Silver sands



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CAPÍTULO V
Tinham sido necessários doze pontos para suturar o corte no braço de Cam. O ferimento estava coberto com um cu­rativo.

Cam insistiu em guiar, dizendo que Lisa parecia exausta, e que ele nem estava sentindo o braço, por causa da aneste­sia. Lisa concordou e logo estavam a caminho.

"Lisa está mesmo esgotada", pensou Cam, olhando para ela a seu lado. Tivera uma noite difícil, só por culpa dele. O que será que ela estava pensando quanto à sua recusa em fornecer explicações sobre o episódio da praia? Ele pedia que ela confiasse, e como garantia havia apenas o fato de ter di­to que a amava; mas isso seria suficiente?

Lisa também o amava, o que era incrível. Ele nunca ima­ginara ser possível, em sua vida, amar e ser correspondido, e agora aquilo acontecia, graças a Lisa. Queria beijá-la, abraçá-la e fazer amor com ela a noite toda. Fechariam a por­ta ao mundo exterior e se concentrariam apenas um no outro.

"Coisa nenhuma...", continuou matutando em silêncio. Ele incluíra o lado cruel do mundo na vida de Lisa, sob a forma de Santini. E agora? Quanto tempo o homem da praia levaria para entregar sua mensagem a Santini e as coisas co­meçassem a acontecer? Queria que fosse já! Não tinha meios de entrar em contato com Santini; sempre esperara por uma terceira pessoa, que lhe entregava as ordens e também apa­recia para saber dos resultados. Santini ligara apenas aquela vez na casa de Bret, mas era só uma voz ao telefone. Mesmo na época em que fora recrutado, não chegara a conhecê-lo pessoalmente. Avisara ao homem da praia que queria ver Santini, mas será que o chefe quebraria uma de suas regras só para agra­dar um agente descontente, para tentar segurá-lo nas suas fileiras? E nesse meio tempo, provavelmente Cam continua­va sendo vigiado, juntamente com Lisa e Bret.

Devia ter agido de outro modo, percebia agora. Ao entre­gar o relatório de seu último compromisso, havia comenta­do sua intenção de cortar relações com Santini. Devia ter mantido a boca fechada até as férias terminarem, e só então anunciar a novidade. Bem, o que estava feito, estava feito, agora era seguir em frente.

— Lisa — chamou, virando-se para olhá-la —, você está bem? — Parou diante da casa dela, mas continuava preo­cupado.

— O quê? Oh, sim, estou ótima. Só um pouco cansada. As pessoas devem imaginar que quem escreve histórias de aventura deve estar bem preparado para enfrentar uma si­tuação como essa, mas não é bem assim.

— É, também acho. Olhe, eu gostaria muito que você fi­casse na casa de Bret até que eu possa endireitar toda esta situação.

— Por quê? Seja lá no que você está envolvido, não tem nada a ver comigo.

— Sinto muito, mas tem, pelo simples fato de passar al­gum tempo em minha companhia. Não estou dizendo que corre perigo, mas tenho certeza de que está sendo vigiada, assim como Bret. Eu nunca teria vindo para cá se soubesse que as coisas iam ser assim, só que pedir desculpas não adianta nada, pois envolvi vocês dois numa situação constrangedo­ra. Acho que você devia mesmo ir para a casa do seu irmão.

— Cam, não vou sair da minha casa. Não sei quem pode estar me vigiando, mas nada fiz de errado. Tenho um livro para terminar e vou ficar aqui mesmo.

— Mas Bret tem um computador que você pode usar. Nós dois estaríamos lá à noite, e além disso eu lhe faria compa­nhia a maior parte do dia.

— Não — ela disse com convicção, abrindo a porta e sain­do do carro.

— Lisa, por favor, escute — pediu Cam, também saindo e se encontrando com ela na frente do veículo. — Vou dar um jeito de resolver tudo, só que enquanto isso não acontece...

— Eu continuo sem ter a menor idéia do que se passa — ela o interrompeu. — Mas mesmo assim devo fazer minhas malas e me mandar daqui porque estou sendo vigiada? Não, muito obrigada. Não sei quem você é e o que andou fazen­do. Se eu tivesse um pingo de juízo diria para você dar o fo­ra e nunca mais se aproximar de mim, mas eu te amo e meu juízo foi por água abaixo. Mas não vou sair da minha casa — afirmou, marchando para a porta.

— É aquela famosa teimosia dos Peterson — Cam res­mungou.

— É melhor você não insistir, Porter — Lisa gritou da en­trada da casa.

Cam levantou os olhos para o céu e seguiu atrás dela. Na sala, tudo era silêncio.

Lisa acendeu todas as lâmpadas, afastou as almofadas, ar­rumou as revistas sobre a mesinha. Aquela era sua casa, re­petia para si, e não ia sair mesmo... O homem que amava estava envolvido com gente carregando máquinas fotográfi­cas, talvez até armas, e sabe-se lá o que mais. E daí? Grande coisa se também a estivessem vigiando. Ela é que não tinha medo...

Na verdade estava petrificada de pavor! E o temor ia até bem fundo, como uma faca, até no lugar sagrado do cora­ção onde estava guardando o amor por aquele homem e a certeza de que ele também a amava.

Quem era ele, afinal? Por que estavam atrás de Cam? "Pre­ciso ser adulta e corajosa", pensou. Mas não queria ser nem calma, nem razoável e esperar pela resposta que Cam prometera lhe dar assim que pudesse. Queria mesmo era gritar e puxar os cabelos, exigir que ele explicasse logo de uma vez por todas esse horrível mal-entendido, para depois abraçá-la apertado dizendo que tudo estava bem, que era mesmo quem ela pensava que fosse. Então fariam amor até o dia clarear. .

— Lisa — Cam disse calmo.

— Você quer uma bebida? — ela perguntou, esforçando-se para controlar as lágrimas. Ajeitou novamente as almofadas sem olhar para ele. — Ou prefere um lanche? Tenho frutas, queijo, biscoitos... Podíamos tomar um pouco de leite...

— Lisa! — ele repetiu, aproximando-se mais.

— Acho que vou preferir apenas chá. Parece uma boa idéia, não acha? Talvez também torradas com geléia...

— Pare com isso! — falou Cam, agarrando-a pelos om­bros e sacudindo-a de leve.

— Maldição! — Ela começou a soluçar, empurrando-o pa­ra longe, mas sem conseguir. — Por que você não é um sim­ples e comum pirata? Por que não é franco e honesto? Detesto você! E me odeio por estar apaixonada. Não quero amar vo­cê! Está ouvindo? Mas como eu faço para parar de amá-lo?

Com um gemido Cam a abraçou, amparando-lhe a cabe­ça com uma das mãos e as costas com a outra. Lisa pousou o rosto no peito dele e chorou à vontade. Cam a segurava como se não quisesse largá-la nunca mais, e cada soluço de­la era como uma faca penetrando em seu corpo. Estava cheio de raiva, culpa, dor e frustração. E também repleto de amor.

Tinha nos braços Lisa, sua Lisa. Sua vida. E as lágrimas que ela derramava eram por culpa dele. Lisa se sentia traída e amedrontada, e ele nada podia fazer. O seu amor estava trazendo apenas desgraça, e ele não podia fazer o relógio vol­tar atrás e fingir que nada havia acontecido. Era tarde de­mais para se afastar dela, pois Santini sabia de sua existência e o mal já estava feito.

Deus do céu, como a amava! Cam enterrou o rosto nos cabelos perfumados de Lisa.

Devagar, ela conseguiu controlar as lágrimas, até que sol­tou um suspiro. Já se sentia melhor, segura pelos braços dele. Abraçou-o pela cintura, procurando instintivamente mais calor e força.

Cam ergueu a cabeça e Lisa levantou a dela, e os olhos de ambos se encontraram. Cam prendeu a respiração ao ver aquele rosto querido molhado de lágrimas.

— Eu sinto tanto — começou ele, a voz cheia de emoção. — Lisa, nunca pensei em magoá-la. Esperei por você a vida toda, e sem perceber destruí tudo o que poderíamos viver jun­tos. Vou deixá-la sozinha, sair da sua vida assim que puder, mas ainda preciso ficar por perto até que isto termine.

— Sair da minha vida? — Lisa repetiu assustada. — Me deixar sozinha? Ir embora no seu navio, pirata?

— Eu só causei problemas. Nunca devia ter vindo aqui, mas não imaginava que as coisas seriam tratadas deste mo­do. E também não sabia que ia me apaixonar por você... Es­tou arrasado por ter cometido tantos erros.

