Silver sands



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CAPITULO III
— Cam? — chamou Lisa em voz baixa, olhando para ele enquanto entravam no restaurante. — O que quis dizer com o fato de uma parte dos seus planos já estar clara como cristal?

"Já falei demais", pensou Cam. Lisa era uma pessoa en­volvente, escutava com interesse e ele começara a matraquear... Ela era esperta, tinha prestado atenção. Santini o esfolaria vivo se soubesse quanta coisa deixara escapar para Lisa. Nada de confidencial, porém mais do que habitualmente comentava, e Lisa não perdera uma única palavra. Ele não estava precisando só de férias, precisava de um guarda!

— Cam? — Lisa repetiu.

— O quê? Oh! eu...

— Aí estão vocês! — exclamou alguém, aproximando-se.

— Oi, Bret! — cumprimentou Cam sorrindo. "Salvo pe­lo gongo", pensou: — E Suzanne?

— Está guardando nossa mesa — disse o amigo, dando um beijo no rosto da irmã. — Oi, Jasmine. Estou vendo que trouxe seu pirata a tiracolo esta noite. Cam, você se parece mesmo com um daqueles antigos bucaneiros.

— Ah! muito obrigado! — Ele riu amarelo. — E o que vem depois? Ancoro meu navio ao luar, perto das areias pra­teadas, rapto Lisa e fujo a seguir?

Lisa baixou os olhos, encabulada. O irmão riu, divertido.

— E isso aí, no mínimo — concordou com o amigo. — Vamos, Suzanne está esperando. Vamos ter de comer e sair, para que eu possa levá-la ao aeroporto a tempo. Mas vocês podem ficar à vontade.

Bret foi atravessando o restaurante decorado com moti­vos náuticos. As paredes eram cobertas por grandes redes pontilhadas com estrelas-do-mar, peixes-espada e conchas. As garçonetes usavam roupas típicas como as das antigas tavernas do tempo dos grandes veleiros.

— Um lugar perfeito para um pirata, você não acha? — disse Cam ao ouvido de Lisa. — Combina com a minha no­va imagem.

— Concordo — ela retrucou sorrindo. Era como se to­dos tivessem lido sua mente.

Ela já se convencera de que Cam saíra de um de seus ro­mances, um pirata alto e moreno, com uma aura de autori­dade. Que rumo tomaria sua própria vida, tão ordenada, depois de tê-lo conhecido?

— Aqui estamos. Suzanne, você conhece Lisa, claro, e este é Cam Porter.

— Olá, Cam! — Suzanne, uma morena alta e atraente, imediatamente estendeu-lhe a mão e sorriu para ele. — Por favor, desculpe este meu lindo uniforme, mas é que logo mais vou pegar no batente.

— Cam avaliou o corpo bonito da moça, que lhe deu em tro­ca um sorriso estonteante.

Lisa parou de sorrir, sentando-se à mesa.

— Zona proibida, Porter — advertiu Bret de bom humor.

— As regras dos velhos tempos ainda não mudaram. Um fi­ca longe da colheita do outro.

— Bem, isso era antes de eu virar pirata — gracejou Cam, acomodando-se na cadeira. — Nós, flibusteiros, seguimos outra cartilha. Vou ler todas as novelas de Lisa para saber direitinho como agir.

— Você ainda não leu? — indagou Suzanne. — Elas são ótimas. A gente se sente transportada para outra épo­ca, outro lugar. Meu pai ficou com todos os meus livros. Diz que lembram os velhos filmes do Errol Flynn. Estou louca para ler o próximo. Você está escrevendo, não é, Lisa?

— Todos os dias. E muito obrigada pelos elogios.

— Bem, você tem um dom especial, um jeito de oferecer às pessoas algumas horas de fuga das pressões do dia-a-dia. Gostaria que as pessoas recorressem mais a livros como os seus em vez de bebidas e drogas — concluiu Suzanne.

— É uma idéia interessante — ponderou Cam pensativo.

— Vou começar a ler Jasmine Peters e ver do que se trata.

— E precisa mesmo — afirmou a aeromoça —, principal­mente se está treinando para pirata. — Inclinou um pouco de lado a cabeça e analisou Cam. — É... acho que você ser­ve, só que vai precisar de uma daquelas camisas com man­gas bufantes...

— Ei... e eu? — Bret reclamou. — Posso ficar de vigia no mastro principal ou coisa assim?

— Você, meu querido — disse Suzanne antes de beijá-lo de leve nos lábios —, se parece com um garotão de praia. Compre uma prancha de surfe e sua imagem ficará completa.

— Estou com o ego ferido — reclamou ele —, mas a fo­me é maior do que a dor. Que venha a comida!

E os quatro logo estavam atacando uma suculenta lagos­ta, enquanto a conversa corria solta. Na hora da sobremesa, Suzanne se desculpou e pediu que Bret a levasse logo. Quan­do os dois saíram Lisa e Cam decidiram pedir torta e café.

— Suzanne é uma ótima companhia — comentou Cam.

— Bret teve sorte.

— Sim, ela é alegre e muito inteligente — concordou Li­sa. — Tem mestrado em pedagogia.

— Então por que não leciona?

— Fez isso durante alguns anos, mas descobriu que não era esse seu caminho.

— Jogou o diploma no lixo para ser uma garçonete no céu? — Estranhou Cam, meio zangado.

— Não jogou nada no lixo, Cam — retrucou Lisa, olhando-o espantada. — Ninguém vai tirar dela tudo o que aprendeu. Ela simplesmente descobriu seu verdadeiro caminho.

— Bem, eu não tenho nada com isso — esquivou-se ele, dando de ombros. — As intenções de Bret em relação a ela são sérias?

— Bret não leva ninguém a sério. Acho que nunca irá se acomodar, casar, formar família. Suzanne é apenas mais uma de suas amigas; mas ela sabe disso e os dois combinam mui­to bem. Não critico o modo de vida de Bret. Ele é honesto, franco e não faz promessas que não pretende cumprir.

— Honesto... — Cam repetiu.

— Isso mesmo. Bret é exatamente quem ele pretende ser. Trata suas amigas com respeito e consideração, e elas gos­tam da companhia dele. Ninguém sai ferido.

— Você parece dar grande importância à honestidade — observou ele.

— É verdade — Lisa baixou o tom de voz —, dou mesmo.

— Sem surpresas...

— Sem tapeações, Cam. Existe uma enorme diferença en­tre as duas.

— Quem magoou você, Lisa? — indagou Cam, olhando-a direto nos olhos, enquanto segurava-lhe a mão por sobre a mesa. — Deu para ver um lampejo de dor em seus olhos quando falou em tapeação. Quem foi ele?

— Para usar suas próprias palavras, é bobagem... — Ela tentou sorrir, mas não conseguiu.

— É mesmo? Pois eu acho que não, se o que ele lhe cau­sou está fazendo com que você se esconda atrás de muralhas protetoras.

— Não estou me escondendo — defendeu-se ela, tentan­do retirar a mão.

— Não mesmo? — insistiu Cam, impedindo-lhe o gesto.

— A sobremesa e o café — interveio a garçonete. Furiosa, Lisa ajeitou o guardanapo no colo. Por que ele insistia naquele assunto? Por que não a deixava em paz? Ela não tinha nenhuma intenção de abrir o coração a ele, con­tando como fora tola o bastante para confiar, acreditar e se apaixonar por Jim Weber... Por Deus, aquele nem era seu nome verdadeiro!

— Sinto muito — desculpou-se Cam assim que a garçonete se afastou. — Não devia ter insistido. É óbvio que despertei lembranças dolorosas, e não tinha o direito de fazer isso. Mas é que eu gostaria de conhecê-la melhor, por mais que essa frase pareça antiquada. — E acrescentou sorrindo: — Nós piratas somos, persistentes...

— Por que está tão interessado em me conhecer melhor, como você mesmo diz? Seu ego masculino é tão vulnerável que precise conquistar toda mulher que cruzar seu caminho?

— Por que será que eles chamam isto de torta, quando na verdade é um bolo? — desconversou Cam.

— O quê?


— Se é feito numa fôrma de bolo, com massa de bolo, então é bolo!

— Desconfio de que estamos mudando de assunto — Lisa observou, franzindo a testa.

