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Folha de São Paulo – B 10 – 03/03/02

ESCÂNDALO Financiando políticos e juízes, empresa expandiu sua influência das cortes estatuais do Texas até a Casa Branca

Lobby da Enron atingia todos os poderes

SHEILA MCNULTY

DO ‘FINANCIAL lIMES’


Com políticos do Colorado a Washington, passando por Nova York, admitindo que se beneficia­ram de contribuições da Enron, é claro que a influência da sétima maior empresa dos Estados Uni­dos era grande. No Estado de origem da empresa, o Texas, ela também era imensa.

Os que acompanharam a trans­formação da empresa, ao longo de 15 anos, de pequena companhia especializada em gasodutos à maior operadora de energia do país, dizem que ela desfrutava de toda a lealdade do Texas até sua quebra, em dezembro.

Com o “fazedor de reis” de Houston, Kenneth Lay, no co­mando, a Enron garantia essa lealdade por meio de uma pode­rosa combinação de dinheiro, lobby e uma porta giratória pela qual funcionários do grupo entravam e saíam do governo, diz An­drew Wheat, do Texans for Public Justice, um grupo de defesa do consumidor no Texas.

Em virtualmente todos os rela­tórios que publicamos, Ken Lay desempenhava um papel importante”, diz ele. Nos dois últimos ciclos eleitorais, diz a organização, a Enron gastou US$ 10,2 milhões influenciando políticos em Washington. Durante o período, 1997-2000, a empresa doou US$1 milhão aos comitês de ação política e aos fundos de campanha de candidatos estaduais no Texas, e gastando US$ 4,8 milhões em 89 contratos de lobby no Estado.

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Executivos da Enron fazem juramento no Senado dos EUA; influência política da companhia chegava até o Congresso americano
epois que o governador Geor­ge W. Bush conquistou a Casa Branca, no ano passado, Lay, amigo intimo da família Bush há mos, sena, ao que se sabe, o único executivo a ter realizado uma reunião privada com o vice-presidente Dick Cheney quando este estava encarregado de formular a no norte-americano. A Enron também apoiou a indicação de Pat Wood, comissário das empresas de infra-estrutura do Texas, para o posto de presidente da Co­missão Federal Regulatória de Energia (CFRE).

A Texans for Public Justice diz que os maiores “presentes” de Bush para a Enron aconteceram quando ele era governador do Texas: desreguilamentar os merca­dos de eletricidade do Estado em 1999, adotar uma política branda com relação às empresas responsáveis pela poluição do ar e apoiar leis que protegem grupos empresariais contra processos judiciais.

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Os esforços de lobby da Enron eram tão agressivos quanto suas práticas financeiras
uando a Enron começou a trabalhar junto aos políticos para ob­ter medidas de desregulamentação, a meta parecia distante. Ela era uma operadora de gasodutos e, quando entrou na área de infra-estrutura, teve de combater monopólios entrincheirados, como a Reliant, inimigos declarados da desregulamentação. “Um lobista trabalhando para a Reliant me disse que não havia nada que a Enron pudesse fazer, porque eles tinham o controle da Câmara dos Deputados”, disse Paul Burka, editor da revista “Texas Monthly”. “Bem, a Enron conseguiu derrubar essa estrutura.”

A Enron não limitou sua generosidade aos políticos. A Texans for Public Justice diz que os juizes da Corte Suprema estadual do Texas receberam US$ 134.058 da Enron, de 1983 para cá. Em 1996, alega a organização, surgiu um conflito quando os juizes reverte­ram a decisão de uma instância inferior e cortaram US$ 15 milhões em impostos sobre espólios que a Enron devia a um distrito escolar estadual. Nem mesmo os milhões que a Enron e seus funcionários doavam a cada ano para organizações de caridade do Texas escapavam a conexões políticas, diz Tom “Smitty” Smith, diretor do escritório texano da Pu­blic Citizen, uma organização de defesa do consumidor.

Os esforços de lobby da Enron eram tão agressivos quanto suas práticas financeiras. “Quando um candidato dava uma festa, eu costumava dizer que ninguém ousava se interpor entre o convidado de honra e o lobista da Enron”, conta um concorrente.

Os presentes que a Enron distribuía pela cidade eram muitos. A equipe da própria empresa costumava receber lembrancinhas, tais como pranchas de surfe portando o nome do grupo durante uma viagem coletiva ao Caribe.

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A Enron tinha em sua folha de pagamento diversos ex-funcionários do governo, que tinham as mesmas vantagens de acesso


ípica dos presentes dados a associados era uma bola de beisebol portando o nome da Enron e o de seu escritório de advocacia, Vin­son & Elkins, comemorando a “equipe vitoriosa” que elas formaram para a abertura do Enron Field, o estádio de beisebol profissional de Houston. O Vinson & Elkins, a Arthur Andersen, que cuidava da auditoria da Enron, e a McKinsey, sua principal consultoria, eram todos parceiros da empresa há muito tempo. Isso implica em envolvimento de milhares de pessoas ao ano com a Enron na área de Houston.

“Com dois ou três graus de separação, virtualmente todos tinham uma conexão com a Enron”, diz Richard Murray, di­retor do Centro de Poli’tica Pública da Universidade de Houston. E essa conexão era motivo de orgu­lho. Professores da Universidade Rice dizem que as festas de recrutamento da Enron, regadas a cerveja e pizza, tinham alto compare­cimento. “Todo mundo queria trabalhar na ou para a Enron”.

“Eles conseguiam atrair a atenção das pessoas e convencê-las de que eram o futuro”, diz Burka. “A mensagem que Lay tentava transmitir era a de que eles seriam a mais importante empresa do mundo e que mudariam todos os mercados”. Era uma mensagem que o governo texano estava ávido por ouvir, e promover, em be­nefício do Estado.

Lay sabia como falar com o governo, porque trabalhou como assistente técnico do comissário da CFRE e foi subsecretário do Interior. A Enron tinha em sua folha de pagamento diversos ex-funcionários do governo, que tinham as mesmas vantagens de acesso.

A Texans for Public Justice menciona Wendy Gramm, mulher do senador Phil Gramm, do Texas, que segundo a organização receberia US$ 50 mil ao ano da Enron para integrar seu conselho. A Enron a contratou em 1993, se­manas depois que ela completou seu mandato à frente da Comissão de Futuros e Commodities, uma agência federal norte-americana, na qual ela supervisionou a desregulamentação dos merca­dos de energia do país.

A Enron também apoiou a transferência de funcionários da empresa para cargos públicos. De fato, esperava-se que Lay disputasse a prefeitura de Houston, antes da implosão da Enron.

O fim da empresa também pôs fim às ambições políticas do principal fiscal do setor de energia no Texas, Maio Max Yzaguirre, que deixou seu cargo em janeiro em meio a controvérsias com respeito à sua ligação com a empresa.

Yzaguirre dizia a princípio que sua única ligação com a Enron era ter trabalhado como diretor das operações da empresa no México, mas admitiu mais tarde que havia outras ligações.

Além disso, os críticos ressaltam que Lay contribui com US$25 mil para a campanha do governador do Estado, Rick Perry, um dia de­pois que Yzaguirre foi indicado para o posto de comissário esta­dual da Infra-Estrutura. Perry diz que o momento da indicação foi pura coincidência”. Pode ser, mas o envolvimento da Enron na controvérsia ressalta a reputação da empresa quanto ao uso de dinheiro, lobby e ligações como o governo para comprar a lealdade dos “Esse caso vai terminar sendo um manual de como corromper o processo político”, diz Smith.

OPINIÃO
Enron foi duro golpe para a imagem dos EUA
CAROLINE DANIEL

ESPECIAL PARA O ‘FINANCIALTIMES’

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O COLAPSO financeiro na Argentina parece, inicialmente, um golpe contra o Consenso de Washington e seu estilo de gestão baseado em economia de merca­do. A maior moratória nacional já decretada aconteceu em um país que não muito tempo atrás era o queridinho dos mercados internacionais e merecedor de elogios do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial Certa­mente a crise fará com que outros países pensem duas vezes antes de adotar os mercados abertos e a integração mundial.

Mas outro caso de colapso recorde, o da Enron, pode ser uma ameaça maior e mais insidiosa ao Consenso de Washington. A Argentina é importante como um país credor emergente. Mas seus problemas até agora foram contidos, relativamente, e em geral são vistos como tendo origens inter­nas. O colapso da Enron, em meio a revelações diárias de trapaças e métodos contábeis questionáveis, é um golpe contra o coração do capitalismo norte-americano.

O tumulto político e econômico na Argentina está longe de encerrado, e os altos custos sociais da crise ainda precisam ser enfrenta­dos. Mas o contágio de outros mercados emergentes, tão temido, não se materializou.

O colapso argentino, há muito previsto, foi precipitado pelo tipo de conflito político contra o qual o FMI e as demais instituições há muito vinham alertando: uma tentativa de manter uma taxa fixa de câmbio que era incompatível com o ritmo de crescimento necessário à sobrevivência política do governo. A comunidade inter­nacional pode ser criticada por ter financiado essa tentativa por tempo demais, ou por ter aceitado uma série de metas fiscais nada realistas à medida que o crédito de mercado de que a Argentina precisava para financiar seu orçamento se esgotava. Mas a decisão de manter a âncora cambial foi toma­da em Buenos Aires, e não ditada de Washington.

Mas e a Enron? Ela era elogiada pelos comentaristas, analistas e investidores, para não falar dos políticos. Era apontada como exemplo da engenhosidade dos empresários americanos e da capacidade dos mercados dos EUA para fornecer o capital necessário a qual­quer inovação.

A recessão norte-americana e o declínio nas bolsas de valores contribuíram para o colapso final da empresa. Mas, como agora sabemos, os bons tempos de que Enron se vangloriava no passado não passam de um mito. Seus anúncios de lucros eram “quase US$1 bilhão mais altos do que ela deveria ter reportado”, e os executivos de primeiro escalão do grupo “enriqueceram” com dezenas de milhões de dólares que “jamais deveriam ter recebido”, nas palavras devastadoras de um relatório especial do conselho da empresa. Os funcionários comuns, enquanto isso, na verdade tiveram rouba­das as suas economias.

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Domo de aço construído na sede de indiana da Eron revela o poder que a empresa tinha antes de quebrar e sujar a imagem dos EUA
triste história que vem emergindo sobre as negociatas especiais e transações desonestas é um golpe direto contra a reputação dos mercados de capitais norte-americanos. Executivos, diretores não-executivos, auditores supostamente independentes, banqueiros, advogados e analistas de mercado aparentemente se enganaram todos. E o sistema de governança corporativa e fiscalização de mercado que supostamente permite que os mercados livres floresçam em beneficio de todos, não apenas de uns poucos privilegia­dos, fracassou.

Por que esse caso indica muito mais do que simplesmente um grande colapso corporativo? Por­que os mercados norte-americanos, e o conjunto de instituições que os compõem, supostamente deveriam ser um modelo Quando a crise asiática surgiu, o capitalismo de compadres praticado naquela região foi responsabilizado por boa parte dos problemas. A definição de políticas sólidas foi ampliada para incluir uma convocação a que os paises colocassem em operação uma forte infra-estrutura de mercado, com padrões contábeis reforçados, mais fiscalização, requisitos mais severos de informação e normas mais firmes quanto à direção das grandes em­presas. Enquanto a comunidade internacional batalhava por definir o novo consenso, exemplos norte-americanos eram freqüentemente mencionados, ainda que a contragosto. E nos casos em que as divergências se tomavam muito sérias, nós que representávamos os Estados Unidos, tipicamente relutávamos em ceder. Agora, esse tipo de posição se tomou mais difícil de justificar.

O contágio da Argentina foi limitado em larga medida porque não há outros casos obviamente similares. Mas os efeitos secundários da Enron se fizeram sentir rapidamente nos mercados norte­americanos. Investidores e analistas observam ceticamente as em­presas que adotam estruturas contábeis complexas. Desempenho espetacular em termos de lucro é agora uma fonte de suspeita. Os fiscais do setor bancário tomaram providências contra a chamada “contabilidade agressiva”.

A fiscalização mais acirrada já causou algumas baixas, da queda abissal dos preços nas ações da Tyco à falência da Global Crossing. Mas é exatamente a fiscalização que oferece a melhor esperança de recuperar a reputação do mercado. As pressões de mercado também encorajarão um melhor comportamento pelo menos por algum tempo.



O colapso da Enron oferece uma história caucionária para o capitalismo americano. Mesmo que comportamento criminal aberrante venha a ser considerado a raiz do problema, o sistema foi lento demais para reprimi-lo. Há alguns sinais de força subjacente. Permitiu-se a quebra da Enron, suas práticas estão sendo investigadas vigorosamente e as empresas de auditoria e outras estão na corrida por adotar reformas. As mudanças precisam ser convincentes se o consenso do Washing­ton deseja manter sua autoridade aos olhos do mundo.
Caroline Daniel é pesquisadora sênior do conselho de Relações Exteriores e ex-secretaria assistente do Tesouro dos EUA.
Tradução de Paulo Migliacci



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