— E me amar é um erro? — ela indagou, tentando ler no rosto de Cam a resposta.

— Para você foi. O amor não deve fazer ninguém chorar.

— Nem foi tanto choro assim... só algumas poucas lágri­mas. Quer sair da minha vida? Me abandonar? Mas eu te amo e você me ama e... Você disse que explicaria tudo assim que pudesse... Por que está decidido a me abandonar? Fa­lando nisso, por que você está conversando tanto? Por fa­vor, Cam, me beije. Beije-me até eu não pensar mais. Quero sentir você, saber que está aqui comigo, mas não quero pensar.

Com um gemido abafado, Cam aproximou os lábios dos dela e um soluço escapou da garganta de Lisa enquanto ela correspondia ao beijo com paixão. As mãos de Cam aperta­ram seu corpo contra o dele, e o beijo se intensificou, as lín­guas se entrelaçando quase em desespero.

Cam afastou os lábios dos dela por um instante para res­pirar fundo, antes de beijar-lhe as lágrimas salgadas. Sentia o desejo crescer dentro de si e, pela expressão de Lisa, tam­bém percebia quanto ela o desejava. Beijou-a novamente, os lábios colando-se contra os dela em movimentos urgentes e frenéticos.

"Não!", gritava a mente de Cam. Aquilo era errado. Li­sa estava vulnerável e apavorada, não pensava com clareza. Não podia fazer amor com ela, não daquele jeito, não na­quele momento.

— Não! — disse ele engasgado, levantando a cabeça. — Lisa, não!

— Eu quero você, Cam — ela sussurrou. — Quero fazer amor com você...

Com mãos trêmulas ele a afastou um pouco, depois sol­tou um suspiro dolorido, que parecia rasgar-lhe a alma. Sentia o suor escorrendo pelas costas.

— Não! — repetiu tenso. — Muita coisa aconteceu esta noite, Lisa. Não quero que nossa primeira noite de amor se­ja envolvida por este pesadelo. Entende?

— Não, não entendo — ela respondeu elevando a voz. — Você está me tratando como uma criança e não como uma mulher que sabe o que quer. E quanto ao que "eu" quero? Quanto às minhas necessidades? Será que isso não vale na­da? Quero fazer amor com você, Cameron, e nunca disse is­so a ninguém, antes. É honesto e é real!

— Era mais fácil lidar com você quando estava choran­do. Tem um gênio rebelde... — disse Cam franzindo a testa.

— Tenho mesmo, e já esgotei minha cota de doçura.

— Também já esgotou sua capacidade de raciocinar — ele afirmou, passando os dedos pelos cabelos. — Lisa, vá para a cama que eu me deito no sofá. Vou mandar um reca­do para Bret pelo computador, pedindo a ele que venha até aqui de manhã, para que eu possa explicar... pelo menos uma parte. Vá para a cama, você está exausta.

— Não sou criança! — Lisa berrou.

— Agora chega! — Cam disse, os olhos negros faiscando de raiva. — Sei muito bem que você é mulher adulta, Lisa. Desejo você. Quero arrancar-lhe as roupas e possuí-la aqui mesmo no tapete. Quero fazer amor com você até deixá-la esgotada. Quero beijar e acariciar todo seu corpo, e sentir suas mãos em mim, também me acariciando por inteiro.

— Oh... — Foi só o que ela conseguiu falar.

— Mas não esta noite! — ele gritou, e Lisa assustou-se. — Sinto até uma dor na virilha, que não ia passar nem com um milhão de banhos frios, mas ainda assim não vou tocar em você. Pode até ter um ataque que não vou mudar de idéia. Já estou mais do que cheio de culpa e não quero piorar as coisas, muito obrigado. Meu braço está começando a doer muito, provavelmente seu irmão vai me quebrar a cara e não quero mais nenhuma complicação! Agora trate de ir corren­do para o quarto antes que eu a agarre e a atire lá dentro!

— Acho... Acho que vou me deitar... — disse Lisa, hesi­tante. — Foi uma noite extremamente cansativa.

— É uma decisão muito sábia de sua parte — Cam retru­cou, ainda a olhando de cara feia.

— Vou pegar um cobertor e um travesseiro.

— Ótimo. Boa noite.

— Quer um comprimido para a dor no braço?

— Se não for muito trabalho. Não quero tomar as pílu­las que o médico me receitou. Vou digitar uma mensagem para Bret — Cam disse, dirigindo-se para o corredor.

— Cam... obrigada — Lisa agradeceu baixinho.

— Tudo bem — ele respondeu, suspirando enquanto se afastava.

— Eu te amo — ela sussurrou e depois vagarosamente saiu da sala.

Ao voltar arrumou o sofá com lençóis, um cobertor e tra­vesseiro. Colocou uma toalha e um envelope de analgésico sobre a mesinha de centro, depois foi para seu quarto e fe­chou a porta.

Cam não ia deixar o computador até que ela estivesse dei­tada, Lisa logo percebeu. Espantava-se ainda por ele ter re­cusado o que tão atrevidamente lhe oferecera. Ele tivera razão em mandá-la embora, pois ela se comportara como uma criança, quase tendo um ataque exigindo que a levasse para a cama. Teria sido mesmo errado usar o amor como válvula de escape da confusão e trapalhadas daquela noite.

O fato de Cam rejeitá-la demonstrava claramente a pro­fundidade e a validade do amor que sentia por ela. Lisa pre­cisava ter paciência e dar-lhe o tempo necessário para resolver seus problemas, fossem quais fossem. Devia engolir seus te­mores e esperar. Esperar por Cam.

Depois de tomar banho, vestiu uma camisola macia e enfiou-se entre os lençóis. A imagem de Cam apareceu em sua mente e as fagulhas do desejo começaram a perturbá-la. Ele estava logo ali, tão perto, e no entanto, tão longe...

"Cam vai explicar tudo", Lisa pensou na escuridão. "E só então poderemos continuar. É assim que vai ser. É assim que tem de ser. Oh, meu amor..."

Puxou o lençol até o queixo e ficou olhando para o nada enquanto uma lágrima solitária lhe escorria pelo rosto.

Na outra sala, Cam tentava se comunicar com Bret, mas não se surpreendeu pela falta de resposta. O amigo tinha dado a entender claramente que o encontro ia se prolongar até o dia seguinte. Cam teria que usar o equipamento modem e esperar que Bret voltasse para casa e visse a mensagem escri­ta, antes de ir trabalhar.



"BRET", Cam escreveu, "VOU PASSAR A NOITE NO SOFÁ DE LISA. HOUVE ALGUNS PROBLEMAS EM RE­LAÇÃO AOS TAIS REFLEXOS SOBRE OS QUAIS VO­CÊ COMENTOU. VOU VOLTAR NA HORA DO CAFÉ. PODE PREPARAR A ARMA QUE EU MEREÇO. CAM".
Depois de digitar o código certo, levantou-se esgotado. Seu braço não estava mais anestesiado e doía intensamente. O analgésico talvez não adiantasse muito, mas ele não ia se dopar com os comprimidos receitados pelo médico. Estava ali para cuidar de Lisa, e não para dormir.

Na sala, tirou os sapatos e então resolveu tomar um ba­nho. Parou do lado de fora do quarto de Lisa por um longo momento, antes de prosseguir até o banheiro no fim do corredor.

Em seguida, tomou quatro comprimidos e um copo de leite. Ao se deitar no sofá, só de cueca, ficou pensando.

Era muito bonito ter atitudes nobres, mas a frustração se­xual era terrível. Banho frio de nada adiantava. O que ele queria mesmo era fazer amor com Lisa Peterson. Que ho­mem viril e saudável recusaria a oferta que ela lhe fizera? Poucos, talvez só ele, o velho e nobre Porter, por causa de uma ridícula noção do que era certo ou errado.

Tinha feito muita bobagem, mas sabia que agira bem em escolher o sofá. Pena que seu corpo não concordasse com a decisão tomada pela mente...

Lisa... Ele a amava de verdade. E poderia perdê-la, pois era um homem com segredos, e ela já havia sofrido no pas­sado por causa de um outro homem com segredos. Quanto mais tempo precisasse manter silêncio, piores as coisas fica­riam. Santini tinha que aparecer logo e livrá-lo daquela teia de intrigas. Havia muita coisa em jogo: sua vida, o amor por Lisa e o futuro dos dois.

Futuro? Que futuro? Ele não tinha permitido que seu pen­samento avançasse mais do que admitir que estivesse apaixo­nado, pela primeira vez na vida, por Lisa. Será que estava sonhando com casamento, filhos, um lar e outras coisas desse tipo? Que carga pesada... E ele ainda tinha de resolver sua situação profissional.

"Porter, durma antes de queimar um fusível no seu cére­bro", ordenou a si mesmo.

Por fim os comprimidos fizeram efeito e ele conseguiu cair num sono agitado, povoado por sonhos estranhos, onde era caçado por sombras numa praia deserta.
O som do seu nome penetrou na névoa, e Cam gemeu.

— Cam... Vamos, acorde!

Cam abriu os olhos e deu com Bret encarando-o preo­cupado.

— É melhor me bater enquanto ainda estou na horizon­tal — Cam disse. — Assim não tem perigo de eu cair,

— O que aconteceu? Suas roupas aí no chão estão sujas de sangue. O que houve com seu braço? Lisa está bem?

— Fale baixo — Cam pediu, sentando-se. — Lisa precisa dormir, foi uma noite terrível. — Pegou a calça e vestiu-a. — Ah, como meu corpo dói! Vamos até a cozinha fazer ca­fé. Bret, vou contar-lhe o que posso e, infelizmente, não é muito.

— Eu li o recado no computador — disse o amigo seguindo-o até a cozinha. — Cam, não sou tão tolo assim. Já tinha desconfiado que você não é apenas um funcionário comum trabalhando para o governo. Somei dois mais dois e cheguei à conclusão de que você participa de atividades obs­curas, tipo agente secreto, não é?

Cam virou-se rápido e encarou o amigo, o rosto demons­trando preocupação.

— Calma — Bret disse, puxando uma cadeira. — Você faz o café. Quanto disso é do conhecimento de Lisa?

— Muito pouco. Um sujeito apareceu na praia ontem à noite com uma câmera infravermelha. Um reflexo na lente me fez perceber tudo. Saí atrás dele e cortei meu braço num caco de vidro quando ataquei o cara.

— Mas por que estão atrás de você? Andou aprontando?

— Quero dar o fora, e eles sabem disso. Bret, eu não de­via estar falando sobre isso. Já envolvi você e Lisa pelo sim­ples fato de ter vindo para cá. Eu não tinha o direito de fazer isso.

— Não se preocupe comigo. Eu estou limpo com os federais, provavelmente tão limpo quanto você. Já fiz alguns pro­gramas para eles, e Lisa está fora disso. Consegui o contrato depois que ela saiu da firma. Então é isso, você é um agente, um espião que quer sair do frio, por assim dizer. E agora, o que vai acontecer?

— Primeiro eles ficam na moita, me vigiando, é claro, com a esperança de que eu mude de idéia. Se não mudo, então sou interrogado e fico detido em algum lugar até que os có­digos que conheço sejam mudados e os agentes que conheci, transferidos. Isso é tudo muito lindo, só que agora Lisa está no meio do negócio e eles podem querer envolvê-la.

— Que beleza! — disse Bret, sacudindo a cabeça. — E você não deu a ela nenhuma explicação sobre o que aconte­ceu na noite passada?

— Não — Cam falou, enquanto servia duas xícaras de café e se sentava à frente de Bret.

— Segredos — comentou Bret. — Isso não é bom. Mas talvez não tenha importância. Pelo que sei, ela não liga mui­to para você.

— Errado.

— É... eu já tinha desconfiado. E quanto a você?

— Eu a amo, Bret. De verdade — Cam afirmou, convicto.

— Meu Deus! — disse o outro, rindo. — Amor mesmo? Aquele tal? Minha irmã e meu melhor amigo... para mim parece perfeito.

— É isso aí. Sou um cara fabuloso para ela... Veja só a noite romântica que tivemos...

— Não seja tão severo com você mesmo. As coisas aca­barão dando certo.

— Bret, eles estão me vigiando, colados em mim, e des­confio de que farão a mesma coisa com Lisa. Você aparen­temente está limpo. Eu tentei levá-la para sua casa, mas não adiantou, por isso fiquei aqui.

— No sofá — Bret disse com um ar maroto. — Quem di­ria... Cam, no sofá!

— Deixe disso! Olhe, não quero que Lisa seja perturba­da. Eu disse a ela que não corria perigo, mas que estava sen­do vigiada por minha causa. O pior que pode acontecer é eles a pegarem, depois que eu me for, para interrogação. Quan­do perceberem que ela não sabe de nada, será solta.

— Mas, enquanto isso, você não contou o que ela precisa saber sobre você, Cam.

— É melhor assim. Se eu contasse a ela que era um agen­te e os chefões descobrissem seria pior. Estou tentando protegê-la, só isso.

— Estou percebendo — assentiu Bret — mas não tenho certeza de que você está fazendo a coisa certa. Lisa sempre se deu melhor com a honestidade, com fatos reais. Não su­porta mentiras e segredos.

— É arriscado, sei disso. Ela pode acabar me odiando, mas ainda assim acho que é o modo mais seguro de agir. Te­nho sua palavra de que não vai contar a ela?

— Tem. Sei que vai cuidar bem de minha irmã. Só espero que tenha tomado a decisão certa, mas não confio muito...

— Vamos ver. Já mandei avisar que quero falar com o chefão rapidinho. Quanto mais depressa isso acabar, melhor.

— Então você vai ficar aqui?

— Se Lisa não me tocar para fora... Ela tem um gênio terrível!

— A sua permanência aqui certamente vai fazer com que ela também seja interrogada.

— Mas ela não saberá de nada, e é com isso que estou contando. Essa gente é esperta, sabe quando uma pessoa está dizendo a verdade. Só não quero que um deles apareça de dentro de um armário e a mate de susto. Eles não vão poder se aproximar de Lisa a não ser oficialmente. Vão interrogá-la e depois a trarão de volta para casa. Só isso.

— Está certo. Mas o que vai acontecer com o amor de vo­cês? Como é que isso vai terminar?

— Quem me dera soubesse, Bret.

— Cam? — Lisa chamou e logo apareceu na cozinha, já vestida de jeans e camiseta. — Oh, Bret, você também está aí?

— Oi, menina! — E levantou-se para beijar a irmã no rosto. — Sente-se que eu lhe sirvo uma xícara de café.

— Obrigada — ela disse distraída. Largou o corpo na ca­deira, sentindo os joelhos bambos. Deus do céu! Cam Porter sem camisa! Era demais... era mesmo. Músculos extremamente bem-proporcionados, a pele queimada e o peito coberto de pêlos negros... Que sufoco!

— Bom dia — cumprimentou Cam em voz baixa. Lisa olhou para ele, rubra e embaraçada por ter ficado de olho naquele corpo bonito com uma feia cicatriz no ombro.

— Bom dia, Cam! — ela respondeu, mas queria dizer: "Olá, meu amor". Sim, era verdade, ela amava mesmo aquele homem. Certo ou errado, ela o amava. — Como vai o braço?

— Está ótimo.

— Duvido... E o seu ombro? Foi aí que levou o tiro?

— Não se fala nisso, lembra? — ele disse, sorrindo.

— Hora do café. — Bret colocou a xícara em frente à ir­mã e sentou-se na outra ponta da mesa — E então crianças como vão a vida?

— Fascinante — Lisa o informou. — Uma risada atrás da outra...

— Foi o que ouvi dizer — o irmão concordou. — O que acha de se mudar por uns tempos para a minha casa, hein, querida irmã?

— Não.


— Eu tentei — Bret disse a Cam, dando de ombros.

— Lisa, seria bem melhor se você concordasse — aconse­lhou Cam.

— Não — ela repetiu. Bret deu uma risadinha.

— Meu querido irmãozinho, você está enfrentando esse caso com muita calma — Lisa disse sarcástica. — Por que estou com uma sensação de que você sabe mais do que eu?

— Eu sempre soube mais do que você... venho dizendo isso desde que você tinha seis anos, queridinha.

— Sabe muito bem o que quero dizer — rebateu ela, ele­vando a voz. — Vocês dois parecem do clube do bolinha! Decidiram proteger a pobre Lisa das coisas más desta vida.

— Ei, calma aí! — disse Cam, estendendo a mão para ela.

— Não, não vou ficar calminha, não, senhor. — Deu com uma colher nos dedos dele. — Não queira dar uma de gosto­so, Cameron. Eu sou uma mulher adulta!

— Não recomece — ele reclamou. — Acabamos esse ca­pítulo ontem.

