Seminário da prainha: limites e possibilidades da “ego-história” como opçÀo metodológica



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SEMINÁRIO DA PRAINHA: LIMITES E POSSIBILIDADES DA “EGO-HISTÓRIA” COMO OPÇÀO METODOLÓGICA
Gisafran Nazareno Mota Jucá1

A ânsia de penetrar no labirinto da “Ego—história me acompanhou no curso “do fio e dos rastros,” (GINZBURG, 2007) da minha experiência existencial, mesmo antes de que esta opção metodológica fosse inserida na produção acadêmica.Se esse desafio persistiu, ao longo de mais de meio século existencial, por outro lado sempre o senti barrado, pois a sua representação se me afigurava de uma forma desestimulante.Entretanto, graças à descoberta do alcance da “História Oral” e às revelações dos encontros da Associação Brasileira de História Oral, (ABHO) , as fronteiras entre história e memória, ao invés de constituírem uma barreira, afloravam como representações que possibilitavam aproximar o que parecia impossível.É como se fossem duas fontes, em posições paralelas, mas com traços comuns, simbolizados pela água cristalina fluída. Mas foi sobretudo a leitura de Memórias, Sonhos e Reflexões, de Jung,2 que me fez descobrir às dimensões do inconsciente:


Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nela repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade. A fim de descrever esse desenvolvimento, tal como se processou em mim, não posso servir-me da linguagem científica; não posso me experimentar como um problema científico. (JUNG, 2006:31)

O pesado conceito do que se concebia como científico explica o dilema de Jung em aproximar o seu mundo interior do crivo acadêmico de sua época, panorama bem diferente dos dias atuais, onde o “não dito” e a “desconstrução” expressam a ânsia de romper com verdades anteriormente consagradas.

Na realidade, o termo labirinto me remete à infância, às leituras de histórias, que eram transmitidas em uma das produções de Monteiro Lobato. Acho que não era a sua conhecida “História do Mundo para Crianças”, presente do mano Adalfran, onde pela primeira vez ouvi falar do evolucionismo, inclusive com ilustrações sobre a formação do sistema solar; mas era uma outra, das suas muitas produções, que aproximavam o cotidiano do mundo rural de Dona Benta e de Narizinho às tramas das lendas gregas. Na minha memória ficou retida a configuração da capa desse livro, um desenho, em cores vivas, que mais parecia uma caricatura do “Minotauro”, com cabeça animal e corpo humano, a desafiar o leitor.

Todavia, a muralha recalcitrante à libertação dos recônditos da memória foi a minha formação profissional, na segunda metade dos anos sessenta, quando as lembranças e a narrativa deveriam ficar a reboque de uma visão redentora das experiências coletivas. Refiro-me ao culto consolidado, no meio universitário, à supervalorização da infra-estrutura como paradigma único de explicação das experiências históricas, frutos de um marxismo plural, porém “mono-casual”, dignificado como revelador do real significado das contradições históricas.

O usufruto do avanço das análises históricas, registrado nessas últimas décadas, quando do meu estágio de “pós-doutorado”, simbolizou a descoberta da “flor do lótus”3, nas águas turvas do modismo da história cultural. Sob a orientação da professora Sandra Jatahy Pesavento, os resquícios da memória individual me fizeram mergulhar no poço da “Memória Social” e no mundo do imaginário, possibilitando aproximar minhas lembranças de vida a experiências sociais, compartilhadas com colegas do “ Seminário da Prainha,” Nessa instituição considerada como modelo de formação, ingressei aos onze anos de idade, portanto no período 1960-1965, mas ressaltando sobretudo até 1963, último ano em que os Padres Lazaristas, em sua maioria mineiros, permaneceram na direção dessa Instituição. Segundo a Professora Sandra,
Dá-se o nome de imaginário a esta capacidade, essencialmente humana, de representar o mundo por um mundo paralelo de sinais, capacidade mental que se expressa através de imagens, palavras, idéias e práticas. O imaginário vem a ser, pois, um conjunto de representações coletivas que dá sentido à realidade. (PESAVENTO in GRIJÓ et al., 2004: 179)
Nessa perspectiva, o imaginário não é definido como o antônimo da realidade, mas uma expressão da capacidade humana de sentir e demonstrar interpretações subjetivas sobre as diferentes paisagens, que moldam o cenário cotidiano, ao longo do curso da existência humana.

