Silver sands



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Segredos ao Luar

(Silver Sands)



Robin Elliott

Momentos Íntimos Extra 41





Projeto
Revisoras






Digitalização: Simone Ribeiro

Revisão: Jaque Argentin

SILVER SANDS

©1987 Joan Elliott Pickart

Originalmente publicado pela Silhouette Books,

Divisão da Harlequin Enterprises Limited.
SEGREDOS AO LUAR

©1989 — para a língua portuguesa

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de

reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a

Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canada.

Silhouette, Silhouette Desire e o colofao sao marcas

registradas da Harlequin Enterprises B.V.


Tradução: Suzy May Elston
NOVA CULTURAL: Av. Brig. Faria Lima, 2000 — 3o andar

CEP 01452 - São Paulo - SP - Brasil

Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.

Impressa na Aries Gráficas Parâmetro Ltda.



CAPÍTULO I
Lisa Peterson olhou de mau humor para a fileira de pala­vras à sua frente e fez uma careta para as letrinhas lumino­sas que apareciam na tela verde do computador. Preocupada, levantou-se da cadeira e começou a andar de um lado para ò outro, afundando os pés descalços no tapete macio. Estava com um ar de concentração, os lábios apertados e os olhos sem brilho.

Atirando-se no sofá, esticou as pernas bronzeadas, mas no instante seguinte já estava novamente em pé, inquieta. De short branco, uma camiseta com um enorme ponto de interrogação na frente, ela aparentava bem menos do que os vin­te e seis anos que completara.

Saiu pisando duro, atravessou a sala e chegou à cozinha, onde se serviu de um copo de chá bem gelado. Depois vol­tou novamente para se plantar em frente ao computador. Sus­pirou profundamente e apertou diversas teclas. A máquina zumbiu, indicando que as palavras da tela seriam gravadas em um disquete de memória.

- Grande coisa! — resmungou consigo mesma.

Depois de completada a transferência, retirou o disquete e o guardou dentro do envelope protetor. Então pegou o te­lefone, ligou-o ao adaptador especial e sentou-se novamente.

Tinha decidido desabafar seus problemas com Bret. Ele sempre deixava seu computador ligado, por isso, mesmo que não estivesse em casa, ela poderia se comunicar por inter­médio da ligação modem, ou seja, de computador para com­putador, via telefone. Se ele estivesse fora, instruiria o computador para que gravasse a mensagem e ele a veria quan­do voltasse.

Talvez conseguisse, apenas falando com alguém, ajuda para resolver aquela parte encrencada de seu livro, mesmo que esse alguém fosse um computador. Os personagens simplesmen­te não estavam cooperando, e ela já sentia vontade de atirar para dentro do mar a história do viril e atraente pirata e sua frágil mocinha.

Decidida digitou o código que ativava o computador de Bret e o deixava preparado para receber sua mensagem. Um quadrinho verde piscou para ela do canto da tela, indicando que podia prosseguir.

"VOCÊ ESTÁ AI? MEU QUERIDO?", ela digitou.

Apoiando o cotovelo na mesa, segurou o queixo com a mão, encarou a tela e esperou.

Cam Porter ficou surpreso quando o computador que examinava com atenção apitou três vezes e produziu uma linha de letras luminosas. Olhou bem para o complicado equipa­mento e balançou a cabeça, com ar compreensivo.

— Equipamento modem — comentou baixo. — Chique! Sentando-se em frente ao teclado do computador, sorriu exibindo os dentes brancos que contrastavam com a pele bem bronzeada. Em seguida, ergueu as mãos fortes para digitar. "SIM", escreveu com os dedos longos, "ESTOU AQUI'.


"GRAÇAS A DEUS",
veio a resposta, alguns instantes; depois. "SOU UMA DONZELA EM PERIGO."

"Ora, ora...", pensou Cam. Bret tinha um equipamento modem ligado ao de uma mulher... Era melhor avisá-la de que o amigo não estava em casa. Por outro lado, também podia tentar ajudá-la. Ninguém iria dizer que Cameron Porter não auxiliava mocinhas em perigo.

