Silver sands



Baixar 0.58 Mb.
Página4/7
Encontro29.07.2016
Tamanho0.58 Mb.
1   2   3   4   5   6   7
CAPITULO IV
Lisa guardou o disquete no envelope apropriado e levantou-se. Massageou as costas e girou o corpo de um lado para o outro, numa tentativa de relaxar os músculos cansados, pois ficara horas sentada à frente do computador.

Estava muito contente com o rendimento do dia, pois ti­nha adiantado bem o livro. Também se sentia satisfeita por ter conseguido empurrar todo pensamento relativo à Cam Porter para um canto de sua mente, de modo que ele não perturbasse nem atrapalhasse seu trabalho.

Até aquele instante...

Agora ele estava bem ali, a sua frente como se fosse real, tão real que ela achou até que podia estender a mão, tocá-lo, sentir seu aroma tão característico

— Droga! — praguejou alto, sentindo o começo de uma nova onda de desejo.

O que ela precisava era estar com outras pessoas, decidiu, e também esquecer um pouco os personagens de Jasmine Peters. Tinha que deixar Cam Porter de lado! As pessoas liam suas histórias como fuga. Bem, agora a escritora é que tinha de fugir do seu livro.

Decidida, foi para a sala, ligou para sua amiga Tracy e com­binou jantarem juntas. Ia se divertir a valer apesar do dia cansativo e do fato de Cam acompanhar seus pensamentos até dentro do chuveiro...

Três horas mais tarde, naquela noite, Lisa abriu a porta de casa e entrou vagarosamente. Afundou-se numa poltro­na, com uma ruga profunda na testa. A noite tinha sido um desastre. Não conseguira se concentrar na incansável conversa da amiga e se pegara examinando todo homem alto e moreno que via pela frente. Nenhum era Cam, claro, e ela sentira imensa falta dele.

Queria que ele estivesse ali, agora, ao seu lado. Queria que ele a abraçasse e a beijasse com loucura. E queria que ele fizesse amor com ela.

— Lisa Peterson, que vergonha! Que pensamento mais feio! — disse para a sala vazia.

Levantou-se aborrecida e deu um pulo até a sala do com­putador. Acendeu a luz e viu a língua de papel perfurado apontando para ela, depois de sair da impressora. Arrancou-a rapidamente e leu a mensagem.

"COMO É QUE UM PIRATA PODE RAPTAR A DON­ZELA SE NÃO A ENCONTRA EM CASA? PLANTE SEU LINDO TRASEIRINHO NA CADEIRA E FAÇA OS DEDINHOS VOAREM NAS TECLAS. ESTE PIRATA NE­CESSITA SABER SE VOCÊ ESTÁ BEM. CAM."

— Quando será que ele mandou isto? — Lisa refletiu. Sentou-se, colocou o código próprio e digitou:



"OLÁ, SR. PIRATA, A DONZELA RETORNOU." A resposta veio quase imediatamente: "JÁ NÃO ERA SEM TEMPO. ACHO QUE ACABEI COLADO A ESTA CADEIRA. O QUE ACHA DE TAMA­NHA SUTILEZA? ONDE É QUE VOCÊ SE METEU?" "Novamente arrogante e rude", Lisa pensou, rindo bai­xinho. Cam não tinha nada a ver com a vida dela, nem onde tinha ido. Mas será que a pergunta malcriada significava que estava preocupado em saber com quem ela tinha saído?

"JANTEI COM UMA AMIGA", escreveu. "FOI AGRA­DÁVEL, MAS NADA DE NOTÁVEL. AGORA ACHO QUE VOU ENFIAR MEUS PEZINHOS NA AREIA PRA­TEADA." Logo a tela mostrou as letrinhas brancas da resposta de Cam:

"SERÁ QUE SEUS PEZINHOS GOSTARIAM DE COMPANHIA?"

— Sim, oh, sim! — Lisa murmurou.

