She a chave do entendimento da psicologia feminina



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SHE - A CHAVE DO ENTENDIMENTO DA PSICOLOGIA FEMININA

ROBERT A. JOHNSON

EDITORA MERCURYO, S.P. 1996

INTRODUÇÃO
O mito grego de Eros e Psiquê é um dos melhores que encontramos para explicar a psicologia feminina. Pré-cristão, esse mito foi registrado na era clássica grega, mas antes disso já existia na tradição oral. E ainda hoje é relevante para nós.

Que devesse ser assim, não é estranho, uma vez que a biologia humana parece ser a mesma dos idos tempos gregos. Igualmente, a dinâmica do inconsciente psicológico da personalidade humana é semelhante. As necessidades básicas do ser humano - tanto fisiológicas quanto psíquicas - têm-se mantido estáveis, variando apenas a maneira de serem satisfeitas, através dos tempos.

Por essa razão é que quando queremos estudar os padrões humanos básicos - de comportamento e de personalidade - é bom voltarmos às fontes primeiras, onde sua representação é tão direta e simples que não há como não aprender com elas. Aí, ao compreendermos a estrutura básica, começamos a ver as variações peculiares à nossa época.

O PAPEL DESEMPENHADO PELO MITO


Os mitos são ricas fontes de insights psicológicos. A produção literária e artística de alto nível registra e retrata a condição humana com uma precisão indelével. Os mitos, porém, constituem um gênero muito especial de literatura. Não são escritos ou criados por um único indivíduo, porque na realidade são produtos da imaginação e experiências de toda uma era, de toda uma cultura.

Parece que eles se desenvolvem gradativamente quando certos motivos emergem; à medida que as pessoas contam e recontam algumas histórias que despertam e prendem sua atenção, os mitos vão-se aperfeiçoando até chegar à sua lapidação total. Deste modo, temas que são exatos e universais mantêm-se vivos, enquanto aqueles que dizem respeito a alguns poucos indivíduos, ou a alguma época em particular, desaparecem. Mitos, portanto, retratam imagens coletivas, mostram coisas que são verdadeiras para todos.

Isso desmente a definição racionalizadora, que diz ser o mito mentiroso e imaginário: "Como? Ah, isso é só um mito, não tem nada de verdadeiro!" , é o que ouvimos com freqüência. Os detalhes da história mítica podem ser inverídicos ou até fantásticos, mas na realidade um mito é profunda e. universalmente verdadeiro.

Um mito pode ser uma fantasia ou ainda produto de imaginação; não obstante, é verdadeiro e real. Descreve níveis de realidade que incluem o mundo racional exterior, assim como o pouco compreensível mundo interior.

Essa compreensão a respeito da limitada definição da realidade pode ser perfeitamente ilustrada através do pensamento de uma criança de tenra idade logo após um pesadelo. Para confortá-Ia, os pais até poderão dizer-lhe: "Foi só um sonho, o monstro não era real!" Mas a criança não se convence, e tem toda a razão. Para ela aquilo é tão real e tão vivo quanto qualquer outra experiência. O monstro do sonho estava em sua cabeça e não em seu quarto; mesmo assim, era uma realidade aterrorizante" com poder sobre as suas reações físicas e emocionais. Essa realidade interior não pode nem deve ser negada.

Os mitos foram alvo de estudos minuciosos de muitos psicólogos, como Jung, por exemplo, que, ao estudar as bases estruturais da personalidade humana, soube dar-Ihes atenção particular e neles encontrar a expressão de padrões psicológicos básicos. Espero poder fazer o mesmo com o nosso estudo sobre Eros e Psiquê.

Precisaremos, em primeiro lugar, pensar mitologicamente - um processo delicioso e vibrante. Sentimentos muito fortes afloram quando alcançamos o pensamento psicológico que os mitos, os contos de fadas e os nossos próprios sonhos nos trazem. No entanto, os termos e os cenários dos velhos mitos podem, à primeira vista, parecer-nos estranhos, por serem arcaicos ou distanciados de nós. Mas, se prestarmos bastante atenção e os tomarmos seriamente, começaremos por ouvi-Ios e entender-lhes o significado. Faz-se necessário, algumas vezes, traduzir um símbolo, o que não é difícil uma vez que se veja como isso é feito.

Muitos psicólogos interpretaram Eros e Psiquê como sendo uma demonstração da personalidade feminina. Talvez mais sábio fosse, desde o início do estudo, dizer que estamos falando da feminilidade onde quer que ela se encontre: seja no homem, seja na mulher.

Jung, em um de seus mais profundos insights, mostrou que, como geneticamente todos os homens têm cromossomos e hormônios recessivos femininos, eles apresentam um conjunto de características psicológicas femininas - elementos que neles são minoritários. Da mesma forma, as mulheres têm um componente masculino minoritário em seu interior. Jung chamou de anima a faceta feminina do homem e de animus, a masculina da mulher.

