Silver sands



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CAPITULO II
Lisa fez um esforço para encarar Cam e respondeu, numa voz meio falseada:

— Não, não. Eu estava só descansando um pouco.

Desviando os olhos, tirou um fiozinho imaginário da blu­sa de malha azul que usava com o short de náilon azul-claro. "Como é que um homem suado pode cheirar tão bem?", perguntou-se. Era o odor típico do "autêntico" ho­mem masculino.

— Eu mesmo posso ir buscar minha água — ele disse, despertando-a do devaneio.

— O quê? — Lisa piscou, olhando novamente para ele. — Ah!, a sua água. Já vou buscá-la.

Entrando em casa, ela apertou os dentes ao escutar a risa­da cristalina atrás de si. "Estou perturbando você?", imi­tou sarcástica em pensamento, já na cozinha. "Que engraçadinho!", concluiu furiosa. Aquele homem sabia muito bem que fazia sucesso com as mulheres, que exalava sensualidade. A amizade dele com Bret não acontecia por acaso. Os dois eram mulherengos, garanhões mesmo. Incomodava-a pensar assim do próprio irmão, mas era verdade.

Jogando dois cubos de gelo dentro do copo com mais for­ça que a necessária, pegou a garrafa de água e voltou à va­randa. Na porta parou, observando o visitante. Cam estava virado para o mar, as mãos apoiadas no gradil e um dos pés calçados com tênis apoiando na base desta. O sol de abril se derramava sobre seu corpo suado, fazendo os cabelos ne­gros brilharem como ébano.

Lisa reparou nos ombros largos, na musculatura desen­volvida dos braços e pernas. A aparência de Cam alardeava uma masculinidade viril e saudável. Ela correu o olhar da cabeça aos pés do homem à sua frente, demorando-se mais no desbotado do short que lhe cobria as nádegas firmes.

"Agora estou ficando histérica", pensou. Não tinha o hábito de admirar traseiros masculinos... Cameron Porter ia beber sua água e depois dar o fora daquela varanda, para que ela pudesse voltar a trabalhar em paz. Aquilo era ridí­culo, estava praticamente de boca aberta... Que coisa!

— Olhe a água — informou, atravessando a varanda.

— Oh, obrigado. — Cam pegou o copo, bebeu o conteú­do em três grandes goles e o devolveu.

— Quer mais?

— Não, isso foi o bastante — ele respondeu, virando-se novamente para a praia. — Que vista incrível! Posso até sentir que estou relaxado, só de olhar daqui. Tanta paz... chega até a hipnotizar.

Lisa largou o copo numa mesinha e chegou perto do gradil.

— Sim, a vista é maravilhosa. Bret prefere morar alguns quarteirões mais para dentro, pois gosta de gramados e ár­vores, mas eu adoro esta praia. Fico aqui fora sempre que tenho tempo. Já se recuperou do cansaço?

— Já, estou novo em folha.

— Mas de onde você veio?

— Do outro lado do mundo. — Ele sorriu. — Aquelas gaivotas são muito atrevidas, você não acha?

— São — ela concordou, também sorrindo. — Você pa­rece tão impressionado com tudo isto, mas eu me lembro de Bret ter comentado que vocês dois geralmente iam para a praia durante as licenças do Exército.

— Isso parece que foi há um milhão de anos — ele res­pondeu em voz baixa, voltando a admirar as ondas que que­bravam mansamente contra a areia branca da praia. — Naquela época Bret e eu éramos dois garotos ansiosos por conquistar o mundo.

— E agora?

Cam virou-se, apoiado contra o gradil, os braços cruza­dos na frente do peito largo. Por um longo momento ficou sério, olhando para os próprios pés; depois fixou Lisa com os olhos negros.

— Em vez disso, foi o mundo que deu um jeito de me ga­nhar. Acho que isso é o que se chama de crescer e encarar a realidade. Às vezes as coisas não correm como esperamos.

— É verdade.

— O sonho de Bret se tornou real, mas ele trabalhou du­ro para isso.

— Tem razão — Lisa concordou. — Estou contente por ele, e muito orgulhosa. A Computadores Peterson tem um ótimo nome na praça, e Bret merece tudo o que está re­cebendo.

"É agora", ela pensou. Cam ia começar a interrogá-la sobre os motivos que a haviam levado a deixar a sociedade com Bret para escrever romances. Ele tinha dirigido a con­versa bem direitinho e agora ia atacar.