Não fazia nem um dia que tinha estado com ele, mas parecia uma eternidade. Ia escrever algo leve, engraçado e sofisticado para convidá-lo a vir.

"SIM", foi tudo que seus dedos conseguiram bater.

"JÁ ESTOU A CAMINHO."

Lisa saiu em disparada para o quarto a fim de colocar uma calça jeans e um suéter, e ajeitar a maquiagem. Cam estava a caminho e o coração dela cantava.


Cam tirou a camiseta desbotada e vestiu um suéter. Foi até o banheiro para passar um pente nos cabelos e se surpreendeu quando o reflexo no espelho sorriu para ele. — Olhe só para isso! — disse indignado. Tinha andado o tempo todo com aquele sorriso bobo no rosto e nem desconfiara. Estava perdendo a batalha... Ti­nha ficado ali, largado na cadeira em frente do computador, esperando que Lisa voltasse para casa. Bret saíra havia ho­ras, murmurando algo sobre vê-lo na hora do café.

Ele andara de um lado para o outro na casa vazia, não conseguindo se concentrar em nada a não ser em Lisa. Em algum momento, durante o dia, resolvera manter-se afasta­do da Srta. Lisa Peterson. Que adiantara todo aquele pla­no? Admitindo a derrota, tinha ativado o computador, sentindo-se alegre só em pensar que ia entrar em contato com ela. Mas Lisa não estava em casa, então ele imprimira a men­sagem e ficara aguardando.

Como um adolescente idiota e apaixonado, ficara es­perando...

Ou será que tinha esperado como um homem apaixonado? — E então? — disse à imagem no espelho. — Responda essa, Porter. Não sabe, não é? Ora, vá para o diabo!

Virou-se e saiu do banheiro. Alguns momentos depois voa­va com o carro para a casa de Lisa.

Lisa encheu os pulmões com o ar levemente frio da noite. A areia sob seus pés estava úmida, mas ainda morna do calor do dia. Levantou o rosto para o céu pontilhado de estrelas e sentiu um arrepio na espinha ao escutar o carro de Cam chegar, parar. Logo depois ouviu a batida da porta. Ficou imóvel, os braços à volta do corpo, esperando. Esperando por Cam.

Podia até vê-lo em sua imaginação, vestido com jeans des­botados e um suéter por causa do frio. Os olhos negros não perderiam nem um detalhe, nem dela, nem da areia pratea­da, nem da lua e das estrelas...

A qualquer momento estaria ali. E logo estava mesmo. Cam pousou as mãos nos ombros dela e puxou-a para si. Seus olhares se encontraram e os corações dispararam. Lisa deixou escapar um leve suspiro quando Cam tomou-a nos braços e a beijou, e ficou na ponta dos pés para passar os braços pelo pescoço dele. O beijo se intensificou e os corpos se colaram mais, um querendo pertencer ao outro num desejo intenso. Cam dizia o nome dela baixinho, mas com tamanha paixão que ela sentia-se desfalecer naqueles braços.

Com um suspiro ele se afastou um pouco e passou de leve o dedo pelo rosto dela.

— Olá, Lisa Peterson! — disse, afinal, sorrindo.

— Olá, Cam Porter — ela respondeu num fio de voz.

— Senti falta de você.

— Eu sei.

— Não é só desejo, você sabe disso, não é? Uma outra coisa está acontecendo com a gente, Lisa.

— Também sei.

— Aqui, nesta praia prateada, sob o luar, é como se só nós dois existíssemos no mundo. Quero fazer amor com vo­cê sob a luz das estrelas e me esquecer de tudo o mais, mas não é assim tão simples. Na verdade existe um mundo aí fo­ra, e a gente não combina muito bem. Eu nem sei onde esta­rei daqui a um mês.

— Você esteve na companhia?

— Vamos nos sentar lá na varanda — convidou ele, pas­sando o braço pelos ombros dela. — Sim, eu fui até a Com­putadores Peterson — continuou enquanto subiam a escada.

— Fiquei impressionado! — Sentaram-se numa cadeira da varanda e Cam continuou: — Bret conseguiu uma coisa incrível com aquela companhia. E você também, enquanto esteve lá. E o potencial ainda é imenso.

— O trabalho lá é um eterno desafio — comentou Lisa olhando para ele atentamente. — Não há dois projetos iguais.

— Percebo Lisa, mas... não sei. Não estou habituado a ficar fechado num escritório o dia todo. Sempre trabalhei com muito espaço à minha volta. Claro, não estava sempre nos lugares mais badalados do mundo, mas também não fi­cava sentado atrás de uma mesa. Bret está me oferecendo uma fantástica oportunidade, mas não tenho certeza se o meu temperamento se adapta a isso.

— Prefere levar um tiro?

— Claro que não! — Ele deu uma risada. — E não é sem­pre que isso acontece. Fiquei aborrecido com o último com­promisso porque nos garantiram que a área era calma, e por isso eu levei uma turma, e então aconteceu o inferno! Perce­bo agora que não foi culpa de ninguém. Consegui tirar todo mundo de lá, mas não estava com nenhuma vontade de es­cutar explicações sobre o que tinha dado errado.

— Estou entendendo.

Preciso refletir muito bem, sabe? Não posso dar uma resposta a Bret antes de ter certeza de que sou o homem cer­to para a Companhia de Computadores Peterson. Não que­ro prejudicar ninguém com a decisão que resolver tomar.

— Está mais do que certo.

— Lisa, e isso que está nascendo entre a gente não podia acontecer numa hora mais errada. Estou sentindo por você coisas que nunca senti antes, e não me acho em condições de prosseguir com essas novas emoções, descobrir o signifi­cado delas, porque você poderia sofrer muito com isso. Di­go a mim mesmo que vou me afastar e quando vejo estou de volta. Acho que ficaria completamente doido se não a visse esta noite, e continuo muito confuso.

— Cam, eu compreendo muito bem. Sair da Computadores Peterson foi uma das decisões mais difíceis da minha vida. Você está falando sobre o seu futuro.

— Mas também estou falando sobre nós dois — ele disse, pegando-lhe a mão. — Não quero magoar você, mas isso pode acontecer. E se eu sumisse de sua vida dentro de algumas semanas? O que aconteceria?

— Eu não iria impedir Cam — ela falou baixo.

— A coisa mais decente seria eu sair da sua vida e partir neste instante. Bem que gostaria de saber como fazer uma coisa dessas. Lisa, eu lhe ordeno que me expulse de sua vida e depois arranje um cão feroz para guardá-la.

— Não — ela disse rindo. — Morro de medo desses cachorrões.

— E eu? — ele perguntou, a voz rouca. — Também tem medo de mim?

— De você? Como homem, como pessoa? Não. Mas quan­to às estranhas sensações que sinto quando você me beija e me toca... Aí, sim... E já que estou sendo tão sincera, vou dizer que gostaria muito de fazer amor com você. E olhe que nunca fui tão atrevida assim na minha vida! Eu desejo você, Cam.

— Meu Deus, não vou suportar isso — ele disse com um gemido. — Já estou quase explodindo! Mas, droga! Existem emoções envolvidas também... Não! Nós não vamos fazer amor, não vamos para a cama juntos! Não vamos partilhar do que seria... a coisa mais fabulosa... que duas pessoas... Ah, droga!

— Acho que eu não devia ter falado nada...

— Sei que você me quer tanto quanto eu a quero. Afinal eu sou o sujeito que a beijou, lembra-se?

— Claro que me lembro, mas acho que deveríamos falar sobre qualquer outra coisa.

— Isso mesmo. Eu... — Cam ficou imóvel na cadeira. — O que foi... Infravermelho! Maldição!

Lisa arregalou os olhos assustada ao ver Cam levantar-se de um salto e cruzar a varanda correndo. Com um salto ágil e poderoso como o de um tigre pulou o gradil e saiu correndo pela areia.

— Cam! — ela gritou, também correndo até o gradil e perscrutando a escuridão.

Lisa desceu a escada mas parou, pois não via nem sinal de Cam. Seu coração batia descompassado e ela sentia um gosto amargo e estranho na boca.

Deus do Céu! O que estava acontecendo? Infravermelho? Uma câmera? Quem é que estava ali, e o que queria com Cam? O que ele estaria fazendo? Ela nunca vira ninguém se movimentar com tamanha precisão e controle. Bret se man­tinha sempre em forma, mas Cam era diferente... Metia me­do... Onde estaria?

Uma fúria gelada corria pelas veias de Cam enquanto corria pela praia, diminuindo a distância entre ele e a figura a sua frente. Era uma raiva cega, como ele nunca experimentara na vida.

Deu um salto e caiu sobre o homem que fugia, derrubando-o com um baque surdo. Sentiu uma dor penetrante no braço direito, mas ignorou-a enquanto virava o sujeito e apertava-lhe a garganta com força.

— Você está me esganando! — o homem conseguiu dizer.

— Quem o mandou? Fale o nome! — Cam ordenou, furioso.

— Ninguém. Estou tirando fotos para um livro e... Ai!

— O homem gemeu, enquanto Cam o apertava mais um pouco.

— Com dor ou sem ela... resolva logo! — disse Cam, a voz baixa e ameaçadora. — Para mim não faz diferença.

— Porter, você está me matando! — o sujeito falou qua­se sem voz.

— Quero o nome — Cam repetiu, pegando a máquina fo­tográfica e arrancando o filme. — Você vai voltar de mãos abanando, por isso já está em apuros. O sujeito não gosta de falsetas.

— Você sabe quem é. Tenha dó de mim. Ele vai acabar comigo.

— Vamos, desembuche! — Cam ordenou áspero. — Que­ro escutar o nome.

— Maldição! Santini. Ele está grudado em você, pior que cola, Porter. Você está deixando o homem nervoso!

— Mas que coisa! — ironizou Cam.

— Tem sangue no meu pescoço! Estou sentindo! Eu dis­se que você estava me matando!

— É o meu sangue, não o seu — disse Cam dando uma olhada no braço. — Eu me cortei num caco de vidro, graças a você e ao seu chefe. Escute bem uma coisa, cara, diga ao Santini que eu quero vê-lo. Agora! Não daqui a um mês, mas imediatamente. Está me entendendo?

— Estou.

— Previna-o também de que o primeiro homem que eu pegar me seguindo vai ficar com o corpo inteiro engessado.

Entendeu?

— Sim. Porter, saia de cima de mim, agora. Está me afun­dando as costelas!

— Você não está em posição de dar ordens, meu rapaz.

— Então continue sentado aí e perca um balde de sangue. Assim que você desmaiar, jogo sua carcaça no mar. Isso ia ser ótimo para a sua dona...

— E diga a Santini para ficar longe de Lisa, ouviu bem? — Cam berrou.

— Diga você mesmo quando o vir. Ou saia de cima de mim para que eu possa levar seu maldito recado.

Com alguns palavrões bem escolhidos, Cam levantou-se e apertou o ferimento, que sangrava abundantemente.

O homem conseguira se erguer e apalpou o pescoço antes de pegar a máquina.

— Eu tinha ouvido dizer que você era dos bons, mas não sabia que chegava a esse ponto. Sinto muito sobre seu bra­ço, Porter. E, droga, também sinto muito pelo meu pobre pescoço. Ninguém ia acreditar que estamos do mesmo lado... Vou levar seu recado ao Santini.

— É... faça isso — vociferou Cam, apertando os ma­xilares.

