Sete Teses Sobre o Anarquismo p



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Neoanarquismo


Sumário:

A Estagnação do Anarquismo .............................................................. pg.1


Sete Teses Sobre o Anarquismo ........................................................... pg.2


Anarquismo e Marxismo Uma História de Amor e Ódio .................... pg.4


Introdução ao Neoanarquismo ............................................................. pg.6


Princípios Básicos do Neoanarquismo ................................................ pg.7


Crítica Neoanarquista ao Anarquismo Tradicionalista ........................................... pg.8


As Tarefas atuais do Neoanarquismo .................................................. pg.9

Referência Bibliográfica .................................................................................. pg.10

A Estagnação do Anarquismo

O grande problema do anarquismo não é prático, moral, histórico e sim teórico. O anarquismo tem suas origens em Proudhon, Bakunin, Stirner, Reclus, Kropotkin, entre inúmeros outros. Ele surgiu em meados do século 19, junto com o marxismo, e teve seu momento histórico mais ousado no início do século 20. Mas depois da Guerra Civil Espanhola, o anarquismo se viu lançado às margens da sociedade capitalista. O que provocou isto? Muitos tentaram responder a esta questão, mas, do nosso ponto de vista, de forma equivocada. Do nosso ponto de vista, o anarquismo perdeu sua influência social e seu espaço devido a dois motivos básicos: as mudanças históricas, por um lado, e à sua própria estagnação, por outro, o que significa que o anarquismo não conseguiu acompanhar as mudanças históricas, virando um fóssil político e ideológico.


A estagnação do anarquismo ocorre fundamentalmente no plano intelectual. Os anarquistas nunca foram grandes pensadores. Se lermos atentamente Proudhon, ou Bakunin, ou Kropotkin, ou Malatesta, ou seja, lá quem for, veremos que o anarquismo nunca teve uma forte tradição intelectual. Proudhon escreveu inúmeros livros, mas com limitações visíveis, tanto do ponto de vista de seu caráter libertário (muitas vezes beira ao reformismo, como notou Bakunin) quanto ao seu alcance intelectual propriamente dito. Bakunin também escreveu muito e com um conteúdo mais libertário, mas cuja estrutura racional e fundamentação deixam a desejar. Kropotkin também escreveu e de forma mais profunda que milhares de outros anarquistas, sem, no entanto, lançar grandes vôos explicativos e teóricos e cometendo erros diversos (não entendeu a concepção de Marx sobre o comunismo e se viu encantado pelo positivismo e pela ciência burguesa). Malatesta também escreveu muito, mas textos panfletários. O que sobrou: Stirner? Besnard? Joyeux? Goldwin? E. Goldmann? Deixemos estes de lado, pois jamais atingiriam Proudhon, Bakunin, Kropotkin. Os anarquistas posteriores, no século 20, se limitaram a produzir obras sem o mesmo alcance intelectual do que os do século 19 e início do seguinte e muitos se limitaram a reproduzir o que eles disseram. Ora, a classe dominante não parou de produzir idéias e cada vez mais complexas, bem como a sociedade capitalista não deixou de se desenvolver e complexificar, o que deixou os anarquistas cegos, sem visão e sem lanterna, caíram na escuridão e do ideal libertário sobrou apenas o "instinto" ou o desejo, mas sem reflexão, sem consciência da nova realidade formal do mundo opressivo e repetindo velhas fórmulas. Também o marxismo se desenvolveu, em alguns casos para pior, em outros para melhor, mas em ambos os casos houve uma atualização e reformulação que o situava melhor. O anarquismo não, ele ficou parado, estático, estagnado. O que o anarquismo contribui para se compreender a sociedade contemporânea? Suas relações de poder? Sua estrutura, sua forma de reprodução? O anarquismo consegue explicar o porque vivemos num mundo de infelicidade geral e, paradoxalmente, de conformismo geral? Em nada e por isso, por conseguinte, a prática anarquista se revela estéril. A estagnação intelectual do anarquismo provoca sua esterilidade prática. Vejam só: existem mais indivíduos anarquistas no Brasil do que maoístas, guevaristas, stalinistas (convictos, é claro) e, no entanto, esses são mais eficazes, mais conhecidos, mais desenvolvidos, em parte devido a algo muito particular, a verborragia dita "marxista", entre outros fatores. O anarquista, devido sua estagnação intelectual, que se contentam em ler (quando lêem!) Bakunin e outros, e repetir fórmulas do século 19 e viver da nostalgia dos atos heróicos passados (La guerra civil espanhola!! la makhnoviste! la comuna de paris! e la se vai qualquer tentativa de fazer algo agora...) e assim não entendem que o que se fez e se escreveu não serve para explicar e orientar nossa ação atual e por isso caiem numa esterilidade intelectual sem limites. Quantos jovens, mulheres, intelectuais anarquistas temos no Brasil? Por qual motivo não se juntam e realizam um projeto e uma prática libertária? Eis a questão!! A estagnação intelectual gera  a esterilidade prática e assim o anarquismo, como um todo, se encontra estagnado. Como reverter esta situação? Somente através de neoanarquismo, que supere a estagnação teórica e a esterilidade prática do anarquismo tradicional.


Sete Teses Sobre o Anarquismo




PRIMEIRA TESE: O ANARQUISMO SE ENCONTRA ESTAGNADO INTELECTUALMENTE.
O anarquismo na atualidade está estagnado intelectualmente. Ele não consegue responder às questões fundamentais de nossa época, por dois motivos básicos: não acompanhou as mudanças históricas e não conseguiu efetivar um diálogo autêntico com as concepções científicas, filosóficas, políticas, teóricas, que se desenvolveram e explicaram, da sua forma, a sociedade contemporânea. Sendo assim, o anarquismo não consegue dar respostas a várias questões e não consegue sair do círculo vicioso das citações dos pensadores anteriores, caindo numa espécie de dogmatismo e tradicionalismo. Assim, o anarquismo não consegue explicar a si mesmo, bem como não consegue explicar seu fracasso histórico, e muitas outras questões, como, por exemplo, a pouca influência social de seu discurso.


SEGUNDA TESE: O ANARQUISMO SE TORNOU ESTÉRIL PRATICAMENTE.
O anarquismo, devido a um conjunto de fatores históricos e sociais, se encontra em total esterilidade prática. O mais importante destes fatores se origina no próprio anarquismo, ou seja, na sua estagnação intelectual. Além disso, a forma de estruturação burocrática da sociedade capitalista se torna mais consolidada com o desenvolvimento desta sociedade, bem como seus valores, entre outros elementos que necessitam de uma pesquisa aprofundada para conseguirmos identificar suas raízes, alcance, conseqüências. Após a Comuna de Paris, A Revolução Russa, A Guerra Civil Espanhola, para citar alguns exemplos, o anarquismo nunca mais conseguiu lançar grandes vôos. Ora, a compreensão das razões disto, ou seja, o seu avanço intelectual, proporcionaria elementos que contribuiriam para superar esta situação, mas a sua estagnação intelectual impede tal avanço.

TERCEIRA TESE: O ANARQUISMO PRECISA SUPERAR O SEU TRADICIONALISMO, UM DOS OBSTÁCULOS PARA SEU DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL.


Um dos obstáculos principais para o desenvolvimento intelectual do anarquismo é o seu tradicionalismo. O curioso é ver que a maioria dos adeptos do anarquismo são jovens e que, portanto, não deviam se entregar com tanta facilidade a repetir fórmulas, frases, citações, de pensadores antigos. O tradicionalismo é tão grande e forte que até mesmo a disputa com Marx é eternamente repetida pelos anarquistas contemporâneos, e, o que é pior, sem acrescentar nada de novo, ou seja, simplesmente repetem o que já havia dito os anarquistas anteriores, como Proudhon, Bakunin, etc. O tradicionalismo produz ídolos, como Bakunin, Kropotkin, etc., que passam a ser lido (muitas vezes mal entendidos) e repetidos, sem ir no fundo das questões, sem ir do que eles disseram ao que de fato é. Assim, grande parte dos anarquistas passam facilmente do tradicionalismo para o dogmatismo e idolatria, o que é totalmente contrário ao espírito libertário. Desta forma, o tradicionalismo gera um vínculo irracional com a autoridade, o que não passa de um acontecimento natural de nossa sociedade, justamente naqueles que dizem combater a autoridade e em nome daqueles que deram a vida para se jogarem em t al luta.
QUARTA TESE: O ANARQUISMO PRECISA DESENVOLVER PESQUISAS SOBRE A SOCIEDADE REPRESSIVA CONTEMPORÂNEA.

