Setembro a Dezembro de 1943 Salerno, Kiev e Teerã Tópicos do capítulo



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Quadro da França em 1943

 

Para essa França, que o Marechal Stalin considera francamente como a auxiliar de Hitler, o ano que acaba foi negro e dramático. Prossegue a expiação da derrota.



 

Entretanto, é conveniente reavivar alguns detalhes que as retórica e os álibis ulteriores tenderam a apagar. O quadro da França, mesmo no terceiro ano de ocupação, não é uniformemente o de desespero e servidão. Os franceses morrem, mas os franceses vivem - sem necessariamente se colocar a serviço do inimigo. Personalidades marcantes por sua ação ou suas opiniões subsistem pacificamente. Sob uma cobertura mínima de prudência. Sartre faz representar As Moscas, que, com O Sapato de Cetim, de Paul Claudel (autor de uma “Ode ao Marechal”), e Sodoma e Gomorra, de Giraudoux, dá vivo brilho à estação teatral de 1943. A brava moda da miséria de tecidos para criar extravagâncias é que provoca esta pergunta de um oficial alemão a uma parisiense: “Que chapéus poria você, se tivesse ganhado a guerra?”. Sob muitos pontos de vista, a condição dos vencidos franceses é melhor de que a dos vencedores. Eles só conhecem uma fração dos bombardeios que devastam a Alemanha e não tem que passar pela terrível sangria do povo alemão na frente oriental.

 

Por mais rigorosa que seja, a própria vida material é felizmente menos trágica do que poderia ser se pensarmos nos dados brutos, dados de morte por inanição lenta, as rações alimentares. Províncias inteiras escapam às privações da boca. Além do mercado negro propriamente dito, circuitos de abastecimento de uma flexibilidade notável atenuam a fome oficial. Para 80 toneladas de entrega legal, consistindo sobretudo em pão e em nabos, Lião, por exemplo, recebe 50 toneladas de caixotes familiares cheios de alimentos mais substanciais. Apesar dos progressos da tuberculose, a saúde pública continua razoavelmente boa, e com ajuda da redução do alcoolismo, os hospitais tem menos doentes do que antes da guerra. Esta condição relativamente satisfatória, sem dúvida a menos ruim de uma Europa subjugada, não seria possível se a França estivesse entregue a Gauleiters, se uma administração francesa não se impusesse entre ocupantes e ocupados. Entretanto, as últimas páginas de Vichy são pungentes. Contam a identificação cada vez mais estreita daquilo que ainda se chama Estado francês com a causa hitlerista. O serviço do trabalho obrigatório, fornecedor de mão-de-obra à Alemanha, é instituído em fevereiro de 1943. A milícia, tirada da Legião Francesa dos Combatentes, recebe o estatuto de uma polícia supletiva. Os judeus são recolhidos como animais e enviados para um destino cujo horror ainda é desconhecido. Os hitleristas franceses invadem e anexam a capital provisória, depois de terem cometido outros ultrajes: Brinon, Bonnard, Gabolde, Henriot, Marion, Darnand, Déat, novos ministros, secretários de Estado, secretários e comissários gerais de um governo que não é mais que um satélite do Terceiro Reich. Como chefe, Pierre Laval, que, realmente, tenta limitar as exigências alemães, mas cuja opção de princípio - “Desejo a vitória da Alemanha...”- ecoou para a imensa maioria dos franceses como um desafio.



 

Ano da degradação de Vichy, 1943 foi o ano do desenvolvimento da resistência. É inútil, ainda hoje, querer traçar um quadro verídico desse vasto fenômeno. Um obscurecimento, protegendo facções políticas e reputações pessoais, é mantido em torno das fontes mais elementares. Para citar apenas um exemplo, se tentou uma comunicação com o que parece ser uma relação objetiva da atividade militar da Resistência: as 1.500 páginas do relatório sobre as forças francesas do interior, estabelecido pelo major americano Bourne-Paterson, com a ajuda de vários oficiais franceses. Bateram contra um muro. Em Washington, o relatório é classified, quer dizer mantido em segredo, sob a imposição do governo francês, e em Paris a comissão oficial para a História da Segunda Guerra Mundial declara mesmo que não lhe teve sucesso. Nessas condições, só se pode deixar a um futuro mais esclarecido o cuidado de redigir um capítulo de história dramático e confuso.

 

O que é claro é a luta civil entremeada à luta contra o ocupante. Elemento preponderante da resistência, tendo aliás sofrido castigos bárbaros, suportando-os com heroísmo, o Partido Comunista visa a mais do que a vitória sobre a Alemanha. A adesão de uma parte importante da burguesia ao Marechal Pétain permite liquidações sumárias. A introdução, na repressão da milícia, com seus homens dispostos a tudo e seus bandidos profissionais, aumenta a ferocidade das lutas. Crimes e desforras se seguem, ensangüentando a França, de norte a sul.



