Serões de dona benta (FÍsica e astronomia)



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SERÕES DE DONA BENTA

(FÍSICA E ASTRONOMIA)

1960


EDITORA BRASILIENSE
ÍNDICE
I — Comichões científicas.......................... 7

II — O ar........................................ 14

III — Ainda o ar................................... 18

IV — Mais ar ainda................................ 27

V — A água...................................... 35

VI — Mais água.................................... 44

VII — Ainda a água................................ 52

VIII — A matéria.................................... 65

IX — Mais matéria .................................. 78

X — As máquinas ................................. 91

XI — A energia do calor ............................ 105

XII — O fogo....................................... 112

XIII — Como o calor vai dum ponto para outro....... 120

XIV — Ventos e tempestades.......................... 132

XV — Tempo e clima................................ 143

XVI — Na imensidão do espaço...................... 152

XVII — O nosso sistema solar......................... 165

XVIII — Mais coisas do céu............................ 177

XIX — Como a terra se formou...................... 190

XX — O solo........................................ 201

XXI — Riquezas do subsolo.......................... 208

XXII — Metade do caminho........................... 219



CAPÍTULO I

COMICHÕES CIENTÍFICAS
Dona benta havia notado uma mudança nos meninos depois da abertura do Caraminguá n.° 1, o primeiro poço de petróleo no Brasil. Aprenderam um pingo de geologia e ficaram ansiosos por mais ciência.

— Sinto uma comichão no cérebro, disse Pedrinho. Quero saber coisas. Quero saber tudo quanto há no mundo...

— Muito fácil, meu filho, respondeu Dona, Benta. A ciência está nos livros. Basta que os leia.

— Não é assim, vovó, protestou o menino. Em geral os livros de ciência falam como se o leitor já soubesse a matéria de que tratam, de maneira que a gente lê e fica na mesma. Tentei ler uma biologia que a senhora tem na estante, mas desanimei. A ciência de que gosto é a falada, a contada pela senhora, clarinha como água do pote, com explicações de tudo quanto a gente não sabe, pensa que sabe, ou sabe mal-e-mal.

— Outra coisa que não entendo, disse Narizinho, é esse negócio de varias ciências. Se a ciência é o estudo das coisas do mundo, ela devia ser uma só, porque o mundo é um só. Mas vejo física, geologia, química, geometria, biologia — um bandão enorme. Eu queria uma ciência só.

— Essa divisão da Ciência em várias ciências, explicou Dona Benta, os sábios a fizeram para comodidade nossa. Mas quando você toma um objeto qualquer, nele encontra matéria para todas as ciências. Este livro aqui, por exemplo. Para estudá-lo sob todos os aspectos temos de recorrer à física, à química, à geometria, à aritmética, à geografia, à história, à biologia, a todas as ciências, inclusive a psicologia que é a ciência do espírito porque o que nele está escrito são coisas do espírito.

— Mas que é ciência, vovó? — perguntou Narizinho. Eu mesma falo muito em ciência, mas não sei, bem, bem, bem, o que é.

— Ciência é uma coisa muito simples, minha filha. Ciência é tudo quanto sabemos.

— E como sabemos?

— Sabemos graças ao uso da nossa inteligência, que nos faz observar as coisas, ou os fenômenos, como dizem os sábios.

— Então fenômeno é o mesmo que coisa?

— Fenômeno é tudo na natureza. Aquela fumacinha lá longe, que sobe para o céu, é um fenômeno. A chuva que cai é um fenômeno. O som da minha voz é um fenômeno. Fenômeno é tudo que acontece. E foi observando os fenômenos da natureza que o homem criou as ciências.

No começo o homem era um pobre bípede que valia tanto como os quadrúpedes de hoje. Vivia como todos os animais, nu em pêlo, morando só nos lugares de bom clima, onde houvesse abundância de frutas silvestres e caça. Um animal como outro qualquer. Mas a inteligência que foi nascendo nele fez que começasse a observar os fenômenos da natureza e a tirar conclusões. O homem teve a idéia de plantar, e com isso criou a agricultura, Teve a idéia de inventar armas, o arco e a flecha, o machado de pedra, o tacape, e com isso aumentou a eficiência dos seus músculos. Um dia descobriu o fogo e o meio de conservá-lo sempre aceso — e disso nasceu um colosso de coisas, entre elas o preparo dos metais. Com o fogo derretia certas rochas e tirava uma coisa preciosa, diferente da pedra — o ferro, o cobre, os metais, em suma. E com esses metais obtinha machados muito melhores que os feitos de pedra.

Também aprendeu a domesticar certos animais, de que se servia para a alimentação ou para ajudá-lo no trabalho. E a inteligência do homem, de tanto observar os fenômenos, foi criando a ciência, que é o modo de compreender os fenômenos, de lidar com eles e produzi-los quando se quer. E o homem tanto fez que chegou ao estado em que se acha hoje — dono da terra, dominador da natureza, rei dos animais.

— Bom, estou percebendo — disse Narizinho. O que um aprendia, passava aos outros, não era assim?

— Exatamente. Para que haja ciência é necessário que os conhecimentos adquiridos por meio da observação se acumulem, passem de uns para outros e pelo caminho se vá juntando com os novos conhecimentos adquiridos.

Entre esses conhecimentos o maior de todos foi tirar partido de certas forças da natureza a fim de aumentar a força natural dos músculos. Isso deu ao homem eficiência, isto é, capacidade de fazer coisas. Por fim entrou a inventar instrumentos e máquinas, meios mecânicos de aumentar grandemente a força dos músculos — e hoje o homem tem máquinas poderosíssimas, como a locomotiva, o navio, os guindastes, os automóveis, os aviões, tudo. A ciência foi nascendo, e o que chamamos progresso não passa de aplicação da ciência à vida do homem.

Sinto uma comichão no cérebro disse Pedrinho. Quero saber coisas. Quero saber tudo quanto há no mundo...

Nesse ponto um passarinho cantou no pomar. Pedrinho pôs-se de ouvido alerta.

— Que passarinho será aquele? — murmurou, falando consigo mesmo. E saiu disparado para ver.

— Ora aí está como se forma a ciência — disse a boa senhora. Se o canto fosse de sabiá, Pedrinho não se incomodaria, porque já conhece o sabiá. Mas como não reconheceu o canto, ficou logo assanhado por saber — e foi correndo ao pomar. A curiosidade diante dum fenômeno que não conhecemos é a mãe da ciência.

Logo depois Pedrinho voltou.

— Era uma saíra das raras — a segunda que vejo por aqui, disse ele — e Dona Benta continuou a desenvolver o seu tema:

— Muito bem; sua curiosidade, Pedrinho, fez que você adquirisse um conhecimento novo. Ficou sabendo que esse canto é duma saíra rara por aqui. Para chegar a essa conclusão, você teve de observar o fenômeno — de ir ver, porque só com o ouvido não podia identificar o passarinho. Você neste caso fez o papel do cientista que observa, descobre e fica sabendo. E nós aqui, que não fomos pessoalmente observar, aceitamos esse conhecimento que você adquiriu e também ficamos sabendo que o tal canto é duma saíra rara por aqui. Quando alguém me perguntar: "Que passarinho é esse que está cantando?" Eu responderei, fiada na observação que você fez e nos comunicou: "É uma saíra rara por aqui." Se a ciência ficasse com o homem que a adquire, de bem pouco valor seria, porque desapareceria com esse homem. Mas a ciência se transmite dum homem para outro e assim vai aumentando o patrimônio de conhecimentos da humanidade. Chegamos hoje a um ponto em que, para a menor coisa, recorremos a muitas ciências sem o saber. A pobre tia Nastácia, quando vai assar um frango, recorre a uma porção de ciências, embora não o perceba. Para pegar o frango, para matá-lo, para depená-lo, para limpá-lo, para recheá-lo, para assá-lo, ela emprega inúmeros conhecimentos científicos, adquiridos no passado e transmitidos de geração em geração.

Pedrinho ficou entusiasmado.

Nesse caso, vovó, eu sou um verdadeiro sabiozinho, porque sei mil coisas práticas. Sei sem que ninguém me ensinasse...

— Engano seu, meu filho. Tudo quanto você sabe foi ensinado sem que você o percebesse. A maior parte das coisas que sabemos nos vem de ver os outros fazerem.

— Isso lá é verdade — confessou o menino. Cada coisa que eu sei veio de alguém lá de casa — sobretudo da mamãe e papai. A gente quando é criança presta atenção a tudo e imita. Mas eu não sabia que isso era ciência...