O anarquismo precisa, para superar sua estagnação intelectual, desenvolver pesquisas sobre a realidade social contemporânea. Para isso, precisa realizar um diálogo com as ciências humanas, com a psicanálise (que contribui em muito para se compreender a questão da autoridade, de forma muito mais aprofundada que os fundadores intelectuais do anarquismo), com o marxismo (que fornece elementos fundamentais para a compreensão do processo de produção capitalista, sua superestrutura, etc.) e outras concepções, bem como acompanhar o desenvolvimento histórico e suas lições e, fundamentalmente, desenvolver análises críticas e fecundas sobre o próprio anarquismo e suas limitações, obstáculos, incluindo a questão da organização. Essas pesquisas precisam ganhar um núcleo de pesquisa libertária para garantir a produção teórica e sua divulgação.




QUINTA TESE: O ANARQUISMO PRECISA RECONSIDERAR A QUESTÃO DA ORGANIZAÇÃO.

A questão da organização deve ser reconsiderada pelo anarquismo, sob pena de continuar reproduzindo velhas fórmulas ineficazes e ultrapassadas. O principal problema passa a ser como conseguir, ao mesmo tempo, criar uma organização forte, nacional e internacionalmente, e constituir uma estrutura interna que não reproduza o burocratismo das grandes instituições capitalistas. A necessidade de reconsiderar a questão da organização é o ponto de partida para se pensar em tal organização, ao qual não bastam palavras de ordem sobre "federalismo" (que a maioria dos anarquistas militantes nem sequer sabe o que é) e sim ter uma compreensão clara da problemática da organização e de seus problemas, o que possibilita um projeto organizacional libertário. Além disso, e relacionado com esta problemática, é preciso aprender a pensar em atuar coletivamente em nível nacional e largar o processo de pulverização e localismo ao qual o anarquismo, principalmente brasileiro, vem caindo.



SEXTA TESE: O ANARQUISMO PRECISA RECUPERAR O SEU CARÁTER LIBERTÁRIO.

O anarquismo precisa recuperar o seu caráter libertário e romper com o tradicionalismo, a idolatria, o dogmatismo e agir no sentido de contribuir para realizar seu objetivo: a anarquia. O caráter libertário do anarquismo não se encontra em citações de Bakunin, Kropotkin, Malatesta, Proudhon, Stirner, Machnó, E. Goldmann, ou qualquer outro pensador libertário e sim numa teoria e prática libertária, que conteste as ideologias e práticas desta sociedade repressiva.




SÉTIMA TESE: O ANARQUISMO PRECISA SE TRANSFORMAR NUM NEOANARQUISMO.

Ao se concretizar as alterações que propomos aqui, vemos a passagem do anarquismo para o neoanarquismo, do anarquismo tradicionalista e em certo sentido conservador para o novo anarquismo, libertário e revolucionário. Mas o que há de novo neste "neoanarquismo" e o que há de permanência do anarquismo tradicionalista sobre o neoanarquismo que justifique este último se dizer "anarquista"? A descontinuidade, a ruptura, se encontra no fim da idolatria, do dogmatismo, do tradicionalismo e numa nova atitude, libertária, frente aos desafios postos para aqueles que querem construir uma sociedade baseada na autogestão, uma ruptura intelectual e, conseqüentemente, prática. A continuidade em relação ao anarquismo tradicionalista se encontra no que ele possui de libertário e que estava presente no núcleo dos velhos pensadores do século 19 e início do século 20: o espírito libertário, contido nos seus princípios fundamentais: contestação de toda autoridade, luta contra o estado, luta contra todas as formas de dominação, opressão, etc., luta pela autogestão, pela anarquia enquanto forma de sociedade.



Anarquismo e Marxismo

Uma História de Amor e Ódio

Já se explicou as relações entre o anarquismo e o marxismo sob várias formas. Desde a personalidade de Marx até sua vida pessoal, passando também pela origem de classe dos anarquistas ou suas ligações classistas, esta relação sempre foi discutida de forma equivocada.