A fonte de nossas percepções vai mais além, remetendo-nos às relações do “inconsciente pessoal” e do “inconsciente coletivo,” ultrapassando o limite daquela concepção de um inconsciente, revelada por Freud, que o reduziu “`às tendências infantis reprimidas”. Conforme destaca Jung, “o inconsciente possui, além deste, um outro aspecto, incluindo não apenas conteúdos reprimidos, mas todo o material psíquico que subjaz ao limiar da consciência.” (JUNG, 1987: 3)

Assim, apoiando-me em novos conceitos, a busca de um fundamento teórico também me remeteu, mais uma vez, à valiosa revelação historiográfica da micro-história, transmitida pelo Prof. Carlo Ginzburg, ao demonstrar o alcance da ficção e da narração histórica, que se mesclam como fontes alternativas à descoberta de análises reveladoras. Através dele, recebemos o estímulo, capaz de romper o receio de fugir aos estreitos limites do que já fora consagrado na produção historiográfica. Entretanto, mesmo reconhecendo as fronteiras das novas propostas analíticas, Ele nos aponta outras saídas:
Contra a tendência do ceticismo pós-moderno de eliminar os limites entre narrações de ficcionais e narrações históricas, em nome do elemento construtivo que é comum a ambas, eu propunha considerar a relação entre uma e outras com uma contenda pela representação da realidade. (GINZBURG, 2007: 9)

Em todos nós há resquícios de memória que nos acompanham, ao longo da vida, fazendo-nos aproximar do que parecia distante, revelado através de diferentes representações, numa possível “circularidade”,4 onde o passado rompe as barreiras do tempo, pois permanece conectado ao presente, talvez na ânsia de poder acatar, sem traumas, o indefectível futuro.5

A relação entre as práticas sociais e a maneira de concebê-las, expressa por cada um dos envolvidos nas ações vividas, nos convence do significado das representações no curso das experiências históricas. Por isso,
É do crédito concedido ( ou recusado) à imagem que uma comunidade produz de si mesma, portanto de seu “ser percebido”, que depende a afirmação ( ou a negação) de seu ser social.O porquê da importância da noção de representação, que permite articular três registros de realidade: por um lado, as representações coletivas que incorporam nos indivíduos as divisões do mundo social e organizam os esquemas de percepção a partir dos quais eles classificam, julgam e agem; por outro, as formas de estilização da identidade que pretendem ver reconhecida;enfim, a delegação a representantes ( indivíduos particulares, instituições, instâncias abstratas) da coerência e da estabilidade da identidade assim afirmada. (CHARTIER, 2002: 10-11)
Na transparência de tal conjectura espelham-se experiências individuais e coletivas, refletindo a pluralidade da ação humana, envolta na dialética social, estampada em diferentes manifestações, muitas vezes complexas, mas simplificadas pelo uso da representação, uma forma de compreender o que se apresenta complicado.

Por isso, nas manifestações culturais, o peso das proposições consagradas no passado permanece como signo representativo do saber científico, mas a sua validade é definidora de novos rumos da cotejada cientificidade. No campo das incertezas e das probabilidades, as representações e as metáforas simbolizam manifestações em busca de uma compreensão do litígio, motivado pelas crenças e preceitos cultuados. Nessa perspectiva analítica, que ultrapassa as limitadas classificações consagradas pela tradição acadêmica, a dupla significação, apontada por Nobert Elias, para o termo cultura, abre uma perspectiva reveladora sobre as manifestações dos agentes sociais: além da produção registrada, “as práticas ordinárias,” presentes nas relações cotidianas das comunidades revelam aspectos expressivos dessas práticas sociais.6

No desmonte dos modelos arcaicos, a razão humana não pode ser esquecida, mas o seu culto já não mais se sobrepõe a valores antes menosprezados, como a espiritualidade e a religiosidade. O ímpeto demolidor do iluminismo, antes definido como único farol capaz de inspirar o roteiro do almejado progresso, perdeu o seu fulgor.

O Anticristo, de Nietzsche, tinha a sua razão de ser, na segunda metade do século XIX, considerando a estrutura ideológica e pastoral da Igreja Católica ou das Igrejas, exatamente na época em que o Seminário da Prainha foi implantado, em 1864, para enfrentar a laicização da sociedade. 7 Mais significativo, nesse pensador, foi o desmonte do culto à razão, como solução final a todos os enigmas existenciais. Entretanto, o pensamento de Nietzsche não foi algo isolado, mas reflete as indagações existenciais da segunda metade do século XIX, expresso num sincretismo, indicado por Paul Ricoeur (LEFRANC, 2005: 32) e numa nova perspectiva de análise, assim comentada por Foucualt: “O século XIX e em particular Marx, Freud e Nietzsche nos colocaram diante de uma nova possibilidade de interpretação: fundaram de novo a possibilidade de uma hermenêutica [...]”.(Id. Ibidem)

As antigas fronteiras, mesmo sem terem sido destruídas, perderam o seu significado simbólico, no turbilhão ideológico, que expressa a pós-modernidade, cujas raízes remontam “... ao desmoronamento da sociedade burguesa e do mundo eurocentrista por ocasião da Primeira Guerra Mundial.” (KÜNG, 1993:18)

As inquietações culturais manifestam-se em diferentes espaços, diferenciados em suas dimensões sociais, mas próximos em suas experiências cotidianas, que refletem a ebulição das relações sociais. As ruas e os meios de comunicação revelam o amálgama das práticas humanas, demonstrando a limitação do tradicional conceito de classe, como medida de divisão social.

Se as antigas fronteiras perderam o seu significado, a tradição erudita, manifesta na força do racionalismo, acusa os labirintos da memória, como fonte, uma vez que podem turvar a almejada “busca da verdade”, idealizada como uma auréola envolvente. É como se houvesse uma revelação transcendental, exclusiva aos que sabem imiscuir-se nela, deixando-se absorver pelo seu ímpeto transfigurador. Persiste a busca de uma demonstração, mais inconsciente do que consciente do “... espectro do positivismo ingênuo,” que nos parece perpetuado, não apenas num passado remoto, mas fortalecido em uma “longa duração”, mesmo ante as arrancadas “do ceticismo da pós-modernidade.” (GINZBURG, 2007: 9)

Entretanto, tal “busca da verdade” não pode ser considerada como uma prova de uma imaturidade racionalista, típica do apogeu da modernidade, uma vez que ela aflora em diferentes manifestações do saber, qualquer que seja o tempo histórico vivido. Periculosidade é querer impor as verdades reveladas com ímpeto automatizado, numa incoerência comportamental, na tentativa de esmagar o senso crítico dos que convivem com os arautos das mensagens redentoras. Na realidade, “Tempo que se perde, tempo perdido, tempo que redescobre e tempo redescoberto são as quatro linhas do tempo.” (DELEUZE, 2006:82)

E nessa busca da temporalidade, Deleuze nos aponta o alvo mirado:

O essencial na Recherche não é a memória nem o tempo, mas o signo e a verdade.O essencial não é lembrar-se, mas aprender;porque a memória só vale como uma faculdade capaz de interpretar certos signos e o tempo só vale como a matéria ou o tipo dessa ou daquela verdade.E a lembrança, ora voluntária, ora involuntária, só intervém em momentos precisos do aprendizado , para contrair o efeito ou para abrir novos caminhos.As noções da Recherche são: o signo, o sentido, a essência; a continuidade dos aprendizados e o modo brusco das revelações. (Id. Ibidem: 85)

Portanto, a verdade é imprescindível, mas o seu significado vai além da simples definição apresentada em um dicionário, ou seja, “o que está de acordo com o real; exatidão,” 8 uma vez que “... o modo brusco das revelações...” remete à subjetividade de quem as absorve.É como se cada agente do processo vivido constituísse uma modalidade diferenciada de filtro do conteúdo assimilado ou uma peça compressora dos grãos triturados, patenteada pela capacidade analítica, presente em cada ser humano.

Como frutos de um legado cultural, continuamos presos aos grilhões do contexto existencial, em especial quando nos sentimos concentrados no molde experimental de uma formação idealizada, fruto dos valores da época. Segundo a tradição, o receio de penetrar no que parece perigoso permanece instigante, pois nos acompanha como uma sombra sinistra, deixando-nos impotentes ante as regras sacrossantas, que norteiam a produção acadêmica.

Graças à posição desafiadora da história, “entre certezas e inquietudes”, (CHARTIER, 2002) explorando “o indizível, ou a crise do causalismo,”que remete a “uma transdisciplinaridade”9 ou ante a ameaça do “Texto Histórico como Artefato Literário,”10 análises desbravadoras revelam aspectos antes desconsiderados , abrindo perspectivas de produção, onde a narrativa ressurge como medula do trabalho proposto.E se as fontes se ampliam, ressaltando a oralidade como uma canal revelador de uma história plural, a crise do racionalismo nos faz reconhecer outro manancial, incrustado no “inconsciente individual” e “no inconsciente coletivo.”11 Assim, reconhece-se a aproximação fértil, entre a história e a psicologia, que revela ‘”o símbolo como mediador entre inconsciente e história”,12 possibilitando uma ampliação das fontes s serem exploradas.

Nessa probabilidade metodológica, uma temática simbólica, como “O Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza” nos possibilita usufruir de duas modalidades de informações, advindas da memória social: as lembranças pessoais, de quem ingressou no internato dessa instituição, aos onze anos de idade e ali permaneceu até aos dezessete e a “memória coletiva”, explorada através das 51 entrevistas realizadas, no Ceará, no Piauí,no Maranhão, na Paraíba e em Minas Gerais, com Arcebispos, Bispos, Ex-Reitores, Padres Professores,”Ex-Padres” e Ex-Seminaristas.

A princípio, o módulo da chamada “Ego-História” nos parecia favorável para compreender a dimensão histórica do Seminário da Prainha, considerando as referências divulgadas e o reconhecimento propalado acerca da validade de tal opção temática. O marco inicial do modelo difusor da nova abordagem analítica foi divulgado na conhecida publicação dos “Ensaios de Ego-História”. (CHAUNU et al. s/d).Entretanto, o depoimento de Roger Chartier, a respeito dessa opção metodológica me fez repensar a sua validade.Para o conhecido historiador,
Quando Pierre Nora inventou esse conceito de Ego-História, que conduz o historiador a se colocar como objeto do seu discurso, fez algo terrível porque todos os historiadores se precipitaram em contar suas vidas. De fato, a quem se permite fazê-lo? Aos astros do cinema. A grandes esportistas.Aos políticos.no entanto, todos os intelectuais ou todos os professores a quem se pediu para contar sua vida, ficaram contentes. Para eles, isso significava transformar seu status na sociedade. Mas seus textos são, salvo algumas exceções, absolutamente chatos. Como diz Bourdieu, por que pedimos aos historiadores para contar, vidas em história? Fora existências como a de Jean-Pierre Vernant, herói da resistência francesa, os outros, os nossos, ordinários e banais, são insignificantes. Eles nos importam, mas não acho que mereçam ser contadas. ( DIAS in CASTELO et al, 2005: 267)
No verso da capa, do referido livro, há a seguinte indagação e a respectiva resposta, explicitando o significado da expressão adotada e os seus objetivos:
Que é ego-história? Não se trata de uma autobiografia pretensamente literária, nem de uma profissão de fé abstracta, nem de uma tentativa de psicanálise. O que está em causa é explicar a sua própria história como se fosse de outrem, tentar aplicar a si próprio, seguindo o estilo e os métodos que cada um escolheu, o olhar frio, englobante e explicativo que tantas vezes se lançou sobre os outros. Em resumo, tornar clara, como historiador, a ligação existente entre a história que cada um fez e a história de que cada um é produto.
Confrontando as duas exposições, mesmo sem desmerecer o conteúdo da publicação pioneira sobre “Ego-História,” prefiro comungar com os argumentos apresentados por Chartier, que me levou a redefinir a metodologia dessa proposta temática. Por isso, ao invés de rejeitá-la, de forma categórica, prefiro a ela recorrer, mas com um objetivo definido: explorar a minha memória, não de forma limitada, centralizando-a na projeção do meu eu, mas remetendo-a ao coletivo. A meta almejada é considerá-la como uma observadora de experiências plurais, que revelem as ações individuais e as relações comunitárias, presentes no cotidiano de um internato.

