Servir a Deus no mundo Samuel Escobar



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Servir a Deus no mundo
Samuel Escobar

Presidente da Sociedade Bíblica Unida

Teólogo e escritor
No final de uma emocionante mensagem sobre o arrebatamento, um certo missionário exclamou: “No céu não haverá pontes. Para que então perder tempo estudando engenharia? Deixe tudo e venha à nossa escola bíblica. Prepare-se para salvar almas, que isso é o que importa”. Vários adolescentes ali presentes foram à frente, em resposta ao apelo. Alguns, efetivamente, abandonaram os estudos e foram à escola bíblica daquele missionário.

A jovem universitária que me descreveu a cena estava convencida de que o argumento do missionário não era bíblico, nem mesmo lógico, porque, em última análise, tanto a escola bíblica como o missionário dependem da gente comum que trabalha fazendo pontes, dirigindo negócios, curando doentes ou criando os filhos. Porém, dizia ela, para um adolescente tornava-se difícil resistir à pressão do grupo naquele acampamento, onde se considerava pouco espiritual quem não fosse à escola bíblica, “entregando-se totalmente”. A atmosfera apocalíptica criada pelos estudos, assim como os hinos e os filmes, tudo era dirigido a produzir uma “decisão” nos ouvintes.

Lamentavelmente, esse tipo de “ministério juvenil” começa a proliferar na América Latina, fazendo-se necessário recuperar o conceito bíblico e evangélico do que seja servir a Deus no mundo de hoje com os dons, estudos e oportunidade de cada crente.

Estamos falando de uma “atmosfera apocalíptica” e, portanto, vale a pena considerar essa expressão. Atualmente, vivemos numa época apocalíptica. Hoje, não é somente o cristão fervoroso que fala do “fim do mundo”, de um beco sem saída, de um iminente final caótico para toda a raça humana. Esse tipo de linguagem apocalíptica está na boca dos jornalistas, dos homens da ciência, das pessoas do chamado Clube de Roma, do secretário das Nações Unidas e assim por diante. Tem crescido a consciência de que nós, os seres humanos, pela nossa forma irracional de explorar a criação, pelo egoísmo nacionalista, racista ou classista, pela fabricação descontrolada de material bélico, estamos prestes a varrer a vida humana do planeta. Algum estrategista ou general descontrolado, da Rússia ou dos Estados Unidos, poderá colocar em funcionamento um horrível maquinário de destruição. A pressão dos terroristas de todo tipo, num lugar como o Oriente Médio, poderá provocar o caos de uma guerra mundial, que será a última, pois poucos sobrarão. Como o jornalista, a literatura e todos os meios de comunicação de massa nos dão acesso a dados que comprovam essa possibilidade de um caos, a ansiedade das pessoas que se detêm a pensar no assunto tem se transformado em angústia, em nosso tempo. Na cultura ocidental, a palavra “apocalipse” relaciona-se com o último livro da Bíblia e com a consumação da História; daí utilizar-se o adjetivo apocalíptico para descrever o estado de ânimo de uma época como a nossa.

A História nos diz que houve épocas similares, geralmente localizadas numa região ou cultura determinada. Por exemplo, quando os bárbaros começaram a invadir o Império Romano e este começou a desmoronar-se, tanto pelos ataques externos como pela decadência moral e cívica interna, muitos acreditavam que havia chegado o fim do mundo. Foi nessa atmosfera que Santo Agostinho escreveu o seu famoso livro A cidade de Deus, que é um intento magistral de formular uma visão cristã da História. Alguns historiadores assinalam que, quando se aproximava o ano 1000 da nossa era, isto é, o primeiro milênio, proliferaram na Europa os livros de tendência apocalíptica e estudos sobre as profecias bíblicas a respeito do fim do mundo. A revolução e o despontar de Napoleão coincidem com o aparecimento de uma literatura apocalíptica no mundo de fala inglesa. Dessa época, datam alguns dos sistemas de interpretação das profecias bíblicas, hoje populares em certos círculos ingleses e norte-americanos e em igrejas de outras partes do mundo que têm recebido essa influência. A diferença, em nossa época, é que essa sensação de um fim próximo da história humana está afetando setores cada vez mais amplos da raça humana, transcendendo as barreiras nacionais e culturais. Além disso, as possibilidades reais de que o próprio homem destrua o planeta e a vida de seus habitantes, como também a informação generalizada acerca de tais perspectivas, aumentaram consideravelmente.
A atitude evangélica