— Sim, meu filho, tudo que sabemos constitui ciência, e quando você estudar física,, por exemplo, vai verificar que os livros de física apenas explicam teoricamente muita coisa que praticamente sabemos. Por que motivo na mesa, ontem, quando Emília derramou aquele copo d’água, você gritou para tia Nastácia: "Traga um pano?"

— Porque é com pano que se enxuga água.

— Perfeitamente. Você sabe de modo prático uma coisa que na Física se chama capilaridade. O pano é feito de algodão, cujas fibras, por causa desse fenômeno da capilaridade, absorvem, chamam para si a água. Quer dizer que você, como toda gente, quando enxuga uma água com um pano, faz uso dum princípio da física, embora não o conheça teoricamente. Até tia Nastácia, que Emília chama poço de ignorância, sabe um monte de coisas científicas — mas só as sabe praticamente, sem conhecer as razões teóricas que estão nos livros. Querem ver1?

E Dona Benta chamou a preta.

— Tia Nastácia, que é do pano com que você enxugou a mesa ontem?

— Está no varal, secando, Sinhá.

— Bem. Pode ir.

A negra retirou-se com um resmungo e Dona Benta prosseguiu:

— Vê como ela sabe coisas e como aplica as ciências? Sabe que se deixasse o pano amontoado num canto, ele emboloraria. Sabe que para não estragar o pano tem que mantê-lo seco. Sabe que para secá-lo tem de estendê-lo no varal, ao sol ou ao vento. Mas faz tudo isso sem conhecer as razões teóricas do emboloramento e da evaporação — coisas que vocês também não sabem, porque ainda não abriram nenhum compêndio de física.

— Estou compreendendo, vovó — disse Narizinho. Estudar ciência é aprender as razões das coisas que fazemos de um modo prático.

— Isso mesmo. E depois de aprendida a teoria duma ciência, não só compreendemos perfeitamente a prática, como corrigimos essa prática nos pontos em que ela se mostra defeituosa — e ainda descobrimos novas aplicações práticas. As ciências só têm valor quando nos ajudam na vida — e é para isso que existem. Mas... Uf! Que calor está fazendo nesta sala. Abra a janela, Pedrinho.
CAPÍTULO II

O AR
Assim que Pedrinho abriu a janela uma lufada de ar entrou, levando uma folha de papel de cima da mesa. Dona Benta aproveitou-se do incidente para falar do ar.

— Esse vento que acaba de arejar a sala, disse ela, está nos indicando um caminho. Podemos começar o nosso estudo de hoje pelo ar. Quem sabe o que é o ar?

— Eu sei, disse Emília. É essa coisa branca que a gente respira.

— Branca, Emília? Então o ar é branco?

— Eu digo branco à toa, respondeu Emília. Sei que ar não tem cor. É como vidro.

— Isso. É transparente. Mas tem cor, sim. É levemente azulado — tão levemente que só quando visto em grandes camadas o seu azul se torna perceptível. Sabemos que o ar é azul por causa do céu, que não passa da camada de ar que envolve a terra. Mas vamos ver que coisa é o ar.

— Eu sei que o ar forma a camada de atmosfera que envolve o globo, disse Pedrinho.

— Sim. O mais certo, porém, é dizer que o ar faz parte da terra, como as rochas, as águas e o mais. Forma parte gasosa da terra e por isso mesmo fica por cima da parte sólida, por ser mais leve — e é nessa parte gasosa que vivem os animais e plantas terrestres.

Sem ar não pode haver vida. Sem ar isto por aqui seria um deserto horrível, só pedras. Vamos ver quais são as características do ar, qual a sua composição, e que empregos o homem faz dele.

Que altura tem a camada de ar, vovó?

— Até bem pouco tempo quase nada sabíamos sobre a altura da camada atmosférica, pois não tínhamos meios de estudá-la. Os meios vieram depois da invenção dos balões, graças aos quais podemos subir a grandes alturas. E para além das alturas a que o homem consegue subir, podemos enviar balões sem gente dentro.

— Mas isso é inútil. Se não vai ninguém dentro, que adianta?

