Sesc ler: formaçÃo e história através dos registros diários



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SESC LER: FORMAÇÃO E HISTÓRIA ATRAVÉS DOS REGISTROS DIÁRIOS

Marisa Narcizo Sampaio

Coordenadora Nacional do projeto SESC LER

O Departamento Nacional do Serviço Social do Comércio - SESC - desenvolve o projeto SESC LER destinado a alfabetizar e escolarizar até a 4ª série jovens e adultos em municípios do interior de vários estados do Brasil, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, com uma proposta voltada à criação de centros educacionais que possuem além das salas de aula, sala de leitura, com variado acervo e espaço para práticas esportivas. Esses centros configuram uma proposta alternativa de educação, cuja característica mais marcante será o horário integral de funcionamento e possibilitando o desenvolvimento de ações que o SESC já oferece na área de cultura, lazer e saúde. Essa combinação de atividades expressa a concepção ampla de alfabetização e de formação do Projeto. Sua proposta é que o aprendizado da leitura e da escrita se realize numa constante prática de diálogo entre professores e alunos, de modo que jovens e adultos possam refletir sobre suas próprias experiências e desenvolver a consciência crítica sobre suas relações com o meio ambiente físico, cultural, social e político. (SESC, Proposta Pedagógica do projeto SESC LER, 1999). O horário integral possibilitará atender crianças, jovens e adultos de forma ampliada, que terão acesso a todas as atividades .

Esse Projeto representa a possibilidade do SESC contribuir de forma significativa para o atendimento das demandas de alfabetização do país. Nestes Centros Educacionais será desenvolvida uma proposta de trabalho adaptada às realidades locais e necessidades específicas, profundamente ligada às comunidades onde estão inseridos.

Neste projeto a formação continuada das professoras é atividade constante e intensa, principalmente por se tratarem de profissionais atuando com jovens e adultos. Tendo sido esta modalidade de educação historicamente marginalizada e negligenciada, os cursos de formação de professores não levam em consideração que seus/suas alunos/as poderão atuar com esta população que possui especifidades importantes em relação ao processo de aprendizagem. As professoras que nela atuam normalmente também são relegadas ao segundo plano no que se refere a iniciativas formais de formação continuada e à pesquisa acadêmica. Devido às distâncias geográficas e dificuldade de acesso aos Centros Educacionais a partir das capitais, optou-se no projeto por estabelecer uma prática de registro diário das atividades pedagógicas de sala de aula, de maneira que pudessem ser melhor acompanhadas pelas várias instâncias de orientação pedagógica que constituem a estrutura do projeto. Além desta razão prática, o registro foi instituído também por ser “o mais poderoso instrumento na construção da consciência pedagógica e política do educador” (Freire, 1996, p.6).

Desta forma, todos os educadores envolvidos com o projeto registram sua prática em relatórios escritos. Estes relatórios têm como objetivo permitir o acompanhamento à distância das atividades; registrar o desenvolvimento do aluno; funcionar como instrumento de análise e sistematização da prática; documentar a prática pedagógica de maneira a utilizá-la como ponto de partida para a formação continuada; democratizar e socializar as experiências; documentar a história do projeto; possibilitar a reflexão sobre a prática permitindo às professoras se constituírem como sujeitos da sua prática e se perceberem como produtoras de conhecimento pedagógico, valorizando sua autoria e possibilitando a auto-formação e o aumento da auto-estima.

No documento “Diretrizes para a Orientação Pedagógica do projeto SESC LER” estão definidos o papel e a importância deste registro para a formação das professoras:

Quando escrevemos, precisamos analisar que aspectos são essenciais e precisam constar do relato e que partes podemos omitir. Temos que decidir por onde começar, como organizar as idéias e os fatos de forma coerente, que comentários e esclarecimentos fazer. Provavelmente, vamos ter que reler e corrigir alguma parte que ficou obscura. Muitas vezes, diante da necessidade de escrever, percebemos que nossas idéias não estão tão claras como pensávamos. Enfim, ter que escrever sobre sua prática induz o educador à reflexão, dando um primeiro impulso para que se ultrapasse a simples constatação. Ao escrever sobre a prática educativa, produzimos, para nós mesmos, um conhecimento mais aprofundado acerca de nossas experiências e crenças, o que vai favorecer também a comunicação de nossas idéias e a reflexão coletiva.