O cristão que leva a sério a Palavra de Deus caracteriza-se por manter uma atitude vigilante quanto ao fim da História. Tanto o ensinamento de Jesus quanto o dos apóstolos, e a forma como eles interpretam o Antigo Testamento, assinalam um fim da História vinculado à manifestação final, contundente, do triunfo de Jesus Cristo sobre a morte, sobre o pecado e sobre as forças do mal. O ensino de Jesus nas parábolas sobre o juízo final, como também seus discursos chamados escatológicos, coincide com a firme advertência: “Vigiai”. Ao mesmo tempo, exorta-nos repetidas vezes contra a tentação de especular sobre tempos e datas. Cremos que é importante lembrar esses dois elementos do ensino do Senhor.

Tem-se especulado muito sobre os detalhes, esquecendo-se a clara intenção que a maioria das passagens reflete e que se nota de imediato, ao se comparar os mesmos textos. No ensino apostólico, ambas as expressões – vigiar e não especular – permanecem distintivas, agregando-se a elas uma dimensão de conseqüência éticas e relacionando a verdade do Senhor com a atitude prática correspondente à vida diária, enquanto ele não vem.1

Observemos dois aspectos numa atitude do apóstolo Paulo: por um lado, a certeza e a expectativa da vinda de Cristo; por outro, um sentido prático da vida, que não se perde em especulações ociosas ou num escapismo irresponsável. Assim, por exemplo, há uma clara advertência em Coríntios: “O tempo se abrevia... a aparência deste mundo passa...” (1Co 7:29-31). Sem dúvida, quando a especulação escatológica leva alguns à ociosidade e a andar desordenadamente, tentando viver às custas do próximo sob uma capa de espiritualidade, o seu ensino é contundente: “Se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (2Ts 3:6-13). Como pastor, pregador e apóstolo, Paulo sabe que o seu trabalho é digno e que a igreja está sendo justa ao sustentá-lo. Algumas vezes, entretanto, por razões não muito claras, Paulo prefere realizar algum trabalho cotidiano, em vez de depender de ofertas dos irmãos (1Ts 2:9 e 2Co 11:9). Porém, na parte ética do final de quase todas as suas epístolas, Paulo exorta ao cumprimento consciente dos deveres cotidianos, a fazer bem as coisas, sejam elas grandes ou pequenas. Na vida dos crentes para quem escreve, não deve existir uma atitude de exaltação ao trabalho espiritual, na igreja, e fazer de má vontade e de qualquer jeito as tarefas do dia-a-dia. Em outras palavras, Paulo crê na iminência da chegada do Senhor e também que, quando ele vier, deve nos encontrar vigiando e realizando com eficiência o que ele nos confiou. Logo, deixar a profissão, o negócio ou serviço e ingressar numa escola bíblica a fim de dedicar-se à evangelização, porque a chegada de Cristo está iminente, não é um ensino que corresponde ao espírito do ensino de Jesus ou dos apóstolos. Tem a aparência de espiritualidade, mas é uma traição ao espírito e à forma do ensino bíblico.

Ao ler os evangelhos, observamos como Jesus chama os doze, de suas ocupações e realidades diversas, quando eles estão em pleno trabalho, para se dedicarem inteiramente à tarefa de preparar-se e pregar (Mc 1:16-20; 2:13-17; 3:13-19 e passagens paralelas nos demais evangelhos). No âmbito da nação israelita do primeiro século, esse tipo de comunidade ao redor de um mestre ou profeta era legítimo e admissível. Inclusive, ajuda-nos muito considerar o âmbito do Antigo Testamento e da história judaica da época anterior a Jesus, para encontrarmos as características especiais do seu chamado – as mesmas que ocorreram antes na chamada divina do profeta, do levita ou do servo especial. O que não há no Antigo Testamento, nem tampouco nos evangelhos, nem na prática e no ensino apostólico, é a idéia de que a vida do servo de Deus, que dedica todo o seu tempo à tarefa profética ou apostólica, é superior ou mais importante do que a do mais comum dos mortais. É uma questão de chamada, de uma vocação específica a uma tarefa específica. Porém, não se espera que todos se dediquem a ela com a sua máxima inspiração. Por isso, Paulo pôde dar forma à sua equipe de colaboradores com toda naturalidade e escrever as suas cartas a todos os crentes, não importando a atividade deles na vida. Por isso mesmo, ele pôde intercalar períodos de dedicação exclusiva à pregação e ao estabelecimento de igrejas, com períodos de trabalho manual para o qual estava capacitado: a confecção de tendas. Por isso, também, quando a ajuda social na igreja de Jerusalém requereu pessoas com talento administrativo, a fim de que os apóstolos pudessem dedicar-se ao ensino e à oração, nomeou-se uma equipe de diáconos cuja tarefa administrativa e de relações humanas requeria uma espiritualidade semelhante à dos apóstolos (At 6). De onde, então, apareceu o desprezo aos trabalhos chamados seculares, que se torna cada vez mais agudo em nossa época apocalíptica?
Dualismo medieval reeditado