— Bret vai me mostrar toda a companhia amanhã, e es­tou ansioso para conhecê-la. Falando nisso, tenho um reca­do de Bret para você.

— O que ele disse? — Lisa indagou, estranhando.

— Ele ligou um pouco antes de eu sair de casa, e pediu para dizer-lhe o seguinte: "Sete, frutos do mar, Suzanne". Acho que para você deve fazer algum sentido.

— Faz, sim. Você quer se sentar um pouco? Eu tenho ainda alguns minutos antes de voltar ao trabalho — falou, acomodando-se na espreguiçadeira.

Ele não ia querer saber por que deixara a firma? Estra­nho... Bem, provavelmente não estava mesmo interessado, o que era vagamente decepcionante.

Cam sentou-se numa cadeira e cruzou as pernas.

— Ah, sobre o recado de Bret — comentou Lisa. — Ele não o traduziu para você?

— Não, ele tinha uma reunião, e garantiu que você expli­caria. Eu mencionei que ia fazer um cooper, e ele sugeriu que eu viesse até aqui, conversar com você sobre o jantar desta noite. Por isso eu vim.

Então era isso? Ele não tinha vindo por conta própria? Lisa sentia uma estranha sensação de desapontamento. O que estava acontecendo com ela? Não ligava a mínima para o que Cam Porter pensasse ou fizesse... Endireitou o corpo e perguntou:

— Bret disse "Suzanne"?

— "Sete, frutos do mar, Suzanne" — Cam confirmou, contando nos dedos.

— Então já sei. Vamos às sete horas comer frutos do mar no restaurante favorito de Bret, perto do cais, por isso po­demos ir à vontade, e ele vai levar Suzanne.

— Não era um código assim tão difícil de decifrar — ob­servou Cam rindo. — Eu já desconfiava.

— Bem, ele podia levar alguém para fazer par com você.

— Já tenho um — afirmou ele, encarando-a sério. — A não ser, é claro, que eu, indo em sua companhia, crie um caso com o homem de sua vida...

— Não, não há ninguém especial; mas, Cam, acho isso uma bobagem. Não há regra que diga que você é obrigado a carregar a irmã mais nova do seu melhor amigo.

Cam riu e meneou a cabeça.

— Lisa, o problema é eu ter de me lembrar a toda hora que você "é" a irmãzinha do meu melhor amigo. Daqui mesmo, de onde estou sentado, dá para ver que você é uma mulher muito bonita, além de atraente e simpática.

Lisa percebeu que ria como uma boba e em seguida ficava rubra. Oh, não... não era possível! Ela não costumava se comportar como uma adolescente nervosa. O que aquele homem estava fazendo com ela?

Controlando-se, ficou de pé num salto.

— Bem, é hora de voltar para a telinha verde — in­formou.

— Então não vou mais incomodar você — Cam falou, levantando-se também.

Lisa relanceou os olhos para ele e ficou louca da vida. Ele estava rindo dela! Os olhos negros se estreitavam malicio­sos. Tinha conseguido deixá-la encabulada e sabia disso. E estava se divertindo a valer. Que desaforo!

— Estarei aqui às sete horas — ele afirmou aproximan­do-se vagarosamente.

— Ótimo. Até logo.

— Será que estou deixando você nervosa por alguma ra­zão? — ele indagou, parando a sua frente.

— Não, claro que não — ela respondeu, levantando a ca­beça para olhá-lo. — Por que me deixaria nervosa?

— Talvez porque você tenha percebido que estou com vontade de dar-lhe um beijo... — ele afirmou em voz baixa. Passou de leve um dedo pelo rosto de Lisa, que estremeceu. — E isso está deixando você aflita...

— Não. Quero dizer, não percebi que você queria me... isto é, não tinha a menor idéia de... Droga, Cam, você está me fazendo sentir uma completa idiota! Vá correr mais al­guns milhares de quilômetros, está bem?

Ele riu baixinho enquanto passava a mão pela nuca de Lisa.

— Vou já... num minutinho — disse, baixando a cabeça para ela.

"Mexa-se, Lisa", sua mente ordenava. "Grite. Dê-lhe um soco no nariz..." Tinha que fazer alguma coisa, qual­quer coisa, pois não podia permitir que aquele homem a beijasse.

Mas foi exatamente o que ele fez.

