Silver sands



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CAPITULO VII
— Droga! — praguejou Cam, batendo com força a mão no volante.

— Viva! — Lisa exclamou rindo. — Acertei!

— Nem mais uma palavra — alertou Cam, tenso. — Não diga uma única palavra até chegarmos em casa.

— Certo. Nós, os bons sujeitos, sempre obedecemos às ordens.

— Lisa!

— Está bem, está bem...



O resto do caminho foi percorrido no mais completo si­lêncio e então, já em casa, Cam apontou o sofá da sala e Lisa sentou-se comportadamente; as mãos cruzadas no colo.

— Como?! — ele disse um ar de profunda preocupação no rosto. — Como foi que descobriu?

— Simplesmente juntei os dados que tinha e computei na minha cabeça. Só isso. A única coisa que está faltando sa­ber é por que eles estão preocupados com alguém da mesma equipe. Tenho duas teorias sobre isso. Quer ouvi-las?

— Não perderia por nada deste mundo — afirmou Cam com secura.

— Bem, a teoria número um — expôs Lisa, toda alegre — é que você bagunçou algum coreto...

— De jeito nenhum!

— Certo. Então vamos para a teoria número dois. Uma vez que você está tão ansioso para falar com alguém, talvez seu superior, deva ter uma mensagem muito importante a comunicar. E como já demonstrou insatisfação com sua atual carreira e está até pensando em ser sócio de Bret, imagino que queira terminar seu envolvimento com eles que, por sua vez, não estão nada satisfeitos com isso. Que tal?

Cam ficou de boca aberta, olhando para ela. Por fim conseguiu dizer:

— Inacreditável!

— Você também trabalha para o serviço civil, ou isso é só uma cortina de fumaça?

— Trabalho como técnico, sim. — Cam disse meio desa­nimado. — A outra ocupação é só ocasional, e é verdade que eu quero dar o fora. O pessoal está muito aborrecido com isso. Lisa, será que percebe o que fez?

— Simplesmente apliquei minha massa cinzenta para re­solver o mistério — ela respondeu, batendo com o indicador na têmpora.

— Agora escute bem — ele disse, sentando-se ao lado de Lisa. — Eu simplesmente estava tentando proteger você de tudo isso.

— Mas, Cam, eu estou orgulhosa do que você fez por seu país, e não horrorizada. Por que não me contou?

— Você não está entendendo. Eu estou saindo definitiva­mente da agência, e para fazer isso preciso ser interrogado, o que significa que vão me levar para algum lugar onde fica­rei praticamente preso durante certo tempo. E porque esta­mos envolvidos, eles também a levarão. Se você não soubesse de nada, logo seria trazida de volta para casa. Mas agora, já não posso garantir por quanto tempo ficará deti­da. Talvez tanto quanto eu.

— Ah, estou entendendo... E quanto a Bret?

— Ele fica de fora porque está limpo, desde quando fe­chou aqueles contratos com o governo. Por que você tinha que ser tão inteligente?

— Acho que foi pura sorte. Por quanto tempo você acha que vão nos deter?

— Não faço a menor idéia.

— Vamos ficar juntos?

— Não sei.

— Que grande agente secreto... não sabe nada! Mas eles podem mesmo fazer isso comigo? Sou uma contribuinte e obedeço às leis.

— Podem fazer qualquer coisa, em nome da segurança nacional. Tentarei explicar que você deduziu tudo sozinha e que eu não lhe contei absolutamente nada, mas duvido que acreditem. Eles se orgulham de ser super brilhantes, e você juntou dois mais dois como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Você que é brilhante!

— Mas acho que neste momento você não está muito en­tusiasmado comigo.

— Estou preocupado com você — Cam abraçou-a e Lisa repousou a cabeça no ombro dele. — Furioso comigo mes­mo e apaixonado por você.

— Gostei do terceiro item — ela disse sorrindo.

— Lisa, eu agi do jeito que achava melhor. Não queria ter segredos com você e morria de medo que me achasse pa­recido com Jim Weber. Você entendeu por que não contei, não é?

— Claro! Mas, e quanto ao seu trabalho como técnico para o governo? E a Computadores Peterson?

— Não tive tempo nem para pensar direito sobre isso. Vou resolver só depois que essa outra coisa ficar esclareci­da. Por enquanto tudo está suspenso. Eu piorei ainda mais a situação com a atitude que tomei hoje. Devia ter sido pa­ciente e esperado, e então você teria tempo de terminar seu livro. Agora não sei quando irão agir.

