Setembro a Dezembro de 1943 Salerno, Kiev e Teerã Tópicos do capítulo



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O caminho de Teerã

 

Nesta capital, mas ainda submetida a severas restrições, os ministros das Relações Exteriores da coalizão se reúnem no decorrer de outubro. A finalidade de sua conferência é preparar um encontro dos chefes de governo. Fazer um contato direto com Stalin tornou-se em Roosevelt uma idéia fixa. O que está em pauta, a seu ver, é muito mais que a condução das hostilidades: é a visão do futuro. Se bem que a guerra ainda esteja longe de ser ganha, a urgência o aflige. “As Nações Unidas - escreve ele a Stalin - não devem esperar o fim das hostilidades para jogar as bases do mundo futuro. Senão, os laços de amizade que existe entre nós já estarão afrouxados e talvez mesmo desfeitos. Seremos arrebatados por nossos interesses particulares, e nossos esforços dispersados não chegarão a construir a paz para a qual tantos homens morrem...”



 

Quanto ao método, Roosevelt não hesita: é unicamente entre Stalin e ele que as decisões capitais podem ser tomadas. Churchill é um anacronismo. Sua etiqueta conservadora, seu apego à monarquia, sua aversão ao comunismo, seu colonialismo, até sua eloqüência, sua roupa e seu estilo parecem caducos a Roosevelt. Sua Inglaterra, à qual o Presidente dos Estados Unidos persiste em recusar a honra de uma visita, é apenas uma pequena ilha, fraca, na extremidade de um continente condenado, e o Império do qual ela vangloria, um monumento de opressão que não deve sobreviver à vitória da América. Stalin e a União Soviética estão ao contrário, no vento da história. Roosevelt repele com irritação a interpretação daqueles que, como seu adido militar em Moscou, Deane, vêem na coligação dos Estados Unidos com o bolchevismo uma “estranha aliança” destinada a desaparecer com o esmagamento do inimigo comum.

 

O primeiro projeto de Roosevelt é então uma entrevista só dos dois. Propõe romanescamente que se realize numa ilha do estreito de Behring, a meio caminho entre o império americano e o império soviético. “Terei comigo apenas - escreve ele a Stalin - Harry Hopkins, um intérprete, um estenógrafo, e espero que o senhor reduza do mesmo modo o número daqueles que o acompanharão”. Afasta a idéia de um encontro na Islândia, ou na África, “porque, francamente, seria então difícil não convidar Churchill...”



 

A carta data de 5 de maio de 1943. Stalin deixa passar a ocasião de introduzir um tópico na aliança anglo-americana - porque realmente tem um medo louco de avião e não existe outro meio de ir a Moscou a não ser pelo estreito de Behring. Informado das intenções de Roosevelt por Harriman, Churchill protesta a 25 de junho, se bem que a forma de seu protesto seja por demais débil: “Façam vocês o que fizerem, aqui tentarei explicar a sua atitude da melhor maneira...” O encontro será um encontro a três, reunindo-se previamente os ministros das Relações Exteriores, para sondar o terreno. Estando Cordel Hull velho e doente, os americanos tentam obter que Molotov venha a Washington ou, ao menos, a Londres. Os russos são intratáveis. Os ministros das Relações Exteriores se encontrarão em Moscou, ou em lugar nenhum.

 

É apenas uma escaramuça. A verdadeira batalha se desenrolará no local onde os Três Grandes se encontrarão.



 

Stalin argumenta que a planificação das operações o impede de deixar a Rússia, mesmo por uma semana. Roosevelt responde que é igualmente o comandante-chefe de uma grande nação e que a Constituição dos Estados Unidos o obriga a promulgarem em dez dias, apondo-lhes sua assinatura, as leis votadas pelo Conselho. Aceita fazer a maior parte do caminho, mas pede a Stalin que não se imponha por inteiro.

 

A 25 de outubro, Cordel Hull é recebido no Kremlin. A conversa com Stalin começa por uma comparação sobre a maneira de semear o trigo na Rússia e no Tennessee, depois Hull expõe as razões de alta significação histórica pelas quais o Presidente dos Estados Unidos julga indispensável encontrar o chefe supremo da União Soviética. Este responde que, para ser condescendente com o Presidente Roosevelt, irá a Teerã. Uma ligação telefônica existe entre essa capital e Moscou. E quem diz isso não é o Marechal, Teerã é acessível por terra.



