Sete-sóis e sete-luas: uma história de amor sem palavras



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SETE-SÓIS E SETE-LUAS: UMA HISTÓRIA DE AMOR SEM PALAVRAS
Cauê Garcia Soares – cauesoares8@hotmail.com

Flávia Bergamo Calderari – flavia_bergamo@hotmail.com

Paulo Sérgio Fernandes– paulo_sergiof@hotmail.com

RESUMO
O romance Memorial do Convento escrito por José Saramago apresenta uma nova versão da história da construção do convento de Mafra, a qual é contada por meio de uma visão do lado mais fraco, aquelas pessoas que não tiverem enfoque nos relatos oficiais. Destaca-se sobre todos os outros elementos da obra, o casal Baltasar e Blimunda, personagens fictícias que vêm representar todo o povo que sofreu para a construção do palácio-mosteiro. Apesar de serem fictícias, essas duas personagens apresentam grande riqueza em detalhes, que as fazem ganhar um apreço especial do leitor, inclusive Saramago representa o amor deles como ideal.
Palavras-Chave: Memorial do Convento. Blimunda. Baltasar. Saramago. Literatura Portuguesa.

INTRODUÇÃO
O romance Memorial do Convento (MC) de José Saramago não é somente um relato histórico da construção do convento de Mafra, mas sim a mistura de realidade e ficção que permite a descoberta de aspectos que não se encontram em livros oficiais da época.

A partir de sua leitura é possível perceber o quanto o autor se empenhou para que os elementos ficcionais tivessem a merecida importância ante a história, e esse objetivo foi atingido com êxito, pois a repercussão da obra foi de proporções surpreendentes.

Além disso, surpreendente é também a impressão que o romance causa em quem o lê e consequentemente a apaixonante simpatia que cresce à medida que se vai conhecendo o casal Baltasar e Blimunda. Dentre os elementos da obra, eles chamam a atenção devido a perfeita construção de seus personagens como representação de um objetivo e a perfeita harmonia entre os mesmos.

Através de um estudo aprofundado e uma análise crítica do casal Baltasar e Blimunda, foi possível atingir o objetivo geral de conhecer mais sobre todo o romance e em particular sobre a relação dos dois personagens entre si e deles com toda a obra. Os objetivos específicos foram identificar os elementos responsáveis pela importância deste romance na obra saramaguiana, comparar a relação entre o casal real e o casal natural, e analisar o relacionamento amoroso de Baltasar e Blimunda.

A importância do casal se deve ao fato do autor ter dado maior importância e maior relevo para os elementos fictícios do que para os elementos histórico-oficiais, com o objetivo de mostrar outro lado da história talvez mais importante que o lado oficial, já que sem essas pessoas de classe social mais baixa não seria possível transformar todo o sonho do convento em realidade.

A metodologia empregada para o desenvolvimento deste trabalho foi realizada por meio de revisão bibliográfica, desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos, utilizando as técnicas de análise funcional.

Quanto aos objetivos, a pesquisa foi do tipo exploratória, por que teve como finalidade proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses, e principalmente o aprimoramento de ideias. A abordagem foi através do método hipotético dedutivo, que se iniciou pela percepção de uma lacuna nos conhecimentos acerca da qual formulou-se hipóteses e, pelo processo de inferência dedutiva, foi testada a predição da ocorrência de fenômenos abrangidos pela hipótese.

1 A GÊNESE DO ROMANCE
José Saramago trabalhou aproximadamente dois anos até que sua obra MC fosse publicada em 1982 pela Editorial Caminho. Após conseguir estabilizar-se financeiramente, Saramago pode dedicar-se a sua profissionalização como autor e nesse momento surge o interesse por contar a tão conhecida história do convento de Mafra, vista por outros olhos. O escritor passou a visitar Mafra frequentemente em busca de documentos, relatos ou outras fontes que o ajudassem a reconstituir a História, objetivando contá-la pela visão do povo que não recebeu espaço nos relatos oficiais.

Fonte: http://sombrasdotempo.org/itiner/mafra_convento/v/1

Figura 1: Convento de Mafra.
A partir da obra Levantado do Chão (1980), Saramago começa a ganhar destaque, devido ao seu peculiar estilo de escrita, denominado estilo saramaguiano. As características desse estilo consistem em transmitir a oralidade por meio de longos períodos com pouco ou nenhuma marca de discurso direto, com escasso recurso a pontuação e a constante interação do narrador com o que é narrado. Sobre o surgimento do estilo, o autor declarou:
(...) comecei a escrever como toda a gente faz, com guião, com diálogos, com a pontuação convencional, seguindo a norma dos escritores.

Quando ia na página vinte e quatro ou cinte e cinco, e talvez esta seja das coisas mais bonitas que me aconteceram desde que estou a escrever, sem o ter pensado, quase sem me dar conta, começo a escrever assim: interlignado, interunindo o discurso directo e o discurso indirecto, saltando por cima de todas as regras sintácticas ou sobre muitas delas. (ARIAS, 2003, p. 74)


Neste mesmo ano, ele divulga ter dois projetos em andamento, O Ano da Morte de Ricardo Reis e O Convento, porém, foi o segundo projeto que desenvolveu-se mais facilmente, sendo, mais tarde, lançado no mercado como Memorial do Convento.

Desde seu lançamento, o livro foi sucesso absoluto vendendo mais de 50 mil exemplares e tendo mais de dez edições em apenas dois anos. Ele, também, foi traduzido em 12 idiomas e editado em 15 países. A qualidade e o sucesso da obra foram, então, consagrados definitivamente com diversas premiações, dentre elas a do PEN Club e do Município de Lisboa em 1983 e, a do Nobel de Literatura em 1998. Também serviu como base para a ópera Blimunda, do compositor italiano Azio Corghi, que foi levada ao palco do teatro alla Scala de Milão, em maio de 1990.

MC é escrito com o objetivo de imortalizar os heróis, que foram deixados de lado pela História oficial, esta, que é vista por Saramago como parcial e parcelar. Ele acredita que a História é parcelar, pois conta apenas uma parte do ocorrido. O único tempo que existe para o autor é o passado. Ele vê o passado como se este estivesse em uma tela, onde se encontram as coisas que a História conta e aquelas que ela não menciona. Nesse caos, criado pela falta de conexão entre fatos que a História, por si só, não consegue ou, não pode criar, surge a vontade de Saramago de encontrar os nexos entre esses acontecimentos. Uma visão, também, tida pelo autor sobre a História, é que a mesma é parcial. No sentido em que se apresenta como uma espécie de lição orientada e ideológica, algo que conheceremos com o termo de História Pátria. Essa parcialidade é reconhecida e pode ser, muitas vezes, verificada, analisada e corrigida em suas deformidades.

A falta de informação sobre as personagens que participaram da história e não são mencionados na História oficial é o ponto culminante da agonia do autor, criando um sentimento trágico de desperdício humano. O foco de suas obras é o povo comum e corrente, aquelas pessoas que desaparecem sem deixar registros de sua passagem.

A família de Saramago era formada por camponeses, sem-terra, gente pobre, analfabetos em sua maioria. A classe que irá defender é a mesma que o originou. Na tentativa de representar o povo que desaparece nos registros do mundo, Saramago nomeia os operários da construção do convento, em MC, de A a Z. Os nomes não serão mais encontrados, mas essa representação serve para todos os nomes que realmente foram os daqueles trabalhadores.

Outro fator importante que se pode encontrar na vida do autor para essa indignação diante da omissão cometida pela História é o fato da falta de registros da morte de seu irmão. O irmão do autor havia falecido com dois anos e meio de idade, mas não constavam registros de sua morte, ele continuava vivo para a História.