— Muita coisa, meu filho. Podemos colocar nesses balões termômetros e outros instrumentos que nos informem do que procuramos saber. Quando esses balões chegam muito alto, rebentam — e os instrumentos registradores caem em pára-quedas, trazendo-nos a informação desejada. Alguns desses balões têm subido a mais de 30 quilômetros.

— E com gente dentro, qual a maior altura? Indagou a menina.

— Em 1862 os aeronautas Coxwell e Glaisher subiram a 11 quilômetros de altura. Em 1932 Picard subiu a 16 quilômetros, e em 1935 Stevens e Andersen subiram a 21 quilômetros. Para imaginarmos o que essas alturas representam temos de refletir que o edifício mais alto de S. Paulo, o Martinelli, tem apenas 70 metros; a torre Eiffel em Paris tem 300; o Empire State Building em Nova Iorque, tem 380.

— E as montanhas e as nuvens?

— A montanha mais alta que temos na terra é o pico do Everest, no Himalaia. Vai a 8.850 metros. E as nuvens mais altas são as chamadas cirros, que bóiam entre 10 e 11 quilômetros.

— Quer dizer então que o tal Stevens, mais o Andersen, subiram 10 quilômetros acima da mais alta nuvem1?

— Sim, 10 quilômetros — e ainda hão de ser batidos por outros aeronautas, porque esses recordes não duram muito tempo. O homem é um bichinho levado da breca. Na ascensão de Coxwell por um triz não houve desastre. Na altura de 11 quilômetros seu companheiro Graisher caiu em estado de inconsciência e Coxwell mal pôde abrir com os dentes a válvula do gás,, a fim de que o balão descesse.

— E como foram os outros tão mais alto?

— Porque prepararam uma cabina hermèticamente fechada, suspensa ao balão, com reservas de oxigênio e outras precauções. Graças a isso puderam entrar na estratosfera.

— Que bicho é esse?

— À camada atmosférica que vai até 12 quilômetros os sábios chamam TROPOSFERA; e a que vai daí para diante eles chamam ESTRATOSFERA. Nesta camada não há nuvens, nem a menor umidade. Secura completa.

— E que adiantou isso?

— Muita coisa. Os sábios ficaram sabendo tudo quanto queriam, e hoje estão empenhados no estudo da estratosfera com esperança de que a navegação aérea se faça por lá. As vantagens seriam enormes. Não somente os aviões poderiam voar com velocidades incríveis, como estariam livres dos ventos, tempestades e nevoeiros da troposfera. Até eu, que já estou no fim da vida, ainda não perdi a esperança de ir daqui à Europa em minutos, por esse maravilhoso caminho da estratosfera.


E para além das alturas a que o homem consegue subir, podemos enviar balões sem gente dentro.
CAPÍTULO III

AINDA O AR
A viagem de Dona Benta pela estratosfera veio assanhar os meninos. Surgiram projetos, cada qual mais louco. Por fim a professora disse:

Chega de fantasia; vamos agora voltar ao arzinho que temos por aqui em redor de nós. O homem sempre soube, por experiência, que, quando mergulhava n’água, a água exercia pressão sobre seu corpo, tanto maior quanto mais fundo mergulhasse. Mas que o ar também exercesse pressão, isso ninguém sabia.

— E como se veio a saber? — perguntou o menino.

— Dum modo interessante. Em 1640 o Duque da Toscânia mandou abrir um poço na sua cidade e colocar uma bomba, mas com grande desapontamento viu que a bomba não puxava a água até em cima. O duque pediu a Galileu, um grande sábio da época, que explicasse o mistério. Galileu, então com 76 anos de idade, não pôde cuidar do assunto por sentir-se doente, e mandou que um seu discípulo, de nome Torricelli, estudasse o caso — e esse discípulo resolveu o problema, provando que a água não subia até em cima por causa da pressão exercida pelo ar.

Torricelli refletiu que tanto podia, fazer a sua experiência com água como com outro líquido qualquer, e escolheu o mercúrio por ser muito pesado e fácil de lidar. Se usasse a água, teria de fazer a experiência com uma coluna d’água de 10 metros, o que era complicado. Com o mercúrio obteria o mesmo resultado com uma coluna muito menor. E sua experiência ficou célebre graças às muitas conseqüências que teve.

— Em que consistiu essa experiência?