 

Roosevelt já recusou Teerã. As montanhas tornam perigosa a chegada por via aérea, e as ligações são incertas. Tendo Stalin recusado Fairbanks, Scapa Flow, Asmara, Ancara, Beirute, Chipre e Cairo, assim como um encontro em alto-mar, Hull bate para que ele aceite ao menor ir a Bagdá. São em vão seus esforços. “As gerações futuras - escreveu Roosevelt a Stalin - olhariam como uma tragédia que uma questão de algumas centenas de milhas impedisse um encontro no qual sua sorte dependeu...” este entusiasmo afetado deixa o georgiano completamente frio. “Se - diz ele a Hull - o Presidente Roosevelt não pode vir a Teerã, será então preciso adiar nosso encontro para o ano que vem. Aí irei aonde ele quiser - até mesmo a Fairbanks”.

 

Hull deixou Moscou, convencido de que o encontro não se realizaria. Estava desenganado no caminho de volta. Ao chegar a Washington, Roosevelt, fremente de impaciência, o esperava no aeroporto. “Ele esperava aquele encontro com Stalin - conta Hull - com o entusiasmo de um menino...”



 

A China complicava as relações entre os coligados. Cultivando a paz com o Japão, a Rússia esforçava-se por ignorar Chiang Kai-chek. Churchill - de acordo com Stalin nesse ponto - considerava muito fraco o valor da cooperação militar chinesa. Roosevelt, pelo contrário, via a China, assim como na Índia, a grande força do futuro, o terceiro membro de uma trindade que, com os EUA e a URSS, iria guiar o mundo. Desde que não tinha sido possível eliminar a Inglaterra de um encontro russo-americano, Roosevelt teria preferido que a China participasse também - mas Moscou recusou-se. A solução foi a de uma conferência dupla ou mesmo tripla: Roosevelt e Churchill encontrariam Chiang, acompanhado de Madame, indo a Teerã; depois, na volta, ocorreria nova deliberação para a adaptação eventual, ao Extremo Oriente, dos planos feitos com o dirigente da Rússia.

 

A 11 de novembro, Roosevelt embarca, na baía de Chesapeake, no couraçado Iowa. Sendo sexta-feira, ele faz retardar os preparativos de partida até os primeiros minutos do dia seguinte. No curso da viagem, um torpedo, lançado acidentalmente pelo destróier de escolta William D. Porter, passa raspando pelo navio presidencial. Sem outro acidente, a travessia marítima acaba em 20 de novembro, em Orã. O quadrimotor da Casa Branca, chamado Sacred Cow reveza-se com o Iowa até Túnis, depois até o Cairo, onde pousa no dia 22, às 9h35. Churchill e o casal Chiang Kai-chek esperam Roosevelt.



 

Entremeada de festividade, a conferência se desenrolará durante quatro dias. É difícil achar nela um sentido. Roosevelt teve com os Chiang entrevistas muito fechadas, durante as quais se falou numa ajuda grandiosa à China e de uma independência geral da Ásia. Churchill, que julgava os negócios com a China “complicados e de menor importância”, se dava conta que o império Britânico estava sendo roubado, fazia então prova de um mau humor que Roosevelt combatia por bons métodos pessoais. Entre os estados-maiores, a querela continuava. Brooke e King quase chegaram às vias de fato quando o americano apresentou um plano que visava à retirada do Mediterrâneo para armar a Birmânia, em benefício da China, uma operação anfíbia. Acabou-se por convir que nenhuma decisão seria tomada antes da volta de Moscou.

 

Até o último momento, estudou-se a possibilidade de chegar a Teerã pela estrada de ferro transiraniana, para evitar os perigos aéreos que os cortesãos de Roosevelt exageravam grosseiramente. Foi preciso resolver-se enfrentá-los. A 27 de novembro, às 7h07 da manhã, o Sacred Cow decolava do aeródromo do Cairo, levando Franklin Roosevelt para o seu primeiro encontro com aquele em que via o outro arquiteto do mundo futuro.



 

Movimentos na Ucrânia

 

No dia 27 de novembro, enquanto os vencedores virtuais se dirigem para seu primeiro encontro, a situação militar na Rússia conhece grandes e violentos movimentos. A batalha de Dniéper faz enraivecer. De Smolensk a Kherson, da vizinhança de sua nascente até a foz, o grande rio é disputado em furiosos combates.