Isto é tão forte que observamos num texto dos mais inteligentes relacionados ao assunto se intitula: Karl Korsch, O Amigo Marxista do Anarquismo (...). A questão é tão emocional que mesmo aqueles que querem romper com o ódio passa a falar de outro sentimento: a amizade ou o amor. Sem dúvida, isto é fundamental para explicar a relação entre marxismo e anarquismo, mas não aplicando isto a Marx e Bakunin ou Marx e Proudhon e sim aos anarquistas contemporâneos. Proudhon e Bakunin, assim como Marx, viveram intensamente a luta operária do século 19 e acreditavam sinceramente que estavam com a razão e por isso não separavam sua crença intelectual de sua carga emocional elevada. Neste sentido, suas polêmicas eram não somente análises intelectuais corretas, mas muitas vezes expressões de sentimentos ambíguos.
Ora, ninguém pode negar que Bakunin e Marx, e muitos outros eram revolucionários sinceros e se estivessem vivos hoje reavaliariam várias teses apresentadas por eles no passado e inclusive a relação com a outra corrente, sem poupar inúmeras críticas aos seus continuadores. O que Marx já havia começado a fazer! O que Bakunin diria hoje dos anarquistas contemporâneos que nada fazem de revolucionário? Talvez criasse a expressão anarco-conservadores ou lançaria o Manifesto Anarquista, parafraseando Marx e dizendo que no fundo, o velho e bom Marx era mais libertário do que ele pensava, e dedicaria um capítulo ao anarquismo pequeno-burguês, outro ao anarquismo crítico-utópico, outro, ainda, ao anarquismo romântico e assim por diante. Talvez pensem que estou falando grego, afinal os anarquistas lêem anarquistas e não Marx... Os anarquistas contemporâneos estão presos no tradicionalismo e são incapazes de analisar o marxismo devido a isto. Mesmo Daniel Guérin, que queria unir marxismo e anarquismo, dizendo que eles são irmãos gêmeos, não ultrapassou o tradicionalismo, pois para confirmar a possível união entre "los marxistas" e "los anarquistas" utilizou o método tradicionalista das citações de anarquistas, Marx e seus discípulos Rosa Luxemburgo e Trótski. Ao comentar Lênin, uma autoridade..., afirma que sua crítica não lhe retirava o seu valor! Lênin, o czar do marxismo!! Admirar tal figura não deixa de ser uma afronta ao espírito libertário e produto da falta deste espírito e do tradicionalismo reinante no anarquismo.
Os anarquistas tradicionalistas se contentam em tomar as dores de Proudhon e Bakunin, devido às investidas do malvado Marx, que era autoritário por "personalidade" e tinha ânsia pelo poder. As respostas virulentas de Bakunin, um ídolo dos anarquistas tradicionalistas, o pai fundador da religião anarquista, são esquecidas pelos seus devotos e até citadas muitas vezes para dizer que Marx é virulento!! Deus, precisa de ídolos!! São Bakunin, nos salve do diabo vermelho, Karl Marx! Os marxistas autoritários (Lênin e seguidores) utilizaram, com sua costumeira falta de criatividade, a idéia marxista das classes sociais para rotular o anarquismo de "pequeno-burguês", derivando mecanicamente, deste suposto caráter de classe, as idéias anarquistas, que, por conseguinte, deveriam ser atacadas. Mas não se contentaram com isso e foram mais longe, alguns chegando a falar do racismo de Bakunin... mas os anarquistas tradicionalistas não ficam atrás, pois muitos buscam no fundo do baú textos de Marx, distorcidos e citados de forma incompleta e descontextualizada, para dizer que este sim é um racista...
No entanto, se o marxismo autoritário não poderia nos fornecer muito mais do que isso, era de se esperar mais do anarquismo, mas seu tradicionalismo impediu qualquer avaliação crítica e aprofundada do marxismo. Tal incapacidade se revela, por exemplo, no desconhecimento da existência de diversos marxismos e também no não reconhecimento no caráter revolucionário e libertário de algumas das teses de Marx e alguns seguidores (diversos marxistas dissidentes do bolchevismo e do reformismo apontaram para o mesmo caminho que o anarquismo: a autogestão) e no aspecto fundamental contido em sua crítica do capitalismo.
Na verdade, Bakunin e Marx são dois grandes representantes dos oprimidos e por isso é preciso reconhecer a contribuição de ambos (e não só deles, mas de muitos outros, como, por exemplo, Proudhon, apesar de alguns de seus erros e também Rosa Luxemburgo, exaltada por Guérin, mas que ainda ficou presa ao ídolo do partido, mesmo lhe fazendo observações críticas). No entanto, hoje é preciso reconhecer que, tal como certa vez colocou Bakunin, o gênio de Marx criou um sistema racional de amplitude fantástica. Ele desvendou o processo de produção capitalista e o segredo da exploração da classe operária e isto é uma conquista insuperável do movimento libertário. Mas, se Marx fosse simplesmente o malvado que os anarquistas tradicionalistas dizem, como ofereceria contribuição tão grandiosa? Cabe ao anarquismo resmungar e virar as costas para Marx e aqueles que desenvolveram num sentido libertário suas concepções ou manter um diálogo vivo, aberto, sem os preconceitos que os tradicionalistas trazem devido seu sentimento de pena em relação "às vítimas de Marx", os pobrezinhos de Proudhon e Bakunin! Coitadinho deles! Vejam só no que o anarquismo tradicionalista transformou o espírito libertário: uma tradição semi-religiosa com seus mártires e perseguidos que se contentam em dizer qual o caminho para o paraíso e para o inferno, a velha oposição entre o bem e o mal, o bem é o anarquismo e o mal, o marxismo. O maniqueísmo de caráter religioso que acompanha o anarquismo tradicionalista é bem visível neste e em outros aspectos. O pensamento libertário deve se libertar dos ídolos, inclusive dos ídolos anarquistas.
A incapacidade de avaliar o marxismo por parte do anarquismo tradicionalista é apenas um produto de sua falta de aprofundamento teórico, sua estagnação intelectual, e de sua idolatria pelos velhos barbudos do século 19 (não todos é claro... pois Marx era barbudo...) e início do século 20.
Os conflitos entre Marx e Proudhon, e depois entre Marx e Bakunin, assim como os conflitos menores entre autoritários e tradicionalistas, são reproduzidos até hoje, inclusive com alguns anarquistas tradicionalistas e marxistas autoritários se prestando ao triste serviço de caluniar, deformar escritos, fazer uma arqueologia do racismo em seus adversários... Sem dúvida, o nível do debate decaiu bastante depois de Marx e Bakunin, e seus equívocos, que foram preservados e, o que é pior, ampliados pelos seus continuadores. Mas isto apenas deixa claro que se o reformismo marxista e o leninismo revolucionário-autoritário, burocrático, são nanicos perto do gigante Marx, o mesmo ocorre com Bakunin e os nanicos do anarquismo tradicionalista. E nós, vamos reproduzir isto? Não, mas também não devemos ficar idolatrando Marx ou Bakunin. Devemos reconhecer os méritos de ambos e ir além deles para concretizar o projeto que eles sonharam: a autogestão, e para fazer isto devemos abandonar o tradicionalismo.