"O QUE ACONTECEU?", escreveu, recostando-se de­pois na cadeira, para aguardar a resposta.

Cruzando as mãos atrás da cabeça, entrelaçou os dedos por entre os cabelos tão negros quanto os olhos. O movimento casual fez sobressair os músculos fortes dos braços e ombros por baixo da camisa azul, e o tecido da calça jeans se esticou em torno das coxas musculosas quando ele estendeu pregui­çosamente as pernas.

— Como é, queridinha — disse alto —, vai me contar ou não?

Como se tivesse escutado, o computador produziu um ruí­do enquanto as letras luminosas apareciam na tela em rápi­da sucessão.



"EU MURCHEI NO MEIO DE UM BEIJO, FIQUEI GE­LADA", a mensagem dizia. "ESSE BEIJO DEVIA CON­DUZIR AO SEXO. JÁ ESTÁ NA HORA DE IR PARA A CAMA COM ELE E... DROGA! NADA! ALGUMA SU­GESTÃO?"

Cam baixou os braços e endireitou o corpo no mesmo ins­tante, arregalando os olhos para a tela.

— Com todos os diabos! — disse espantado. O que Bret andava aprontando nas horas vagas?

"E ENTÃO?", o computador insistiu.

"ESTOU PENSANDO", respondeu Cam.

-"PODE DEMORAR O TEMPO QUE QUISER. VOU CONTINUAR SENTADA AQUI ATÉ TER UM ATAQUE DE NERVOSl"

— Meu Deus! — exclamou Cam, esfregando a mão no rosto.

A moça parecia desesperada. Era melhor que ele confes­sasse que não era Bret. Não... ela poderia cometer um ato impensado se percebesse que não havia ninguém para ajudá-la naquele momento de necessidade. Mas o que podia dizer a ela?

Lisa bebeu mais um gole de chá gelado, balançando a ca­beça, satisfeita. Sentia-se mais animada. Só em contar a Bret que estava num beco sem saída já tinha ajudado, e muito. O beijo azarado era culpa do pirata. Não era nada românti­co beijar uma moça no convés alagado de um navio, sendo ao mesmo tempo encharcados pela água gelada do mar. Pri­meiro devia tê-la levado para a cabine...

O computador sinalizou, chamando sua atenção.



"TALVEZ VOCÊ ESTEJA SENDO INJUSTA CONSI­GO MESMA", a mensagem dizia. ESSE FULANO NÃO SABE BEIJAR? PARA ESSAS COISAS É NECESSÁRIO UMA CERTA EXPERIÊNCIA, VOCÊ SABE..."

"ACABEI DE CHEGAR A ESSA MESMA CONCLU­SÃO", Lisa escreveu, movendo os dedos, rápido, sobre o teclado. "O AMBIENTE ESTAVA TODO ERRADO. JÁ ESTOU INDO PARA O QUARTO, ENTÃO VAI SER LÁ­BIOS NOS LÁBIOS E CORPO CONTRA CORPO. MUI­TO OBRIGADA PELA AJUDA."

'"ESPEREI", veio a resposta quase instantânea.

"TEM CERTEZA DE QUE VAI QUERER DAR ESSE PASSO? PENSE BEM!"

"AH, VOCÊ É TÃO GOZADINHOl", Lisa escreveu, rin­do baixinho. "A VIRTUDE QUE VÁ PARA O INFERNO, A GENTE TEM MAIS É QUE SE DIVERTIR. ESTOU DESLIGANDO AGORA. QUERO APROVEITAR E LI­QUIDAR O ASSUNTO ENQUANTO ESTOU QUENTE,.. ATÉ MAIS."

Aflito Cam apertou diversos botões do computador antes que a comunicação fosse cortada e suspirou aliviado ao ver que a impressora tinha sido ativada. Estava tão preocupado que não se lembrava direito de tudo o que dissera à tal mo­ça, e assim teria toda a conversa impressa, quando contasse o ocorrido a Bret.