Passou os lábios tão de leve pelos dela, que Lisa sentiu novamente a onda de decepção que já estava se tornando habitual. Mas no momento seguinte ele tomou-lhe a boca com decisão, abrindo os lábios e conduzindo a língua de en­contro à dela.

Lisa parecia suspensa no ar, ao saborear o gosto, o aroma de Cam Porter. Enquanto uma centelha de desejo atravessava-lhe o corpo, abraçou-o no pescoço e abando­nou-se ao beijo com um leve gemido.

De repente, porém, caiu em si e ela abriu os olhos. Aquilo não devia estar acontecendo.

— Cam! — chamou, empurrando o peito dele. — Pare! Afastando-se devagar, os olhos enevoados de tanto dese­jo, ele disse com voz rouca:

— O quê?

— Pare de me beijar! — exclamou Lisa, recompondo-se.

— Por quê?

— Porque... bem, porque sou a irmãzinha de Bret, lembra-se?

— Ah, sim... — Ele suspirou. — E eu já tinha lhe dito que ia ter problemas com esse assunto. Tenho uma enorme tendência em ver você apenas como uma mulher linda e de­sejável... O que você é mesmo.

"Oh, que gracinha!", pensou Lisa. Aquilo não era uma bela coisa para se dizer? Mas, pelo amor de Deus, onde es­tava sua compostura? Cam falava como se tivesse mel na voz. Será que achava que ela era tonta?

— Sr. Porter — disse, com as mãos na cintura —, eu não sou uma criança tola. Você e meu irmão são iguaiszinhos!

— Será que estou sendo insultado? — ele indagou, sor­rindo novamente.

— Acho que sim — ela confirmou, caindo na risada. — Adoro meu irmão, mas nem por isso vou deixar de achá-lo um namorador. E, já que você é o melhor amigo dele, tudo indica que tem muita coisa em comum: pontos de vista se­melhantes, modo de vida, e...

— Assim não vale, você está me condenando apenas na base de conjeturas.

— Estou culpando você só porque quase me tirou o fôle­go com aquele beijo, ora!

— Ah, mas você correspondeu — defendeu-se ele, com ar de satisfação.

— Isso não vem ao caso — murmurou Lisa.

— Que nada, o caso é exatamente esse. Pense bem. Pego você às sete — ele concluiu, caminhando para a escadinha da varanda.

Lisa abriu a boca para dar uma resposta à altura, mas não conseguiu pensar em nenhuma. Apenas moveu de leve a cabeça, quando Cam saiu correndo pela areia e levantou a mão num aceno de despedida. Preocupada, observou-o enquanto ele corria como alguém que possuísse total domí­nio sobre o próprio corpo.

Sim, era isso. Cam era um homem dominador, acostuma­do a controlar, como demonstrava a aura de autoridade que o envolvia. Os homens provavelmente se afastavam para dar-lhe passagem, sem perceber que haviam feito isso. E as mulheres? O inverso seria verdadeiro. Deviam sentir-se atraídas pelo magnetismo de sua masculinidade exacerbada. Era um perigo, esse tal Cam Porter. Ela mesma havia su­cumbido àqueles olhos negros e a seu beijo avassalador. Ti­nha desabado nos braços dele sem a menor hesitação. Mas agora bastava! Aquilo não ia se repetir!

Resmungando, aborrecida, Lisa percebeu que tinha continuado na varanda até perdê-lo de vista. Virou-se e marchou para dentro de casa, até o quarto onde ficava o computador. O pirata e a donzela iriam discutir e, se seu hu­mor tivesse qualquer influência naquele momento, a briga seria feia. A mocinha diria ao bucaneiro exatamente para onde ele deveria ir...

— E você também, Cam Porter! — resmungou Lisa bai­xinho. — Noutra eu não caio...


Cam corria com passadas ritmadas, e em sua mente as palavras seguiam no mesmo ritmo, enquanto uma funda ruga aparecia em sua testa.

Não devia ter beijado Lisa Peterson. Não devia! Sabia que era errado mesmo antes de começar, mas não teria conseguido evitar, nem com uma arma apontada para sua cabe­ça. Ele era igual a Bret, não levava nenhuma mulher a sério, e um envolvimento temporário com Lisa só iria prejudicar suas relações com o amigo. E ele não queria de modo algum que isso acontecesse.