Esse desprezo pelo secular vem, em parte, da influência medieval sobre o ambiente católico. É uma característica de nossa cultura ibero-americana desprezar o trabalho manual e exaltar as tarefas intelectuais e religiosas. Isso se manifestou claramente na época colonial, onde se reproduziram e se conservaram atitudes típicas da Idade Média. Posteriormente, mesmo com a secularização, ainda persiste a exaltação “espiritual” e o desprezo do material. Na época medieval, isso correspondia a um dualismo de origem grega, que considerava a realidade material como “má”. Por não atender ao ensino bíblico sobre a criação, havia surgido uma teologia que fazia uma divisão acentuada entre o material e o espiritual. Essa posição é claramente antibíblica. A reforma protestante transformou essa atitude, desenvolvendo, naqueles países onde teve influência, uma nova ética de trabalho e de atividade econômica, uma revalorização das atividades não especificamente religiosas, um descobrimento do mundo secular dentro do desígnio divino.2 Com Lutero e Calvino, a Europa aprendeu a valorizar tanto a mulher que varre a casa como o monge que canta as suas orações.

O dualismo voltou a entrar na teologia de muitos evangélicos latino-americanos, de contrabando, através de uma “espiritualidade” que, embora seja tida como evangélica e seja popular em círculos evangélicos, é verdadeiramente grega e medieval. Encontramo-la, por exemplo, entre os que aceitam as idéias de Watchman Nee e os que adotaram a forma extrema do dispensacionalismo da Bíblia Scofield.3

Esse dualismo dá um valor extremo ao “espiritual”, enfatizando a evangelização como a atividade suprema, à qual deveria dedicar-se o cristão. Melhor dizendo, reduz a missão à evangelização. Ao não dar a devida importância à ética bíblica, simplesmente adota a ética do mundo e faz com que as pessoas vivam uma existência dicotômica. Na vida profissional, nos negócios, na indústria, adota-se a ética do mundo, e no domingo busca-se uma compensação com uma intensa atividade religiosa. O trágico é que então encontramos muitos dos chamados crentes com uma vida dupla.

O desprezo pela atividade material ou secular, em muitos casos, leva também à mediocridade, pois se faz de má vontade o que se tem que fazer todos os dias. Só se sente “realizado” aos domingos, estando na igreja. Tem-se uma leve suspeita de que Deus vê com bons olhos o seu serviço religioso, não se importando muito com a qualidade do seu serviço profissional ou com a ética nele aplicada. Numa atmosfera imbuída de tal mentalidade, não é de estranhar que a pregação escapista de missionários, como a citada anteriormente, encontre eco e aceitação.

O corretivo para essa atitude é, em primeiro lugar, como também o foi na época da reforma, regressar ao ensino bíblico pleno. O dualismo escapista tem espiritualizado a leitura da Bíblia e geralmente não dá a devida atenção ao Antigo Testamento, nem à totalidade do Novo Testamento.

O Novo Dicionário da Bíblia nos diz, em seu verbete Homem: “No desenvolvimento da doutrina do homem, a Igreja ficou debaixo da influência do pensamento grego, com seu contraste dualista entre a matéria e o espírito. Colocava-se ênfase sobre a alma, com sua ‘faísca divina’, e havia a tendência de o homem ser considerado como uma entidade individual autocontida, cuja verdadeira natureza podia ser entendida pelo exame dos elementos separados constituintes de seu ser”.4 Esse dualismo se vê com mais força hoje no mundo católico.