— Bem, até mais... Ah, esqueça! Vou ficar muito melhor se nunca mais enxergar você.

Cam ficou olhando até que o homem desaparecesse na es­curidão, só então virou-se e foi caminhando pela praia, ain­da segurando o braço ferido.

Estava verdadeiramente preocupado só com uma pessoa: Lisa. O que ia dizer a ela?
Onde estava Cam? Lisa se perguntava uma vez mais. As­sim que ele desapareceu pela praia, sua primeira idéia fora chamar a polícia para ajudá-lo, mas desistira quase imedia­tamente. Apesar de assustada, sabia instintivamente que a polícia não devia entrar naquele caso.

Cam conhecia o homem da praia, ou pelo menos sabia por que ele estava ali. O que estava acontecendo? E quem era Cameron Porter?

Andando de um lado para o outro na varanda, ela procu­rava conter as lágrimas, mas sentia na boca do estômago uma estranha sensação de frio.

Sim, Cam tinha trabalhado em áreas perigosas do mundo e sabia como se proteger, e muito bem. Tinha crescido nu­ma zona perigosa de Los Angeles, por isso era esperto e ru­de. Mas afinal era um funcionário do governo e, droga, aquela gente não andava se esgueirando pela escuridão tirando fotos às escondidas. E havia outra coisa: um homem não rea­gia instantaneamente como acontecera com Cam, a não ser que estivesse muito bem treinado para se defender.

Cam estava envolvido com algo muito mais sério do que levar tecnologia de computação aos cantos mais perigosos do mundo. Cam não era quem aparentava ser, Lisa perce­beu, sentindo com isso uma profunda dor no coração e uma onda de lágrimas subir a seus olhos.

Como é que ele se atrevia a ser tão falso? Como é que se atrevia a ser parecido com o safado Jim Weber? Como é que podia ser tão sujo a ponto de beijá-la e despertar nela uma paixão como nunca antes sentira por ninguém? E se por acaso acabasse morto naquela praia escura, ela ia dar-lhe um bom soco no nariz e nunca mais falaria com ele! Que atrevimen­to do sujeito, do pirata, em fazê-la se apaixonar por ele! — O quê? — ela disse em voz alta, ficando estática. Oh, que maravilha... estava apaixonada por Cameron Por­ter. Que loucura! Ela ia esganá-lo por isso, e se ele não apa­recesse nos próximos dois minutos, ela ia explodir em mil pedaços!

Levantou de repente a cabeça ao perceber um vulto se apro­ximando.

— Cam? — ela chamou baixinho, e no instante seguinte berrou: — Cam! — Então saiu correndo em direção a ele.

Cam ficou tenso ao ver Lisa vindo em disparada em sua direção. No entanto, não podia relaxar a pressão que fazia no corte do braço. O ferimento era fundo, o sangue corria por entre seus dedos, encharcando a manga do suéter e pin­gando nas calças. Ele estava com uma aparência horrível e pro­vavelmente iria assustá-la. O que iria dizer a ela?

— Cam! — Lisa exclamou, parando na frente dele. — Vo­cê está bem? O que... Ah, meu Deus! Você está sangrando!

— Cortei o braço num caco de vidro, só isso — ele retru­cou, preferindo olhar para o braço do que para ela.

— Vamos entrar para eu poder limpar isso aí. Ande, vamos.

De testa franzida, Cam seguiu atrás de Lisa, que olhava para trás, para ver se ele a acompanhava. Reparou no rostinho pálido, nos grandes olhos verdes que pareciam irradiar uma mistura de medo, confusão e... que mais? Seria rai­va, seria dor? O que estava fazendo com ela? Não tinha o direito de magoá-la daquele modo. Não Lisa, não a única mulher que ele amara na vida.