Muito tem sido escrito a respeito da anima e do animus, e teremos mais a dizer sobre esses dois aspectos, mais adiante. Nesse ponto, toda vez que nos referimos aos aspectos femininos do mito Eros e Psiquê, estamos falando não somente da mulher, mas também da anima do homem, ou seja, sua face feminina. Pode ser mais óbvio associá-Ia à mulher, já que a feminilidade é sua principal característica psicológica, mas existe também um paralelo com o aspecto interior feminino existente no homem, a anima.




I - O NASCIMENTO DE PSIQUÊ
Nossa história começa com uma frase: Era uma vez um reino... (E sempre existe um reino que é o começo de todas as coisas.) Por aí já sabemos que vamos encontrar um insight desse reino, que é nosso próprio mundo interior. Se você prestar atenção à velha linguagem do conto, poderá enxergar esse reino que está lá dentro de nós e que é raramente explorado pela mente racionalista de nossos dias. Uma verdadeira mina de ouro, no sentido de informação e insight, é depreendida destas poucas palavras: Era uma vez um reino...

INÍCIO DA HISTÓRIA


Nesse reino há um rei, uma rainha e suas três filhas. As duas primeiras são princesas comuns, sem qualquer expressão.

A filha mais nova, que se chama Psiquê, que significa Alma, é a personificação do mundo interior. É ela quem nos levará a uma jornada pelo reino interior, ela é a que expressa, ao mesmo tempo, o reino mítico e o reino terreno.

Você se dá conta dessas três personagens dentro de você? Quem não tem consciência da parte comum dentro de si mesmo, e da parte especial, não terrena, que pouco sabe lidar com o cotidiano?

Ela, a nossa princesa, é uma pessoa extraordinária: bonita, charmosa, porte de deusa; sua forma de falar e o todo de sua personalidade merecem o culto de adoração que se formou ao seu redor. O que levava as pessoas a assim se referirem a ela: "Eis aí a nova Afrodite, eis a nova deusa que tomará o lugar da antiga no templo, e a suplantará". E Afrodite teve de suportar o insulto de ver as cinzas do fogo sagrado de seu templo esfriarem e, ainda, assistir a um arremedo de mulher tomar seu lugar!

Afinal, Afrodite havia sido a divindade reinante da feminilidade desde os primórdios, sem que ninguém jamais pudesse definir a época exata do início de seu reinado. Portanto, presenciar a escalada de uma nova deusa da fertilidade era-lhe totalmente insuportável! Raiva e ciúmes apocalípticos marcaram, nesse momento, um novo rumo em nossa história: mexer com a fúria de divindades, ou exigir delas uma mudança, é convulsionar as fundações de nosso mundo interior.

OS ELEMENTOS MÍTICOS


As origens das duas deusas, Afrodite e Psiquê, são bem interessantes. Brandindo uma pequena foice, Cronos, o filho caçula de Urano - o deus dos céus -, cortou os genitais de seu pai e arremessou-os ao mar, assim fertilizando as águas e permitindo o nascimento de Afrodite. Esse momento foi imortalizado por Botticelli, na sua magnífica obra O Nascimento de Vênus:1 na plena majestade de sua feminilidade, Afrodite aparece em pé em uma concha, emergindo das ondas.

Aí está a origem divina do princípio feminino em sua forma arquetípica, um grande contraste com o nascimento de Psiquê, concebida - diz-se - quando uma gota de orvalho do céu caiu sobre a terra. Que linguagem mais curiosa! Rica, porém, em insight psicológico, para quem consiga ouvir sua mensagem arcaica e perene.

A diferença entre esses dois nascimentos, se entendida de forma justa, revela a diversidade de natureza desses dois princípios femininos. Afrodite é a que nasceu do mar: primeva, oceânica, em todo o seu poder feminino. Ela é desde o início do tem­po, faz parte de um estado de evolução pré-consciente; sente-se à vontade no fundo do mar e lá mesmo mantém sua corte.

Em termos psicológicos, ela reina no inconsciente, simbolizado pelas águas do mar. Por isso raramente é acessível em termos conscientes, comuns; é como se nos confrontássemos com um vagalhão. Também é difícil atingir a natureza de Afrodite, enquanto feminilidade primitiva, ou com ela conviver. Pode-se admirá-Ia, adorá-Ia, ou ser esmagado por sua feminilidade arquetípica, pois é muito difícil relacionar-se com ela. E esta será a tarefa de Psiquê, dada a vantagem que leva por ser humana: integrar e suavizar essa feminilidade oceânica arquetípica. Eis aí o propósito de nosso mito.

Toda mulher tem dentro de si uma Afrodite, reconhecida pela sua irresistível feminilidade, pela sua intensa, impessoal, inatingível majestade. Suas principais características são a vaidade, a luxúria, a fertilidade e a tirania, quando contrariada.

Mas as histórias a respeito de Afrodite e sua corte são maravilhosas. Uma aia sempre carrega um espelho diante da deusa, para que ela possa estar constantemente mirando-se nele, e alguém está a borrifar-lhe perfume a toda hora. Ciumenta, não tolera nenhum tipo de competição, e continuamente está arranjando casamentos para quem quer que seja. Não se satisfaz nunca a não ser que todos estejam muito ocupados, servindo sua fertilidade.