A verdadeira antropologia bíblica “de nenhum modo ensina o conceito de que o corpo é um impedimento inútil e um estorvo para a alma, que deve eliminar-se na primeira oportunidade. É importante observar que nunca nos induz a desonrar ou maltratar o corpo. Pelo contrário, o período da vida no corpo terreno é de considerável importância. No trono do juízo, por exemplo, seremos recompensados pelas ações ‘feitas no corpo’. Obviamente, considera-se que o corpo provê os meios pelos quais podem expressar-se os valores morais inerentes à alma”.5

A consideração dessa antropologia bíblica reflete-se na maneira como se concebe a vida cristã, tanto a salvação como o que vem depois da salvação. O biblista Hoke Smith diz claramente: “A salvação que Cristo oferece abarca a totalidade do homem, sim, sua vida carnal, o que come, suas dores, suas fraturas, suas enfermidades corporais ou mentais. Cristo Jesus veio para que tenhamos vida e para que a tenhamos em abundância; não parcial, para uma parte do nosso ser, mas vida abundante que abrange a totalidade do nosso ser. Tudo o que Deus criou é objeto do seu amor e de sua obra redentora”.6

A tarefa teológica e pastoral de evidenciar as conseqüências dessas verdades na vida diária é urgente na América Latina. Um de seus aspectos é reanimar o ensino bíblico sobre ética pessoal e social, que nos oriente quanto à qualidade de vida do cristão no mundo.



Paulo: homem no mundo

Já que falamos de Paulo, e já que ele é usado muitas vezes como base do dualismo que estamos criticando, tomemos a personalidade do próprio apóstolo como exemplo do que significa servir a Cristo no mundo.

Ao ressaltar certas características de Paulo, não o estamos apresentando como um modelo a seguir à risca, mas como possuidor de certas virtudes básicas que nos podem servir como ponto de referência. Assinalamos algumas marcas de um caráter cristão, o que realmente é preciso para servir a Cristo no mundo de hoje.

O capítulo 27 do livro de Atos narra a viagem de Paulo de Jerusalém a Roma. O relato da viagem por mar entre Bons Portos e Malta é uma peça literária, aclamada desde a Antiguidade como uma pequena obra-prima da literatura. Em nossas leituras e estudos desse capítulo, vemos aflorar um retrato magistral da personalidade de Paulo, refletida numa situação crítica. Com efeito, a tormenta que caiu sobre o pequeno barco em que estava viajando era tão grande que, em determinado momento, apoderou-se deles o desespero. O autor diz: “E, não aparecendo, havia já alguns dias, nem sol nem estrelas, caindo sobre nós grande tempestade, dissipou-se afinal toda a esperança de salvamento” (At 27:20). É precisamente nessa situação crítica que se vê toda a grandeza da pessoa de Paulo. A crise traz à luz o que as pessoas são na verdade. No relato de Lucas, Paulo aparece de maneira visível e palpável, no meio do barco castigado pela tormenta. Há quatro momentos que revelam quatro sinais do caráter de Paulo. São eles:



1. Integridade. Paulo, viajando como prisioneiro, estava em situação inferior em relação às outras pessoas. Não obstante, Lucas nos diz que o centurião Júlio tratou Paulo com humanidade, permitindo-lhe ir ver os amigos e obter assistência (v. 3). Foi um prisioneiro que ganhou a confiança do guarda, a ponto de receber um tratamento especial. É evidente, para quem lê o relato de sua prisão e o longo período de espera em Jerusalém (cap. 21 a 26), que Paulo foi ganhando respeito, mesmo das autoridades corruptas e subornáveis. Não se tratava de um prisioneiro que tivesse “padrinhos” no sistema, ou que tivesse dinheiro para subornar os carcereiros; a integridade do caráter, a firmeza das convicções e a decência revelada na vida diária é que conquistaram essa consideração especial por parte do centurião. Ao longo desses capítulos, o apóstolo testemunhou em situação bastante desvantajosa. Testemunhar e evangelizar quando somos donos da tribuna e temos pessoas à escuta é uma coisa; mas quando estamos nas mãos dos demais, é outra coisa!