— É isso aí — ele afirmou, degustando um pedaço do doce.

Quando ele deu aquela risada profunda que a incomodava, Lisa encarou-o zangada, passando a se concentrar na sobremesa.

"Bem", pensou Cam, "desta eu me safei". Por que desejava tanto conhecer melhor Lisa Peterson? Não podia responder à pergunta por que nem mesmo ele sabia a resposta! Claro, ele a desejava, e muito. Era só isso.

— Cam? — Lisa chamou, trazendo-o de volta à realidade. — Posso perguntar-lhe uma coisa?

Ele sorriu.

— Claro, pode me perguntar o que quiser.

— Talvez você não responda...

— O que quer saber?

— É minha imaginação ou você tem raiva de quem resolve seguir uma carreira diferente daquela para qual se preparou na universidade?

— Raiva é um pouco de exagero... — Cam tomou um gole de café. — É que a mim me parece uma terrível perda de tempo, só isso. Nem todo mundo pode ir para a universidade. As pessoas às vezes não chegam a realizar seus sonhos e esperanças porque não puderam obter a educação de que necessitavam para concretizá-los. Essas pessoas que conseguem um diploma e depois o consideram um simples detalhe insignificante em suas vidas... Bem, não consigo entender uma coisa dessas...

— Quer dizer, gente como eu e Suzanne?

— Olhe Lisa, essa conversa vai acabar em discussão. Acho melhor mudar de assunto.

— Mas por que você é tão impressionado em relação a isso? Todo mundo tem direito de fazer opções. Você obviamente preferiu permanecer na área em qual se formou, mas isso não significa que todos...

— Não, eu não fiz isso — interrompeu Cam.

— Você não se formou em computação?

— Não freqüentei a universidade — ele disse, pegando novamente a xícara de café.

— Você não... Mas Bret me disse que você é um dos maiores especialistas em computação que ele conhece! Tem emprego no alto escalão do governo. Como é que aprendeu tanto sem uma educação formal?

— Fiz o ginásio e depois fui para o Exército. Eu me alistei com a idéia de conseguir uma bolsa, só que a coisa não deu certo.

— E por que não?

— Meus pais morreram logo depois que eu me alistei e... olhe, Lisa, é uma história sem o menor interesse.

— De jeito nenhum — ela afirmou, colocando a mão sobre o braço dele. — Você se importa em me contar?

— Não é assim tão interessante. Eu tinha duas irmãs menores que foram viver com meus avôs, mas eles eram aposentados e viviam de uma renda muito pequena. Eu é que tive que me encarregar de mandar dinheiro para sustentá-los, sendo obrigado a esquecer o sonho de ir para a universidade. Bret e eu fomos designados para a área de computação no Exército, e ao mesmo tempo estudei por minha conta. Depois, Bret foi para Stanford e eu, trabalhar para o governo.

— Estava vendo... — disse Lisa pensativa.

"E depois Santini", pensou Cam. Um dos homens de Santini tinha sido emboscado num beco numa zona mal freqüen­tada, e Cam o salvara por acaso. Depois de sondar-lhe a vida, Santini oferecera-lhe um bom dinheiro, só para obedecer or­dens. Ele aceitara correndo. Era uma oportunidade de po­der mandar mais dinheiro para casa, No fim, depois que as irmãs se casaram e os avôs faleceram, ele não desistira. Só mais um compromisso, depois mais outro... e assim até aquele dia.

— E onde estão suas irmãs agora? — Lisa indagou.

— Ah, estão felizes, casadas, com filhos, e meus avôs mor­reram há alguns anos.

— Então você se arriscou aceitando tarefas perigosas, em países distantes, porque o pagamento era maior e você po­dia enviar mais dinheiro à família?

— Foi — Cam afirmou constrangido. — Olhe, eu lhe disse que era uma história boba. Coma seu bolo, sua torta, ou se­ja lá o que for isso.

— Mas por que continuou a enfrentar essas situações di­fíceis depois que suas irmãs se casaram?

— Não parecia uma má idéia... eu cresci brigando nas ruas e sempre soube muito bem como cuidar de mim mesmo. Só que ultimamente eu... droga, o que está acontecendo? Não estou habituado a fazer dissertações sobre a vida e os hábi­tos de Cameron Porter! Você deu corda, e agora não consi­go mais calar a boca.

— Fico muito honrada em ver que você se sente à vonta­de para conversar sobre isso comigo, Cam — afirmou Lisa, sorrindo para ele.

— E você, Lisa, quando é que vai baixar um pouco as de­fesas que construiu a sua volta e se mostrar um pouco? Por que saiu da Computadores Peterson? Quem magoou você no passado? As duas coisas têm ligação, não têm? Você é uma especialista de alto gabarito em computação, mas pre­fere escrever romances. Por quê? O que lhe aconteceu na vida real para que resolvesse se esconder num mundo de fan­tasias?

— Isso já chega, Cam! — protestou Lisa zangada, soltan­do faíscas pelos olhos verdes.

— Ah, é mesmo? Você parece achar certo arrancar os mí­nimos segredos da minha vida. Então por que não posso fa­zer o mesmo? Quero uma resposta, Lisa — ele afirmou, também enfezado.

— Ora, não vai ter nenhuma resposta — ela revidou, levantando-se. — Gostaria que me levasse para casa. Vou esperar lá fora. — E saiu rapidamente.

Cam resmungou um palavrão enquanto fazia sinal para a garçonete. Agora Lisa estava toda aborrecida, mas não por culpa dele. Praticamente contara-lhe a história de sua vida, e quando indagara alguma coisa da vida dela, Lisa tinha se irritado. Ora, que droga!

Pagou a conta, deixando uma gorda gorjeta para a garço­nete, que lhe lançara um olhar provocante.

"Há muita mulher dando sopa no mundo", refletiu en­quanto saía do restaurante. Por que então estava se impor­tando tanto com Lisa Peterson, que o mantinha a distância, tinha um gênio de morte e mais segredos que a CIA? Não precisava daquilo! Mas sentia um nó no estômago que o obri­gava a fazer o possível para acalmá-la.

Lisa esperava no saguão apinhado de gente. Cam analisou-a bem, sem perder nenhum detalhe, desde o busto cheio, pas­sando pela cintura esbelta, até as pernas que ele sabia serem bronzeadas e bem-torneadas. Sentiu o sangue começar a fer­ver, só em olhar para ela.

Os olhos verdes de Lisa eram capazes de provocar reações estranhas num homem. Podiam brilhar como esmeralda, de alegria, ou ficar enevoados como jade, quando mostravam desejo íntimo. O cabelo loiro e encaracolado, o nariz arrebitado e até o queixo atrevido, tudo nela o atraía. Lisa era fa­bulosa, concluiu. Mas se o pirata ali era ele, como é que tinha a estranha sensação de que ela estava prestes a capturar-lhe o coração? E também a alma, a mente e o corpo...

Enfiando as mãos nos bolsos, foi caminhando devagar em direção a ela.

— Vamos? — perguntou calmo.

— Vamos — ela respondeu, sem olhar para ele.

No caminho de volta para a casa de Lisa, não trocaram uma só palavra. Ela ficou sentada no carro, as mãos no co­lo, contemplando a vista através de sua janela. Cam olhou para ela diversas vezes, mas não tentou quebrar a tensão que se instalara entre eles.

Ao chegarem, assim que ele desligou o motor do carro, Lisa respirou fundo e disse:

— Cam, peço desculpas pelo modo como me comportei. Insisti com você para que me contasse sobre sua vida e de­pois me recusei a fazer o mesmo. Não fui justa e peço perdão.

— Vamos entrar — ele disse.

— Não, eu...

— Para dentro — ele ordenou, saindo do carro. Mal entraram na sala, Lisa virou-se para encará-lo.

— Acho que é melhor você ir para a casa de Bret — pediu.

— Está bem — ele retrucou, encarando-a sério —, mas antes eu gostaria muito de uma bebida. Você tem conhaque?

— Não!


— Onde o guarda?

— Na cozinha — disse zangada, as mãos na cintura.

— Vou pegar. Fique à vontade.

— Esta é a "minha" casa!

— E é muito bonita — ele elogiou, indo para a cozinha. — Gostei do modo como você a decorou. Encontro você na varanda, está bem? Preciso verificar uma coisa.

"Atrevido e arrogante", Lisa reclamava em silêncio. Cameron Porter era irritante. E seus próprios pés a estavam le­vando para a varanda, como um soldadinho que recebesse ordens do superior!

Cam apareceu alguns instantes depois, estendeu-lhe o co­po com conhaque e se aproximou da grade, onde apoiou os cotovelos e ficou admirando a quietude.

— Meu Deus! — disse.

"Não pergunte", Lisa disse a si mesma. Não queria saber o que ele estava vendo, nem o que achava tão maravilhoso.

— O que é? — disse, em vez disso.

— Venha até aqui um instante.

Lisa apertou os lábios com raiva e se aproximou, manten­do certa distância dele.

— O que é? — repetiu.

— Olhe! — Cam apontou. — Areias prateadas, como eu disse. A lua e as estrelas estão transformando a praia em pra­ta. É uma beleza, posso até visualizar um veleiro ali adiante, com o cesto de vigia no mastro mais alto. E então o pirata se aproxima para raptar a donzela. E ele está usando uma camisa com mangas bufantes, claro.

— Claro — Lisa repetiu, sorrindo mesmo sem querer.

Cam virou-se para encará-la, e Lisa se esqueceu de respi­rar. Estava plantada no lugar, presa pelo encantamento que emanava das profundezas daqueles olhos negros. Ele tomou-lhe o copo dos dedos e o colocou na mesinha, depois circun­dou seu rosto com as mãos fortes. Disse uma só palavra, mas de modo tão suave e ao mesmo tempo tão másculo, que ela sentiu como se seus ossos estivessem se derretendo.

— Lisa...

— Oh, Cam... — ela murmurou e depois passou os bra­ços pelo pescoço dele.

Cam segurou-a pela nuca e pela cintura, apertando-a con­tra si, a boca procurando a dela. As línguas travaram um duelo na boca de Lisa, trazendo-lhe um prazer estonteante. Uma labareda de fogo percorreu-lhe o corpo, que logo se con­sumiu de desejo.

— Cam! — repetiu, emocionada.

— Ah, Lisa... — ele falou, a voz rouca. Respirando com dificuldade, reclamando novamente os lábios dela num bei­jo ainda mais íntimo e profundo.

Cam acariciava as costas de Lisa sobre a blusa de seda: devagar suas mãos foram se aproximando dos seios. O aro­ma feminino que ela exalava acendia ainda mais sua paixão, deixando-o louco de desejo.

Tentou buscar controle, desejando apagar o fogo que o devorava por dentro. Nunca sentira tanto desejo antes. A mente lutava contra o corpo, o sangue aquecia-lhe tanto o cérebro como sua parte mais íntima. Por fim conseguiu, com dificuldade, escapar do redemoinho da paixão e afastou os lábios dos de Lisa.

— Não! — gemeu, agarrando-a pelos braços e afastando-a de si.

— O... o que foi? — ela perguntou estonteada, quase cain­do quando ele a soltou.

Cam virou-se para o gradil e o agarrou com tanta força que os dedos ficaram brancos. Sua respiração entrecortada ecoava na escuridão.

Lisa tocou os lábios saciados por tantos beijos e ficou olhando para as costas rígidas de Cam. A tensão que ema­nava dele a atingia com intensidade.

O que ela tinha feito? Nunca antes correspondera com tanto amor ao beijo de um homem. Não queria parar de beijá-lo, nem sair do porto seguro que eram os braços potentes de Cam. E queria mais... desejava muito mais. Queria-o inteirinho. Queria sentir-lhe as mãos e os lábios em seus seios. Cada centímetro do seu corpo pedia ardentemente os cari­nhos de Cam. Desejava fazer amor com ele, numa entrega total e completa, ser saturada pela masculinidade daquele homem...

— Não... — sussurrou Lisa baixinho.

— Eu sei — disse ele, a voz estranhamente cansada ao se virar para encará-la. — Eu sei. É a resposta habitual, cedo demais... rápido demais... Concordo com você, mas não dá para controlar, Lisa. Eu a desejo muito, como nunca dese­jei mulher alguma antes. E você também me deseja. Parece uma coisa simples, dois adultos que se desejam mutuamente.

— Cam, eu...

— Mas não é assim tão simples — ele continuou, passan­do os dedos pelos cabelos, num gesto de aflição —, por que isto envolve emoções as quais eu não entendo, nem gosto muito. Com todos os diabos, Lisa, o que você está fazendo comigo?

— Eu?! Foi você quem chegou, invadindo minha vida, mi­nha mente, meu corpo, meu juízo... Não costumo andar por aí grudando meu corpo ao de qualquer sujeito que apareça, e me dissolvendo como gelatina quando sou abraçada e bei­jada. — Ela respirou fundo. — Não, isso não é simples nem comum. É complicado e apavorante. Você chega, sabe-se lá de onde, e transforma minha vida numa bagunça. Estou com uma vontade louca de mandá-lo sair correndo por essas areias prateadas e nunca mais voltar... e logo em seguida não que­ro mais que se afaste de mim. Oh, Cam... que droga! Cam estendeu a mão e puxou-a para junto de si.

— Não! — ela protestou.

— Quieta! — Ele a abraçou com ternura.

Derrotada, intoxicada pela força, aroma e calor que ema­navam daquele corpo, Lisa suspirou. Cam a segurava bem junto de si, apoiando o queixo sobre sua cabeça, e o único som era o do mar batendo suavemente na praia. Minutos se passaram, sem que nenhum dos dois dissesse nada nem se mexesse do lugar. Por fim Cam indagou:

— O que um pirata faria numa situação dessas?

— Você está brincando? Ele já teria me arrebatado para a cama há muito.

— Só Deus sabe o quanto meu corpo deseja isso! — Cam disse rindo. — Mas minha mente está me atrapalhando. Que belo pirata estou me saindo...

— Então já se decidiu? — Lisa levantou o rosto para olhar para ele. — Vai ser pirata?

— Isso mesmo. Vou ler todos os livros de Jasmine Peters e descobrir os truques para ser um pirata fabuloso. Será que eles têm seguro de vida? Férias? Outras vantagens...

— Você é doido...

— E você é linda — ele disse, novamente sério. — Você me deixa apavorado, Lisa Peterson. É melhor eu ir agora. E não vou beijá-la de novo. Só assim, já está difícil de con­trolar... A gente se fala amanhã.

— Está bem.

— Pode deixar que eu saio sozinho. Boa noite. — Baixando o rosto, deu-lhe um leve beijo na testa.

— Boa noite, Cam — ela respondeu num fio de voz. Lisa passou os braços à volta do corpo e ficou olhando a areia prateada até não escutar mais o ruído do carro se afastando. Então suspirou e pegou os copos de conhaque.

— O que vou fazer? — lançou a pergunta ao firmamento estrelado. — O que vou fazer com Cam? — Deu mais um suspiro profundo, sacudiu a cabeça e vagarosamente foi para dentro de casa.

Quando Cam entrou na sala da casa de Bret, este se levantou de onde estava com um ar de preocupação no rosto.

— Olá, Bret — cumprimentou Cam, tirando o paletó. — Suzanne conseguiu chegar a tempo?

— Conseguiu.

— Agora que vi você com ela, acho que minha estada aqui poderá atrapalhar sua vida. Não seria melhor me hospedar num hotel?

— Não é preciso. A não ser, é claro, que o fato de eu saber a que horas você chega em casa atrapalhe a sua vida, nas atuais circunstâncias.

— Que circunstâncias, Bret?

— Você é quem sabe.

— Lisa já é adulta, Bret... Aliás, é bem crescidinha.

— Droga, Porter! — Bret rugiu. — Ela é minha irmã!

— Em primeiro lugar ela é mulher — Cam retrucou rápido. — E pode muito bem cuidar da vida dela.

— Por acaso levou-a para a cama? — Bret indagou, furioso. — Foi por isso que demorou tanto?

— Você não tem nada a ver com isso, Peterson!

— Uma ova que não. Se você magoar Lisa, Cam, juro que acabo com a sua raça!

— Você e quem mais? — Cam lançou-lhe um ar de desprezo. — Eu aprendi a lutar sujo, fui moleque de rua, lembra-se? Ora, você é grande, mas sou maior, e você não desenvolveu seu instinto de sobrevivência, como eu. Apanharia feio e sabe disso!

— Maldição! — gritou Bret e avançou. Num piscar de olhos Cam estava em cima dele, e no instante seguinte Bret estava esmagado contra a parede, o colarinho preso pela mão de aço de Cam.

— Agora escute aqui — Cam aconselhou, a voz baixa e ameaçadora —, e escute bem porque não vou repetir! Não dormi com sua irmã! Aquela pequena adorável me deixa louco, desesperado, mas não fiz amor com ela. Podia, Peterson, mas não fiz. E sabe por quê? Porque ela mexe com meu corpo e também com a minha mente!

— Está brincando! — disse Bret, um sorriso começando a brilhar nos olhos verdes.

— Não tem graça nenhuma! — Cam exclamou. — Sua irmã está fazendo uma omelete com meus miolos, e meu corpo pede misericórdia. Saí de perto da mulher mais desejável que já conheci, e não sei por quê! Devia estar agora mesmo com ela, em vez de ficar gastando saliva com um debilóide! Não é Lisa que precisa de proteção. Sou eu! — Cam largou Bret e deu um passo atrás.

— Meu Deus! — Bret comentou, sem conseguir controlar o riso. —Nunca vi você desse jeito, rapaz... Está mesmo num sufoco! Quer uma bebida?

— Não.

— Olhe Cam, é sério. Não quero ver Lisa magoada. Não, outra vez!



Cam ergueu rápido a cabeça.

— Quem era ele, Bret? Eu tentei fazê-la falar sobre isso, mas ela me mandou calar a boca.

— Se ela quiser que você saiba, acabará contando. Olhe, reconheço que exagerei. Lisa é adulta e teria um ataque se descobrisse que eu andei bancando a babá. Mas é que nós dois, eu e você, nunca assumimos compromissos sérios com mulher alguma. Mas acho que você chegou à conclusão de que Lisa é especial.

— Isso mesmo.

— E...

— E o quê? — Cam quis saber, preocupado. — Explique você para mim, Bret. Diga-me o que significam essas emo­ções desencontradas que estou sentindo. Quero protegê-la, sou possessivo em relação a ela... e justo eu? Não quero sa­ber disso, mas coitado do sujeito que eu pegar olhando de­mais para Lisa! Bret, acho que estou com um sério problema.



— Cam, estou sabendo que você está com problemas.

— Não tenho a menor intenção de me apaixonar por Li­sa Peterson — Cam disse, falando bem alto.

— Suas objeções estão devidamente anotadas, Sr. Porter — gracejou Bret, um dedo levantado no ar.

— Pare com isso!

— O negócio é o seguinte: como é que alguém pára de se apaixonar depois de começar? Sentimentos de proteção... de posse... Meu caro, acho que não tem caminho de volta, não.

— Droga!


— Você alguma vez já se sentiu assim em relação a outra mulher? — Bret indagou, levantando as sobrancelhas.

— Não.


— Nem eu. Vou repetir o que já disse antes: você está en­crencado, e eu não tenho nenhum conselho para lhe dar. Você está jogando fora do meu time, cara. Eu nunca me apaixo­nei e nunca pretendo me apaixonar.

— Ainda não sei se eu estou apaixonado — disse Cam.

— Esta conversa é doida!

— Tem razão. Vamos dormir. Talvez de manhã as coisas fiquem mais claras.

— Estou tenso demais para conseguir dormir. Vou correr.

— Como quiser. Amanhã você vai até a firma?

— Vou. Estou ansioso para ver esse edifício fora de série.

— É uma beleza, tudo funcional. E, Cam... eu já estive com você, em situações complicadas, quando estávamos no Exército, e sempre soube da sua qualidade como lutador, mas nunca o vi agir assim. Você anda fazendo mais do que servi­ços de computação para o governo, não é verdade?

Cam ficou rijo, depois suspirou e ficou olhando para o teto por alguns instantes antes de encarar novamente o amigo. — Não tem importância — Bret disse baixo. — Você já respondeu minha pergunta sem dizer uma palavra. Cam, por favor, não magoe Lisa. — E em seguida virou-se e saiu da sala.

Cam soltou um palavrão em voz baixa.







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