Cam tropeçou e se equilibrou rápido, a mente num roda moinho. Ele a amava? Mas claro que sim! Todas as suas dú­vidas quanto àquele assunto haviam desaparecido. Tinha se apaixonado por Lisa Peterson. E ali estava ele, parecendo um refugiado de guerra, manchando de sangue as areias pra­teadas, descobrindo que estava amando pela primeira vez na vida. Verdadeira tragédia!

Lisa parou perto da escada e esperou por ele.

— Lisa — disse Cam —, estou todo sujo, não posso en­trar em sua casa deste jeito. Vou pegar o carro para voltar à casa de Bret, Não é justo envolver você nisto.

— Envolver? — As palavras dele foram o estopim e ela repetiu quase gritando: — Não me envolver? Está maluco? Você quase sai voando da minha varanda, como um parente do Super-Homem, e volta como se tivesse sido atropelado por um caminhão! Seu sangue está sujando a minha praia... minha, está ouvindo? E eu não devo me envolver?

— Olhe, eu...

Cale a boca, Porter! — ela berrou. — Não me fale o que você fez com o tal sujeito quando o pegou porque eu imagino! Não quero saber de nada, a não ser que não vou deixá-lo se esvair em sangue bem na minha frente... — As lágrimas começaram a rolar por seu rosto. — Eu não ia su­portar se você morresse, mas eu o odeio por não ser o que disse que era, e... eu o amo mais do que tudo no mundo!

Droga!


Cam piscou devagar, abriu a boca e depois fechou. Sacu­diu a rabeca, depois tentou novamente:

— Você me ama? — indagou, um sorriso começando a aparecer-lhe no rosto.

— Não — ela disse fungando.

— Ama, sim. Você acabou de dizer... e imagine só, eu tam­bém te amo.

— Será que as pessoas dizem bobagens antes de desmaiar por perda de sangue?" — Lisa perguntou, olhando preocu­pada para ele. — Será que devo chamar uma ambulância?

— Lisa, eu te amo — murmurou Cam, sério. — Juro que amo. E nem sei dizer como estou aborrecido com tudo o que aconteceu esta noite.

— Oh, Cam... — Lisa disse, quase se engasgando com um soluço. — Não sei o que pensar, fazer... não sei mais nada.

— Será que tudo isso podia esperar? Sei que é pedir de­mais, mas preciso dar um jeito neste braço.

— Oh, meu Deus! O seu braço... — Lisa falou, limpan­do as lágrimas com as costas das mãos. — Precisamos entrar.

— Não. Vou precisar levar pontos. Você me arranja uma toalha, para eu enrolar meu braço?

— Claro. Depois levo você para um pronto-socorro.

— Não.


— Sim. E agora cale a boca, está bem? Meus nervos es­tão em frangalhos. Vou pegar a toalha e trancar a casa.

Espere-me no carro.

— Está bem, Lisa, mas no hospital deixe que eu falo.

— Eu não ia querer roubar o seu espetáculo por nada deste mundo, Sr. Porter. Aliás, ninguém ia me acreditar se eu con­tasse o que aconteceu. Parece um filme de má qualidade. Você realmente me ama?

— Amo — ele admitiu com um sorriso satisfeito. — Amo, sim.

— Imagine só... — ela disse, sacudindo a cabeça. Depois saiu correndo escada acima avisando que ia pegar a toalha.

— Não se esqueça de calçar os sapatos! — Cam gritou. — Oh, Lisa, eu amo você — sussurrou para si mesmo —, mas depois de tudo isto acabar, você vai desejar não ter me conhecido.

Preocupado, contornou a casa e se apoiou no carro, aper­tando os dentes ao sentir uma pontada no lugar do ferimen­to. Em pensamento, xingou Santini de quantos palavrões conhecia.

"Que bagunça", pensou, sentindo-se invadir por uma onda de extremo cansaço. Seu amor era correspondido e devia es­tar eufórico, mas em vez disso estava mergulhado até as ore­lhas em complicações, e arrastava consigo gente querida que não tinha nada com aquilo. Bret ia desmontá-lo quando sou­besse o que Lisa tinha passado, e ele não ia poder reclamar. — Vamos! — Lisa ia saindo pela frente da casa. — Entre no meu carro e depois enrolo esta toalha no seu braço.