Lembremos a ênfase de Paulo na sua integridade. Mais de uma vez, invocou Deus por testemunha. Aos tessalonicenses, disse claramente que nem o seu estilo nem a sua motivação tinham segundas intenções (1Ts 2:3-6). Que diferença! Há tantos “apóstolos” modernos, cujas finanças e truques publicitários não refletem integridade, ainda que sejam muito “espirituais”! E o mundo daqueles tempos, como o mundo de hoje, necessitava desesperadamente de homens íntegros. Homens dignos de confiança, ainda que sua missão os houvesse colocado como prisioneiros.

É possível que um teólogo, com a pretensão de ser “atualizado”, sorria frente ao termo integridade, achando-a uma virtude burguesa, e provavelmente diga: “Não temos por que falar dela”. Porém, a menos que existam homens íntegros em nossa América Latina, não haverá revolução nem mudança estrutural que nos consiga tirar do naufrágio político e institucional em que estamos. E, para viver a vida de servo no mundo, precisamos pedir a Deus o dom da integridade de caráter, ainda mais que o dom de línguas, atrevemo-nos a dizer. Porque não há algo mais destrutivo para o testemunho evangélico do que um misticismo e uma espiritualidade sem ética, sem integridade.

Um pouco mais tarde, no primeiro século, os escritos do apóstolo Pedro insistem na integridade como marca da vida cristã, ainda que, esclarece-nos ele, quando uma sociedade está em decadência moral e espiritual, a integridade não garanta que o cristão será aceito e respeitado (1Pe 2 e 3, especialmente 3:13-18).



2. Iniciativa. Os responsáveis pelo navio – o capitão, o dono da carga e o centurião – verificam qual o rumo que a viagem há de tomar, porque a tempestade perigosa estava já avançada (vs. 7-12). Não sabemos se convidado à deliberação ou adiantando-se por conta própria, Paulo interveio. Havia-se perdido muito tempo e já era perigoso viajar por mar, porque se aproximava o inverno. Por isso Paulo lhes aconselhou, dizendo: “Senhores, vejo que a viagem vai ser trabalhosa, com dano e prejuízo, não só da carga e do navio, mas também das nossas vidas” (vs. 9,10).

Os responsáveis não escutaram o conselho desse viajante experimentado, que era apóstolo. Que razões e motivos prevaleceram? Levando em conta que a carga era trigo e o destino era Roma, bem poderia tratar-se de razões financeiras. O que se destaca é a iniciativa tomada por Paulo. Quando sente que é necessário, dá o seu conselho, intervém, fala com clareza e autoridade sobre um assunto tão prosaico e mundano como a navegação; e fala também com muita sensibilidade e delicadeza. As breves palavras refletem a iniciativa própria do líder; se há algo que dizer ou fazer e não há quem o faça, a responsabilidade é sua. Mas há um tom de respeito, de apelação tanto à preocupação material como à sensibilidade humana mais profunda dos seus ouvintes.

Há uma tradição evangélica de iniciativa de serviço nas mais diversas áreas da vida humana: educação, minorias indígenas, menores abandonados, medicina rural, meios de comunicação de massa e assim por diante. Lamentavelmente, parece haver-se perdido esse espírito de iniciativa. Por um lado, os evangélicos em certos países, ao alcançar um “status” mínimo, passam a se preocupar mais com a manutenção desse “status” do que com o serviço ao próximo em áreas de necessidade. Há algumas décadas, costumava-se criticar os suntuosos templos católicos, às portas dos quais miseráveis mendigos, tremendo de frio, estendiam as mãos a pedir pão. Hoje, muitos evangélicos possuem também suntuosos templos, cuja construção e conservação requerem fortunas, diminuindo, porém, suas iniciativas nas áreas de necessidade. Essas mudanças são justificadas, na maioria das vezes, por uma espiritualidade que esqueceu o claro testemunho bíblico quanto a justiça e a misericórdia.

Para haver iniciativa, deve haver sensibilidade. Paulo não só era sensível às necessidades espirituais das pessoas, mas sua carta a Filemom reflete a sua grande sensibilidade social, assim como a sua preocupação constante em levar uma oferta aos pobres da Judéia. No capítulo 8 de Romanos, vemos o seu coração sensível aos gemidos de toda a criação à espera de uma libertação (Rm 8:18-23).O homem que crê ser Deus o Criador de todo ser humano é, por força, um homem sensível, “nada humano lhe é alheio”. Por isso, vê a própria vida como um serviço constante: uma missão que não é unicamente “espiritual”, senão integral. O falso espiritualismo medieval, introduzido de contrabando no mundo evangélico, é que tem produzido a insensibilidade, destruído a iniciativa do crente de hoje de servir a Deus no mundo e levado ao desconhecimento de que a fé no Deus criador faz com que o homem, salvo por Cristo, leve a sério as realidades humanas que o cercam.

Em aberto contraste com essa atitude, temos múltiplos exemplos no livro de Atos. Por exemplo, o ministério e a qualidade de vida de Barnabé se percebem primeiro na generosidade desse discípulo no plano material (At 4:34-37). Igualmente, a igreja de Antioquia não foi somente uma igreja missionária, como se vê no capitulo 13 de Atos, mas também uma igreja que atuou frente às necessidades materiais de seus irmãos (At 11:27-30).

3. Esperança. Quando o fragor da tempestade levou os tripulantes a perder toda a esperança de salvação, Paulo, que havia recebido uma visão e uma mensagem do Senhor, volta-se; é o único homem com esperança no meio daquela companhia! E diz: “Senhores, na verdade era preciso ter-me atendido e não partir de Creta, para evitar este dano e perda. Mas, já agora vos aconselho bom ânimo, porque nenhuma vida se perderá de entre vós, mas somente o navio. Porque esta mesma noite o anjo de Deus, de quem eu sou e a quem sirvo, esteve comigo...” (vs. 21-26). Que peso tremendo em suas palavras, no seu testemunho! Falar de Deus, esse Deus a quem pertence e serve, nesse contexto deve ter provocado um impacto poderoso entre os seus ouvintes!

A esperança específica de Paulo naquela situação deveu-se a uma visão particular.Temos que entender esse contexto particular para não chegar a conclusões erradas. Nem todos os crentes experimentam revelações e visões através de sonhos, porém, fora esse fato particular, Paulo sempre é um homem de esperança. Essa esperança na nova criação de Deus é a esperança aberta a todo cristão. É a esperança da ressurreição, que nos sustenta e nos transforma (Rm 8:11-18; 1Co 15:58; 1Pe 1:3). Essa esperança leva-nos a uma nova atitude para com o mundo. O espírito apocalíptico de uma época não contagia o cristão com temor, escapismo ou cinismo. Porque tenho a esperança de uma nova criação de Deus, levo a sério a sua atual criação. Porque tenho a esperança de julgar com Deus o mundo um dia, espero que hoje, no seio da comunidade cristã, haja paz e justiça (1Co 6:1-2).

Por causa dessa atmosfera apocalíptica de que falávamos no começo, faltam homens com esperança. O homem com uma firme e verdadeira esperança pode ser prudente e realista quando os demais cedem ao pânico e ao desespero. O mundo de hoje precisa desse tipo de homem. O fato de que a vinda de Cristo está próxima não justifica uma atitude espiritualista que afirma: “Não devemos estudar, nem levar a sério a criação hoje, porque afinal tudo acabará amanhã”. Também não deve haver orgulho, sem compaixão, daquele que grita aos homens de longe: “Nos havíamos predito toda essa aflição”. Vale a pena lembrar que certos “especialistas” em profecias bíblicas sobre o fim do planeta Terra enchem os bolsos de dinheiro, desfrutando de fama e de comodidades terrenas, enquanto proclamam o fim de todas as coisas.

Possuído da verdadeira esperança, o autêntico cristão atual esforça-se como os outros, ou ainda mais que eles, em procurar que a vida humana neste planeta desesperançado conserve um mínimo de sensatez, ao invés de cinismo e desespero. Esse é o testemunho de sua firme esperança.



4. Realismo. Fazendo-se dono da situação pelas circunstâncias, Paulo assumiu com realismo o seu papel de líder em meio à crise. Frente à realidade, manteve-se desperto e alerta. Foi ele quem observou que os marinheiros, com humano e característico egoísmo, queriam abandonar o navio. Paulo então se acercou do centurião e disse-lhe claramente: “Se estes não permanecerem a bordo, vós não podereis salvar-vos” (v. 31).

Só aí prestaram atenção a Paulo e, tendo o centurião impedido os marinheiros de escapar, foi possível chegarem salvos à terra.

A espiritualidade de Paulo é como a de Jesus, uma espiritualidade realista. Paulo sabe o que é o coração humano. Paulo sabe do que se precisa para viver diariamente num mundo de paixões e sentimentos humanos. Se é necessário recorrer à autoridade para impedir que a negligência e a desumanidade cheguem a um ato de covardia, o apóstolo intervém. O mesmo realismo se observará na sua maneira de ensinar as igrejas novas que vai fundando. Os conselhos a Timóteo e a Tito nas cartas pastorais mostram esse realismo no conhecimento do coração humano e no uso de recursos para a liderança aos demais.

O mundo de hoje precisa de homens realistas. As utopias humanas terminam tantas vezes em fracassos colossais por falta de realismo quanto à natureza humana! Disse um historiador que, no grande evangelista e líder espiritual John Wesley, combinava-se, ao mesmo tempo, a certeza calvinista quanto à natureza caída do homem, que o tornava pessimista acerca das utopias políticas do seu tempo, com o otimismo da graça. Wesley sabia, como Paulo, que quando a graça de Deus envolve um homem, pode transformá-lo e fazer maravilhas. E foi essa certeza que deu ao avivamento espiritual Wesleyano uma dimensão social única, que os modernos espiritualistas esquecem com facilidade.


Servir no Mundo de Hoje

Eis os quatro aspectos do caráter cristão de que o mundo apocalíptico atual necessita. Eis aqui quatro virtudes que o povo de Deus deve ter hoje na América Latina. Elas são o fruto da ação do Espírito Santo no coração dos homens remidos. Eis aqui uma espiritualidade imbuída de toda a riqueza da mensagem bíblica, e não de fragmentos recortados com as tesouras de um dualismo espiritualizante.

Não há base bíblica nem teológica para contrapor as tarefas cotidianas chamadas “seculares” com a obediência ao chamado de Deus. Não há base para fazer crer que quem não é missionário ou pregador de tempo integral seja cidadão de segunda categoria no Reino de Deus.

Deus continua chamando homens e mulheres para se dedicarem integralmente à pregação, à obra pastoral ou ao estabelecimento de igrejas, como Paulo. Mas também, no barco do mundo que se enche de cinismo, de temor e de desespero, há falta de passageiros com as virtudes de Paulo, em todos os campos da sociedade, em todas as áreas do saber e da situação humana. Faltam testemunhas do Deus vivo, homens e mulheres de integridade, de iniciativa, de esperança e de realismo.


NOTAS

1 “Há inúmeras referências à vinda do Senhor nas epístolas, quase todas sublinhando o aspecto mais importante da promessa, o efeito moral que terá na vida do crente”, disse Ernesto Trenchard, Estudios de Doutrina Bíblica, Madrid, Literatura bíblica, 1976, pág. 374.

2 Ocupamos-nos detidamente desse assunto em Diálogo entre Cristo y Marx, Lima, AGEUP, 1969, cap. 2; artigo: Concepto Cristiano Del Trabajo”, publicado em Certeza, nº 18, 1964.

3 Em quase todos os livros atribuídos a Watchman Nee há uma forma dualista de entender o ensino bíblico acerca do homem, e parece-nos haver um aberto desprezo ao corpo e ao material ou uma suspeita quanto a essas realidades. Veja-se, por exemplo, especialmente os seus conceitos sobre o “homem exterior” e o “homem interior” em La Liberacion Del Espiritu, Logos. B. Aires. 1968. No caso da Bíblia Scofield, um exagerado dispensacionalismo quase anula o valor do Antigo Testamento e dos Evangelhos como fonte de ensino ético.

4 Novo Dicionário da Bíblia – J.D. Douglas, editor (Edições Vida Nova, São Paulo. 3ª edição 1979). Artigo “Homem” item (e), págs. 720-722.

5 T.C. Hammond, Cómo Compreender la Doctrina Cristiana, Ed. Certeza, B. Aires, 1978, pág. 101.

6 Hoke Smith Jr., El Hombre: una Perspectiva Bíblica, Cuadernos de Certeza, B. Aires, 1972, pág. 22.
ESCOBAR, Samuel. Servir a Deus no mundo in: Tive Fome: Um desafio a servir a Deus no mundo. São Paulo: ABU Editora, 2004, pp35-46.
* Gentilmente cedido pela ABU Editora.


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