Sessão de homenagem ao escritor josé saramago ponta Delgada, 10 de Dezembro de 1998



Baixar 13.88 Kb.
Encontro19.07.2016
Tamanho13.88 Kb.
SESSÃO DE HOMENAGEM AO ESCRITOR JOSÉ SARAMAGO
Ponta Delgada, 10 de Dezembro de 1998

Discurso do presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César
O Escritor José Saramago recebe hoje, em Estocolmo, o Prémio Nobel da Literatura de 1998.
Neste acontecimento, que a Escola das Laranjeiras teve a boa ideia de assinalar, estão presentes a Língua Portuguesa, as Literaturas de Língua Portuguesa, mas sobretudo está presente um homem que durante 51 anos dedicou o melhor do seu talento e do seu trabalho à escrita de romances, contos, poesia, teatro, crónicas e textos jornalísticos, mas que só depois de 32 anos de um trabalho literário persistente logrou ser reconhecido pelo público português: José Saramago publicou o seu primeiro livro em 1947 (o romance Terra do Pecado), mas só em 1979 conheceu algum êxito junto do público português com a atribuição do prémio da Associação de Críticos Portugueses ao livro de teatro A Noite; a primeira tradução de um livro de Saramago para outra língua só se verificou em 1982 com publicação em russo daquele que é por muitos considerado como o melhor livro do escritor — o romance Levantado do Chão, publicado em 1980 e galardoado com o Prémio Cidade de Lisboa do mesmo ano.
A biobibliografia de José Saramago é ela própria um romance, diria até uma epopeia, que narra o percurso de um homem que, sozinho, enfrentou tudo e todos para conseguir aquilo que hoje é: o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o galardão máximo da literatura a nível planetário, e talvez o escritor português deste século que melhor conseguiu produzir uma obra vasta, diversificada e constante que constitui, em si mesma, uma brilhante reflexão do homem português sobre si e sobre a sua história.
Autor de 28 livros — sendo 10 romances, 4 livros de teatro, 4 de crónicas, 4 de diarística, 3 de poesia, 2 de contos e 1 de viagens —, José Saramago, pelo valor da sua obra, mas sobretudo pela diversidade dos temas e dos géneros a que se dedicou, vem completar uma pequena lista de grandes escritores portugueses que ultrapassaram a nossa tradicional mediania e que são referências fundamentais para a nossa história cultural. Nessa lista cabem os nomes de Gil Vicente, de Luís de Camões, de Dom Francisco Manuel de Mello, do P.e António Vieira, de Eça de Queiroz, de Fernando Pessoa, e, naturalmente, dos açorianos Antero de Quental e Vitorino Nemésio.
É por isso mais do que justa e merecida a homenagem que a Escola das Laranjeiras presta agora a José Saramago, com a contribuição esclarecedora do Dr. Urbano Bettencourt.
Na verdade tudo o que se fizer para a promoção da leitura na nossa Região é importante, no sentido de recuperarmos o estatuto, perdido nas últimas décadas, de uma das regiões portuguesas onde mais se lia. Não é por acaso que vários testemunhos escritos de há um século, mesmo de há 50 anos atrás, salientam o facto de nos Açores ser frequente ver-se pessoas do povo a ler livros em voz alta — enquanto outras se dedicavam às suas actividades rurais, como a desfolha do milho ou o tratamento da lã ou do linho, como também não é por acaso que numa Região insular como é a nossa não existam bibliotecas dignas desse nome fora das cidades de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, estando neste momento privadas do acesso aos livros as populações das ilhas de Santa Maria, Graciosa, São Jorge, Pico, Flores e Corvo, e ainda as dos concelhos mais isolados de São Miguel, se excluirmos as bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian que, no entanto, nunca foram devidamente acolhidas e instaladas quer pelos governos anteriores quer pelas autarquias locais.
Sem uma política cultural coerente e planificada, que preveja e instale bibliotecas modernas em pelo menos todas as sedes de concelho e nas escolas básicas e secundárias da Região, e que possibilite o contacto das populações com os produtos culturais mais diversos, nomeadamente livros, qualquer homenagem que se preste a um escritor, por muito bem intencionada que ela seja, arrisca-se a transformar-se num acontecimento fortuito e efémero, que tenderá a desaparecer de imediato sem deixar marcas significativas nas populações a que se destina. É por isso que o actual Governo Regional está a preparar o lançamento de uma série de grandes medidas conducentes a uma melhor relação dos açorianos com a cultura, seja ela local, nacional ou internacional.
Entre essas medidas contam-se projectos como o Sistema de Leitura Pública dos Açores, que é uma adaptação às características da nossa Região da Rede de Bibliotecas Municipais em desenvolvimento a nível nacional e de que os Açores haviam sido propositadamente excluídos.
O sistema que estamos a construir prevê a instalação de bibliotecas nos 19 concelhos da Região, e a integração das bibliotecas escolares que assim o desejarem e das bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian já existentes.
Um outro grande projecto em preparação consiste na instalação de Lojas de Cultura em todas as sedes de concelho, permitindo assim que as populações que não habitem nas cidades de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo tenham ao seu alcance a possibilidade de adquirirem livros, discos, vídeos, obras de arte, e toda uma série de produtos culturais de que têm sido historicamente privadas, mas que são indispensáveis para um desenvolvimento equilibrado do nosso tecido social.
Estas lojas funcionarão em colaboração íntima com as autarquias e com os empresários locais, e pretende-se que contribuam de um modo decisivo para o desenvolvimento de um mercado cultural na Região.
Está ainda nos nossos planos, e em pleno desenvolvimento, a instalação de oficinas multi-artes em todos os concelhos, e que são espaços onde os agentes culturais das mais diversas áreas poderão desenvolver as suas actividades, numa relação íntima com os interesses e as características culturais locais. Nestes espaços poderão funcionar também oficinas de escrita criativa e de leitura, contando com a participação de escritores, de críticos, de editores e de quaisquer outros agentes que desenvolvam a sua actividade na área do livro e da leitura.
Medidas desta natureza constituirão, no entendimento do Governo Regional, algumas das bases fundamentais e incontornáveis para a definição de uma política cultural na Região, e contribuirão para que iniciativas como esta, da Escola das Laranjeiras, não caiam por falta de condições de continuidade: sem bibliotecas, sem livrarias, sem espaços públicos de criação e de discussão cultural, o trabalho de grandes escritores como José Saramago ficará irremediavelmente prejudicado: se um escritor escreve livros para o público, é necessário que esse mesmo público tenha acesso aos livros que são escritos.
Iniciativas com esta que hoje, aqui, se desenrola provam que temos uma população interessada, que temos professores que assumem a sua função social para além das aulas programáticas, e sobretudo que temos uma juventude escolar interessada mas que é preciso motivar para que se possa desenvolver culturalmente de um modo equilibrado e saudável.
É nossa convicção que estamos no bom caminho; e perante uma juventude como a nossa, tal convicção transforma-se em certeza. Que Saramago e os seus livros nos ajudem, mas sobretudo que nos não falte a energia e a capacidade de iniciativa dos nossos jovens, dos nossos professores, e dos nossos agentes culturais.





©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal