica, enfim, com rara precisão, um mês ou dois antes, o dia e hora em que deve ter um ataque de epilepsia. Entretanto, dotado de previsão para acessos afastados, e ainda mais para acessos que não se realizarão, não prevê que dois dias mais tarde será atingido por um acidente mortal.

Sem procurar indagar o que semelhante observação pode ter de contraditório à primeira vista, a Comissão faz notar que as previsões de Cazot só se referem a seus acessos, que eles se reduzem à consciência das modificações orgânicas que se preparam, e são como o resultado necessário das funções internas; que essas previsões, apesar de mais extensas, são inteiramente semelhantes às de certos epilépticos, os quais reconhecem, por certos sintomas precursores, que irão ter um acesso. Seria de espantar que os sonâmbulos, cujas sensações são mais vivas, como vimos, pudessem prever seus acessos, muito tempo antes, por alguns sintomas ou impressões internas que escapam ao homem acordado?

É dessa forma que se poderia compreender a previsão atestada por Arétée, em duas passagens de suas obras imortais, por Sauvage, que refere um exemplo e por Cabanis.

Acrescentemos que a previsão de Cazot não é rigorosa, absoluta, mas condicional, pois que, predizendo um ataque, diz que ele não se dará se o magnetizarem; ela é toda orgânica, interna. Concebemos porque ele não predisse um acontecimento externo, a saber, que o acaso lhe faria encontrar um cavalo fogoso, ao qual teria a imprudência de querer deter, e que receberia uma ferida mortal.

Ele pôde prever um ataque que nunca se deveria dar; foi como o ponteiro de um relógio, que deve percorrer, em um tempo dado, certa porção do círculo do mostrador, e que não o descreve por que o relógio se quebra.”

O Doutor Husson define perfeitamente o papel do sonâmbulo na previsão. É o de um espectador que examina o jogo dos órgãos de uma máquina e percebe que, em dado momento, produzir-se-á um acidente. Neste exemplo, a alma afirma-se independente do corpo, pois que julga, calcula, raciocina, e indica exatamente as crises que se realizarão em um tempo muito afastado.

Deve-se convir que o preconceito está profundamente enraizado no coração humano, porque esses fatos se produzem há um século, claramente, não isolados, mas na Europa inteira, e ainda se encontram sábios, pouco ciosos do seu nome, que ridicularizam tais práticas e lhes chamam simples imposturas charlatanescas.

Os casos que relatamos têm, entretanto, tanta autenticidade como qualquer fenômeno físico ou químico. Sábios de primeira ordem, uma comissão da Academia, proclamaram a verdade e o caráter científico desses estudos; eis por que nos assiste o direito de afirmar que temos em mãos a prova experimental da existência da alma.

Quando se vê um homem ou uma mulher em sonambulismo, isto é, em um estado tal que as mais violentas ações físicas são incapazes de lhe produzir a menor impressão; quando se verifica que este ser, que se acreditaria morto, vê, ouve o magnetizador, designa os objetos colocados atrás de si; indica o que se passa, não só na casa, mas também a grande distância, como duvidar que reside nele um agente que não obedece às leis da matéria, como recusar a evidência?

Esse indivíduo, no qual os órgãos sensoriais são inativos, tem uma percepção mais viva, mais nítida que em estado ordinário; prevê os acidentes que hão de sobreviver no curso de sua doença; enfim, dá todos os sinais de uma atividade intelectual mais intensa, mais penetrante que a dos assistentes. Francamente, perante esse conjunto esmagador de provas, diremos que é impossível negar a alma.

O magnetismo não tem que lutar somente contra os materialistas, senão também com os incrédulos, mesmo espiritualistas.

Bersot, que escreveu interessante volume sobre o magnetismo, passa em revista os fenômenos naturais que apresentam analogias com o Mesmerismo e o Espiritismo. Nós os reencontraremos em outro capítulo para o que diz respeito a esta última ordem de idéias; aqui só nos ocupamos do sonambulismo.

Bersot pretende explicar os fatos maravilhosos que verificamos. Vejamos como. Em primeiro lugar não nega o sono sonambúlico:

“No magnetismo animal o que parece incontestável é o sono, a insensibilidade e a obediência ao magnetizador. Não falemos da insensibilidade, que é um fato comum; o sono é artificial e não é menos real por isso; só há que discutir o artifício.”