Mas, ah... ela parecia tão feminina e atraente ali, de short, os cabelos loiros sedosos, os grandes olhos verdes olhando para ele... e então ele a beijara. E que beijo! Senti­ra uma onda de desejo sufocante percorrendo seu corpo e teria feito amor com ela ali mesmo, na espreguiçadeira, se aquilo fosse possível.

— Droga, mas ela é a irmãzinha do Bret!

Não... maldição... ela era em primeiro lugar uma bela mulher, só depois é que era irmã de Bret. Lisa já tinha idade suficiente para cuidar da própria vida, isso era óbvio. Lar­gara a Computadores Peterson... Mas por que havia feito aquilo? Ele quase perguntara o motivo, mas percebera que ela tinha ficado tensa, como se esperasse um interrogatório, e então desistira.

"Uma moça misteriosa, essa Lisa Peterson", Cam remoía, "mas também muitíssimo desejável." Não, ele ia fi­car longe dela, pois o fato de ela ser irmã de Bret não deixaria de pesar só porque ele assim o desejava. Seu senso de lealdade para com o amigo o impediria de tentar seduzir-lhe a irmã. Mas Lisa tinha se encaixado tão bem em seus braços... e como beijava divinamente. Parecia feita sob me­dida para ele... E como a desejou naquele momento!

— Você é mesmo um maluco, Cam Porter — disse a si mesmo, aumentando o ritmo da corrida.
O telefone estava tocando quando entrou em casa, e ele agarrou o aparelho.

— Alô? — disse, enxugando o suor da testa com o braço.

— Esteve correndo? — disse uma voz grossa. — Parece meio sem fôlego.

— Ora, Santini, que droga! — retrucou Cam irritado. — Será que não sabe o significado da palavra férias?

— Calma... estou só mantendo contato. Queria agrade­cer novamente pelo trabalho que você nos prestou quando esteve naquele lugar. Foi muito bem-feito.

— Estou sabendo, só que a turma teve que fugir de um tiroteio. Vocês me armaram uma arapuca.

— Você sabe se defender.

— A coisa é que estou cheio de tudo isso, Santini. Não quero mais servir de moleque de recado para você, e tam­bém estou pensando em cair fora.

— E vai fazer o quê? Trabalhar na Companhia de Com­putadores Peterson?

— Andou fazendo seus deveres de casa, estou vendo — vociferou Cam, sem conseguir controlar a raiva.

— Cuidamos do que é nosso. Cam sei que está cansado e estou contente por você desfrutar essas férias. Não só por­que você é um dos meus agentes, e pode cair numa fria se estiver esgotado demais, mas também porque estou preocu­pado com sua pessoa, com o ser humano que você é. Para meu sossego, quero que esteja completamente recuperado antes de voltar a trabalhar para mim.

— Santini, já avisei que não quero mais saber de sua agência. Se por acaso eu resolver voltar, vai ser só como téc­nico em computação para o governo federal.

— Ora, Cam, deixe disso! Sabe muito bem que adora to­da a excitação que encontra ao trabalhar para nós. Vai se chatear demais se ficar apenas no serviço civil. E quanto a Computadores Peterson, é melhor esquecer. Seu cérebro fi­caria estagnado. Não posso imaginar você sentado o dia to­do atrás de uma mesa de escritório. Além disso, a metade tentadora da firma pulou fora há uns dois anos...

— Santini, deixe Lisa fora disso! — Cam rosnou.

— Então é Lisa? Você trabalha rápido — observou o ou­tro com um risinho irônico. — Claro, você está na casa do irmão dela, por isso já deve tê-la conhecido. Não tenha mui­tos planos em relação à Srta. Peterson, pois ela não aprecia homens com segredos.

— O que está querendo dizer com isso? — Cam apertou com mais força o aparelho.

As suas pequenas viagens para cá e para lá, essas que você faz para nós, não são do conhecimento público, meu amigo — disse Santini.

— E daí? Faço isso pelo meu país.

— É verdade. Você é um sujeito patriótico, mas isso não apaga o fato de que não é exatamente o que aparenta ser. Se é que está levando a sério essa história de não querer trabalhar mais para nós, o que eu duvido, você vai ter de pas­sar por um interrogatório e percorrer todos os canais.

— Sei disso. Para que toda essa explicação? — Cam in­quiriu, impaciente.

— Lisa Peterson é uma pessoa extremamente inteligente. Se você se aproximar dela, vai chegar o momento em que ela vai desconfiar de que está escondendo alguma coisa pelo simples fato de você não responder a determinadas pergun­tas. E, como eu já disse, ela não gosta de homens com se­gredos.