— O problema era saber se o ar exerce pressão, e depois medir essa pressão. Para isso Torricelli tomou um tubo de vidro fechado numa das pontas e o encheu completamente de mercúrio, tapando com o dedo a outra extremidade para que o mercúrio não fugisse. Em seguida mergulhou esta extremidade, juntamente com o dedo que a tapava, dentro duma cuba de mercúrio — e de repente retirou o dedo.

— E que houve? Perguntou Pedrinho ansioso.

— Houve que a coluna de mercúrio desceu um bocadinho no tubo de vidro e parou. Se o tubo não tivesse a ponta de cima fechada, o mercúrio correria todo para a cuba; mas como essa ponta estava fechada, formou-se o vácuo na pequena parte vazia. Vácuo quer dizer ausência de ar. Nesse vácuo não há pressão do ar porque não há ar. Estava explicado o mistério. O mercúrio do tubo não descia para a cuba porque a pressão do ar sobre o mercúrio da cuba igualava o peso da coluna de mercúrio dentro do tubo.

Aplicando el cuento ao poço do duque, Torricelli chegou à conclusão de que a água não subia até em cima porque a pressão atmosférica exercida sobre a água do poço ficava equilibrada pelo peso da coluna de água dentro do cano da bomba. E assim nasceu o barômetro.

— Barômetro então é isso?

— Sim, o barômetro é esse tubo de Torricelli que mede a relação entre a pressão do ar atmosférico e o peso duma coluna de mercúrio, marcando o ponto em que a pressão se equilibra com o peso.



Essa experiência foi repetida por outros sábios em lugares ao nível do mar. E foi verificado que a coluna de mercúrio parava sempre a 30 polegadas de altura, Isso quer dizer que uma coluna de mercúrio de 30 polegadas pesa tanto como uma coluna de ar atmosférico do mesmo diâmetro que vai daqui em baixo até lá no fim do céu.

E assim se mediu a pressão atmosférica. Se a base da coluna for de 1 centímetro quadrado, o volume total da coluna de mercúrio será de 76 cent. cúbicos. E como o centímetro cúbico de mercúrio pesa 13,6 gramas, o peso total da coluna será de 1.033 gramas, que é o peso da "atmosfera sobre uma superfície de 1 centímetro quadrado. Essa medida ficou se chamando atmosfera, que é a unidade das pressões. Logo... que é uma atmosfera, Pedrinho"?

— É um peso-pressão de 1 quilo e 33 gramas por centímetro quadrado.

— Muito bem. E barômetro é o instrumento aperfeiçoado que saiu do tubo de Torricelli. O tubo do barômetro está marcado com uma, escala, de modo que podemos ler o número em que o nível da coluna de mercúrio pára. Esse número indica a pressão atmosférica. Se subirmos a um monte, o barômetro marcará lá em cima uma pressão menor, porque o peso da coluna de ar é tanto menor quanto maior for a altura.

— Mas só se mede a pressão com os barômetros?

— Não. Também se mede com um instrumento chamado Aneróide, em que em vez de mercúrio há uma caixa de metal hermèticamente fechada, com vácuo dentro. A maior ou menor pressão do ar sobre a tampa dessa caixinha faz que ela afunde ou suba, e esse movimento é transmitido ao ponteiro que corre sobre a escala. Os aneróides são como os relógios de bolso, e, portanto, muito mais cômodos de lidar do que os barômetros. Mas não têm a rigorosa precisão dos barômetros de mercúrio.

— Bem — disse Narizinho. Já sei que o ar tem peso. O que mais tem? De que é formado?

— Hoje sabemos tudo sobre o ar. É uma mistura de gases, composta principalmente de azoto (78 por cento), oxigênio (21 por cento) e argon (1 por cento). E há ainda nele outros gases em quantidades mínimas, como o hélio, o neon, o kripton, o xenon e mais outros que escapam das fábricas, minas de carvão ou petróleo, etc. Também há nele vapor ou água em estado gasoso. Uma simples mistura, o nosso ar. Esses gases não estão combinados entre si; estão apenas misturados.

O oxigênio é a parte do ar de maior importância para nós, porque dele nos utilizamos constantemente. O azoto e os outros gases não nos são nem úteis, nem inúteis — são indiferentes. Respiramos o ar para que nossos pulmões se utilizem do oxigênio.