Muito bem. Mas se a insensibilidade está tão bem averiguada e é tão comum, porque diz ele, mais adiante, a propósito dos gestos que o sonâmbulo reproduz:

“Não é certo que os sentidos, neste estado extraordinário, estão bastante excitados para perceber o que, de outro modo, lhes seria insensível; que o ouvido apanha o movimento indicado e sua direção, que o tato julga pela impressão do calor proveniente de um corpo que se aproxima ou se afasta? Explicando-se as coisas assim, prescinde é verdade, do mistério, mas eu, confesso, sou um dos que se contentam com os mistérios que já existem no Mundo, e que não introduzem outros por prazer.”

Suprimindo, com tão lógicas explicações, os casos embaraçosos, é difícil a Bersot encontrar mistérios. Tão trivial lhe parece a insensibilidade, que dela não se quer ocupar, e duas páginas adiante arrisca uma teoria que se baseia, pelo contrário, numa sensibilidade muito maior que a do estado ordinário. Para um crítico, isto não é convincente.

Muito lhe custa ter que recusar aos sonâmbulos a previsão do futuro; convidamo-lo a ler o relatório de Husson e isto o aliviará de grande peso.

Enfim, declara que não acredita na vista através dos corpos; é uma infelicidade, contra a qual nada podemos; mas entre sua incredulidade e a afirmação dos homens de ciência, já citados, não hesitamos: cremo-los mais aptos a decidir que Bersot.

O autor declara que não tem repugnância em admitir a comunicação de espírito a espírito, mas não pode crer que ela se estabeleça entre magnetizador e sonâmbulo, porque, diz ele, quando a alma está no corpo, só se pode comunicar sob certas condições físicas, que não se desprezam à vontade.

Certamente. Se quisermos, no estado normal, ler o pensamento de outrem, haveria alguma dificuldade na operação, apesar de ter Cumberland dado provas de que isso não é impraticável. Mas, na espécie, o sonâmbulo se acha em estado especial, com a alma desprendida, ou menos ligada ao corpo, o que lhe permite a radiação à distância, a clarividência.

Eis a que se reduzem as objeções; é tudo o que os críticos mais credenciados encontram como “explicação” dos fatos do sonambulismo. Deve reconhecer-se que seus leitores não são difíceis de satisfazer, uma vez que se contentam com tão magros argumentos. Entretanto, o fato ou existe ou não existe. Se ele existe, dai-vos ao trabalho de o verificar cuidadosamente e trazei-nos argumentos plausíveis, em vez de vossas negações que sobre nada repousam; se ele não existe, é inútil, então, discutir.

Vejamos outro exemplo da desenvoltura com que Bersot explica os fatos maravilhosos. Ouçamo-lo:

“O dom de falar línguas desconhecidas que se encontra tantas vezes entre os convulsionários das Cevenas, e que vemos em certos doentes convulsivos, sugere uma reflexão. Se forem línguas existentes, mas que o doente nunca lera ou ouvira falar antes, que se nos permita negar simplesmente o fato, sem maiores explicações.”

É mais fácil que fazer compreender como se pode produzir o fenômeno, e duvidamos que Bersot convença muita gente com a eloqüência persuasiva que emprega; confissão é essa de impossibilidade, que é bom registrar. Mas se a negação pura tem seus atrativos, não rivaliza com a explicação dada para o caso em que o doente fala uma língua de que ouviu algumas palavras, ao acaso, como o latim, que tem passado mais ou menos pelos olhos de todo o mundo.

Esse prodígio é devido tão-só a uma excitação da memória e da inteligência. Por exemplo, se um sujeito, durante a crise, fala o latim, é simplesmente porque ouviu o cura da aldeia ou o médico da terra pronunciarem algumas palavras nesse idioma. E ele empregará, então, no seu discurso, regras gramaticais que nunca aprendeu, vocábulos que nunca feriram seu ouvido; mas não importa, é tudo determinado por uma superexcitação da memória e da inteligência.

Francamente, é difícil zombar dos homens com maior desenvoltura. Cremos sonhar, lendo coisas que tais, e os espíritas, tachados de loucos e impostores, nunca pregaram teorias tão absurdas e tão contrárias ao bom senso.

A despeito de todas as críticas, diremos com Charles Richet: – “Desde 1875, os numerosos autores que se deram ao estudo do magnetismo tiraram todos, sem exceção nenhuma, a conclusão de que o sonambulismo é um fato indiscutível.”




iVer todas as atas nos cursos de Magnetismo do Barão du Potet.

iiA semelhança afirmada não existe entre as palavras portuguesas saúde e bondade e entre felicidade e doçura, mas existe realmente entre as palavras correspondentes francesas: santé e bonté, bonheur e douceurr. (N.E.)



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