Introdução ao Neoanarquismo


Apresentaremos aqui uma breve introdução ao neoanarquismo, pois julgamos necessário esclarecer os seus princípios e os demais elementos que são derivados deles. Desta forma, apresentaremos os princípios básicos do neoanarquismo, que, são, de resto, os mesmos do anarquismo; posteriormente iremos colocar a necessidade de romper com o corpo do anarquismo tradicionalista, que é um obstáculo para o desenvolvimento da teoria e prática libertária. Por fim, colocaremos as tarefas atuais que se colocam para o movimento libertário, ou seja, para o neoanarquismo.



PRINCÍPIOS BÁSICOS DO NEOANARQUISMO

Os princípios básicos do neoanarquismo são os mesmos do anarquismo. O objetivo fundamental do neoanarquismo é abolir o sistema autoritário no qual vivemos e instaurar uma nova forma de sociedade, fundamentada na autogestão. A sociedade capitalista se fundamenta numa divisão social que se sustenta graças ao processo de dominação, opressão, exploração, de milhões de pessoas. O capitalismo se fundamenta na extração de mais-valia, constituindo aí as duas classes sociais mais características deste sistema. Outras classes são produzidas por este sistema, criando interesses próprios e que coincidem ou com os interesses da classe capitalista, a classe dominante que extrai mais-valia da classe dominada, ou com os interesses do proletariado, produtor de mais-valia e classe explorada. Outras sociedades anteriores também se fundamentaram na exploração de classes, mas também houveram sociedades sem exploração. Para nós, o que interessa é compreender o processo de constituição e derrocada do capitalismo. Este sistema produziu, para reproduzir seu processo de produção, um conjunto de instituições, categorias sociais, ideologias, valores, etc., e todos, obviamente, mais intensamente ou não, reproduzindo o caráter repressivo do processo de produção. O sistema capitalista gerou o estado burguês, principal suporte de sua reprodução. Através dos aparatos repressivo (exército, sistema policial), ideológico (escola, meios de comunicação), financeiro (impostos, multas, taxas, convênios), jurídico (legislação, sistema judicial e carcerário), entre outros, o capitalismo garante sua permanência e ao mesmo tempo reproduz até a vida cotidiana o processo de exploração e opressão. A miséria faz parte do processo de reprodução capitalista, bem como o preconceito, a discriminação, o racismo, o sexismo, etc.