— Mas como é o oxigênio — que cor, que gosto tem? — indagou a menina.

É um gás, portanto não pode ser visto, nem pegado com as nossas mãos. Temos de recorrer a certos meios engenhosos para aprisioná-lo em vidros e estudá-lo. E para isso o melhor processo não é extraí-lo do ar, sim de certas substâncias que o contém em combinação com outras. Que é daquelas pastilhas de clorato de potássio que comprei para a dor de garganta do Visconde?

— Estão lá dentro — respondeu a menina.

— Vá buscá-las.

Narizinho saiu correndo e voltou com seis pastilhas de clorato de potássio. Dona Benta tomou-as e disse:

— É muito fácil extrair o oxigênio que há nestas pastilhas, mas só no laboratório. Vamos para lá.

Dona Benta havia transformado o antigo quarto de hóspedes em laboratório. Tinha lá uma porção de frascos de drogas, e tubos de vidro, e cubas, e lamparinas de álcool. Um perfeito gabinete científico de amador.

— Bom — disse ela no laboratório. Temos de misturar três partes destas pastilhas com uma parte de dióxido de manganês. Veja aí o vidrinho de dióxido, Pedrinho — esse acolá, na prateleira de cima.

O menino trouxe o vidro de dióxido e Dona Benta fez a mistura dentro dum tubo de vidro fechado numa das pontas e arrolhado na outra. Nessa rolha fez um buraco, onde enfiou outro tubo de vidro mais fino, em forma de S. A perna de cima do S ficava na, rolha, e a perna de baixo ia sair dentro dum vidro de boca larga, emborcado numa cuba cheia d’água. Arrumadas as coisas assim, ela acendeu uma lâmpada de álcool e aqueceu o tubo com a mistura de clorato e dióxido. Imediatamente começaram a sair bolhinhas, que desciam pelo Se subiam pela água do vidro de boca larga, indo depositar-se no alto. E à medida que essas bolhinhas entravam, a água do vidrão ia descendo. Quando não houve mais bolhinhas, Dona Benta fechou o vidro com uma lâmina e o retirou da cuba, pondo-o sobre a mesa, na posição normal.




— Pronto — disse ela. O dióxido de manganês e o clorato de potássio, os dois possuem oxigênio; mas neste caso é só o oxigênio do clorato que se desprende em bolhinhas. O dióxido não muda,

— Então por que botá-lo junto com o outro1?

— Mistérios da natureza, meu filho. Há um fenômeno químico muito interessante, que se chama Catálise, ou ação de presença. A simples presença do dióxido ao lado do clorato faz que o oxigênio deste se desprenda mais depressa. O dióxido só influi pela presença.

— Essa ação de presença — disse Narizinho — é muito comum na vida. A sua presença, por exemplo, vovó, faz que as criaturas se comportem de outra maneira — sobretudo a Emília. Assim que a senhora sai, ela vira outra...

— E você também — protestou Emília. Você é uma na frente de sua avó e outra longe — pensa que não sei?

Pedrinho espiava o vidro de oxigênio com a maior atenção.

— Não percebo nada, vovó — disse ele. O tal oxigênio é um ar à-toa, sem cor, nem cheiro. Como a senhora sabe que o que está no vidro é oxigênio e não ar?

— Pelas reações que vamos promover — respondeu Dona Benta. O oxigênio, por exemplo, não é combustível — mas sim alimentador do fogo. Sem ele não há fogo, ou combustão. Ponha dentro do vidro uma brasinha de fósforo para ver o que acontece.

O menino riscou um fósforo, deixou formar-se a brasa e apagou a chama. Em seguida lançou-a dentro do vidro de oxigênio. Imediatamente a brasinha virou labareda amarelada, grande.

— Experimente agora com uma ponta de arame bem aquecida.

Pedrinho aqueceu na lâmpada de álcool a ponta dum arame e a enfiou no frasco. Surgiu a mesma chama amarela, com faiscamentos.

— Está provado que o "ar" do vidro é oxigênio, porque o ar comum não faz isso. O que houve foi o que os químicos chamam oxidação. O carbono da brasinha e a ponta do arame oxidaram-se pela ação do grande oxidador que é o oxigênio. Este fenômeno da oxidação é um dos mais importantes que há na natureza, como havemos de ver. Tudo se oxida na presença do oxigênio, umas coisas lentamente, outras rapidamente. Um exemplo de oxidação rápida temos na explosão da pólvora.