Com essa experiência, o autor começou a entender a História como uma versão do passado. Sendo que muitos a entendem e a explicam como uma verdade absoluta, ele nos apresenta as lacunas deixadas pelos textos oficiais. Encontrando tantas falhas no que é oficial surge a pergunta: “Porque é que a literatura não há-de ter também sua própria versão da História?” (REIS, 1998, p. 87)
1.1 Resumo da Obra
O romance começa a ser contado pela história do rei de Portugal, Dom João V, no ano de 1711, e sua esposa, Dona Maria Ana Josefa, os quais não tinham uma vida conjugal baseada em afetividade, mas mesmo assim estavam tentando, com alguma dificuldade, conceber o herdeiro do trono real. Num determinado dia o rei recebeu a visita de um franciscano que lhe disse que, se ele prometesse levantar um convento em Mafra, Deus lhe daria um filho em troca do favor. Dom João V prometeu e logo descobriu que Dona Maria Ana estava grávida, pouco depois iniciaram-se as construções do convento.

Baltasar Mateus, mais conhecido como Sete-Sóis, era um soldado de 26 anos de idade e tinha acabado de chegar da guerra; e por uma fatalidade perdeu a mão esquerda na última batalha em que esteve presente e não poderia mais voltar a participar delas, por não servir mais ao país por causa da falta do membro.

Devido a Inquisição, houve em Lisboa um dia de auto-de-fé, e nesse dia em específico 104 sentenciados seriam julgados e condenados a um castigo dependendo do que haviam cometido. Toda a cidade sempre se fazia presente desde os mais pobres até o rei e a rainha, e no meio da multidão que seria julgada, estava Sebastiana Maria de Jesus, acusada de ter visões e revelações sobre o futuro, ela era mãe de Blimunda que também estava na rua assistindo. Blimunda estava junto com o padre Bartolomeu Lourenço, conhecido da família, e em meio aquele alvoroço ela conheceu Baltasar Sete-Sóis, que imediatamente se apaixonou pelos olhos dela. Quando acaba a procissão os dois vão para a casa de Blimunda e desde este dia, ele passa a dormir e conviver com ela.

Dias depois, Baltasar conheceu melhor o padre Bartolomeu Lourenço, chamado de o Voador, devido ao seu sonho de encontrar uma maneira de fazer o homem voar. O padre contou sobre suas ideias e o levou a São Sebastião da Pedreira, onde já havia uma máquina sendo construída para levantar voo. A admiração de Baltasar fez com que ele aceitasse o convite do padre de ajudá-lo a terminar a construção da passarola, como ficou conhecida a máquina.

Depois de passado um tempo morando juntos, Baltasar percebeu que Blimunda não abria os olhos pela manhã enquanto não comesse ao menos um pedaço de pão e este mistério já estava deixando-o muito intrigado. Um dia, de tanto insistir para que Blimunda contasse o segredo para ele, ela decidiu compartilhar e contou que em jejum ela conseguia ver as pessoas por dentro, conseguia ver através das coisas e isso deixava de acontecer na mudança da lua. Ela teve que provar que era verdade, pois Baltasar não acreditava e saíram os dois pela rua, ela olhou para baixo e viu uma moeda sob uns tijolos no chão, após toda a revelação e a promessa de que ela nunca olharia Baltasar por dentro, os dois não tinham mais segredos.

Baltasar e Blimunda decidiram, então, mudar-se para São Sebastião da Pedreira e lá ele continuou a construir a máquina de voar com a ajuda do padre Bartolomeu Lourenço, que tornou-se muito amigo do casal e chegou até a atribuir a Blimunda o apelido de Sete-Luas, pois ela era aquela que conseguia ver as escuras, ao contrário de Sete-Sóis, que só via às claras.

O casal viaja a Mafra e reencontra a família de Baltasar, que ficou muito feliz com o retorno do filho. Eles acabam passando uns tempos por lá, enquanto o padre viaja em busca de conhecimentos para a construção da passarola.

Passados três anos, o Padre Bartolomeu Lourenço voltou da Holanda e vai a Coimbra, onde iria aprofundar seus estudos e formar-se doutor. O padre, também, procurou pelo casal e os encontrou em Mafra. Conversando sobre a passarola, contou o que aprendeu na Holanda, o padre explicou aos dois que o éter que faria a passarola voar fica dentro das pessoas, é a vontade de viver que elas têm dentro de si, e este éter colocado na passarola seria atraído pelo sol, fazendo a máquina subir e voar.