 

Os atentados contra os membros do Exército alemão abrem outra cadeia de represálias. Certos comandantes de território tentam limita-los; outros praticam uma política de pavor. As grandes execuções de reféns começaram em 1942, com os 50 fuzilados de Châteaubriand. O governo de Vichy primeiramente lutou contra essa aplicação trágica do princípio da culpabilidade coletiva, mas o desenvolvimento da resistência, a insegurança crescente cercando os militares isolados, os comboios e os locais alemães tornam mais pesada a repressão. Todas as polícias, todos os serviços secretos do Reich hitlerista trabalham na região conquistada para capturar por todos os meios, e principalmente pela tortura, os filhos das conjurações nacionais contra um vencedor que cada vez menos o é. É fato que os alemães acham sempre ajuda local; que reforçam a Gestapo alemã com Gestapo francesa, polonesa, norueguesa, etc.; que recrutam traidores em todos os movimentos de resistência; que colecionam tantas denúncias, que estas se desvalorizam como moeda em tempo de inflação. Os homens que se dedicam à ação oculta, sob todas as formas, vivem rodeados de perigos hediondos e freqüentemente encontram, ante postes de execução, morte de herói.

 

Um outro fato de 1943 é a aparição de grupos de rebelados designados pelos nome de maquis. Ainda aí falta um quadro verídico desses grupos, que vão de unidades militares disciplinadas até maltas de bandidos cobertos de crimes. No início de 1943, o maciço do Vercors, entre o Isère e o Drôme, torna-se um verdadeiro campo de treino, onde, sob o comando do General Delestraint, dito Vidal, oficiais do exército do armistício introduzem voluntários vindos de Grenoble e de Lião. O Maciço Central, o Jura, os Alpes, os Pirineus e a Bretanha povoam-se de jovens fugitivos do STO. Para limpar essas regiões difíceis, seria preciso ou a ajuda ativa das populações, que procuram cada vez mais ficar neutras, ou a dos efetivos que os alemães não possuem.



 

A partir de 1940, os ingleses criaram, sob o nome de Special Operations Executive, um órgão com a finalidade de reconstituir na Europa suas redes de informações. Por sua vez, as autoridades gaulesas criaram o Bureau central de informações e de ação destinado a animar e explorar as resistência interna francesa. Os atritos são freqüentes entre os dois órgãos, mas são ainda bem mais numerosos entre os movimentos que vêm de ou vão para todos os pontos do horizonte político. O Comitê de Londres e, depois, o governo provisório da Argélia procuram coordenar e conter essas forças tumultuosas.

 

Na noite de São Silvestre, em 1942, o antigo prefeito de Chartres, Jean Moulin, pousa, na Provença, de pára-quedas. No fundo duplo de uma caixa de fósforo dissimula um microfilme. Trata-se de uma delegação de poder, do General De Gaulle. A 27 de maio de 1943, ele consegue reunir à mesa de um restaurante da Rue du Four, em Paris, os representantes dos principais movimentos do Norte e do Sul da França. Nasce o Conselho Nacional da Resistência. Contudo, Jean Moulin, que assume a sua presidência, é o primeiro a não ter ilusões quanto à fragilidade de sua obra. Sua missão decorreu em meio a conflitos e querelas, que o opuseram naturalmente ao primeiro chefe da resistência interna, Henry Frenay, e mesmo a dois outros emissários de Londres, Dewavrin e Brossolette. E termina, seis semanas depois, em Caluir-et-Cuire, às portas de Lião, por uma prisão favorecida por traição. Torturado, Jean Moulin sucumbe por ocasião de sua transferência para a Alemanha. O professor e jornalista católico Georges Hidault sucede-lhe na direção do CNR. A unificação permanece superficial ou artificial. Os movimentos continuam bravamente autônomos e freqüentemente opostos. O único ponto real de convergência - com muitas reticências e dissimulações - é a figura do General De Gaulle, que cada vez mais aprece como o chefe da nação.



 

Em contraste, Pétain está no crepúsculo. O velho chefe torna-se estranho a um povo que tanto o amou e venerou. O outono de 1943 vê seu último esforço para furtar-se à engrenagem fatal. Mais uma vez ele decide despedir Laval. Imagina estar novamente a caminho da 3a República, constituindo uma universidade de personalidades que, em volta de Lucien Romier e de Léon Noel, convocarão a Assembléia Nacional. Laval, prevenido, alerta o representante da Alemanha em Vichy, Krugg Von Nidda. A mensagem do Marechal já gravada em disco; Nidda proíbe a difusão. Pétain replica, declarando que exonera-se das funções de chefe de Estado, mas esta greve senil não comove Hitler. “Nunca - faz este saber - tolerarei a reaparição de uma Assembléia que declarou guerra à Alemanha”. Ela já está declarada fora da lei pelo degaullismo, por causa dos plenos poderes que votou para Pétain. Os dois lados põem em férias a legalidade da 3a República.

 

Tudo acaba com a submissão do Marechal diante do Embaixador Abetz, escoltado por Skorzeny e por duas companhias blindadas de SS Laval fica em seu lugar. A aventura encerra virtualmente o papel de Vichy capital. Esta definha durante o inverno, paulatinamente abandonada pelos serviços públicos, que se dissolvem ou voltam a Paris. Os maquis cercam Vichy, ameaçam-na, fazem nela reinar a angústia e o medo.



 

 

 



 


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