— Pela última vez, garota — insistiu o irmão —, vai ou não vai para a minha casa?

— Não!

— Tudo bem, Cam — disse Bret. — Vá buscar suas coi­sas que eu espero aqui. Depois vou para o escritório.



— Coisas? — Lisa quis saber. — Que coisas?

— Não me demoro — avisou Cam, esvaziando a xícara e se levantando em seguida. — Antes vou tomar um banho e me barbear.

— Vai viajar, é? — perguntou Lisa com doçura. — Que coisa boa!

— Vou me mudar para cá, minha cara senhorita — Cam avisou, olhando-a de cara feia.

— De jeito nenhum! — ela retrucou, pondo-se em pé. Cam pegou-a pela nuca e deu-lhe um beijo na boca.

— Claro que vou — disse pertinho dos lábios dela. — Vol­to já, já. — E saiu quase correndo.

— Bret, faça alguma coisa — Lisa implorou virando-se para o irmão. — Não posso acreditar que vai continuar aí sentado enquanto...

— Sente-se, querida — ele pediu com gentileza. — Vamos...

Lisa ergueu os braços num gesto de desânimo e acabou obedecendo.

— Bret, estou apaixonada. Eu amo Cam.

— É, eu sei.

— Parece algo que já aconteceu antes...

— Não, Lisa, não se parece em nada. Cam não é Jim Weber. Sei que há coisas sobre Cam que você desconhece, mas tem que ser assim mesmo.

— Por quê? Ele diz que me ama, e o amor deve ser ba­seado em confiança, honestidade e coisas desse tipo. Cam está escondendo coisas de mim, e eu odeio isso.

— Se você ama Cam, então confie nele. É a única coisa que eu posso lhe dizer, Lisa.

— Mas você sabe o que ele está escondendo de mim, não sabe?

— Sei.

— Droga, Bret. Sou sua irmã!



— E pensa que isso está sendo fácil para mim? Eu sempre me preocupei e cuidei de você, Lisa, mas está mais do que na hora de me afastar e deixá-la governar sua vida. Está certo, da última vez que fiz isso, o Weber enganou a nós dois. Mas este é Cam. É meu melhor amigo, um dos melhores ho­mens que conheço. Ele a ama e você também o ama, e eu quero me manter fora disto. Eu confio o suficiente em Cam para entregá-la a ele. Por que você não faz a mesma coisa? Dê ao sujeito algum tempo para endireitar a vida.

— Bret, estou apavorada — desabafou Lisa, levantando-se devagar. — E detesto segredos. Realmente detesto segre­dos! Bem... temos que trabalhar — disse, e foi saindo da cozinha.

Lisa sentou-se à frente do computador e pôs-se a digitar. A tela logo mostrava o texto do livro, e ela apertou o botão que indicava o ponto da narrativa onde havia parado.

— Ora! — resmungou. Não estava em condições de re­solver os problemas entre o pirata e a donzela, não quando não conseguia nem resolver os seus... — E onde está seu profissionalismo, Jasmine? — disse alto. — Bote tudo para fora!

Para seu próprio espanto, ficou completamente envolvi­da na história, os dedos voando sobre as teclas. Um pouco mais tarde escutou o ruído de vozes masculinas e imaginou que Cam já estivesse de volta, com suas famosas coisas... Obrigando-se a se concentrar, continuou escrevendo e logo se perdeu em outra época. Envolveu-se com o pirata e sua donzela, bloqueando todo e qualquer pensamento sobre Cam e si mesma.

— Lisa! — Cam chamou-a da porta.

— Você me assustou — ela disse dando um pulo na cadeira.

— Desculpe. Acho que não devia interromper quando um artista está criando, mas você ainda não comeu nada.

— Não é sempre que eu tomo o café da manhã — disse ela encarando-o.

— Estou falando do almoço. São duas horas da tarde.

— Está brincando!

— Eu preparei alguma coisa. Venha comer, está bem?

— Ora, ora... — disse cheia de ironia. — Será que isso também faz parte dos seus serviços como babá, Cam? Pre­para as minhas refeições e o que mais? À noite também, se eu tiver sido uma boa menina, vai me pôr na cama e ler uma história?

— Droga! — ele cortou áspero, agarrando-a pelos bra­ços. E no momento seguinte apoderava-se de seus lábios.






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