Isto tudo gera a insatisfação de qualquer indivíduo saudável. Porém, com muita sutileza se cria um processo de bloqueamento da resistência individual. O indivíduo é constantemente bombardeada pela ideologia e valores dominantes, através da escola, dos meios de comunicação de massas e da família.
A família assume um papel fundamental no processo de reprodução da opressão, pois é ela que irá inculcar os valores dominantes nas crianças. Os pais, espontaneamente e sem ter consciência disto, reproduzem nas suas relações familiares a hierarquia e prática da sociedade capitalista e também os seus valores, crenças, etc. A criança não resiste e acaba aceitando e introjetando os valores da sociedade burguesa repressiva, bem como reproduzindo o comportamento que esta espera dela. O sistema capitalista cria até mesmo um aparato ideológico específico para reforçar na família e na escola este processo de inculcamento, via pedagogia, psicologia, etc. O behaviorismo e sua tese do estímulo-resposta é um bom exemplo disso. A repressão sexual, a moral burguesa, os valores capitalistas, são assim introjetados pelas crianças desde tenra idade.
Tendo em vista isto tudo, o objetivo do neoanarquismo é combater o processo de produção e reprodução desta degradação humana. Esfomeados, mendigos, desempregados, meninos de rua, sem terra, sem teto, sem tudo, ou seja, milhões de pessoas massacradas pela sociedade que lhes nega, em nome de sua ideologia (progresso, riqueza, lucro, desenvolvimento tecnológico, status, fama, etc.) o mínimo que se esperaria de uma sociedade de produção de massa: os meios de sobrevivência. A miséria e a pobreza de milhões de seres humanos vem acompanhada pela decadência ética, cultural e psíquica de outros milhões, muitos iludidos pensando que estão bem, mas, no fundo, reconhecem sua profunda infelicidade. Intelectuais covardes e incompetentes, artistas medrosos e carreiristas, militantes políticos oportunistas e subservientes, num mundo onde o cifrão domina tudo. O alcoolismo, as drogas, a violência das classes abastadas, são apenas alguns dos milhares de síntomas da miséria psíquica contemporânea produzida por uma sociedade que visa a segurança de um emprego, um alto índice de consumo, a aparência social.
Diante deste quadro, o objetivo do neoanarquismo não poderia ser outro senão o de destruir tal sociedade e edificar em seu lugar uma sociedade verdadeiramente humana, a autogestão. Para se conseguir concretizar  tal feito, é preciso combater todo autoritarismo e burocratismo. É preciso incentivar a auto-organização dos oprimidos e a nossa própria auto-organização revolucionária e buscar fundir as duas. Assim, buscar destruir os ídolos, as autoridades, as tradições e inventar o novo, abrir nossa mente para o radicalmente diferente, para que nós mesmos sejamos agentes da transformação social. Assim, o objetivo do neoanarquismo é abolir o capitalismo e seu estado e constituir uma sociedade fundamentada na autogestão social. Estes são os princípios básicos do neoanarquismo.


CRÍTICA NEOANARQUISTA AO ANARQUISMO TRADICIONALISTA


O neoanarquismo realiza uma crítica radical ao anarquismo tradicionalista: este perdeu o seu espírito libertário, ficando preso às tradições de pensamento que não se desenvolveram e não aprofundaram a análise do mundo e sua forma de ação. O anarquismo tradicionalista sucumbiu à idolatria e assim se tornou estéril. É PRECISO SUPERAR O ANARQUISMO TRADICIONALISTA PARA SE PODER CAMINHAR NO SENTIDO DE REDESCOBRIR A TEORIA E PRÁTICA LIBERTÁRIA.