Afrodite é o princípio que está constantemente espelhando para o nosso inconsciente cada experiência vivida. Enquanto o homem se ocupa em expandir, encontrar e explorar tudo aquilo que é novo, Afrodite está refletindo, espelhando e assimilando. Esse espelho simboliza uma das qualidades mais marcantes da deusa do amor: sempre colocando um espelho à disposição do self, que, sem o auxílio desse espelho, poderia ficar preso na projeção. Ao buscar a resposta, porém, para aquilo que está sendo espelhado, poderá ter início o processo que leva ao entendimento, não permitindo que se fique aprisionado num emaranhado emocional sem solução. O que não quer dizer que não haja influência de fatores externos. Mas é importante perceber e entender que muitas coisas de nossa natureza interior, mascaradas como sendo fatos externos, deveriam refletir esses fatos de volta ao mundo subjetivo, de onde se originaram.

Afrodite oferece esse espelho com mais freqüência do que gostaríamos de admitir. A cada vez que alguém se apaixona e vê as características do deus ou da deusa na pessoa amada, é Afrodite refletindo em seu espelho nossa imortalidade ou qualidades divinas. Relutamos em ver nossas virtudes, tanto quanto nossos erros, e um longo período de sofrimento geralmente interpõe-se entre o ver no espelho e a realização do que quer que seja. Psiquê leva um longo tempo entre apaixonar-se por Eros e descobrir sua própria imortalidade.2

Esta Afrodite é a grande deusa-mãe, como é vista pelos olhos de sua futura nora. Quando uma mulher intermedia a beleza e a graça para o mundo, é a energia de Vênus - ou Afrodite - em ação. Mas quando é confrontada com a nora, a deusa se torna ciumenta, competitiva, determinada a criar obstáculos o tempo todo para Psiquê.

Esse drama envolvendo sogra e nora é levado em todas as culturas, e representa uma das irritações psíquicas que mais contribuem para o crescimento de uma jovem. Conseguir lidar com o universo de sua sogra significa para ela atingir a maturidade. Deixar de ser aquela gota de orvalho, chegada de forma tão ingênua a este mundo e ao casamento.

É bem embaraçoso para uma mulher moderna, razoavelmente inteligente, descobrir sua natureza-Afrodite, com seus truques e instintos primitivos. Essa deusa freqüentemente mostra seu lado tirânico e crê que sua palavra é lei.

É natural que, quando uma nova forma de feminilidade aparece num grau evolutivo, essa velha deusa sinta-se irada. Ela está além de qualquer moralidade, pois existia antes do tempo da moralidade. Usará, portanto, todos os meios de que dispõe para subjugar a oponente. E as mulheres sabem muito bem disso, pois quando acontecem as súbitas regressões à sua natureza-Afrodite elas se tornam figuras aterrorizantes, enquanto presas dela. É raro encontrar um lar em que a mulher, quando se deixa levar por suas súbitas erupções, reconheça-se nesse momento como Afrodite e saiba dar o uso real para essa energia sublime que se desprende dessas explosões.

A energia-Afrodite é uma força de grande valor, que se põe a serviço do desenvolvimento pessoal quando domina seu poder aterrador, fazendo com que todos à sua volta cresçam. Quando chega o tempo de crescimento, as velhas formas e os velhos hábitos devem dar as boas-vindas aos novos. As velhas formas de agir parecem perseguir, em cada ponto, as novas que desabrocham. Mas é uma questão de se perseverar, pois esse caminho trará à luz uma nova consciência.

Há uma história sobre o primeiro elefantinho nascido em cativeiro. O tratador ficou deslumbrado, mas logo a seguir apavorou-se, quando os outros animais juntaram-se num círculo e começaram a lançar o recém-nascido para o ar, atirando-o de um para outro. Num primeiro momento, ele pensou que o estivessem tentando matar, mas depois verificou que o intuito era fazê-Io respirar.

No processo de um novo crescimento, fatos terríveis parecem acontecer; mas, se observarmos com atenção, veremos que eram absolutamente necessários. Afrodite, que é impiedosamente criticada a cada passo, faz tudo para tornar possível a evolução de Psiquê. É muito fácil ser otimista depois de ocorrido o fato, mas é infernalmente doloroso o seu processo. Enquanto se processa essa evolução, instala-se um estado verdadeiramente caótico, de guerra, dentro do ser. A velha maneira, a natureza-Afrodite é regressiva. Leva a mulher de volta ao inconsciente, mas ao mesmo tempo força-a à nova vida - às vezes com grande risco. Talvez a evolução possa ser alcançada de outra forma; pode ser que Afrodite seja, por vezes, o único elemento capaz de promover o crescimento. Existem mulheres, por exemplo, que não conseguiriam evoluir a não ser sob a tirania ou de uma sogra ou de uma madrasta.