O padre pediu, então, a Blimunda que usasse o seu dom de ver as pessoas por dentro para ver quem estava deixando a vontade escapar e nesse momento recolhe-la em um pote, para mais tarde usarem na passarola. Baltasar e Blimunda retornaram para Lisboa, ela com o objetivo de recolher vontades e ele de continuar a construção da máquina de voar.

Retornando a Portugal, o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão conhece o maestro Domenico Scarlatti, que era o professor de música da infanta D. Maria Bárbara. O padre ficou conversando com Scarlatti após uma das lições. Nesta conversa, o padre convidou o músico para ver a passarola. Então, Domenico foi à S. Sebastião da Pedreira, apresentando-se a Baltasar e Blimunda e conheceu a máquina de voar.

O cravo de Scarlatti foi levado para a quinta. O instrumento chegou desafinado por causa dos balanços e solavancos do caminho. O músico afinou-o e começou a tocar enquanto o casal trabalhava na passarola. Domenico revelou ter a vontade de voar com a passarola e tocar sua música no céu.

Baltasar e Blimunda foram a Lisboa buscar vontades entre as pessoas doentes pela peste, já que seriam necessárias aproximadamente duas mil vontades para que a passarola levantasse voo e eles só tinham trinta por enquanto. Blimunda adoeceu após recolher as duas mil vontades. Baltasar ficou ao lado de sua cama por todo o tempo. Com a música de Scarlatti ela começou a se recuperar.

Com a notícia de que a quinta de S. Sebastião da Pedreira seria tomada do padre, eles a desmontaram para que a passarola pudesse sair voando por ela. O padre Bartolomeu receava que o Santo Ofício entendesse sua máquina como arte demoníaca e resolveu fugir. Baltasar, Blimunda e o Padre Bartolomeu voaram com a passarola.

Começaram a ter preocupações com o que aconteceria quando o sol se escondesse e as vontades não fossem mais atraídas para o céu. Blimunda e Baltasar abraçaram-se as esferas das vontades e a passarola desceu e pousou num monte. O padre Bartolomeu tentou, então, destruir a passarola colocando fogo nela, mas foi impedido pelo casal. Quando o fogo foi apagado o padre fugiu. O casal escondeu a passarola com ramos das moitas do Monte Junto e seguiram para Mafra.

Baltasar conseguiu trabalho nas obras do convento, que já se haviam iniciado e estavam atrasadas, as chuvas constantes e as dificuldades no transporte dos materiais eram as causas, inclusive no transporte da pedra gigante que seria colocada no chão do pórtico da igreja. Porém, ele sempre regressava ao lugar onde estava a passarola para fazer os reparos necessários, mesmo depois de descobrir que o padre Bartolomeu de Gusmão morrera louco, na Espanha, durante um terremoto.

O rei ordenou por capricho que se preparasse uma nova planta do convento de Mafra, e esta teria a capacidade para trezentos frades, não mais oitenta como constava. Precisariam de mais homens para trabalhar na construção, por isso foi enviada uma ordem para as vilas de que todos os homens em condições de trabalho deveriam ser levados a Mafra por vontade, ou contra ela.

Baltasar estava velho, mas não aos olhos de Blimunda. Há dezessete anos encontraram-se pela primeira vez e ela ainda o via da mesma forma. Baltasar saiu, então, numa manhã para ver a passarola. Blimunda acompanhou-o até o início da estrada. Enquanto consertava os recentes estragos da passarola, distraiu-se, pisou em uma tábua apodrecida, que rachou e o fez cair. Na queda os panos que cobriam a passarola saíram, a luz entrou e ao encontrar as vontades fez com que a passarola voasse.

Por duas noites não dormia Blimunda quando saiu à procura dele. Chegando ao Monte percebeu que Baltasar não estava lá, nem a passarola. Somente encontrou o seu alforje com seu espigão. Começou a procurá-lo. Sem sucesso, pensou em subir ao topo do Monte Junto para ter uma visão melhor. Descobriu que no topo do Monte existia um convento. Encontrou um frade no caminho, que ofereceu um abrigo para ela passar a noite em uma ruína ao lado do convento. Ela negou.

Quando a noite chegou, com medo dos animais que poderiam estar a sua espreita, voltou ao topo do monte. Encontrou a ruína, onde poderia dormir. No meio da noite acordou com um barulho. Reconheceu a sombra do frade passando por uma fresta. O frade queria matar as vontades da carne. Ela tirou o espigão do alforje e quando o padre de batina erguida sentiu o abraço daquela mulher, sentiu, também, seu sangue escorrer pelas costas. Blimunda caminhou por toda a noite. Nada mais a assustava. Seguiu para Mafra; Baltasar poderia ter voltado. Quando chegou, percebeu que ele não estava ali, mas acabou adormecendo.

No domingo, vinte e dois de outubro de mil setecentos e trinta, sagrou-se o convento de Mafra, mas é neste mesmo dia que Blimunda sai da cidade procurando Baltasar.

Durante nove anos Blimunda procurou por Baltasar. Aonde chegava, perguntava por seu homem. Ficou conhecida de terra em terra como a Voadora, pelas histórias que contava.

Por seis vezes passou por Portugal, sendo esta a sétima. Não comia a quase vinte e quatro horas. Algo não a deixava comer, algo que segurava sua mão sempre que a ia levar a boca.

Em Lisboa, havia fogueiras em S. Domingos. Onze pessoas estavam sendo queimadas. Dentre elas queimava um homem que não possuía a mão esquerda, mas possuía uma nuvem fechada no centro de seu corpo.

“Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda.” (SARAMAGO, 2010, p. 347)



2 ANÁLISE DO CASAL REAL
A apresentação do casal Dom João V e Dona Maria Ana Josefa, respectivamente, rei e rainha de Portugal, é que dá início ao romance MC e que leva o leitor a crer que eles serão o foco principal da história, já que se espera conhecer mais sobre a construção do convento de Mafra, da qual o rei é responsável.

A promessa de construção do convento surge do desespero do casal ao não conseguir conceber o herdeiro do trono, eles já tentavam há algum tempo, desde que D. Maria Ana havia chegado da Áustria, em virtude do casamento combinado entre realezas. Assim foi a história de amor dos dois, um casamento combinado, em que a futura rainha viu pela primeira vez seu marido no momento da cerimônia matrimonial e veio a conhecê-lo melhor depois do casamento, quando passaram a morar juntos. Talvez nem o tenha conhecido tão bem assim, já que a relação conjugal não era baseada em cumplicidade, companheirismo e parceria, nem sequer dormiam no mesmo quarto.

A rainha não abria mão de dormir com seu cobertor austríaco, e por não querer compartilhar do mesmo calor que esta passava, o rei dormia em outro quarto. No momento das relações amorosas, o rei ia até o quarto da rainha, seguido por criados e ela o esperava juntamente com suas criadas, não trocavam juras de amor, nem confidências, apenas cumpriam o protocolo, uma tentativa de ter um filho para ser o futuro substituto do rei. Ao terminar suas relações sexuais, o rei voltava para o seu quarto, acompanhado dos criados, e a rainha se recompunha com a ajuda das suas criadas antes de dormir.

Em virtude da promessa, como acreditou o rei, a rainha conseguiu engravidar e logo após o nascimento da primeira filha do casal, iniciaram-se as obras de construção do convento de Mafra. Não foi necessário que fizesse outras promessas, o casal conseguiu sem dificuldades ter outros filhos, num total de seis.

A rotina dos dois não passava de participações em eventos sociais; quando no palácio, a rainha vivia sozinha, mergulhada em seus próprios pensamentos, lutando com seus sonhos e cumprindo seu papel na realidade. D. João V sempre ocupado com as preocupações de rei de Portugal, como guerras, administração da riqueza proveniente de outras terras, inquisição, dimensões do convento e até mesmo com a montagem de um convento em miniatura.