 

Pela continuação da seca o Schlammperiode foi excepcionalmente breve e o prazo com que contavam os alemães encurtou. Desde 7 de outubro, uma ordem do dia do Marechal Stalin anuncia que a ofensiva da libertação é lançada de Vitebsk ao Cubã. Os exércitos russos foram redistribuídos e os nomes das frentes transformados: frente do Volkhov; primeira e segunda frentes do Báltico; primeira, segunda e terceira frentes da Rússia Branca; primeira, segunda, terceira e quarta frentes da Ucrânia, tais são doravante os grupos de exércitos que vão empenhar-se na luta. Sem prejuízo de abundantes reservas estratégicas, essas forças enquadram 69 exércitos, agrupando 330 divisões, contra 197 divisões alemães e alguns contingentes de seus aliados.

 

As esperanças do Comando soviético são vivas. Os sucessos da batalha de verão ultrapassaram suas esperanças. O próprio Stalin dirá a Roosevelt que o exército hitlerista é “muito mais fraco” do que ele pensava. Graças aos três milhões de alemães fixados no Oeste pela ameaça anglo-americana, a Rússia possui sobre seu adversário uma margem de superioridade que nenhum movimento de sorte das armas poderia destruir.



 

É no Sul que os russos alcançam sua primeira vitória. A 14 de outubro, o 1o Exército Blindado é obrigado a evacuar sua cabeça-de-ponte de Zaporojie. No dia seguinte, a 2a e a 3a frentes da Ucrânia atacam, entre esta última cidade e Krementchug, com 61 divisões de infantaria e 37 brigadas blindadas. Elas invadem o grande anel do Dniéper, atingem Krivoi-Rog, ameaça cercar o 1o Exército Blindado. Manstein o salva, com a ajuda da 14a e da 24a Panzer, trazidas da França. Os russos transportam então seu esforço principal ao longo do mar de Azov. Melitopol cai a 22 de outubro. O istmo de Perekov é atingido a 1o de novembro, o 17o Exército entrincheira-se na Criméia, enquanto o 6o Exército, por sua vez, cruza de novo o Dniéper, mantendo apenas uma pequena cabeça-de-ponte a leste de Kherson.

 

No início de novembro, as peripécias da batalha deslocam-se para o Norte. O que está em jogo leva um nome retumbante: Kiev. Em 1942, os russos sacrificaram, para defendê-la, todo um grupo de exércitos e perderam mais de meio milhão de prisioneiros. Para retomá-la, travarão em batalha encarniçada.



 

Cercada de colinas, voltada para o seu rio, Kiev não deixa de ter uma certa analogia com Stalingrado. Duas cabeças-de-ponte a ameaçam: uma ao norte, na frente da confluência com o Desna; a outra ao sul, em volta do anel de Perejaslav. Por causa do terreno mais firme, Vatutin, comandante da Primeira Frente da Ucrânia, decide atacar pelo sul. Mas todos os esforços do 3o Exército Blindado da Guarda são destruídos pelo 4o Exército Blindado.

 

Brilhantemente, Vatutin inverte as disposições. Sua massa de choque ultrapassa o Dniéper, transporta-se da ala sul à ala norte e atravessa o rio, para retomar o ataque de uma direção oposta. A 3 de novembro, 30 divisões de infantaria e 34 brigadas mecanizadas caem sobre o solitário 19o Corpo alemão. A brecha irresistível corta a grande estrada de Jitomir. Retomando a ofensiva do sul, o 3o Exército Blindado da Guarda corta, no dia seguinte, a ligação ferroviária em Fastov. A ordem de retirada foi dada em tempo para permitir ao grosso das tropas alemães sair da armadilha. Alguns elementos cercados opõem fraca resistência. A 6 de novembro, Kiev é arrancada ao invasor.



 

“A tomada de Kiev - escreve Goebbels em seu cadernos - constitui naturalmente uma grande sensação para os bolchevistas e para todo o campo inimigo. Mas nossos homens e nossos oficiais perguntam com raiva por que uma Parede do Leste ainda não foi construída ao longo do Dniéper...” O Ministro da Propaganda ignora os princípios militares e psicológicos de seu Fuhrer. “Se - diz Hitler - os generais sentem atrás de si uma posição de recuo, eles só terão uma idéia: afrouxar o pé, para se encolherem”. O autor da manobra de Sedan chega a condenar a própria manobra: “Se um general lhe fala de manobras, você pode estar certo de que isto quer dizer: recuar...”