Enquanto ela ainda estava quente... O que ele havia apron­tado? A virtude que fosse ao inferno? Será que ele tinha en­viado uma pobre virgem para a cama de um salafrário? O sujeito além de tudo beijava mal, o que provavelmente sig­nificava que era um péssimo amante. A moça ia ficar psico­logicamente arrasada pelo resto da vida!

— Maldição! — Cam gemeu, passando os dedos pelos ca­belos. A impressora parará de funcionar e ele rasgou a tira de papel, examinando o que estava escrito. — Meu Deus! Ela vai aprontar! Talvez até já esteja...

O ruído da porta da frente se abrindo e fechando fez com que ele saísse depressa da sala onde ficava o computador, levando o papel apertado na mão.

— Cam! — cumprimentou o homem que chegava. — Que bom ver você! Cinco anos é tempo demais...

— É verdade — afirmou Cam, apertando vigorosamente a mão do outro. —Tempo demais... Bret, preciso falar com você.

— Aposto que sim — disse o recém-chegado, abraçando-o. — Temos muito que pôr em dia. Já vi que está à vonta­de. Quer uma cerveja? — perguntou, indo para a cozinha.

— Não — retrucou Cam, seguindo logo atrás. — Bret, escute, eu estava dando uma olhada no seu computador e...

— Dos mais modernos, não acha? — interrompeu o ami­go, tirando duas latas de cerveja do refrigerador.

— Concordo — disse Cam, aceitando a bebida. — Olhe, chegou uma mensagem via equipamento modem e eu respondi.

— Ah, é? — comentou o amigo voltando para a sala. Afundou-se no sofá e olhou para ele. — E então?

— Estraguei tudo — esclareceu Cam. — Seja lá quem for, mandei sua amiga direto para a cama de algum espertalhão. Olhe — estendeu o papel para o amigo —, leia isto!

Bret deu uma olhada no papel e depois tomou um gole de cerveja, contendo o riso. Tossiu forte para disfarçar e con­seguir compor uma expressão séria no rosto.

— Ora, ora... Estou achando que ela aprontou mesmo...

— Que idade ela tem? — perguntou Cam, sentando-se pe­sadamente no sofá.

— Oh, uns dezoito ou dezenove anos, imagino eu.

— Deus do céu! — Cam levantou os olhos para o teto. — Não passa de uma criança! Parecia tão aflita. Eu disse que devia ser culpa do sujeito... Mas quem é a garota?

— Ela mora perto daqui, na praia. Tem uma bela casa, bem de frente para Malibu.

— Mas, Bret, sua amiga... sua virginal amiga está na ca­ma com um sujeito neste exato momento!

— É... mais ou menos.

— Assim como você, não é verdade? — comentou Cam. — Sua casa não é exatamente um casebre... e este carro então!

— Graças à Companhia de Computadores Peterson, meu amigo. E a metade dela pode ser sua.

— Vamos ver, Bret. Primeiro preciso colocar minhas idéias em ordem; só depois posso tomar decisões. Vou descansar, relaxar e aí então resolverei o que vou fazer.

— Muito justo — admitiu o amigo, estacionando o carro perto de uma casa iluminada. — Bem, chegamos. Acho que isso vai ser muito interessante ,

— Estou me sentindo um perfeito idiota — comentou Cam, descendo do carro e dando a volta para encontrar-se com o amigo. — Nem conheço a garota. E se ela resolver que não quer ser salva do tal sujeito que beija mal? Aquele é o carro dela?

— É.

— Talvez o piratão já tenha dado o fora. Bret, é melhor você ir falar com ela. A garota não vai querer dar com um estranho na sua porta, principalmente se estiver aborrecida.



— De jeito nenhum — retrucou o amigo, abanando a ca­beça. — Foi por causa do que você disse através do equipa­mento modem que ela resolveu fazer o que fez, lembra-se?