Há um episódio em que o rei acaba adoecendo e até ele mesmo duvida se continuaria a viver; então seu irmão, interessado apenas em herdar a coroa, propõe à rainha que ela se case com ele caso o rei venha a falecer, e assim ele consegue seu objetivo e ela não deixa de ser rainha. Uma proposta precipitada, já que o rei melhorou do mal que o acometia, e que apenas revela os verdadeiros sentimentos que uns tinham pelos outros nesse meio real.

A criação dos filhos quase não teve participação dos pais, um grande número de criados era responsável por cuidar e não deixar que nada os faltasse. Assim como a falta de carinho e cumplicidade do casal, os filhos também não recebiam afeto da família. Repetindo a história da mãe, a primeira filha teve um casamento arranjado e ainda menina foi separada da família para ir cumprir seu papel de rainha da Espanha, sem nem sequer chegar a conhecer o convento de Mafra, que foi o resultado da promessa feita antes do seu nascimento.

Assim que se mostra a história real, aquela que a História oficial sempre contou nos livros, aquela que sempre foi apresentada pela visão do dominante, no caso o rei que só se preocupa com seus próprios interesses, cobertos de luxuria e abuso de poder.

Este casal perde o foco no romance, já que sua trajetória se resume no que se viu anteriormente, e o que o autor deseja é destacar a história pela visão do dominado, daqueles que apesar de todos os problemas cotidianos, ainda preservam as relações familiares, humanas, baseadas em amor e sinceridade.

3 ANÁLISE DO CASAL FICCIONAL
A partir do quarto capítulo, o rei e a rainha são deixados de lado, o enfoque do texto passa, então, a novos personagens: Baltasar Mateus e Blimunda de Jesus. O soldado que perdeu serventia para a guerra, pois perdera a mão esquerda, e a visionária que logo perderia a mãe nas perseguições da Inquisição. Aos poucos, estes tomam o espaço que antes fora destinado para relatos oficiais. Em contradição ao casal real, Baltasar e Blimunda têm uma relação baseada no amor, harmonia e afetividade.

O casal conhece-se em um auto-de-fé que estava sendo realizado em Lisboa. Mesmo a mãe de Blimunda, que estava sendo condenada por ter visões, sente a ligação dos dois, antes mesmo que eles se conhecessem. Foi pela vontade de sua mãe, sem que nenhuma palavra precisa-se ser dita por ela, que Blimunda olhou para Baltasar e perguntou seu nome.


(...) Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles, poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis. (SARAMAGO, 2010, p. 51)
Bastou que se vissem para sentiram algo especial um pelo outro. E mesmo depois deste momento, não buscaram ver defeitos entre si, nem o discurso era necessário, entendiam-se com o olhar e em seguida encontravam seus corpos. O erotismo está presente durante todo o livro. Diferente do que a sociedade e a Igreja pregava na época, o casal praticava o ato sexual como realização do amor que sentiam, não para procriar como o casal real.

A grande afetividade demonstrada pelo casal vai além da atividade sexual. Nas pequenas atividades diárias, onde se ajudam, ou simplesmente observam-se. O modo como eles completam-se torna-se óbvio no momento em que Blimunda “(...) vira-se para Baltasar e descansa a cabeça sobre o ombro dele, ao mesmo tempo que pousa a mão esquerda no lugar da mão ausente, braço sobre braço, pulso sobre pulso, é a vida, quanto pode, emendando a morte.” (SARAMAGO, 2010, p. 74)

Blimunda era visionária, via por dentro das coisas, mas não precisava ver por dentro de Baltasar, nem queria. Prometeu nunca olhar-lhe por dentro. Promessa que cumpre por toda sua vida, até o momento em que vê seu amado queimando em uma fogueira, sendo condenado pela Inquisição.

Segundo Calbucci (1999), neste ponto de sua jornada, ela não aceita a morte de Baltasar, obrigando, assim, que a vontade dele permanecesse com ela, na terra, onde, de acordo com o casal, é o lugar em que devem ficar para sempre as vontades humanas.