— Ora essa! Então a explosão da pólvora é uma oxidação? — exclamou o menino surpreso.

— Sim, meu filho. O oxigênio que opera essa oxidação está acumulado na pólvora, do mesmo modo que está acumulado no clorato de potássio. Quando a gente põe fogo na pólvora, a oxidação do carvão que há nela se faz com enorme rapidez, produzindo gases. Esses gases necessitam de espaço muitíssimo maior que o espaço ocupado pela pólvora — e na fúria de abrir espaço expandem-se com a maior violência, causando o que chamamos explosão.

— Então a tal explosão é o gás que abre caminho?

— Exatamente. Mas no normal a oxidação é lenta. O ferro, por exemplo, está sempre se oxidando —virando ferrugem, e é para evitar isso que costumamos pintar as grades de ferro, os postes e tudo mais que é ferro e está exposto ao ar livre. A camadinha de tinta da pintura isola, do ar o ferro, e, portanto, isola-o do contacto com o oxigênio.

— Sim senhora! É mesmo um danadinho o tal oxigênio — murmurou Emília.

— O oxigênio é uma formiga que não pára nunca nas suas atividades — confirmou Dona Benta. Terrivelmente trabalhador. E para a vida é indispensável. Não há vida sem ele, seja de animais ou plantas. No nosso organismo é a oxidação dos alimentos ingeridos que nos fornece a energia necessária à conservação da vida. Graças, pois à energia que nos vem do oxigênio é que crescemos, é que o nosso coração bate, é que trabalhamos, é que pensamos. Sem ele temos a morte.

— E o azoto do ar?

— Se extrairmos o oxigênio do ar o que fica é quase que só azoto. Mas o azoto, ao contrário do seu companheiro, é um gás inerte, isto é, inativo.

— Um malandro, um preguiçoso — disse Emília.

— Quando os animais ou as plantas respiram, o azoto entra no organismo — mas entra e sai sem fazer nada, sem mudar nada.

— Então é um parasita inútil — observou a menina.

— Ao contrário, minha filha, é utilíssimo, porque sem ele o oxigênio, na sua, fúria oxidante, daria cabo de nós. O azoto sossega esse leão, diluindo-o, enfraquecendo-o, de modo que ele nos faça bem e não mal. Além disso o azoto é da maior importância na composição dos alimentos requeridos pelos animais e pelas plantas. Tudo na natureza é muito sábio, minha filha. Tudo tem sua razão de ser e está muito bem arrumadinho.

— E os outros gases do ar?

— São de quase nenhuma importância e também inertes. Por enquanto não passam de puras curiosidades científicas — mas é possível que algum dia seja descoberto que tais gases desempenham importantes papéis.

— De ação pela presença, talvez, sugeriu o menino.

— É possível. Entre eles há o hélio, que está sendo muito usado para encher os dirigíveis — mas o hélio destinado a esse fim não vem do ar e sim de certos minerais. Também brota dos poços de água quente ou de petróleo. Mas por enquanto só existe hélio em quantidades comerciais nos Estados Unidos.

— E que mais há no ar?

— Também há vapor d’água, em grandes quantidades em cima dos oceanos, lagos, rios e florestas, e quase nenhum em cima dos desertos de areia. Quando esse vapor de água se acumula demais, formam-se as nuvens que se condensam em gotinhas e caem sob forma de chuva. Tudo na terra contém água. Nós, por exemplo, somos mais água que outra coisa. Nosso corpo contém 70 por cento de água. A vida é bastante aguada...

— Muito natural isso — observou Pedrinho. A vida nasceu na água e, portanto, tem que mostrar a sua origem. Somos aquáticos.

Dona Benta riu-se.

— Aquático, meu filho, quer dizer da água, que vive na água, como os peixes, certas aves e certas plantas. Mas se você disser que somos aquosos, não errará.

— Mas o Visconde é seco, não é aquoso — disse Emília.

— Também há água nele — contestou Dona Benta. Não tanto como em nós, criaturas de carne, mas há. Uns dez por cento do Visconde devem ser água.

— Só dez por cento? — admirou-se a menina. Por isso é que ele é tão "secarrão..."

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