— Droga! — resmungou Cam. Bret tossiu novamente.

— Você devia tratar dessa tosse — aconselhou Cam por sobre o ombro.

— Vou ficar bom dentro de alguns minutos — respondeu, rindo para as largas costas do amigo.

Lisa tinha acabado de fazer um belo sanduíche quando ba­teram à porta. Dando uma dentada, saiu da cozinha ajeitando a camiseta, e foi atender.

Seu rosto se acendeu num sorriso ao dar com o irmão.

— Bret! Que boa surp...

No instante seguinte, o irmão a agarrava pela cintura e apertava seu rosto contra o peito, cortando o que ela dizia.

— Oh! Minha pobre florzinha! Coitadinha, tão inocen­te! — exclamou ele. — Você está bem? Não, claro que não está! Onde está o sem-vergonha? Cam e eu vamos acabar com ele.

— Cam? Que Cam? De quem você está falando? — es­tranhou Lisa, a voz abafada pelo abraço do irmão. — Me largue!

— Pode chorar, minha pequenina! — Bret continuava. — Desabafe todo seu desespero... Lembra-se do meu amigo do Exército, Cameron Porter? Já falei dele para você, mas acho que não chegou a conhecê-lo. Na verdade, minha florzinha, foi com ele que você falou por intermédio do computador. Cam se sente responsável pelo que aconteceu com sua virtu­de e insistiu em vir logo até aqui para saber como você es­tá... Viu como é prestativo?

Bret soltou vagarosamente o corpo da irmã, que o enca­rou. Ao vê-lo piscar, Lisa quase caiu na gargalhada, mas, com esforço, conseguiu se controlar. Rapidamente recordou-se da mensagem que havia enviado e a resposta que recebe­ra, e seus olhos verdes brilharam, marotos.

Cam, Lisa logo percebeu. Cameron Porter... agora lembrava-se de ter ouvido o irmão referir-se a ele. Devia es­tar ainda parado na porta, mas, por causa da altura de Bret, ela não enxergava o misterioso amigo.

Mas que loucura! O sujeito acreditara piamente que ela havia procurado ajuda pelo computador, e que logo depois decidira ir para a cama com o mau beijador! Mas que histó­ria engraçada! Só que não ia durar muito, pois logo que o tal Cam pusesse os olhos nela ia perceber que era irmã de Bret. Enquanto isso...

— Oh... oh... oh... — ela gemeu, cobrindo o rosto com as mãos enquanto se afastava do irmão. — Sou uma mulher perdida, uma decaída, uma... uma porção de outros nomes...

— O que posso dizer? — indagou Bret solenemente, abrin­do os braços num gesto de desalento. — Fez a fama, deite na cama...

— Oh... oh!... — continuou Lisa.

— Droga, Bret! — disse Cam batendo a porta. — Você não precisava falar desse jeito!

Lisa espiou por entre os dedos o homem que olhava feio para seu irmão e quase engasgou. Ouvira falar de Cam du­rante muitos anos, mas não sabia como ele era! Estava ago­ra diante do mais belo exemplar de homem que já vira. Bem bronzeado, com traços marcantes e ombros largos, e... Deus! Ela estava se esquecendo do seu papel.

— Oh... oh... oh!... — lamentou-se.

— Olhe, moça — confortou Cam —, fique calma, está bem? Tudo vai dar certo, não é mesmo, Bret?

— Não tenho a menor idéia — Bret falou, dando de om­bros. — Tudo depende do sujeito dar o telefone dela para o resto da turma...

— Mas que diabos, Peterson! — Cam rugiu. — Será que você não tem nem um pouquinho de consideração com a garota?

— Ninguém teve pena de mim quando perdi minha vir­gindade — reclamou Bret batendo no próprio peito. — E olhe que eu só tinha...

— Que vergonha, Bret! — disse Lisa, ainda espiando por entre os dedos. — Se mamãe soubesse, ela... oh... oh...