O que são ídolos? Para o filósofo Bacon, "Os ídolos e noções falsas que ora ocupam o intelecto humano e nele se acham implantados não somente o obstruem a ponto de ser difícil o acesso da verdade, como, mesmo depois de seu pórtico logrado e descerrado, poderão ressurgir como obstáculo à própria instauração das ciências, a não ser que os homens, já precavidos contra eles, se cuidem o mais que possam". Os ídolos são imagens petrificadas e fixas cuja origem não se encontra nelas mesmas e sim na mentalidade religiosa e/ou tradicional que lhe segue. A tarefa do pensamento libertário é se livrar dos ídolos e da idolatria, mesmo quando esta se aquartela utilizando seu próprio nome. O neoanarquismo assume para si esta tarefa difícil e ao mesmo tempo dolorosa (quer algo mais difícil do chegar para um irmão é lhe dizer: "você está errado, equivocado, está fazendo o contrário do que se propõe... e em certos momentos acaba sendo rígido: você está traindo os seus ideais, está se escondendo por detrás desta cara de vítima!") e vai utilizar toda sua força para superar o anarquismo tradicional, o que significa superar sua predominância ideológica e cultural e não os indivíduos que ocasionalmente cedem aos seus encantos.
O anarquismo tradicionalista é fixista, conservador, fechado. Do seu interior surgiram tentativas de superar seu tradicionalismo, mas a maioria foi modesta e de pequeno alcance e isto se observa na sua linguagem, quase inalterada. O neoanarquismo pretende realizar uma ruptura radical com o tradicionalismo e isto se pode observar no sufixo neo, que é o demarcador lingüístico inaugural desta ruptura.
AS TAREFAS ATUAIS DO NEOANARQUISMO

O neoanarquismo precisa realizar algumas tarefas fundamentais visando se constituir como corrente política alternativa. A primeira tarefa e mais importante no atual contexto consiste em elaborar as bases teóricas do neoanarquismo. Isto pressupõe uma teoria do capitalismo, uma teoria da autogestão, uma teoria da revolução (passagem do capitalismo para a autogestão) e uma teoria da ação neoanarquista neste contexto (o que implica tratar da questão da organização, entre outras). Portanto, o primeiro passo é constituir um espaço coletivo de produção teórica. Parte desta empreitada está facilitada, pois seria apenas uma síntese e atualização de teorias já existentes. A teoria marxista do capitalismo fornece os elementos fundamentais para a uma teoria neoanarquista da sociedade repressiva contemporânea. Seria necessário acrescentar, baseando em outras fontes e na psicanálise e anarquismo tradicional, uma análise sobre o processo de constituição da autoridade, da burocracia, da corrupção realizada pelo capitalismo e do seu processo de constituição de hierarquias, valores, divisões, conflitos, opressão, etc. A teoria da revolução conta com a contribuição do anarquismo tradicional, das experiências históricas, do marxismo dissidente, das ciências humanas atuais, e de inovações que devemos assumir o papel de efetivar, tendo em vista as deficiências desta base acima citada. A teoria da autogestão seria uma síntese das experiências históricas e reflexões existentes acrescentadas de novas questões e respostas colocadas pela mudança histórica. A teoria da ação neoanarquista tem como base uma reflexão sobre o passado, o presente e o futuro da ação anarquista tradicional, bem como de outras concepções políticas autonomistas e a partir de uma reflexão profunda, buscar ver seus obstáculos e quais são os mecanismos preventivos para evitá-los.


A segunda tarefa é buscar criar uma organização revolucionária nacional e internacional. Como constituir uma organização revolucionária? O que é uma organização revolucionária? Como evitar sua corrupção e integração na sociedade capitalista? Hoje não é possível tratar destas questões sem uma análise e uma teoria que forneça a chave de sua compreensão. Por isso colocamos anteriormente que a primeira tarefa é teórica. Mas isto não nos impede de iniciar experiências e ações no sentido de já esboçar esta organização nacional e internacional. Este início, ainda não fundamentado teoricamente, pode levar em consideração a contribuição do anarquismo tradicionalista, mas seguido com um espírito libertário.
A terceira tarefa, uma vez tendo um instrumental teórico de análise da realidade e uma organização revolucionária-libertária, é a ação efetiva e seus meios de realização. Trata-se de buscar ver o que fazer na situação atual tanto nas questões imediatas quanto nas questões mais remotas, tanto no que diz respeito ao cotidiano quanto ao relacionado à política institucional.
Enfim, estas são as tarefas do neoanarquismo no sentido de contribuir com a emancipação humana e a libertação dos explorados, oprimidos, sofredores.

Referência Bibliográfica:

http://jorgeneo.vilabol.uol.com.br - Autor: CAMPOS, Jorge






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