A COLISÃO


Muitos dos conflitos de uma mulher moderna resumem-se na colisão entre suas duas naturezas intrínsecas - Afrodite e Psiquê. Isso ajuda-a a adquirir uma estrutura para entender o processo; se ela for capaz de vislumbrar o que lhe está ocorrendo, estará a caminho de uma nova consciência. Reconhecer Afrodite pode ser-lhe de grande valia. Quando o homem reconhece Afrodite na mulher e sabe o que deve ou não fazer, ele estará numa posição privilegiada.


II - A MOCIDADE DE PSIQUÊ
Agora que já conhecemos algo sobre a natureza de Afrodite - o mais antigo e primitivo nível de feminilidade -, passaremos a observar a nova expressão do feminino. Diferente de Afrodite, que surgiu do mar, Psiquê nasceu de uma gota de orvalho que, vinda do céu, caiu sobre a terra. Essa mudança do oceano de Afrodite para a terra de Psiquê é a progressão da primeva feminilidade oceânica para uma nova forma, mais humana. Em vez de turbilhões oceânicos, temos as controláveis águas de uma gota de orvalho.

A natureza de Psiquê é tão magnificente, tão fora deste mundo, tão original e pura, que é adorada, mas não cortejada. Eis aí uma experiência brutalmente solitária, pois a pobre Psiquê não encontra marido.

Nesse sentido, existe uma Psiquê em toda mulher, o que significa ser muito só. Por um lado, toda mulher é filha de rei: muito adorável, muito perfeita, com uma riqueza interior muito grande para um mundo tão vulgar. Quando uma mulher se vê solitária e incompreendida, quando percebe que as pessoas são afáveis para com ela mas mantêm um certo distanciamento, acaba descobrindo o seu lado-Psiquê. E como dói. As mulheres tornam-se por vezes agudamente conscientes desse dolorido estado de alma, sempre que consigam decifrar-lhe a origem, que nada mais é que o surgimento de seu lado-Psiquê em sua própria personalidade. Ficar presa neste aspecto do caráter feminino significa permanecer intocável e privar-se de relacionamentos afetivos.

Absurdos de toda sorte acontecem, quando as mulheres tentam acomodar sua parte- Psiquê dentro do dar-e-receber cotidiano que constitui esses relacionamentos afetivos. Se sua parte-Psiquê abranger uma posição considerável de sua personalidade, essa mulher terá uma penosa tarefa nas mãos. Cairá em pranto bradando: "Ninguém me entende". E é verdade! As mulheres têm dentro de si essa característica, e não faz diferença nem sua condição social nem sua idade. Se a mulher souber dessa característica e puder atingi-Ia, então o manancial da beleza e da divindade de Psiquê tornar-se-ão conscientes para ela, e uma evolução, cheia de nobreza, terá início.

Se a mulher for muito bonita, o problema será mais complexo. Marilyn Monroe é um bom exempIo. Foi excessivamente idolatrada, e mesmo assim nunca conseguiu manter um relacionamento bem-sucedido e duradouro. Por fim, não pôde mais suportar. Pessoas assim parecem ser as portadoras dessa condição de deusa, uma perfeição quase inatingível por não ter lugar no âmbito humano do relacionamento comum. É possível pôr em movimento a evolução necessária a Psiquê, se bem entendida a sua dinâmica.

Certa vez assisti a um filme em que dois pacientes de um manicômio, terrivelmente desfigurados, apaixonaram-se. Através da magia da fantasia, viam-se como seres infinitamente belos, e o amor entre eles floresceu. Ao término do filme, a câmara, focalizando suas faces, foi aos poucos desfocando as imagens até reaparecerem aqueles rostos deformados. Mas a platéia sabia onde ambos haviam estado: viram o deus e a deusa que habita cada alma, o que é mais poderoso do que a realidade exterior da desfiguração. Esse episódio mostra a fratura existente entre o divino interior e o cotidiano exterior, que é o cerne de nossa história.

O CASAMENTO
Psiquê é a preocupação de seus pais, porque, enquanto as irmãs mais velhas estão casadas com reis de reinos vizinhos e vivem felizes, ninguém aparece para pedir-lhe a mão. Os homens só fazem adorá-Ia. O rei então vai consultar um oráculo, que por "acaso" é dominado por Afrodite. Cheia de raiva e inveja de Psiquê, Afrodite faz com que a resposta seja uma terrível profecia! A jovem terá de desposar a Morte, a mais horrenda e repulsiva das criaturas. A pobre moça é então levada ao alto de uma montanha, acorrentada a uma pedra e lá deixada para ser violada por essa criatura repugnante, a Morte.

Os oráculos, nas sociedades da Grécia antiga, eram inexoráveis, tidos como verdade absoluta. Portanto, os pais de Psiquê não questionaram a profecia e promoveram um cortejo nupcial à maneira de funeral. Seguindo meticulosamente as instruções, acorrentaram a filha à rocha no alto da montanha, onde se mesclaram rios de lágrimas, atavios de casamento e tristeza de morte. O rei e a rainha apagam as tochas e Psiquê é abandonada à sua sorte na escuridão.

Que podemos extrair disso? Psiquê está prestes a casar-se. O marido virá, sem dúvida, mas é uma ocasião trágica, porque o esposo é a própria Morte. Na verdade, a donzela realmente morre no dia de suas bodas: uma etapa de sua vida se extingue e ela morre para muitos aspectos femininos que vivera até então. Em certo sentido, o casamento representa um funeral para ela.

Muitas de nossas tradições matrimoniais são, na verdade, cerimônias funerárias, herdadas das culturas primitivas. Assim, o noivo, seu padrinho e alguns amigos raptavam a noiva, e as damas de honra encarregavam-se de salvaguardar sua virgindade. A "batalha", ritualisticamente, é levada a cabo, com a noiva chorando pela morte de uma etapa de sua vida, ou seja, a donzela está morrendo. As portas de uma nova vida abrem-se para ela, e as festividades são para celebrar um novo poder que ela conquistará como noiva e como matriarca.

Na verdade, não reconhecemos suficientemente o aspecto da dualidade no casamento, somente tentamos fazê-Io cor-de-rosa, alegre e feliz. Mas em algum momento deveríamos levar em consideração a parte que morre, deveríamos honrá-Ia, pois do contrário as emoções vão aflorar mais cedo ou mais tarde, de uma forma inadequada. Algumas mulheres, por exemplo, poderão manifestar uma violenta repulsa com relação ao seu casamento, depois de passados alguns meses ou anos.

Certa vez vi uma estampa que representava a festa de um casamento turco, em que garotos de oito ou nove anos pulavam num pé só, com o outro amarrado na coxa. Tal costume era para lembrar aos convivas que a dor e a alegria estavam presentes, ao mesmo tempo.

Na África, a não ser que a noiva saia da noite de núpcias coberta de hematomas e feridas, e tenha sido raptada, o casamento não é nem válido nem real. Se o elemento sacrifício do matrimônio é homenageado, a alegria da união se torna possível. Afrodite não gosta que donzelas morram pelas mãos dos homens, pois não é de sua natureza ser submetida por um homem. Por essa razão, a Afrodite, em uma mulher que se casa, chora ao deixar de ser donzela. Ela representa seu papel paradoxal: quer o matrimônio, mas ao mesmo tempo ressente-se da perda da virgindade. Esses anos tão longínquos ainda jazem dentro de nós e são homenageados com propriedade nas cerimônias feitas com consciência.

Aqui, outra vez, observamos o paradoxo da evolução: é a própria Afrodite quem condena Psiquê à morte, mas também é ela a casamenteira que provoca o matrimônio ao qual ela própria se opõe. É ela também a que chora e range os dentes durante a cerimônia, pelas futuras perdas da liberdade, individualidade e virgindade da noiva.

O "empurrão" para a evolução, que o casamento traz, é acompanhado por um "puxão" regressivo, causado pela nostalgia da independência e da liberdade que a noiva gozava antes dele.

Uma vez vi uma tira humorística que conseguiu resumir com genialidade a força arquetípica do casamento. Retratava os pensamentos dos pais dos noivos durante a cerimônia: o pai da noiva, furioso com o tipo que teve a audácia de roubar-lhe a "princesinha" adorada; o do noivo, sentindo-se triunfante com a supremacia masculina da comunidade; a mãe da noiva, horrorizada com o bruto que estava levando sua criança para longe dela; a do noivo, também enfurecida, mas com a lambisgóia que seduziu e arrancou-lhe o filhinho.

Muitos dos arquétipos mais primitivos - aqueles padrões de pensamento e comportamento arraigados, incrustados no inconsciente da psique humana, ao longo de milhares de anos de evolução - estavam retratados nessa caricatura. Se não os respeitarmos, no seu devido tempo eles voltarão e poderão causar muitos problemas.


III - EROS
Para destruir Psiquê, como gostaria de fazê-Io, Afrodite pede ajuda a seu filho, Eros, o deus do Amor. Eros, Amor e Cupido são os vários nomes dados ao deus do amor. Já que Cupido foi reduzido às ilustrações de cartões do Dia dos Namorados e Amor foi despojado de sua dignidade, vamos usar o nome de Eros para esse nobre deus.

Eros leva a tiracolo a aljava com suas flechas e põe a perder todos do Olimpo; nem os deuses escapam de seu poder, até mesmo Zeus, pois essas flechas podem levar a confusão às mais altas hierarquias. Não obstante, é dominado pela mãe, que lhe ordena inflamar de amor o coração de Psiquê pelo monstro hediondo que viria reclamá-Ia, para assim acabar de vez com o desafio que a jovem representava para ela. Uma das características de Afrodite é ser constantemente regressiva, é querer as coisas exatamente como estavam antes. Ela quer que a evolução caminhe para trás; é a própria voz da tradição e, ironicamente, é exatamente esta tendência que impulsiona nossa história para sua real evolução.

Podemos analisar Eros sob vários pontos de vista: como o homem exterior, o marido ou o homem em qualquer relacionamento, como o homem interior, ou seja, o animus da mulher, a sua masculinidade interior. Ou também podemos vê-Io como o princípio da união e harmonia, que é o clímax de nossa história. Eros não é apenas a sensualidade, bastando lembrar que suas flechas têm por alvo o coração, não os genitais. No decorrer do mito, abordaremos esses aspectos de Eros.

O CASAMENTO DA MORTE


Eros obedece às ordens da mãe, mas ao bater os olhos em Psiquê, acidentalmente espeta o dedo em uma de suas flechas. No mesmo instante apaixona-se perdidamente por ela e decide torná-Ia sua esposa. Pede ao Vento Oeste, seu amigo, que a carregue, suavemente, montanha abaixo, até o Vale do Paraíso. E Psiquê, que esperava a Morte e agora se vê, ao invés, no paraíso da Terra, não faz qualquer pergunta a Eros, inebriada que está com sua inesperada boa sorte. Ao ver-se pousando numa sala de alabastro, com música e servos, é claro que ela não faz perguntas, pois já fora suficiente haver sido salva da morte. Não quer nem precisa de nenhuma explicação por ora.

Apesar de belo, Eros vem a ser a morte para Psiquê. Todo marido é a morte para a sua esposa, porque representa a destruição da donzela que ela ainda é e a impele na direção da maturidade, como mulher. É paradoxal, mas podemos sentir ao mesmo tempo gratidão e ressentimento em relação a quem nos força a palmilhar nosso próprio caminho de crescimento.

O oráculo tinha razão, pois o homem é a morte para a mulher, no sentido arquetípico. Ao perceber um olhar angustiado no rosto de sua mulher, é hora de o marido ser suave e cauteloso; talvez ela esteja acordando para o fato de estar morrendo um pouco como donzela. Ele facilitaria muito as coisas para ela sendo gentil e compreensivo.

Raramente o homem entende que o casamento é morte e ressurreição para a mulher. É que o homem não tem o mesmo parâmetro em sua vida, pois falta-lhe no casamento a característica sacrificial que este tem para a mulher. Um dia, a esposa poderá olhar seu marido com pavor, ao dar-se conta de que está subjugada ao casamento, enquanto ele, não. E muito mais subjugada se houver filhos; poderá ressentir-se, mas deixar de passar por esse sentimento talvez seja algo pior que a morte.

Existem mulheres de cinqüenta anos que nunca estiveram na montanha da Morte, apesar de já serem avós. Isso não significa que o frescor virginal esteja fora de alcance nessa idade. Por outro lado, existem garotinhas de dezesseis anos que passaram pela experiência da montanha, sobreviveram a ela e mostram no olhar uma desconcertante sabedoria.

Essas coisas acontecem independentemente da idade. Conheci uma menina de dezesseis anos que teve um bebê "fora de hora" e recolheu-se para tê-lo em privacidade. Uma vez nascido, deu-o em adoção, sem ao menos haver olhado para ele. Voltou como se nada tivesse acontecido, ou seja, passou em branco pela experiência da montanha da Morte. Depois de muitos anos, veio a casar-se, e se alguém pudesse ser adjetivada de "virginal", esse alguém era ela. Psicologicamente, não fora atingida, ainda que tivesse dado à luz um filho.

Eros extermina a ingenuidade e a inocência pueril da mulher, o que pode dar-se em qualquer época de sua vida, não exatamente por ocasião do matrimônio. Muitas garotas passam por essa experiência muito cedo na vida, o que é doído; em contrapartida, outras jamais chegam a experimentá-Ia.

A experiência do casamento é diferente para o homem e para a mulher: ele vê acrescentado algo à sua estatura, seu mundo torna-se mais forte, escala um degrau, portanto, em estatura e posição. E geralmente não entende que está matando Psiquê dentro de sua esposa; no entanto, é algo que ele deve mesmo fazer. Se ela se comporta de maneira estranha, ou se acontece alguma coisa irremediavelmente errada, ou ainda se houver muitas lágrimas, dificilmente ele vai compreender que a experiência de ambos é muito diferente. A mulher também consegue uma nova estatura em seu casamento, mas não antes de haver passado pela experiência da montanha da Morte.


O JARDIM DO PARAÍSO


Psiquê vê-se num paraíso magnificente. Tem tudo que alguém possa desejar. Seu marido-deus, Eros, vai ter com ela todas as noites, mas faz-lhe algumas restrições: arranca-lhe a promessa de que nunca vai olhá-Io nem fazer perguntas sobre seus atos. Ela poderia ter qualquer coisa que quisesse, viveria em seu paraíso, desde que não o olhasse nem tentasse saber quem era ele. Psiquê concorda, sem discutir. Afinal, quer ser sua esposa e fazer tudo que ele desejar.

Quase todos os homens querem exatamente isso da esposa. Se ela não fizer questão da consciência e proceder em tudo ao jeito dele, reinará na casa uma paz perfeita. Ele quer, na verdade, manter o velho sistema patriarcal do casamento, em que o homem tem o poder de decisão sobre todos os assuntos importantes, a mulher diz amém e a harmonia reina. A maioria dos homens acalenta a esperança de que as coisas aconteçam dessa forma, e, por algum tempo, realmente existe a possibilidade de que o casamento assim seja.

São esses os ecos de uma estrutura patriarcal primitiva, quando a mulher era subjugada pelo homem. Ainda existem alguns resquícios desse mundo patriarcal em nossos costumes, como, por exemplo, a mulher carregar o sobrenome do marido. Eros insiste em que ela não lhe faça perguntas nem o veja: são essas as condições do casamento patriarcal. Como Psiquê concorda, vivem no paraíso.

Todo Eros imaturo é um fazedor de paraísos. É típico do adolescente arrebatar uma jovem prometendo-lhe a felicidade para todo o sempre. Eis o Eros ao nível secreto; ele quer seu próprio paraíso, mas não aceita nem a responsabilidade nem o relacionamento consciente. Há uma pitada disso tudo em todo homem. A necessidade de evolução e crescimento - no mito, a maior parte do crescimento advém do elemento feminino, seja da anima ou da mulher - representa experiências terríveis para o homem. Ele simplesmente quer ficar no paraíso.

Observe os enamorados enquanto estão construindo o paraíso! Tanto a conversa quanto o vocabulário pertencem a um outro mundo, ao mundo paradisíaco. É uma pré-estréia do paraíso que será alcançado muito tempo depois, e com bastante trabalho. Ninguém pode criticar tal pré-estréia, mas um espectador já sabe, à primeira vista, que o paraíso não é nem estável nem duradouro. Todos os paraísos são suspeitos; não funcionam muito bem. É a criancice de Eros (o puer eternus) que necessita deles.

Há alguma coisa no inconsciente do homem que o leva a desejar um acordo com sua mulher, para que ela não o questione. Freqüentemente o desejo do marido, no casamento, é que ela deva estar em casa, esperando-o, até que ele chegue, e de modo algum deverá ser-lhe um estorvo. Ele quer sentir-se livre para esquecê-Io quando quiser focalizar sua atenção em qualquer outro assunto. É grande o choque da mulher quando descobre tal postura no seu homem. O casamento é uma total entrega para a mulher, o que não acontece com o homem. Recordo-me de uma senhora que me contou haver chorado por dias quando descobriu que seu casamento era apenas um aspecto na vida de seu marido, enquanto para ela era o evento primordial de sua vida. Descobrira em seu marido a natureza de Eros-fazedor-de-paraísos.

PARAÍSO PERDIDO
Todo paraíso tem sua queda, todos têm sua serpente que traz o oposto da paz e da tranqüilidade do Jardim do Éden.

E logo a serpente também aparece no paraíso de Psiquê, na forma de suas irmãs, que estiveram lamentando sua perda - se bem que lá sem muita convicção. Souberam que Psiquê estava vivendo num jardim paradisíaco e que tinha por marido um deus. A inveja delas não conhecia limites. Vão até o penhasco onde a jovem fora acorrentada e chamam por ela, que está lá embaixo, no jardim, para saber como está passando e também para desejar-lhe seus melhores votos.

Psiquê, candidamente, conta tudo a Eros, que a adverte várias vezes sobre o perigo que ela estava correndo. Diz-lhe que se ela desse ouvidos à curiosidade de suas irmãs poderia acontecer-lhe um verdadeiro desastre. Ou seja, Psiquê deveria continuar a manter-se submissa e obediente. Também lhe diz que se continuasse sem fazer-lhe perguntas, a criança que trazia no ventre seria um varão, um deus imortal. Se, porém, quebrasse seus votos, nasceria uma menina que não passaria nunca de uma mortal comum. E, para coroar, ele, Eros, a abandonaria. Psiquê ouve-o atentamente e resolve não perguntar-lhe nada.

Mas suas irmãs voltam e finalmente a jovem consegue dele permissão para que as moças a visitem. Então elas são carregadas por uma rajada do Vento Oeste do penhasco e colocadas sãs e salvas no adorável jardim. Ficam encantadas com tudo que vêem e são tratadas com toda a deferência. Claro que se remoem de inveja e ciúmes por tudo que acontece à irmã caçula. Submetem-na a uma saraivada de perguntas e Psiquê, em sua ingenuidade, retrata seu marido através de sua própria fantasia, pois jamais havia posto os olhos nele. Dá pilhas de presentes finíssimos às irmãs e as manda de volta para casa.

Eros não se cansa de preveni-Ia, mas apesar de tudo as irmãs voltam. Desta vez, esquecida do que lhes havia dito antes a respeito do marido, conta-lhes outras fantasias. Uma vez em casa, as duas discutem esses pontos controvertidos e tecem um plano diabólico. Numa terceira visita, dizem à coitada que ela estava mesmo era casada com uma serpente, uma criatura asquerosa, que tinha planos para devorá-Ia e ao recém-nascido.

Mas, também, como eram tão caridosas, haviam preparado um plano para salvar a pobrezinha da irmã desse tenebroso destino. Aconselham-na a tomar de uma lâmpada, escondê-Ia sob uma redoma e deixá-Ia à mão em sua cabeceira. Deveria também armar-se da faca mais afiada que pudesse encontrar e colocá-Ia a seu lado, na cama. Assim, no meio da noite, quando seu marido estivesse dormindo pesadamente, ela o exporia à lâmpada para ver, pela primeira vez, aquela repugnante criatura e poder, então, cortar-lhe a cabeça. Psiquê cai na trama delas e prepara-se para desmascarar tão terrível marido.

Eros vai para a cama à noite e adormece ao lado da jovem. Ela então levanta-se, retira a redoma, empunha a faca, debruça-se sobre o marido e olha-o pela primeira vez. Para sua surpresa e deslumbramento, mas cheia de sentimento de culpa, descobre o deus, o deus do amor, a mais bela criatura de todo o Olimpo! Vê-se presa do terror, tremendo dos pés à cabeça, e chega a pensar em matar-se pelo erro cometido. Desajeitada, derruba a faca e, no afã de pegá-Ia, acidentalmente espeta o dedo em uma das flechas de Eros e apaixona-se perdidamente pelo marido, que acabara de ver pela primeira vez.

Afasta a lâmpada bruscamente e uma gota de óleo quente cai no ombro direito de Eros, que acorda com a dor. Dá-se conta do que sucedera e, como é dotado de asas, voa para bem longe. A infeliz Psiquê agarra-se a ele e é levada por tempo suficiente para sair do jardim paradisíaco. Mas não agüenta muito mais e cai em terra exaurida e desolada. Eros pousa perto dela, acusa-a de lhe haver desobedecido e quebrado a promessa feita. E agora, como já havia sido avisada, a criança por nascer seria menina e, ainda por cima, mortal. Ela também seria punida com seu afastamento. Ato contínuo, voa para longe, para sua mãe, Afrodite.

O DRAMA MODERNO
Eis um drama encenado e reencenado à exaustão em muitos casamentos. Que nos está dizendo essa linguagem arcaica, poética e mítica a respeito da mulher e seu relacionamento com o homem - tanto interior quanto exterior?

As irmãs são aquelas vozes rabugentas, que resmungam sem parar, dentro de cada um, executando a dupla tarefa de destruir o velho e trazer a consciência do novo. Os mexericos são o cenário ideal para as irmãs tecerem suas tramas destrutivas. Elas estão sempre levando a cabo seu duplo dever: desafiar o velho mundo patriarcal e obrigar todos a se conscientizarem, o que aliás poderá custar muito mais do que elas poderiam imaginar. Estamos sujeitos a pagar o preço que Prometeu pagou para obter a consciência que tão corajosamente exigimos.

As irmãs perguntadoras constituem um espetáculo aterrador, pois, apesar de serem os arautos da consciência, também representam um estágio de evolução perigoso, porque se nele permanecer a mulher tornar-se-á destrutiva para o resto da vida. Destruirá tudo aquilo que o homem tentar construir. Mas ela também poderá ficar acorrentada à montanha da Morte por toda a vida, e a imagem que terá do homem será distorcida, passando a vê-lo sempre como terrível portador de catástrofes.

A mulher está sujeita a passar pelas mais desnorteantes experiências no seu relacionamento com o parceiro. Ele tanto é o deus quanto a morte no penhasco; é aquele desconhecido do paraíso, mas também o empecilho quando ela exige consciência. E, finalmente, é o deus do amor que a espera, no ápice do Olimpo, quando ela se torna uma deusa. Tudo isso é simplesmente muito complicado para o homem. Não é à toa que, quando chega em casa, dá uma paradinha, antes de entrar, para decidir que papel vai ter de desempenhar. Acrescente-se a tudo isso seus próprios envolvimentos com sua anima, e teremos uma história bem complexa - mas também muito linda.

As "irmãs" representam a demanda para um estágio evolutivo, que vem por uma fonte inesperada. Elas podem muito bem ser a sombra de Psiquê. Jung descreve os elementos-sombra de uma personalidade como aquilo que foi reprimido, ou, ainda, facetas não vividas dentro da potencialidade global de um indivíduo. Seja por não receberem a devida atenção, seja por não serem devidamente trabalhados, esses elementos permanecem arcaicos ou tornam-se escuros e ameaçadores. Essas potencialidades, que podem ser canalizadas para o bem ou para o mal, apesar de reprimidas, ficam no inconsciente armazenando energia. Até que, finalmente, irrompem arbitrariamente em nossa vida consciente, da mesma forma que as irmãs de Psiquê surgiram em sua vida, num momento crítico.

Se, conscientemente, só nos virmos como criaturas puras, adoráveis e gentis, como o fez Psiquê, então estaremos subestimando nosso lado escuro, que acabará por emergir e impulsionar-nos para fora desse estado de auto-satisfação, desse paraíso ingênuo, na direção de novos descobrimentos sobre a nossa verdadeira natureza.

Jung disse também que a necessidade de expandir a consciência muitas vezes parte da sombra. Assim, as irmãs, essas facetas pouco agradáveis e imperfeitas de Psiquê, servem-lhe muito bem.3

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