— Santini, não encha...

— É... você está precisando mesmo de férias — disse o outro rindo. — Divirta-se, Cam. Vejo você em breve.

— Duvido muito — resmungou Cam, batendo o te­lefone.

O homem estava preocupado de fato com seu esgotamen­to, mas era bem desagradável ter dado a entender tão clara­mente que o estava vigiando. O que achavam que ia fazer? Anunciar nos jornais que por diversas vezes tinha trabalha­do como agente secreto, além de suas atividades normais como técnico em computação? Estava decidido, ele passaria pelos interrogatórios e terminaria com tudo de uma vez por todas. Sentia-se saturado, tinha cicatrizes pelo corpo. Só queria cair fora enquanto sua cabeça ainda funcionava direito.

Droga! Detestava a idéia de ser tratado como um garoto levado que precisava ser vigiado. Se desconfiasse de que a coisa seria assim, não teria aparecido na casa de Bret, nem conversado com Lisa. Eles não mereciam ter a vida remexi­da daquele jeito. Santini tinha razão, ele estava mesmo pre­cisando de umas boas férias.

Soltando palavrões, atravessou a sala e logo depois estava debaixo do chuveiro, a água quente batendo no corpo. Será que devia ir para um hotel? Não, agora era tarde demais.

Santini e seu pessoal estavam de olho nele, sabiam tudo so­bre Bret, Lisa e a Computadores Peterson. Agentes secretos querendo desistir eram perigosos, podiam se resolver a reve­lar o que sabiam para quem pagasse mais. Não adiantava pedir que o interrogassem logo, pois Santini não ia permitir, pressionando-o a voltar atrás em sua decisão. Tinha mesmo que esperar o término das férias.

Mas o que Santini queria dizer com aqueles comentários velados sobre Lisa? Será que tinha relação com sua saída da sociedade com o irmão? O que os segredos tinham influído em sua vida passada? Se algum malandro a tivesse magoa­do, ele...

— Calma, rapaz! — “disse a si mesmo enquanto se enxugava com uma toalha felpuda”.

De onde estavam surgindo aqueles sentimentos protetores em relação à Lisa? Bret que cuidasse da irmã. Mas quem se­ria o tal sujeito com segredos que atrapalhara a vida dela? Tantas perguntas, e ele sem resposta. E se Lisa o interrogas­se? O que faria? Santini estava certo, Lisa era super inteligente. Ele tinha que ser muito cuidadoso ou ela descobriria tudo. Mas, e a sua resolução de ficar longe dela por ser irmã de Bret?

— Cuidado, rapaz! — disse à sua imagem no espelho. — Está andando em círculos e vai acabar ficando biruta.


Um pouco antes das sete, Lisa examinou sua imagem no espelho grande do quarto e concluiu que estava extrema­mente atraente. Tinha mesmo que estar, aquela era a sexta roupa que experimentava. Mas, até que enfim dava-se por satisfeita com sua aparência. A calça branca caía impecavelmente, e a blusa de seda verde era exatamente da cor de seus olhos. Um sorriso ajudaria muito, mas ela estava furiosa demais consigo mesma para conseguir um.

Agora a pouco, além de todo seu comportamento fora do normal em relação à Cameron Porter, quase tinha ficado histérica até se decidir que roupa usaria para sair com ele. Nem quando conseguira marcar um encontro com o colega mais interessante do ginásio tinha ficado tão preocupada. E não era propriamente um encontro de verdade, já que jan­tariam em companhia de Bret e Suzanne.

— Lisa Peterson — disse ao seu reflexo no espelho —, estou achando que você não é nem um pouco sofisticada.

Na verdade, decidiu, a culpa por seu comportamento tão absurdo era toda de Cam. Ele não saíra de todos os seus pensamentos durante aquele dia. Estava sempre ali, em seu subconsciente, sorrindo daquele jeito sexy e a beijando... O tal beijo quase derretera seus ossos! Ele não tinha o direito de beijá-la, mas a beijara assim mesmo, e por causa disso era o responsável pelo péssimo estado do seu sistema nervoso.