Para a época, o casal era uma exceção de costumes. Nem chegaram a casar-se na igreja como a sociedade pregava. Mesmo assim, demonstravam seus sentimentos mais claramente e intensamente que o rei e a rainha, que seguiam os preceitos impostos pela Igreja.

Baltasar e Blimunda representam dentro da obra o povo que viveu em Portugal e sofreu com a construção do convento, com as perseguições da Inquisição. O Povo que foi esquecido pela História, para dar lugar às extravagâncias dos membros da corte real. Levando o MC a ser mais do que um relato da construção do mosteiro de Mafra, ser um memorial do povo português.

“Memorial do tempo de D. João V, do Padre Bartolomeu e sua passarola, o texto de Saramago é um memorial também do tempo dos Baltasares e Blimundas, do Portugal anônimo e clandestino.” (OLIVEIRA FILHO, 1993, p. 97)

CONCLUSÃO
Através da análise do livro e dos críticos, foi possível conhecer mais sobre a relação do casal Baltasar e Blimunda, aumentando, assim, a compreensão de toda a obra. A importância do casal tornou-se extremamente relevante para o romance, sendo estes, os representantes do povo, objetivo principal do autor ao escrever o MC. Também, foi possível identificar características e comportamentos marcantes da sociedade que viveu em Portugal no século dezoito, identificar as excentricidades da corte, assim como, entender as dificuldades passadas pelos pobres e trabalhadores.

A comparação entre casal real e casal natural foi o ponto de partida para as respostas buscadas inicialmente, possibilitando a descoberta dos papéis que cada um deles desempenha dentro da história e no livro como um todo.

Baltasar e Blimunda representam uma história de amor sem palavras, que é singular na literatura e um ideal do próprio autor. Uma relação baseada em afetividade e sexualidade, sem a necessidade de julgar o parceiro, nem de cobrá-lo, apenas, amá-lo e ser amado, completando-o e acompanhando-o nas dificuldades e alegrias do dia-a-dia. Eles também representam os dominados, o povo que não tinha voz e não teve espaço na História, desde o soldado que perdeu sua serventia para o país até os trabalhadores que construíram o convento.

Já D. João V e D. Maria Ana são o casal que vivia sem amor, que tiveram uma vida baseada nas relações de poder. São os representantes dos dominantes, que cumpriam seu dever sem se importar com os que estavam abaixo na pirâmide social, muitas vezes tomando decisões por luxuria e capricho próprios.

Com o estudo da origem do MC dentro da obra saramaguiana, foi possível entender melhor o estilo utilizado pelo autor e as motivações que o levaram a escrever este romance. Compreendendo-se, deste modo, que a visão que o autor tem do passado, levou a obra a um novo patamar na Literatura-histórica. Completando com a ficção onde a História deixou lacunas, Saramago apresenta-nos os valores de seu povo, que sofreu com as vontades de seu rei. O autor não desmerece em nenhum momento a verdade, ele apenas a mostra por outro ângulo, resgatando fatos e dados que não se mostravam nas escrituras, mas que eram de tanta importância quanto o que já existia em documentos.

Para elaboração de trabalhos futuros, sugere-se que seja feita uma análise da relação dos integrantes da corte diante das ironias apresentadas pelo narrador e, na conformidade encontrada pelo discurso de Blimunda com o discurso do narrador, buscando demonstrar que a narração irônica e paródica concorda com o povo e desacata as autoridades, demonstrando perfeitamente os objetivos do autor de desmistificar a História oficial.



REFERÊNCIAS
ARIAS, Juan. José Saramago: o amor possível. Tradução de Rubia Prates Goldoni. Rio de Janeiro: Mandi, 2003.
CALBUCCI, Eduardo. Saramago: um roteiro para os romances. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999. P. 33.
OLIVEIRA FILHO, Odil José de. Carnaval no convento: intertextualidade e paródia em José Saramago. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1993.
REIS, Carlos. Diálogos com José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1998.
SARAMAGO, José. Memorial do convento. ed. 38. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.


Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 2, n.5, Edição Especial, outubro 2011




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