Na tentativa de associar o individual ao coletivo, buscando entender o Seminário da Prainha, como expressão da micro- história urbana, o próprio Chartier nos aponta o alcance desta perspectiva analítica:


Radicalmente diferenciada da monografia tradicional, cada microestoria pretende reconstruir, a partir de uma situação particular, normal porque excepcional,,a maneira como os indivíduos produzem o mundo social, por meio de suas alianças e confrontos,através das dependências que os ligam ou dos conflitos que os opõem.
Se o Seminário da Prainha pode ser concebido, como “um lugar social”, (CERTEAU, 2000: 66) mesmo considerando a sua divisão espacial, que estabelecia fronteiras entre O “Seminário Menor”e O “Seminário Maior,” a sub-divisão do Menor, entre “Grandes”e “Pequenos,” além da área reservada aos sacerdotes, responsáveis pela sua direção, seja a nível de acomodação particular, os quartos, ou mesmo em relação a uma capela especial e a uma área de recreio, a paisagem torna-se muito mais complexa se forem considerados os espaços particulares, recônditos, expressos na maneira de ser e de agir de cada um dos componentes da pluralidade enunciada.

Tal reflexão me remete às ondas revoltas do “Enredo e verdade na escrita da história”, 13 onde White deixa explícito o ímpeto da subjetividade, aflorado com maior intensidade, a partir do modernismo, uma vez que “relatos narrativos” não se expressam apenas como reproduções factuais, mas deixam-se identificar pela maneira específica como os fatos são reconhecidos.


Dessa maneira, um relato narrativo pode representar um grupo de eventos que tem a forma e o significado de um épico ou uma estória trágica, e um outro pode representar mesmo grupo – com igual plausibilidade e sem violar nenhum registro factual – descrevendo uma farsa.”Aqui, o conflito entre “narrativas que competem”tem menos a ver com os fatos da matéria em questão de com os diferentes significados da estória pelos quais os fatos possam ser contemplados na elaboração do enredo. (WHITE in MALERBA, 2006: 193)

Nessa perspectiva, a representação que se delineia de forma figurativa, na narrativa proposta, constituiu um estímulo persistente à revelação de parte do meu processo de “individuação.” 14


O respeito às fronteiras estabelecidas ao pesquisador, de acordo com as normas técnicas recomendadas e a permanência do cardápio ideológico consolidado, cria uma barreira simbólica ao possível avanço de outras modalidades interpretativas, em virtude do sacro respeito aos pressupostos básicos das fontes teóricas cultuadas. Mas cedo ou tarde, dependendo da noção de temporalidade, outras maneiras de contar história são reveladas, através da adoção de moldes representativos, que não repetem o que se costuma fazer, mas abre caminhos antes considerados imponderáveis.

Como demonstrativo dessas considerações, remeto-me mais uma vez à profícua dimensão da “micro-história” italiana, que sem desmerecer experiências anteriores, busca ir mais além, para evitar a limitação de uma permanência metodológica em um campo do saber, marcado por contínuas mudanças. Com a revisão ou reinvenção da história, Hobsbawm denomina tal postura como ingresso “...na grande época da mitologia histórica” , após os anos sessenta do século passado, mas também observa que a historiografia passou “de uma perspectiva quantitativa a uma perspectiva qualitativa, da macro-história à micro-história, das análises estruturais às narrativas, da historiada sociedade à história da cultura”. 15

Através dessa rota reveladora, as lembranças de um ex-seminarista, que ingressou no Seminário da Prainha, aos onze anos de idade, ali permanecendo até os dezessete, não se restringem a uma auto- revelação de experiências narcisistas, limitadas à ação do “eu” como roteiro principal do conteúdo narrado.Creio que as revelações apresentadas ultrapassam o estreito espaço do meu mundo particular, pois revelam o que se apresentava fora do narrador, no labirinto dos corredores reais e simbólicos do histórico daquela instituição.

Por traz de cada caso relatado sempre figura uma mecha de ação coletiva, reveladora da memória social, que aproxima espaços geográficos distantes, considerando a origem de cada um dos colegas seminaristas, fossem originários de Fortaleza, de cidades distantes ou de outros Estados do Nordeste. Todos haviam atendido “ao chamado do Senhor”, embora conscientes de que “muitos eram chamados e poucos os escolhidos”.

Os limites da “Ego-História” não impedem as possibilidades de divisar nela rastos que sirvam de roteiro a uma possível trilha inédita, símbolo de uma modalidade diferenciada de análise e fruto de uma associação entre o individual e o coletivo.Nessa perspectiva, as barreiras que lhe são impostas me remetem à persistente querela ente as dimensões da história e da memória, que reforça as nítidas fronteiras entre ambas. E por não serem convergentes, persiste “a irredutibilidade da memória à história. (GINZBURG, 2001:178) A memória, por mais significativa que seja não permite uma reconstrução real da temática evocada, pois o narrador se situa no presente, que molda sua maneira de analisar as experiências passadas.

Na mesma configuração, que aproxima e diferencia o ontem do hoje, revela-se a viabilidade da “Ego-História” numa perspectiva renovadora de trabalhar com as narrativas.A intromissão do pesquisador no campo dos depoentes, afinal ele se torna narrador e coletor de narrativas, dilata as possibilidades de apresentar análises, que aproximam pólos antes distanciados, em suas idéias e perspectivas, mas nessa experiência plural “a memória individual” não se contrapõe, mas se aproxima da “memória social”, tornando plural a experiência relatada.



O narrado sobre uma individualidade rima com coletividade e dela não pode ser dissociada, pois ninguém é uma ilha isolada, mesmo no mar revolto da pós-modernidade. Na revelação pessoal apresentada o eu não se apaga, mas se manifesta e quer ser preservado, pois não deve ser condenado, afinal, como diz o cronista “Estou plenamente convencido de minha humana transitoriedade, embora ainda pense, algumas vezes, que bem podia não ser assim. Eis a verdade possível: a única eternidade só existe no território da memória. Ser lembrado para continuar existindo.” (MONTE, 2007: 2)


1 NOTAS:
 Professor Pós-Doutor, Titular do Curso de História, da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

2 Cf. JUNG, 2006.

3 Lótus, “flor que se poderia dizer a primeira que desabrocha sobre águas geralmente estagnadas e turvas com uma perfeição tão sensual e soberana que é fácil imaginá-la, in illo tempore, como a primeira aparição da vida sobre a imensidão neutra nas águas primordiais.” – Cf. CHEVALIER,1993:558.

4 A figura do círculo nos remete ao seu significado simbólico, alegórico ou místico, além do simples sentido literal.

5 Sobre “... o precioso achado de Santo Agostinho, a saber, a estrutura discordante-concordante do tempo...”, cf. “A Aporética da Temporalidade” in RICOEUR, Paul, 1997: 17.

6 Cf. ELIAS, Nobert. , 1994. A respeito da contribuição de N. Elias à História Cultural, vide CHARTIER, Roger, 2002: 10,11,78,92-94,172,232,233.

7 Vide NIETZSCHE, 2007.

8 Cf. Minidicionário de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

9 Cf.DOSSE, 2003: 325-339, 403-414.

10 WHITE, 2001: 97-116.

11 JUNG, 1986 e 1987.

12 “História e psicologia”e “O símbolo como mediador entre inconsciente e história” constituem sub-divisões do capítulo I - “As representações simbólicas e o inconsciente nas ciências humanas” do livro Histórias de vidas ausentes: a tênue fronteira entre a saúde e a doença mental, da psiquiatra Nádia Maria Weber Santos, que nos acompanhou,com dedicação, quando da nossa estada em Porto Alegre, durante o nosso pós-doutorado na UFRGS, nos nossos primeiros passos na descoberta do valor da análise de Jung.

13 Vide WHITE, in MALERBA, 2006: 192-210.

14 “O processo de individuação”, “um processo lento” e imperceptível do crescimento psíquico” assim nos é explicado: “Observando um grande número de pessoas e estudando seus sonhos (calculava ter interpretado ao menos uns 80.000 sonhos), Jumg descobriu não apenas que os sonhos dizem respeito, em grau variado ,à vida de quem sonha mas que também são parte de uma única e grande teia de fatores psicológicos.Descobriu também que, no conjunto, parecem obedecer a uma determinada configuração ou esquema. A este esquema Jung chamou ‘o processo de individuação’. – VON FRANZ, M. – L. 3.O processo de individuação in JUNG et al., 2002: ,160 e 161.

15 Cf.HOBSBAWM, apud Ginzburg , 2007: 156-157.
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