Rindo baixinho, ela foi para a sala. A quem estava ten­tando enganar? Tinha correspondido ao abraço e ao beijo de Cam, e gostara demais. Ficara um pouco amedrontada por se sentir tão feminina e tão viva nos braços dele, mas que tinha sido maravilhoso, isso lá era verdade! Quando já sentira uma onda de desejo tão grande invadindo todo seu ser? A tal química do corpo era por demais potente, afinal era a única responsável pelo incidente. Sabia tratar-se sim­plesmente de luxúria, e não ia permitir que isso acontecesse novamente, em hipótese alguma. Mas já que tinha aconteci­do, revivia no pensamento o sabor daquele beijo. De­licioso...

Escutou uma batida na porta e foi atender, um sorriso sa­tisfeito no rosto.

— Olá, Cam — cumprimentou, abrindo a porta.

— Srta. Peterson — falou Cam, também sorrindo —, pela segunda vez, hoje, venho lhe trazer um recado.

— Ah, é? E qual seria essa nova mensagem? Onde está Bret?

— É esse o meu recado. Suzanne foi chamada à última hora para substituir outra comissária de bordo. Essa é a profissão dela.

— Sei disso.

— Bem, de qualquer modo, Suzanne esta com pressa, por isso vamos encontrá-los no restaurante, e depois Bret a levará direto ao aeroporto.

— Bem, então...

— E também — Cam continuava —, preciso dizer-lhe que está adorável, linda mesmo. Devia ser contra á lei. Gostaria de beijá-la, mas sei que se fizer isso você me pica em pedacinhos. Pronto, fim do noticiário... Como é, vamos?

Lisa piscou, fez que sim com a cabeça e murmurou algo sobre ir pegar a bolsa. Correu para o quarto, respirou fun­do e disse a si mesma que estava conseguindo. Afinal, ao abrir a porta evitara dar atenção ao coração, que disparara.

Sentia uma estranha sensação na boca do estômago, pro­vocada pela proximidade de Cam, que exalava um odor misto de sabonete, loção de barba e também o perfume, tão característico, do próprio corpo.

A roupa dele se ajustava perfeitamente ao corpo musculoso, desde o paletó cinza à calça preta justa e a camisa bordo, que contrastava com o bronzeado da pele e os cabe­los negros.

— Tudo pronto — disse ao voltar para a sala. — Cam? — perguntou, olhando à volta.

As portas de correr que davam para a varanda estavam abertas. Ela foi espiar.

— Cam? — chamou.

— Estou aqui. Não pude resistir, queria ver a praia à noi­te. É fabulosa!

Lisa caminhou até ele e também se pôs a olhar o mar.

— Tem razão — disse.

— Se a gente olha para uma praia cheia de gente, o que se vê não chega aos pés disto aqui — Cam observou. — Cer­tamente não há esta paz e tranqüilidade. É linda, de verda­de! Mas também para que servem as férias? Para descansar, relaxar, fazer novas amizades — comentou ele, virando-se para Lisa.

— Nem sempre. Algumas pessoas preferem aventuras, emoções, coisas desse tipo, enquanto estão livres das obri­gações diárias.

— Eu não — ele afirmou baixinho.

— É, eu percebi. Você se sente atraído pela calma desta praia e pelo mar.

— Você é bem observadora...

— Às vezes. Outras vezes já aconteceu de eu me enganar completamente em relação às pessoas, por julgá-las diferen­tes do que eram na realidade.

— Bem, comigo você acertou — assentiu ele, lembrando-se da conversa telefônica com Santini. — Eu quero apenas relaxar.

— Seu trabalho deve ser muito cansativo.

— E é mesmo. É melhor irmos encontrar Bret e Suzanne.

— Está bem.

— Ah, que pena! — ele disse, segurando o rosto de Lisa com as duas mãos. — Acho que você vai ter mesmo de fazer picadinho de mim!

"Oh, graças a Deus", pensou ela, enquanto Cam se incli­nava para beijá-la. Estava louca para que ele fizesse exata­mente aquilo desde que entrara em sua casa.

O beijo foi profundo e a sensação de desejo se irradiou por todo seu corpo no instante em que os lábios de Cam en­contraram os seus. O tempo parou e séculos depois Cam le­vantou a cabeça.

— É melhor... — ele pigarreou antes de continuar: — é melhor a gente ir andando.

Lisa assentiu em silêncio, enquanto voltavam para a sala. Cam trancou a porta da varanda e saíram.

— Você sabe onde é o restaurante? — perguntou Lisa, já no carro dele.

— Sei, sim.

— Está bem — ela disse meio distraída.

Por que havia beijado Cam novamente? Quando ele a beijara, tivera a sensação de estar no lugar certo. Tinha sen­tido medo, mas de que ele não a tomasse nos braços, onde ela queria estar, onde tinha necessidade de estar. Desejava Cameron Porter. Mas voltava à velha questão: por que jus­to ele?

— E quanto aos livros que você escreve, são sempre so­bre piratas? — perguntou Cam tirando-a de seus devaneios.

— Sim. Mas acabei de ter uma conversa com meu editor, e a próxima novela de Jasmine Peters vai ter como herói um belo vaqueiro, num cenário do Velho Oeste.

— Jasmine Peters?

— É o meu pseudônimo, em consideração aos meus pais.

— Eles não aprovam seu trabalho?

— Não é bem isso. Eles lêem tudo o que escrevo. É que até hoje não entendem por que eu saí da Computadores Peterson.

Cam também não compreendia, mas algo lhe dizia que ainda não era hora de perguntar o motivo.

— Você quer saber por que eu deixei Bret e a firma, não é? — observou Lisa, como se tivesse lido seus pensamentos.

Cam olhou espantado para ela, mas logo voltou a prestar atenção no trânsito.

— Admito que estou curioso. Bret disse que você preci­sava de uma mudança, e pelo tom de voz dele, deu o assun­to por encerrado.

— Eu precisava de uma mudança — ela murmurou —, e fim da história.

— Está bem, Lisa. Não vou insistir, mas quando quiser falar sobre isso, eu escutarei.

— Obrigada, Cam. E quanto a você? É um técnico bri­lhante em computação, trabalhando para o governo, via­jando por todo esse mundo. Não é à toa que está esgotado, com tanto vinho, mulheres e música...

— Não é bem assim — contestou ele, rindo. — Eu passo ao largo das grandes cidades para chegar até algum vilarejo perdido no meio do nada. Ou, pior, no meio de alguma flo­resta. Algumas vezes, a recepção não é muito hospitaleira...

— Quer dizer que é perigoso ir para onde você vai?

— Às vezes.

— Já foi ferido alguma vez?

— Uma ou duas. É mais fácil quando vou sozinho, mas se preciso tomar conta de uma equipe, a coisa fica perigosa.

— Cam... — Lisa inclinou-se um pouco para o lado dele.

— Será que estamos falando mesmo de armas, de gente ati­rando, de gente sendo grosseira?

— É isso mesmo — ele confirmou rindo. — Geralmente o pessoal é muito rude, não tem a menor educação.

— Mas nunca atiraram em você, não é mesmo? — ela perguntou, começando a ficar nervosa.

— Como você pode ver, estou bem vivo. O restaurante não é logo ali?

— É. Responda à pergunta — ela insistiu cutucando-o no braço com o dedo.

— É bobagem. — Cam esquivou-se, sacudindo a cabeça.

— Não vale à pena falar nisso.

— Já levou um tiro — ela afirmou convicta. — Como é que o governo se atreve a colocar você em situações tão pe­rigosas? Você não é soldado, é um técnico em computação. Como uma cidadã que paga seus impostos em dia, não aprovo isso.

— Oh, então está bem! — Ele caiu na risada. — Vou di­zer a eles que Lisa Peterson mandou pararem com isso.

— Bem que você está merecendo estas férias. Bret sabe de todas essas coisas?

— Só o que eu posso contar. O resto é confidencial.

— Bret tem esperança de que você aceite entrar para a companhia, Cam. Faz anos que meu irmão vem dizendo que gostaria que você se associasse a ele.

— Sei disso, mas preciso primeiro de algum tempo para me recuperar, antes de tomar alguma decisão quanto ao meu futuro. Mudar de profissão é sempre uma coisa difícil, você sabe por experiência própria. Vou pensar bem e ver o que é melhor para mim. Uma parte já está clara como cristal. O restante ainda vamos ver...

Entraram no estacionamento do restaurante, e logo depois Cam acompanhava Lisa para dentro do prédio. Ela ia pensativa, relembrando o que acabara de ouvir.

Será que Cam teria levado um tiro no meio de alguma sel­va inclemente? Que coisa horrível! Não! Ela não estava querendo que Cam voltasse ao antigo trabalho, não queria que ele corresse riscos. De repente era importante, muito importante, que nada de mal acontecesse a Cameron Porter.






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