Em síntese, podemos afirmar que o registro escrito é um instrumento essencial para a reflexão sobre a prática e, portanto, para a formação e desenvolvimento profissional dos educadores. (p.21)

A leitura, a discussão, a reflexão particulares e coletivas que estes documentos têm proporcionado demonstram a necessidade de um estudo mais aprofundado a respeito do seu papel como instrumento poderoso de formação das professoras. Mais ainda: de construção de conhecimento pedagógico para atuação junto a turmas de jovens e adultos.

Na contramão de práticas que negam voz e participação às professoras na sua própria formação, e acreditando, como Nóvoa (1995), que professor se forma na escola, o projeto SESC LER procura desenvolver a tematização da prática como eixo da formação continuada das professoras que se realiza a partir do registro escrito das aulas. Essa forma privilegiada de formação continuada, propõe “olhar para a prática de sala de aula como um objeto sobre o qual se pode pensar” (Weisz, 2002) e, acrescentamos, construir conhecimento pedagógico. É uma oportunidade de socializar as inquietações, dúvidas, descobertas e de realizar coletivamente a reflexão sobre a prática, reafirmando-a como fonte de conhecimento pedagógico. A prática da reflexão pode também auxiliar as professoras a tecer e confrontar seus conhecimentos prévios com as suas atividades docentes, dando sentido ao fazer e provocando a necessidade permanente de reformulação e superação.

Neste movimento tem sido reforçada a idéia de que a formação se dá na vida (por isso continuada) a partir de todas as experiências da pessoa professor, além do profissional. Para Nóvoa (1995) “ser professor obriga a opções constantes, que cruzam a nossa maneira de ser com a nossa maneira de ensinar, e que desvendam na nossa maneira de ensinar a nossa maneira de ser”. Sujeito e profissional são duas faces do mesmo ser que se expressam diante dos desafios do cotidiano com base na sua história. É fundamental, portanto, que a formação se organize principalmente a partir da reflexão crítica sobre a prática pedagógica e da construção de uma identidade pessoal, que, em diálogo com as teorias, imprima a marca de cada sujeito à sua prática, forjando a autonomia no seu fazer.

Para Cardoso (1993) “pouco se sabe ainda como as professoras aprendem da prática, como modificam seus esquemas de pensamento e de atuação, falta entender e identificar quais são as variáveis que geram a mudança”. Também segundo Tardif (2000), o tema da subjetividade dos professores foi negligenciado por muito tempo. Levando em consideração estas faltas, a hipótese que se pretende investigar é que os registros, auxiliados pela discussão e intervenções de outros educadores, podem ser uma forma privilegiada de reflexão sobre a prática que contribuem para gerar essas mudanças, a partir da construção coletiva de conhecimento pedagógico, e mais: a autonomia das professoras como profissionais. A própria Cardoso considera fundamental “encontrar novas saídas para o esquema tradicional de formação de professores” que considerem o ponto de vista destes profissionais, para melhorar a qualidade do ensino.

Acreditando na relação dialética entre teoria e prática, na formação baseada na prática cotidiana e na tematização dessa prática, o registro torna-se um instrumento essencial para a reflexão sobre a ação e, portanto, para o desenvolvimento profissional das educadoras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Cardoso, Beatriz. A Formação dos professores. In Cardoso, Beatriz e Teberosky, Ana (orgs.).Reflexão sobre o ensino da leitura e da escrita. Campinas: Editora UNICAMP e Perópolis: Vozes, 1993.

Freire, Madalena. Observação, Registro, Reflexão. Instrumentos Metodológicos I. Série Seminários. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1996.

Nóvoa, Antonio (org.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1995.



Weiss, Telma. O diálogo entre o ensino e a aprendizagem. São Paulo: Editora Ática, 2002.

Tardif, Maurice. Os professores enquanto sujeitos do conhecimentos: subjetividade, prática e saberes no magistério. In: Candau. V.M. (org.).Didática, currículo e saberes escolares. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.


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