 

No dia 7, Manstein chega ainda uma vez a Rastenburgo. Sua situação é dramática. O 4o Exército Blindado, ala esquerda de seu grupo, está dividido em três partes. O 59o Corpo de Exército é jogado para o norte. O 7o CE tenta conter o inimigo ao sul de Fastov. O 13o está em plena retirada para o oeste. As colunas soviéticas avançam rapidamente rumo ao Jitomir, para onde convergem cinco estradas e quatro vias férreas. O comandante do exército, Hot, é substituído por Rauss, mas é mais fácil trocar os chefes do que a sorte dos combates. Manstein tem a intenção de exigir a retirada do anel do Dniéper e um reagrupamento dos exércitos.



 

Para sua grande surpresa, encontra Hitler mediocremente inquieto. O Fuhrer reconhece que a investida russa em direção a Jitomir representa um risco, mas declara-se prestes a assumi-lo. É, diz ele, no extremo sul da Rússia que se acham os pontos de maior interesse no jogo; a Criméia, porta-aviões terrestre de onde os russos podem incendiar o petróleo romeno, e Nikopol, cujas minas de manganês são indispensáveis à indústria de guerra do Reich. Longe de querer abandonar o baixo Dniéper, ele prepara uma ofensiva do 4o Exército, para reabrir o istmo de Perekop.

 

A discussão é longa. Manstein, que apoia o inspetor das tropas blindadas, Guderian, teria querido que todas as forças móveis fossem reunidas para uma contra-ofensiva geral na ala norte de seu grupo de exércitos. Hitler recusa-lhe dispor livremente do 40o e do 57o corpos blindados, só lhe entregando três divisões blindadas, a 1a , a 25a e a Leibstandarte, chegando do oeste. Reunidas às três outras Panzer, elas são agrupadas no 48o Corpo Blindado, sob o comando do General Balck, e reunidas ao sul da via férrea Kiev-Jitomir. Os russos que se apossam desta última cidade a 12 de novembro, não notam a nuvem que se forma em seu flanco.



 

Os alemães atacam no dia 15. O tempo está relativamente frio e a neve não chega a ser suficientemente densa para constituir sério obstáculo. Balck teria preferido caminhar direto até Kiev, conter originalmente sua chaga aberta na frente alemã. Rauss o obriga a se jogar primeiro contra Jitomir. A velha cidade é retomada a 20 de novembro, pela 7a Panzer. Voltando para leste, Balck corta em pedaços o 60o Exército russo e restabelece a continuidade da frente alemã. Tenta então marchar para Kiev, mas um brusco degelo deságua sobre seus tanques, cobrindo até as torres, depois o restabelecimento do inimigo leva a ofensiva a ponto-morto. Kiev, conquista principal, fica para os russos, mas, no conjunto, a situação alemã melhorou. O fim de 1943 ainda verá a Wehrmacht agarrada a longos trechos do Dniéper, e Nikopol e Krivoi-Rog, manganês e ferro, entre suas mãos. Entretanto, o bloqueio da Criméia não terá sido possível. Penosamente abastecido pelo mar e pelo ar, o 1o Exército conhecerá, na Costa Azul soviética, um inverno negro.

 

Teerã: Stalin e Roosevelt contra Churchill

 

No Mediterrâneo, como na frente russa, a conferência de Teerã coincide com um movimento da sorte das armas desfavoráveis aos Aliados. A vitória de Salerno e a tomada de Nápoles ficam sem seguimento imediato. A unidade do comando alemão foi restabelecida sob Kesselring e toda veleidade de retirar-se de Roma está afastada. Na bacia oriental, a capitulação italiana levou Churchill a querer apoderar-se de Rodes ou do Dodecaneso, com a esperança de puxar a Turquia para a guerra, mas, convencido de que se tratava de novo estratagema para adiar o desembarque na França, Roosevelt recusou-lhe asperamente todos os meios que ele pedia. Os alemães tiveram tempo de apoderar-se do controle das ilhas, e assim, que quis executar seu plano com as próprias forças britânicas, Churchill chegou a uma derrota menor, mas total. Uma brigada inglesa deposta na ilha de Leros capitulou, depois que as tentativas feitas para evacuá-la tinham custado à Royal Navy seis preciosos destróieres.