Cam apertou os dedos ao dar com Bret rindo. Agarrou as mãos da moça e as afastou do rosto. Dando de cara com uns olhos bem verdes, olhou para os de Bret, depois repa­rou nos cabelos loiros, virou novamente para o amigo e assentiu vagarosamente com a cabeça.

— Lisa Peterson, imagino — indagou, abrindo um sorriso.

— Oi! — cumprimentou ela, caindo na risada. — Como vai?

Bret, que não se agüentava mais, explodiu em gargalha­das e acabou caindo no sofá. Cam sorria e abanava a cabeça.

"Mas que sorriso!", pensou Lisa olhando para ele. Devia ter a mesma idade de Bret, mas parecia mais rijo, mais du­ro, como se tivesse enfrentado mais batalhas na vida. Oh, por que não havia prestado mais atenção quando o irmão falava do amigo Cameron Porter? Por onde ele tinha anda­do? E o que fazia ali, agora?

— Será que você consegue fazê-lo calar a boca? — pediu Cam e, olhando para Lisa, acrescentou em voz baixa: — Seus olhos são lindos.

— São da mesma cor que os de meu irmão — explicou ela controlando a voz para que não tremesse.

— Bret parece um gato de olhos verdes pronto para ca­çar. Mas você... deve ser sua feminilidade que faz tamanha diferença... É um prazer conhecer você, Lisa — Cam estendeu-lhe a mão —, apesar de você ter um irmão meio maluco.

— Bem, eu também topei a brincadeira — admitiu ela, dando-lhe a mão. — Cam, você tem espírito esportivo.

A mão dele era forte. E quente. Calorosa também, mas sensível. Bem quente... E o calor estava se.irradiando por seu braço, chegando ao seio e...

— Basta, Bret! — ordenou ela, puxando a mão e aproximando-se do sofá. — Chega, por favor.

— Adorei! Adorei! — o irmão ainda ria, apertando a bar­riga. — Eu quase não acreditei quando Cam me contou o que tinha acontecido... Ah, meu Deus!

— Mas, Lisa, afinal de contas, o que significa a mensa­gem que você enviou pelo computador? — Cam indagou.

— É sobre o meu livro — informou Lisa com um sorriso. — Escrevo romances de aventura e fiquei meio perdida nu­ma cena. Às vezes ajuda falar com outras pessoas sobre o assunto. Bret e eu vivemos conversando por meio do equi­pamento modem, por isso arrisquei. Se ele estivesse em ca­sa, poderia me ajudar. Por favor, sente-se, Cam — disse, acomodando-se ao lado do irmão, no sofá.

— Você largou a Companhia de Computadores Peterson para escrever romances? — perguntou Cam, sério, depois de sentar-se diante dos dois numa poltrona de couro.

— É — ela retrucou, encarando-o. — Fiz isso mesmo.

— Mas você não se formou em computação?

— Pois é — concordou Lisa, erguendo o queixo.

— Sei... sei... — disse Cam, na verdade sem entender nada.

Como é que uma pessoa brilhante como Lisa Peterson po­dia perder tempo escrevendo novelas? Como é que ela tinha largado a sociedade com o irmão na Computadores Peter­son para viver num mundo de fantasia,?

— Eu ia sugerir que jantássemos fora — interveio Bret. — Mas se Cam afundar mais um pouco nessa poltrona vai acabar pegando no sono.

— Tem razão — admitiu ele, rindo. — Nas últimas vinte e quatro horas cruzei tantos fusos horários que já nem sei mais se é ontem, hoje ou amanhã. Acho que não ia ser mui­to boa companhia.

— Bem, então vamos pôr nossa conversa em dia depois de você descansar um pouco — disse Bret levantando-se. — Vamos para casa, fazemos alguns sanduíches e você pode cair na cama.

— Parece ótima idéia — afirmou Cam, erguendo-se. — Mais meia hora nessa poltrona e eu ia passar a noite aqui, Lisa.

"Uma idéia interessante", pensou ela, mas apenas per­guntou:

— Você vai ficar com Bret?

— Claro que sim — respondeu o irmão.

— Pelo menos por enquanto — corrigiu Cam. — Não mandei nem um telegrama avisando que estava a caminho. Sou o que se chama de visita inesperada.

— E muito bem-vinda, por sinal. Venha, companheiro, vamos jogar esse corpo esgotado numa cama.

"Corpo esgotado?", Lisa pensou, abafando um sorriso. Se aquilo era esgotado, seu sistema nervoso não ia suportar o choque quando o visse descansado e animado. Como é que um homem cansado podia ter tamanha aura de virilidade e autoridade? E que olhos! Negros como a noite... Deus, ela estava começando a sair do sério!

— Então vamos combinar um jantar para amanhã — su­geriu Bret. — Está bom para você, Lisa?

— Está. Para mim está ótimo.

— Bem, Lisa Peterson — Cam estendeu-lhe a mão —, foi muito interessante conhecer você.

— Espero que não tenha ficado aborrecido com nossa brin­cadeira. — Ela sorriu, retribuindo-lhe o cumprimento.

— De jeito nenhum. Imagino que o beijo e tudo mais aca­bou bem, não é?

— Oh, sim! Não houve problema.

O calor da mão dele novamente fazia ziguezagues por to­do seu corpo. Mas não é que ele estava passando de leve o polegar por seu pulso? Estava, e de propósito, o danado! Não estava tão cansado assim para não saber o que fazia...

— Durma bem, sr. Porter — acrescentou ela, puxando a mão.

— Até... garota — disse Bret, dando-lhe um beijo no rosto.

— É isso aí... até mais... — Cam piscou com um olho para ela.

— Até logo — despediu-se Lisa enquanto Bret fechava a porta.

Ele havia piscado para ela! Será que os homens ainda fa­ziam aquilo? Que antiquado! Apesar de ser a piscadela mais sexy que ela já vira e ainda combinada com o sorriso mais arrasador, assim mesmo era um gesto antiquado.

Cam Porter.., Lisa ficou pensando ao voltar para a cozi­nha. Bret e ele haviam sido companheiros no Exército. Quan­do o irmão começara com a Companhia de Computadores, tinha falado sobre o amigo, comentando que gostaria que o amigo trabalhasse com ele, mas na ocasião Cam já estava a serviço do governo e não aceitara a oferta. E agora, de re­pente, reaparecia. Aparentemente a decisão de voltar tinha sido muito repentina. Lisa imaginava que ele estivesse de fé­rias. Mas por quanto tempo? Será que ia ficar mesmo insta­lado na casa de Bret?

— Meu Deus, como você é metida! — disse a si mesma, fazendo mais um sanduíche. Parecia exatamente uma adolescente de olho no amigo do irmão mais velho, o que a fez lembrar de situações vividas na juventude...

"Bret e Cam... Que dupla!", pensou, mordendo o san­duíche. A mulherada de Malibu ia ficar maluca... Bret já era fora de série, com seu corpo bem-modelado, a pele queima­da de sol e grandes olhos verdes. E Cam? Cam, o pirata, ti­nha olhos e cabelos negros como piche, e um corpo fabuloso. Era melhor mesmo que ela fosse jantar com os dois no dia seguinte, antes que multidões de mulheres avançassem.

Servindo-se de um copo de leite, levou o jantar frugal pa­ra a saia e afundou-se no sofá com um suspiro. Cam ia in­sistir no assunto dela ter saído da Computadores Peterson, disso tinha certeza. A referência a sua formatura, o jeito de falar sobre ela escrever romances... Ela já vira coisa pareci­da antes: o espanto, a desaprovação. Ninguém, a não ser Bret, a compreendia. Seus pais ainda estavam horrorizados com aquela repentina troca de profissão, e ainda esperavam que ela recuperasse a razão... Provavelmente, naquele mesmo ins­tante, Cam estaria interrogando Bret sobre o assunto. Ora, ele não tinha nada com a vida dela, e o irmão ia dizer exata­mente isso.

— É isso aí, Cameron Porter — murmurou séria. — Vá tirar seu cochilo. E quanto a você, Bret, seja ele seu amigo ou não, mantenha a boca fechada!


Bret dirigia o carro esporte pelo tráfego intenso sem dizer palavra, pois a seu lado Cam estava ferrado no sono. Che­gando em casa, desligou o motor e saiu do carro, dando a volta para o lado do passageiro. Abriu a porta, cutucou-o no braço e depressa deu um passo atrás, precavendo-se de possíveis reações do amigo.

— Cam! — chamou. — Acorde!

— Hein?

— Vamos, amigão... já chegamos.



— Hein?

— Vou acabar sendo morto — resmungou Bret. Esten­dendo o braço e pegando no ombro do amigo. — Cam, estamos... Ai! — gritou, quando dedos fortes como alicate apertaram seu punho. — Cam! Sou eu, Bret! Você está que­brando meu braço!

__ Oh, desculpe — disse Cam, puxando a mão e piscan­do atrapalhado.

__ Devia ter deixado você aqui fora — Bret desabafou, esfregando o punho. — Acordar Cam Porter pode fazer mal à saúde de qualquer um. Nunca vou me esquecer daquela vez que você quase esganou um general só porque ele o acordou. Coitado, só queria que você o levasse para jogar golfe.

Cam riu e saiu do carro.

— São reflexos, meu rapaz... ótimos reflexos.

— Reflexos perigosos, isso sim.

— Eles me salvaram a vida, antes e depois do Exército — informou, andando ao lado do amigo até a casa.

— Você já me contou sobre o "antes". O que aconteceu depois?

— Uma porção de coisas — disse Cam entrando na sala com o amigo. — Acho que não vou comer nada, Bret. Es­tou cansado demais até para mastigar.

— Tudo bem. Durma bastante e amanhã fique descansan­do também. Depois eu lhe mostrarei a companhia. E não se esqueça de que temos um jantar com Lisa.

— Ela é uma moça linda, Bret.

— É verdade.

— Não consegui entender por que ela... Bem, deixe pra lá. Hoje meu cérebro não está mesmo funcionando direito. Escute, muito obrigado por tudo.

— Ora, para que servem os amigos? Boa noite.

— Boa noite.

Logo em seguida Cam estava deitado, olhando para a es­curidão. Tinha tomado um banho rápido e depois se aco­modara nu, entre os lençóis macios, desejando ardentemente uma boa noite de sono.

Estava mesmo esgotado, concluiu, passando a mão pelo rosto. E não apenas fisicamente. Bret havia percebido, por isso ele devia aparentar também esgotamento mental. "Amigos como Bret são raros", pensou. Ele aparecia de repente, cinco anos depois, e Bret o recebia de braços abertos, como se tivessem ficado longe apenas uma semana. E que casa, a dele! A Companhia de Computadores Peterson era impor­tante... Bret e Lisa... Lisa Peterson. Que pedaço de mulher! Era do tipo mignon, tão bem-feita que parecia uma boneca chinesa, mas de olhos verdes e cabelos loiros, sedosos, lisos. Mas também era durona, como mostrava o queixo domina­dor. Além disso tinha senso de humor. Deus, os olhos ver­des brilharam como esmeraldas quando ela rira com gosto. "E o enorme ponto de interrogação na camiseta?", lem­brou. Aquilo bem que combinava com ela... um ponto de interrogação. Aparentemente não era um capricho, já que estava naquilo havia dois anos. Será que os tais contos de piratas tinham sido publicados ou ela escrevia só para pas­sar o tempo? Era formada e se divertia em escrever cenas de sexo e brigas de capa e espada? Que loucura... Bem, a cami­seta combinava mesmo... e também cobria belos seios, co­mo ele havia reparado... além de pernas bem torneadas e...

— Deixe isso pra lá! — resmungou para si mesmo, aborrecido.

