Silver sands



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CAPITULO VI
A intensidade do beijo demonstrava a frustração e a raiva de Cam, um homem empurrado até o limite máximo de sua resistência física e emocional. Foi rude e bruto, mas logo de­pois, gentil e delicado.

Lisa sentiu a diferença e se abandonou nos braços dele, retribuindo o beijo e se recriminando por tê-lo provocado. Saboreava o gosto e o aroma de Cam. Nada importava, a não ser aquele momento, ali, no porto seguro dos braços de seu amor. O corpo queimava de desejo, desejo de pertencer ao seu homem e de ser amada por ele.

— Ah, Lisa! — exclamou ele, a voz áspera. — Eu te de­sejo tanto. Começo a te beijar e não consigo parar. Devia mais era ir dar uma corrida na praia, mas não quero deixá-la sozinha.

— Sabe, você fala demais — ela sussurrou, começando a desabotoar-lhe a camisa.

— Não faça isso! — implorou Cam, segurando-lhe as mãos. — Vá almoçar.

— E também é muito mandão — ela continuou, passan­do as mãos por baixo da camisa, pela pele coberta de pêlos, e sentindo-o estremecer de prazer. — E tão forte...

— Lisa, por favor... não faça isso. — A voz dele parecia meio estrangulada. — Eu não vou suportar.

— Cam, eu te amo — Lisa afirmou decidida. — E desejo você.

— Lisa, eu...

Lisa continuava com as carícias, impaciente.

— Será que nem isso posso ter? Um momento? Será que o que está acontecendo lá fora é tão importante que você não pode se desligar nem por um instante, o tempo suficiente para fazer amor comigo?

Cam se torturava em dúvidas. Será que tinha o direito de tocá-la em meio a todo aquele pesadelo? Não! Sim! Ele não sabia. Será que Lisa percebia o que estava fazendo com ele? Claro que sabia! Pretendia seduzi-lo! E como a amava, co­mo a desejava, como morria de vontade de possuí-la...

— Cam, faça amor comigo — pediu Lisa ainda uma vez. — Você me deseja, não é mesmo?

— Os dedos de Lisa penetravam pelo cós das calças de Cam.

— Oh, Lisa! Você está me matando! — Ele respirou fun­do. — Sim, eu te desejo loucamente! E vou fazer amor com você agora mesmo, e não por um momento, mas por horas seguidas. Entendeu bem?

— Oh, Cam! Eu nunca tinha tentado seduzir algum ho­mem antes, e não tinha a menor idéia de como fazer...

— Pois fez certinho, acredite. Mas, Lisa, tem certeza de que é isso realmente o que quer?

— Mas será possível? Será que tenho que começar tudo de novo? O trabalho da mulher nunca termina...

Cam riu e levantou-a nos braços.

— Eu me rendo — disse. — Provavelmente vou perder minha licença de pirata, mas pode fazer de mim gato e sapa­to, linda donzela.

Eu te amo, Cameron Porter! — Lisa afirmou trançan­do os dedos atrás do pescoço dele.

— E eu também te amo — afirmou Cam, o rosto sério novamente. — Nada mais importa, só nós dois e o que esta­mos para partilhar.

Os olhos de Lisa ficaram úmidos enquanto ele a carrega­va para o quarto e a colocava de pé ao lado da cama. Então, segurando o rosto dela com as mãos grandes, beijou-a com extremo carinho e ternura.

"Sim", o coração e a mente de Lisa ecoavam, "é a hora certa". A hora de confiar, a hora de pertencer àquele ho­mem, o seu Cameron. O que quer que tivessem de enfrentar, enfrentariam juntos, mas naquele momento apenas os dois importava.

Com mãos trêmulas, Cam tirou-lhe a blusa e depois o su­tiã. Respirou fundo, admirando a visão dos seios nus. De­pois os pegou e acariciou os mamilos até que ficassem rijos. Então baixou a cabeça e tocou-os com os lábios, um de cada vez. Sentia o sangue correr por suas veias como se fosse lar­va fervente.

Com relutância, ergueu a cabeça e, pegando Lisa nos bra­ços, deitou-a na cama. Então tirou-lhe os sapatos, os jeans e depois a calcinha.

— Ah, Lisa, você é tão linda... tão linda! — exclamou, ficando de pé e despindo-se rapidamente.

Na semi-escuridão do quarto, Lisa examinou-o por intei­ro, como se quisesse gravá-lo para sempre na memória. Com o corpo musculoso e forte, Cam era a visão mais bela que ela já presenciara. Era o seu pirata, pensou. Seu mesmo. O corpo que prometia toda força e energia masculinas, mas que ela sabia serem temperadas com ternura e carinho.

— Cam! — sussurrou, estendendo os braços para ele.

Ele deitou-se a seu lado, beijando-a apaixonadamente an­tes de sugar-lhe novamente os seios, acariciando-lhe o corpo inteiro com as mãos.

Lisa também o tocava, explorava, descobria os encantos de seu corpo, e com as mãos produzia-lhe novas emoções. Sentia que Cam estremecia de paixão, mas que ainda se con­tinha, continuando a acariciá-la.

Ele tomou-lhe os lábios novamente, a língua mergulhan­do fundo para se encontrar com a dela. Lisa gemia, mas Cam ainda exercia um grande autocontrole, apesar da necessida­de do desejo intenso. Queria que ela estivesse pronta para receber tudo o que ele iria dar-lhe.

— Cam, por favor... — Lisa implorou, e só então ele se moveu para ficar sobre ela, apoiando-se nos braços e olhan­do para seu rosto corado.

— Eu te amo — ele disse baixinho.

— Cam, venha para mim!

Vagarosamente, ele a penetrou, dando tempo para que o corpo de Lisa o aceitasse. O desejo o deixava louco, mas ele ainda se continha.

Lisa percebeu e soube, com certeza, que era em conside­ração a ela. Seu coração quase estourou de amor, mas o que queria, o que desejava, era ele por inteiro! Já!

Ergueu os quadris e Cam perdeu o controle, completando o ato do amor do modo como os dois mais desejavam.

— Assim... — ela suspirou.

Moviam-se agora no mesmo ritmo, que num crescendo os fez chegar ao êxtase com uma diferença de alguns segundos apenas, quando ondas e ondas de prazer quase os afogaram. E então a paz... o contentamento...

Cam enterrou o rosto nos cabelos perfumados de Lisa, mas não trocaram uma única palavra. Os corações batiam no mes­mo compasso, e os corpos continuavam unidos.

— Não sei o que dizer a você — confessou ele por fim.

— Eu sei. Eu me sinto do mesmo jeito. Nunca imaginei que pudesse ser tão... Não acho as palavras certas, Cam.

— Eu devia me afastar, mas você é tão deliciosa...

— Não vá — ela pediu, passando os braços pelo pescoço dele. — A não ser que seu braço esteja doendo.

— Braço? Que braço? A única coisa que sei é que te amo demais. Mas vou me afastar antes que amarrote você todinha.

— Bem, então me dê um beijo de despedida.

— Se eu fizer isso, então não saio mais.

— A idéia é essa, Cam Porter!

— Verdade, Lisa Peterson? Será que está me seduzindo de novo?

— Está duvidando?

— Gosto do modo como sua cabeça funciona...

— Só a cabeça?

— Entre outras coisas... — ele disse, baixando os lábios novamente para ela. — A lista não tem fim.


Bem mais tarde, os dois tomaram banho e se vestiram. En­tão Cam pegou Lisa pela mão e a levou para a cozinha. Ela ia ter que comer, antes que desmaiasse de fraqueza. Serviu-lhe um bom prato de salada de frutas que havia preparado e alguns biscoitos. Lisa comentou que ele era um sujeito muito útil para se ter por perto, e recebeu dele um olhar tão cheio de segundas intenções que ficou rubra. Para desembaraçar-se, ela deu-lhe um soco no ombro. Cam serviu-se de uma xí­cara de café e se sentou na frente dela.

— Esse livro que você está escrevendo — indagou —, ele tem prazo de entrega, ou seja lá como é que eles chamam isso?

— É, sempre temos uma data prevista. Está estipulada no meu contrato.

— E em que pé você está?

— Estou adiantada. Se trabalhar um dia inteiro, já ter­mino. Depois é só reler, fazer algumas pequenas mudanças aqui e ali, e enviar ao meu editor.

— Será que conseguiria fazer tudo em dois dias?

— Bem, acho que sim. Por quê?

— Porque eu não sei o que vai acontecer ou quando — ele retrucou preocupado —, e detestaria atrapalhar também sua carreira de escritora, além de todos os problemas que já lhe causei.

— Ah! — murmurou Lisa, — Estou entendendo. Volta­mos à vida de todos os dias...

— Ei, não fique tão triste — ele disse com um sorriso. — Tudo vai acabar dando certo.

— Mas você não me conta o que está acontecendo!

— Lisa, é melhor assim — ponderou ele, a testa enruga­da. — Acredite.

— Está bem, Cam — Lisa assentiu, suspirando.

Segredos... Mesmo agora, depois de terem compartilha­do tanta intimidade, ele ainda mantinha seus segredos. Co­mo é que Cam não entendia que aquilo era errado? Será que não confiava o suficiente nela para saber que estaria do seu lado, qualquer que fosse o segredo? Mas ela também tinha segredos... Nunca havia contado a ele sobre...

— Jim Weber — deixou escapar em voz alta.

— O que disse?

— O nome dele era Jim Weber. Bem, não era o nome real, mas sim o que ele usava.

— O tal sujeito que magoou você — Cam disse já meio nervoso.

— Sim. Sabe, Cam, eu havia me concentrado demais nos meus estudos, na faculdade, e me achava inteligente, mas era terrivelmente ingênua. Nunca tive muito tempo para uma vida social mais intensa. Quando queria me distrair, escrevia mi­nhas histórias. Bret se preocupava, achando que eu vivia en­fiada em casa, e quando Jim Weber apareceu para trabalhar na firma, meu irmão incentivou meu relacionamento com ele.

— Weber trabalhava na Computadores Peterson?

— Ele tinha ótimas referências como programador, mas eram falsas. Era um plano sofisticado, pois quando Bret foi checá-las, todo mundo elogiou demais o Weber. A coisa foi bem-feita. Eles alugaram uma sala e diversos telefones, pa­ra fazer Bret pensar que estava falando com diversas firmas.

— Continue — pediu Cam.

— Jim era mesmo um programador de talento. Trabalhava duro, era interessante, bem-apessoado e, na minha inocên­cia, me encantou. Dizia que me amava, que queria se casar comigo, e... — Lisa parou de falar e soltou um suspiro tris­te. — E eram só mentiras.

— Maldição! — Cam resmungou. — Mas por quê?

— Espionagem industrial. Bret e eu estávamos trabalhando num programa novo que ia ser um sucesso: leitura de toxici­dade dos sistemas de água encanada. Isto significava poder detectar zonas de futuro perigo antes que as coisas ficassem fora de controle. Bret e eu éramos os únicos envolvidos di­retamente, mas obviamente mencionamos alguma coisa pa­ra outros funcionários da firma.

— E alguém deu com a língua nos dentes.

— Foi. Jim comprou um de nossos funcionários e então apareceu pessoalmente para o golpe final. Ele ganhou mi­nha confiança e foi esperando. Indagava coisas sem impor­tância, por exemplo, como ia indo o programa, mas não exagerava nas demonstrações de interesse. Uma noite eu estava muito animada, porque finalmente Bret e eu tínhamos terminado, e Jim me levou para comemorar.

— E então?

— Ele implorou para que eu o deixasse ver o programa, disse que nunca presenciara uma coisa assim tão complexa e altamente técnica. E eu, como uma boba, o levei para a firma, abri o cofre e peguei os disquetes. Ele... ele os arran­cou das minhas mãos e caiu na gargalhada. Foi a risada mais terrível que eu já escutei.

Cam fechou as mãos de tanta raiva ao ver a dor que apa­recia no rosto de Lisa. Apertou os dentes com força, mas se manteve em silêncio, tentando controlar o ódio.

— Eu fiquei arrasada. Não sei como contar a você o que a traição dele fez comigo. Não conseguia mais trabalhar, nem comer, nem dormir. Por fim me afundei nos livros e disse a Bret que queria um tempo para esquecer.

— E quanto a Jim Weber?

— Bret tinha colocado um código de seguro no início do programa. Parecia uma coisa muito comum, mas não era. Bem, você entende de computadores. Escrevemos os códi­gos uns por cima dos outros, e a não ser que a pessoa saiba a ordem certa, o comando para desativar o disquete é acio­nado. Jim apagou tudo, o idiota!

— E Bret tinha outra cópia.

— Claro. As pessoas para quem Jim trabalhava ficaram furiosas, e ele entrou em pânico. Ameaçou o cúmplice que trabalhava para nós, exigindo que ele arrombasse nosso co­fre. Aí o sujeito ficou apavorado e confessou tudo a Bret. Meu irmão combinou um plano com a polícia e, por fim, todos os envolvidos com o roubo foram presos. Jim Weber e seus cúmplices estão na cadeia.

— Mas você não voltou a trabalhar na Computadores Peterson.

— Não, Cam, não voltei. O que no começo tinha sido uma forma de terapia, tornou-se um enorme desafio. Eu comecei a me recuperar da traição de Jim e cresci como pessoa, co­mo mulher. Viajei para Nova York para me encontrar com meu editor e fiz um ótimo círculo de amizades aqui em Malibu tudo isso serviu para enriquecer minha vida. Meus li­vros dão prazer às pessoas e, para mim, meus personagens são reais. É muito mais compensador do que lidar com equações.

— Mas esses personagens não são reais, Lisa. É faz-de-conta, mera fantasia. Você tem capacidade para criar pro­gramas que beneficiariam multidões, como ficou provado com esse projeto para detectar a poluição da água. Como é que pode preferir... Oh, desculpe. Não tenho direito de cri­ticar sua escolha.

— É, não tem mesmo — ela disse séria. — Ninguém tem.

— Lisa, por que escolheu justo hoje para me contar so­bre o Weber?

— Porque era o meu segredo e eu não queria nada oculto entre nós dois — disse, encarando-o séria.

— Chantagem! — acusou ele, passando os dedos pelos ca­belos negros. — Olhe, sinto muito por você ter sofrido tan­to, mas não sou Jim Weber, Lisa. Nunca menti a você. Não pude e ainda não posso revelar certos fatos, é melhor assim. E não pretendo mudar de idéia sobre isso.

Lisa sentiu uma pontada no coração e lágrimas brotando nos olhos. Evitou olhar para Cam e ficou brincando com os últimos pedaços de fruta no prato.

"Então é isso", pensou desanimada, Cam não cederia nem um milímetro. Dissera que a estava protegendo, mas não era verdade. Ainda assim estava satisfeita por ter contado toda a história de Jim Weber. Daquele peso se livrara.

Mas quando é que Cam se libertaria? Quando é que a nu­vem negra que pairava sobre os dois afinal se dispersaria? E por que Cam não podia contar-lhe seu segredo?

— Se você quiser voltar a trabalhar, pode deixar que eu arrumo tudo aqui — disse ele sério.

— Está bem, obrigada. — Lisa levantou-se. — O almoço estava delicioso. Ou será que era jantar?

— Acho que era jantar. Estamos com os horários atrapa­lhados. Lisa, escute, foi maravilhoso. Por favor, não deixe que nada interfira no que partilhamos. Foi lindo, foi espe­cial e foi só nosso.

Lisa conseguiu dar um leve sorriso, depois se virou e saiu da cozinha...

Cam resmungou um palavrão. Ele machucava Lisa com seu silêncio, e aquilo o estava deixando arrasado. Só que não havia outro jeito! Se Santini não entrasse logo em contato com ele, ia acabar maluco. Tinha que resolver todo aquele caso complicado antes que destruísse tudo o que construíra com Lisa.

Resmungando, começou a limpar a cozinha.
Cam admirava as cores vibrantes do pôr-do-sol. Estava na varanda, enchendo os pulmões com o ar do mar e vistorian­do a praia, para ver se não havia nenhum intruso. Não havia.

Mas eles estavam lá, com certeza. Vigiando. Era obriga­ção deles, assim como fora de Cam. Só que agora precisava dar um basta naquilo. Tinha que haver um modo de apres­sar as coisas.

— Cam? — Lisa chamou de dentro da casa. — Você está aí fora?

— Sim. Venha ver este pôr-do-sol.

— Maravilhoso — ela exclamou se aproximando. Ele a olhou com um sorriso.

— Você deu duro hoje. Quer sair para comer alguma coisa?

— Sair?

— Você não é uma prisioneira aqui dentro. Só não quero que fique sozinha. Que tal irmos a uma lanchonete?



— Ótima idéia. Vou colocar os sapatos. Volto já, já.

— Espere! — Ele puxou-a para si. — Você se esqueceu de uma coisa.

O beijo foi longo e sensual, e Lisa estava quase sem fôle­go quando conseguiu escapar para ir calçar os sapatos.

Cam ainda deu mais uma olhada pela praia, depois bateu com os punhos no gradil, num gesto de frustração. Só então entrou.

A lanchonete que Cam escolheu era movimentada, cheia de gente, e tinha três entradas diferentes. Pararam a uma qua­dra de distância, e ele disse a Lisa que a noite estava boa pa­ra andarem um pouco. Mesmo que dois agentes os vigiassem, um teria que ficar no carro, e o outro seria forçado a entrar na lanchonete. Cam estava forçando a situação, mas sentia-se constrangido por ter que tratar Lisa como se fosse uma marionete.

Lisa sentou-se numa das mesas enquanto Cam esperava na fila para fazer o pedido. Fingiu amarrar os sapatos e apro­veitou para dar uma boa olhada à volta, o que fez novamen­te ao pegar os guardanapos. De propósito esqueceu-se dos canudos para os refrigerantes e deu mais uma volta.

Só então enxergou o homem.

Era necessário ser um agente para descobrir outro agente, Santini dissera uma vez, e tinha razão. Cam quase deu uma risada ao ver com que facilidade descobrira o sujeito no meio da multidão. Olhos que não ficavam parados nem por um instante, um blusão fechado com o zíper, para ficar mais fá­cil de puxar a arma, se fosse necessário, e um jeito de balan­çar levemente o corpo para frente e para trás...

Cam sentou-se na frente de Lisa e entregou-lhe um canudo.

— Acho que já trouxe tudo. Como está seu hambúrguer?

— Está tão ruim que até está bom — ela disse rindo. — Todo mundo devia comer disso aqui às vezes, para o estô­mago não ficar mal-acostumado.

— Concordo. — E deu uma mordida no sanduíche.

— Tem alguém aqui, não é mesmo? — Lisa indagou, baixo.

— Tem uma porção de gente aqui. Este lugar é um sucesso!

— Sabe muito bem o que estou falando, Cam. Estamos sendo vigiados, certo? Fomos seguidos desde a minha casa, e seja lá quem for está aqui.

— Bem, sim... de certo modo... — Cam não podia men­tir a ela. — Sim — assentiu —, ele está aqui. Continue a co­mer. Sorria e tente agir com naturalidade.

— Onde e que ele está? — cochichou Lisa, inclinando o corpo para frente.

— É isso que é natural? — Cam perguntou, rindo. — Você está se saindo muito bem, garota.

— Oh, desculpe! — Ela endireitou-se dando um sorriso forçado. — E agora?

— Falso. Dê uma mordida no sanduíche.

— Ora, está bem. — Lisa obedeceu.

— Está lá na frente. Escolhi este lugar de propósito, para que ele aparecesse.

— Certo — Lisa falou, um ar de interrogação no rosto.

— E qual é o plano, chefe?

— Oh, meu Deus! O que deu em você? — indagou Cam, caindo na gargalhada.

— Pensei que isto fosse sério — disse Lisa, a testa franzida.

— E é — respondeu Cam, ainda rindo. — Estou bolando o plano na minha cabeça, e me sentindo culpado por envol­ver você na história. Não é justo.

— É você quem diz isso, não eu. Psiu... ele vem vindo para cá.

— Não entendi — disse Cam, arregalando os olhos.

— Quieto — ela avisou, e continuou em outro tom de voz:

— E então eu disse ao meu editor: "Meu bem, você não en­tende o temperamento artístico de gente como eu. Os escri­tores são sensíveis, frágeis e.,." Para onde é que ele foi?

— Para uma mesa no outro canto. Lisa, como foi que des­cobriu?

— O casaco é pesado demais para esta época do ano. Ele também está carregando uma arma, o que não faz nada bem para meu sistema nervoso. E também parou no balcão, mas não pegou nada, só ficou olhando à volta. Cam, feche essa boca...

"Como adoro essa mulher", pensou Cam. Ela era mes­mo fabulosa. Como ele desejava contar-lhe toda a história, tirar-lhe as dúvidas, temores, mágoa.

— Cam! — Lisa chamou, sacudindo-lhe o braço.

__ 0 quê? Ah, sim... você foi muito esperta em perceber que era ele. De fato é quase inacreditável. — Você vai falar com ele aqui dentro?

— Não.

— E por que não? Ele não vai puxar a arma para você, não é?



— Não.

— Graças a Deus. Existe alguma regra para isso?

— Não, eu apenas não vou dar a ele a oportunidade de chegar a puxar a arma.

— Oh! — disse Lisa, engolindo em seco.

— Vamos fazer uma coisa. Que tal você ter uma fala nes­ta peça que estamos representando, quando eu for agarrar o nosso amigo?

— Assim como: "Mãos ao alto, seu pilantra?" Claro que posso fazer isso.

— Não, Lisa — Cam disse, sacudindo a cabeça. — É mais para: "O que está acontecendo aqui?" ou "Afinal, o que significa isto?"

— Ah, Cam... isso é muito antiquado!

— Está bem, então. Você é a escritora. Invente algo que dê a idéia de que você não está entendendo nada. Temos que dar ênfase à sua total ignorância dos fatos.

— Ah, muito obrigada!

— Mas é isso mesmo. É importante que você não saiba absolutamente de nada. Não é nossa culpa que esteja tão evi­dente o que o sujeito é. Você tem que fingir que não tem a menor idéia de quem ele seja.

— Eu não sei quem ele é, a não ser que é um dos tais que são o que são...

— Olhe, vamos esquecer tudo isso. Não quero ver você...

— Pelo amor de Deus, Cam! — Lisa o interrompeu. — Se você disser "envolvida", vou jogar o resto deste milk-shake no seu colo.

Cam suspirou.

É, eu sei que envolvi você nisto tudo, e me sinto terri­velmente mal por isso. Está bem, então vamos em frente. A coisa ficaria mais real se você aparentasse estar muito abor­recida e chateada, lá fora.

— Certo.

— Como é, está pronta?

— Já?! — ela perguntou, achando que sua voz saía esganiçada.

— É melhor acabar logo com isso. Estou achando que não é lá uma boa idéia...

— Agora que já decidimos, vamos em frente.

— Está bem — Cam concordou, meio apreensivo.

Ele levou as bandejas, jogou os restos no lixo e colocou-as no lugar apropriado. Depois voltou para perto de Lisa. Pegou-a pelo braço com delicadeza e conduziu-a para uma entrada lateral, no sentido oposto ao do agente.

Já fora, Cam parou para apontar as estrelas para Lisa, e foram andando devagar pela calçada até os fundos do pré­dio. Então Cam puxou Lisa para o canto, apertou-a contra a parede e beijou-a. Lisa encarou-o, os olhos arregalados de susto.

— Beije-me com vontade — ele pediu, tentando não sorrir. Ela obedeceu, mas de repente Cam ficou tenso.

— Aqui vamos nós — disse ele em voz baixa, e Lisa le­vou um choque quando ele virou o corpo e agarrou o ho­mem de surpresa. Lisa saiu do caminho enquanto Cam encostava o sujeito na parede e o agarrava pelo pescoço.

— Um assalto! Um assalto! Um assalto! — Lisa gritava, as mãos no rosto.

— Avise a ele que eu disse "já" — Cam ameaçou o homem.

— Ah, meu Deus! Estou com tanto medo! — Lisa dizia.

— Entendeu? — Cam falou, apertando o outro com mais força.

— Sei, sei... eu digo. — O sujeito estava apavorado. — Me solte!

— Ele já está demorando, deixe isso bem claro — insistiu Cam e se afastou.

— Socorro, eu vou desmaiar — disse Lisa, colocando uma das mãos na testa e revirando os olhos.

— Você arranjou uma maluca, Porter — o homem disse, olhando espantado para Lisa.

— Dê o fora! — Cam avisou irritado, e o sujeito desapa­receu na escuridão.

— Maluca?! — disse Lisa, momentos depois, com as mãos na cintura. — Que atrevimento! Achei que tinha representa­do com perfeição uma donzela em perigo!

Cam riu e abraçou-a.

— Você merecia até um Oscar pelo seu desempenho. E agora, me dê um beijo.

— Daqueles com vontade?

— Isso mesmo.

O beijo quase tirou o fôlego de Lisa, e ela se esqueceu de onde estava, abandonando-se naqueles braços fortes.

— Lisa — ele disse de repente. — Nós estamos numa viela, junto a um monte de latas de lixo. Por que não voltamos para nossas areias prateadas?

Foram caminhando para o carro em silêncio, perdidos em pensamentos.

Quando já estavam a caminho de casa, Lisa perguntou:

— E agora, o que vai acontecer?

— Agora eu fico esperando. E fico torcendo para que o sujeito comente que Lisa Peterson é maluca e não pode ter a menor idéia de que eu... não pode ter a menor idéia de nada.

— Sabe o que eu acho? Acho que você é um agente secreto...




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