 

Aí estão as pequenas sombras. Os cinco dias de Teerã, do domingo, 28 de novembro, a quinta feira, 2 de dezembro, são iluminados pelos sol nascente da vitória. Contêm assim em germe as desavenças que farão desta vitória o próprio ponto de partida para um novo conflito.

 

Os Três Grandes só são iguais diante do protocolo. Churchill que não havia sido desejado, era relegado a plano secundário. O primeiro gesto de Stalin é convidar Roosevelt para vir instalar-se na Embaixada Soviética, sob o pretexto de que Teerã está cheia de agentes inimigos e que qualquer mudança é perigosa. Churchill, não incluído no convite, tendo sua vida aparentemente preço menor, compreende o sentido simbólico dessa estada sob o mesmo teto, mede as facilidades que ela estabelece para o contato, mas as considerações de segurança invocadas impedem que ele levante objeções. Em seguida, recebe uma recusa de Roosevelt, quando lhe sugere um almoço a dois, para troca de opiniões. Responde-lhe o Presidente que não quer dar a Stalin a impressão de que os ingleses e os americanos estão agindo em combinação. E no entanto, uma conversa, sem qualquer outro terceiro além do intérprete, ocorre todos os dias entre Stalin e ele. As próprias relações pessoais são mordazes. Stalin pega Churchill para alvo de sua ironia e Roosevelt, pelo ar divertido que toma, o encoraja. Estoura uma cena muito divertida, em parte por causa do Coronel Elliot Roosevelt, filho muito abusivo do Presidente. Por ocasião de um jantar, Stalin declara que será preciso liquidar sumariamente as 50.000 a 100.000 cabeças que fazem a força econômica e técnica da Alemanha. Churchill responde que a concepção britânica se insurge contra qualquer execução sumária e que ele prefere ser fuzilado imediatamente, no jardim, a consentir nisso. Mas Roosevelt filho resolve apoiar ruidosamente o ditador soviético, e Roosevelt, pai, chefe da maior democracia do mundo, tem a indignidade de não juntar o seu protesto ao do inglês. Churchill, cheio de raiva, deixa a mesa e sai, mas Stalin corre atrás dele e o trás de volta, dizendo que se tratava de uma brincadeira. Os apartes de Roosevelt e de Stalin são sobre a França. O russo, cuja reparação militar foi precedida de um recuo de 1.500 km e pela captura de 4 milhões de prisioneiros, não tem a menor piedade pela derrota de um país que não pode pagar o mesmo preço em território e rebanho humano. Para Stalin, a França “abriu suas fronteiras para o inimigo”, continua a ajudá-lo e deverá ser “castigada por essa colaboração criminosa”. Roosevelt declara-se “100% de acordo”. “O Sr. Churchill - diz ele - sustenta que a França deve ser reconstituída como uma grande potência, mas esta não é minha opinião. Longos anos de trabalho serão necessários antes que a França mereça ser restaurada. A primeira necessidade é de retransformar os franceses em cidadãos honestos”. Stalin acrescenta que Pétain, e não De Gaulle, representa a verdadeira França. Seria incompreensível que um país tão culpado encontrasse novamente seu império e sua importância política no fim das hostilidades. Roosevelt repete que está 100% de acordo.



 

Uma outra entrevista é consagrada à organização da paz. Stalin ouve com paciente ceticismo os planos que Roosevelt apresenta com vaidade de autor: assembléia-geral das nações, juridicamente iguais e constituição de um grupo de “quatro policemen”: Estados Unidos, Rússia, Inglaterra e China, que farão respeitar a ordem mundial. O que interessa a Stalin é que a Alemanha seja posta definitivamente fora de condições de causar prejuízos. Ele não acredita na mudança da mentalidade do povo alemão e prevê que este “provocará nova guerra dentro de 20 anos” se não estiver submetido às mais rigorosas contenções. Revista nas discussões dos três, a questão do tratamento da Alemanha provoca novo choque com Churchill. “O Primeiro-Ministro - constata Stalin - não consegue desfazer-se da simpatia que tem pelos alemães...”

 

A sorte das nações limítrofes da URSS é sumariamente encarada. A restituição, à Rússia, dos territórios orientais da Polônia e a indenização desta pela atribuição de territórios alemães são admitidas na discussão. Sobre a Finlândia, que combate ao lado dos alemães, Stalin declara que não tem a intenção de anexá-la. Mas, ao contrário, corta pela raiz as tímidas tentativas americanas para assegurar a sobrevivência dos três países bálticos: Lituânia, Letônia e Estônia. Na véspera da separação, Roosevelt lhe pede uma última entrevista. Vai, diz, expor-lhe seu problema francamente: sem dúvida, será novamente candidato em 1944, e não faz a menor questão de perder as vozes de vários milhões de cidadãos americanos de origem polonesa ou báltica. Consequentemente, queria a certeza de que “alguma expressão da vontade dos povos” será prometida antes de qualquer anexação daqueles países à URSS. Stalin limita-se a responder que as três repúblicas bálticas não tinham autonomia antes de 1914 e que ele não vê por que lhes reconheceria o que os czares não lhes tinham dado. Todos estes problemas são abordados sem ordem do dia e sem plano. Stalin apenas lhes dá uma atenção limitada. O que ele reclama - com menos aspereza aliás do que ano anterior - é a abertura imediata da verdadeira segunda frente, com um desembarque na Europa ocidental. Qualquer outra operação militar, aos seus olhos, é secundária - novo terreno em que uma conjunção soviético-americana se estabelece contra Churchill.



 

Na sessão do plenário de 28 de novembro, Churchill traça brilhantemente o quadro da situação estratégica do Oeste. Dezenove divisões britânicas, cada qual representando um efetivo duplo de uma divisão alemã normal, devem participar do desembarque na França. Serão juntadas às forças vindas diretamente dos Estados Unidos, a fim de dar a cerca de 50 divisões a importância global do corpo expedicionário. Ficarão no Mediterrâneo 22 divisões, britânicas na maioria. Churchill pensa que suas operações, distintas da Overlord, devem ser perseguidas sem desfalecimento. Um punhado de divisões deve ser empregado na conquista das ilhas Egeu. Ao preço talvez de um curto adiamento da Operação Overlord - “um ou dois meses depois”- será assim determinada a entrada da Turquia na guerra. Um exército sólido se ligará às forças da coalizão e, em lugar da terrível rota polar, em lugar da incômoda rota iraniana, a ajuda americana à Rússia entrará aos borbotões pelos Dardanelos.

 

Mas Stalin não faz questão da abertura dos Dardanelos: isso poria a Rússia, já salva, em contato muito direto com o Ocidente. Ele insiste e reinsiste para que a atividade aliada se limite à invasão da França. Quer a suspensão da ofensiva na Itália e propõe que as divisões disponíveis no Mediterrâneo sejam imediatamente desembarcadas na Provença. Levanta a questão do comando da Operação Overlord: “Só acreditarei nisso quando souber que general é responsável por sua execução”. Finalmente, interpela Churchill: “Gostaria de fazer-lhe uma pergunta direta. O Sr. realmente acredita na Operação Overlord?” A resposta é ao mesmo tempo enfática e condicional: “Desde que as condições convenientes sejam realizadas no exato momento, sim, sim, e sim!”.



 

Teerã não resolve nada. Seu único resultado é um comunicado pelo qual os Três Grandes declaram deixar-se “amigos de fato, amigos em espírito e amigos no propósito”. O protocolo militar anota que a Operação Overlord ocorrerá em maio de 1944, em combinação com um desembarque no Sul da França, e que o Marechal Stalin lançará uma ofensiva na mesma época, para evitar a transferência de forças alemães para o Oeste.

 

Para Churchill e Roosevelt, o itinerário de volta passa novamente pelo Cairo. Encontram a Esfinge, cujo sorriso vão estudar, ao por do sol. Chiang e Senhora foram substituídos pelo frágil, branco e surdo General Ismet Inonu, que se desdobra em protestos de amizade, mas deixa bem claro que a Turquia ficará neutra. Desapontado, Churchill se consola matando a operação anfíbia do golfo de Bengala. Depois, repentinamente envelhecido, parte para Marraquexe para curar-se da pneumonia que pegou em Teerã.



 




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