Lisa era irmã de seu melhor amigo e havia um código de ética em relação a essas coisas. Um sujeito não devia atacar a irmã do melhor amigo. Portanto, seria um perfeito cava­lheiro em relação a Lisa Peterson... Mas que ela era linda, isso era mesmo!

— Cam Porter, vá dormir! — disse para a noite.

Com um suspiro profundo, fechou os olhos e, no instante seguinte, estava morto para o mundo, mergulhado num pro­fundo sono.


No dia seguinte, à uma hora da tarde, Lisa saiu para a va­randa que dava para a praia e acomodou-se numa espreguiçadeira. Tinha trabalhado duro desde cedo e precisava de um intervalo. Comera um almoço leve e planejava observar um pouco a belíssima vista antes de voltar ao computador. O livro estava adiantado e, se não acontecesse nenhum imprevisto, deveria estar sendo entregue a seu editor em Nova York na semana seguinte. O editor, o diretor, todo mundo ficaria feliz. Jasmine Peters atacava outra vez.

— Mas que nome! — murmurou ela rindo. — Jasmine! Usara o pseudônimo para evitar que os pais tivessem um ataque do coração por causa dos seus romances. Tinha as­sumido o compromisso de escrever um livro, e agora termi­nava o quinto. E já tinha mais três contratados. Jasmine Peters era um sucesso.

"E Lisa Peterson?", indagou-se meio preocupada. E ela, como ia? Tinha tudo o que queria e o que desejava. Nada faltava em sua vida. Então, por que ultimamente sentia aquele estranho aperto no coração, como se houvesse um vazio em sua existência? Era ridículo. Já não havia tempo de sobra em sua vida corrida, sempre escrevendo, saindo com os ami­gos, coisas assim. Não havia nem espaços nem desejo de acres­centar alguma coisa a mais...

Lisa endireitou o corpo na cadeira, freando mentalmente os pensamentos tolos. Uma mancha ao longe na praia cha­mou sua atenção. Encobriu a claridade com a mão e perce­beu que era uma pessoa correndo em sua direção.

— Veja só — comentou baixinho. — Toda a extensão des­ta parte da praia é particular.

A silhueta continuava a avançar, e de repente o coração de Lisa deu um salto. "Cam", sua mente sussurrou. Sim, era Cam. E então? Por que sua pulsação aumentava? Por que de repente ficava corada? Afinal, um homem era um ho­mem... Só que numa escala de um a dez, Cam merecia vin­te! Devia ter vindo correndo desde a casa de Bret, o que significava que estava em ótimas condições. Mas ele tinha mesmo ótimas condições... "Oh, pare com isso", pensou ir­ritada.

Levantando-se, ela alcançou o gradil da varanda enquan­to Cam se aproximava cada vez mais. Ficou observando fas­cinada a potente musculatura enquanto ele corria com movimentos ritmados. Ele usava camiseta e um short feito de uma calça jeans cortada. A pele exposta ao sol brilhava de suor.

Lisa sentiu uma estranha onda de calor subindo pelo cor­po e apertou com força a grade da varanda enquanto Cam parava lá embaixo. Ele plantou as mãos nos quadris, ergueu o rosto e sorriu para ela, encarando-a por um longo momento.

— Oi, Lisa! — disse por fim, um pouco sem fôlego por causa do exercício.

— Oi, Cam! — ela respondeu, sentindo o coração dispa­rar como se ela é que tivesse corrido.

— Será que você me arranja um copo de água? — pediu ele.

— Claro. Suba. Quem sabe prefira limonada, chá gela­do, uma cerveja?

— Só água, por favor — ele disse, subindo a escada e sus­pirando. — Aqui estou novamente, uma visita-surpresa na casa de outro membro da família Peterson. — Chegou até a varanda e se aproximou de Lisa. — Estou perturbando vo­cê? — indagou em voz baixa, olhando fixamente nos olhos verdes dela. — Será que estou, Lisa?

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