— Vamos no meu carro. Na verdade ele pertence ao go­verno. Eles que limpem o sangue.

— Bem, não vou discutir isso. Estique o braço... Oh, Cam, a coisa foi feia!

— Prenda a tolha o mais apertado que puder... assim. Abra a porta para mim, sim?

Quando se afastavam da casa, Cam recostou a cabeça no encosto e suspirou.

— Como está se sentindo? — Lisa perguntou preocupada.

— Já estive melhor... mas também já estive pior.

— Não me conte sobre o pior, pelo menos não agora — ela disse, sacudindo a cabeça com vigor. — Mais tarde tal­vez, mas agora, não.

— Ah, Lisa... eu sinto tanto. Devo-lhe uma explicação e não posso dá-la. Isso é terrível, mas não há nada que eu possa fazer no momento. Vou dar um jeito em tudo isso, prometo. Só preciso de tempo. Por enquanto, saiba que te amo demais.

— Eu também amo você — Lisa murmurou. — Mas...

— Mas? — Cam ergueu a cabeça para encará-la.

— Não sei se estou muito feliz com isso, neste momento.

— Não posso culpá-la por isso. Mas no fim tudo vai dar certo, você vai ver — assegurou ele. Tinha que dar!

— Espero que sim — ela falou. — Só vou dizer-lhe uma coisa: seja lá o que for que aconteça com os piratas nos meus livros, eles não vão mais sangrar. Nem uma única gota de sangue de agora em diante. Já vi sangue o suficiente na vida...

— Lisa Peterson, você é fabulosa — disse Cam sorrindo. — Adoro você.

Lisa soltou um suspiro profundo e o final do percurso foi feito em silêncio.

No hospital, ela ficou observando Cam dar um de seus cé­lebres sorrisos à enfermeira e contar uma história fantástica de como tinha cortado o braço na praia, depois de tropeçar.

A enfermeira ficou consternada, bateu as pestanas para ele e até o chamou de "coitadinho" antes de levá-lo para a sala de curativos.

Cam lançou um olhar maroto para Lisa, que o encarava de cara feia, e depois piscou o olho para ela, que acabou mostrando-lhe a língua.

Enquanto esperava, afundada numa poltrona, Lisa ficou pensando. Talvez aquilo fosse um pesadelo e ela ia acabar acordando. Então teria apenas sonhado que Cam a amava? E como é que ia acreditar que a amava se ele estava envolto num véu de fraude? Que dramático... mas infelizmente era verdade. Então como podia ter certeza de que era amada?

— Porque sei, apenas isso — disse em voz alta.

Não era uma dedução brilhante. Ela acreditara em Jim Weber quando ele lhe declarara amor, e no entanto ele tinha men­tido. Mas Cam... era diferente. Nunca experimentara antes o que sentia agora quando ele a beijava e abraçava, e não era só desejo físico. Havia uma parte que era só paz, satisfa­ção, uma enorme alegria. Sim, Cam a amava, e ela também o amava. Era a glória. Mas ela estava apavorada.

"Pare de pensar", disse a si mesma. Já tivera o bastante para uma noite. Só que daí para frente seria mais caridosa com os piratas de seus livros. Ela sempre os levava de uma crise a outra, sem pensar na estabilidade mental dos pobres coitados...

Recostando-se na poltrona, fechou os olhos, esforçando-se para pensar só em banalidades. De repente, sentiu-se exaus­ta, como se pesasse três toneladas. Ia começar a cochilar quan­do sentiu uns lábios quentes e macios contra os seus. Abriu os olhos depressa e encontrou os olhos negros de Cam, que lhe dizia:

— Vamos, meu bem... Vamos para casa.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal