Senhor, dê a cada um pouco, e não esqueça de mim



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Encontro02.08.2016
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Senhor, dê a cada um pouco,

E não esqueça de mim...

Bulat Okudjava, poeta russo


Esta é o que poderíamos chamar de uma biografia científica. Não é bem história, naturalmente, com datas e grandes marcos, pois parte do ponto de vista de um personagem concreto. Mas acompanhar a vida de uma pessoa que interagiu intensamente com o seu tempo, nos traz uma dimensão de vivência, de clima político e social, dos sonhos que permearam uma época. De certa forma, a história se torna mais viva.
Todos gostamos de considerar que os nossos posicionamentos políticos, as nossas visões de mundo, constituem opções racionais. Na realidade, somos todos construções complexas, resultado de um emaranhado de influências, onde os valores dos nossos pais, as emoções dos amores, a vivência do nosso meio, e o próprio aprendizado científico juntam-se e interagem de forma misteriosa, construindo mosaicos inesperados para nós mesmos.
O desenrolar da vida de Mário Murteira tem esta riqueza. Nos faz sorrir a descrição detalhada que faz da vivência infantil das guerras de rua, territórios rigorosamente demarcados, fanatismos embrionários que parecem de brinquedo, mas que tão facilmente se transformam em outra idade em guerras de verdade, por razões igualmente absurdas.
O recúo sobre a própria vivência é rico, vale a pena valorizá-lo. Saber aprender com os outros é uma das nossas principais escolas. Com o recúo, e vista de longe, a tão glorificada educação aparece na sua realidade crua: “Aulas chatas e compridas como a espada de Dom Afonso Henrique”, avalia o autor. Hoje apenas começamos a repensar a forma absurda como matamos a natural paixão das crianças por conhecerem o mundo, por entender como funcionam as coisas, paixão petrificada em aulas de pouco sentido. Vem à mente o verso de Prévert:
Des vieillards au front borné,

Indiquent aux enfants la route

D’un geste de ciment armé.
Mário ingressa na política através da sua função de professor, pelos seus conhecimentos técnicos. Teve sem dúvida forte presença na conturbada procura de novos caminhos do Portugal de 25 de abril. Os detalhes dos debates e das opções nesta fase crucial são profundamente interessantes, no sentido de nos fazer entender os personagens, os processos e as tensões. Mas no conjunto deste livro, é a dimensão do professor que emerge com mais força.
Professor, no sentido de quem ensina mas não pára de aprender. Nada substitui as vivências concretas da fragilidade africana, da dinâmica asiática, da truculência do grande poder econômico. Acompanhar estas vivências traz a ciência econômica para o mundo real, para o “mercado realmente existente”. Nestas leituras, aprende-se mais do que nos manuais.
A tragédia do bom economista – aquele que não se contenta com o faz-de-conta – é que tem suficiente ciência para entender os dramas, mas insuficiente força para enfrentá-los. De certa forma, as idéias são maiores do que os braços. O resultado é que nos lançamos em construções sempre renovadas, mas construimos intimamente uma proteção contra o absurdo que tão frequentemente vence. Vence o “homem-marketing”, vencem “as implacáveis tendências do sistema econômica mundial”.
Pessimismo? Não, antes diria um realismo tranquilo, levemente amargo, sempre protegido por um pouco de senso de humor, porque ninguém é de ferro. Mais importante, a teimosa busca de um ideal, de uma sociedade mais justa, de processos mais democráticos, de uma política mais decente.
Ladislau Dowbor

http://dowbor.org


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