— Cam, quando eles vierem falar comigo, o que é que eu digo?

— A verdade, pura e simples. Ah, Lisa, sinto tanto por ter envolvido você em tudo isso!

— Não seja exigente demais consigo mesmo, Cam. Disse que vai dar tudo certo e eu acredito. Eu te amo, meu belo pirata. Vamos atravessar tudo isso numa boa.

Aquele drama ia ser resolvido, disso ela tinha certeza, mas, e o resto? Cam ainda não resolvera nada quanto ao futuro dos dois. Ele... não. Já havia problemas demais no presente.

— Acho que vou ligar para o Bret e pô-lo a par de tudo — disse Cam. — Mas, pensando bem, vou usar o equipa­mento modem.

— Você acha que o telefone está grampeado? — indagou Lisa assustada.

— Não — ele retrucou rindo. — É que é mais divertido usar o computador. Sabe, Lisa Peterson, você é uma mu­lher fabulosa. E eu sou um homem de sorte.

Cam segurou o rosto de Lisa e beijou-a, com gentileza, com sensualidade, profundamente. Esqueceram as aventu­ras da noite e as que ainda estavam por vir. Só o beijo exis­tia, e Lisa correspondeu instantaneamente, sentindo uma onda de desejo invadir todo seu ser. Cam parou um instante e olhou para ela.

— Guarde esse pensamento — disse, percebendo o que ela sentia. — Vou avisar Bret e volto já.

Quando Cam afastou-se, Lisa foi até a varanda. Sentou-se e ficou admirando o céu estrelado.

"Será que teria medo?", pensou. Afinal de contas ia ser interrogada por agentes do governo. Diria a verdade, como Cam instruíra. Até que enfim não existiam mais segredos. O futuro ainda estava obscuro, mas o peso do segredo de Cam pertencia ao passado. Primeiro os dois tinham que en­frentar as conseqüências da saída de Cam do serviço secre­to, aí então...

— Tudo certo — disse Cam voltando e entrando na va­randa. — Bret mandou dar-lhe os parabéns pelo trabalho de dedução. Também sugeriu que o serviço secreto deveria aproveitar você, mas eu lhe disse o que pensava disso.

— Ora... ora... — Lisa riu. — Eu estava aqui justamente me imaginando com aquela capa de gabardine tão caracte­rística dos agentes e chapéu de aba caída.

Cam sorriu, sentando-se numa cadeira ao lado da dela e cruzando as pernas.

— Esta brisa do mar é uma delícia. Acho que nunca en­joaria de ficar sentado nesta varanda. A vista é magnífica, e a paz, enorme.

— É verdade, mas... bem, você está habituado a viajar muito. Tem uma casa em algum lugar?

— Possuo um apartamento em Washington, que não tem nada de especial, já que nunca paro muito em um só lugar.

— Sei que sempre teve uma vida muito excitante, mas nunca se sente solitário?

Cam entrelaçou os dedos atrás da cabeça e se afundou mais na cadeira, admirando a beleza do espetáculo à sua frente. Durante um longo tempo permaneceu em silêncio.

— Solidão — murmurou pensativo. — Sabe que nunca pensei nisso? Eu estava acostumado a um tipo de vida e fui levando, mas, neste último trabalho para a agência, me des­cobri questionando, querendo saber afinal o que estava fa­zendo ali. A equipe se viu numa situação muito perigosa, e eu tive um trabalhão para tirar todo mundo de lá são e salvo.

— Mas conseguiu.

— Sim. Voltamos a Washington, e as famílias do pessoal da equipe estavam lá no aeroporto, esperando. Cada um de­les tinha alguém aguardando, menos eu. Fiquei vendo todo mundo se abraçando, rindo, chorando, e reparei que, se por acaso "eu" tivesse morrido, ninguém ia se importar. Oh, claro, minhas irmãs ficariam aborrecidas, mas elas têm suas próprias vidas. É, ninguém se importaria de verdade.

— Oh, Cam... — Lisa disse baixinho.

— No fim percebi que se continuasse levando a vida do modo como tinha levado até então, jamais teria alguém me esperando em parte alguma do mundo.

Lisa ficou com os olhos marejados. Queria dizer a Cam que estaria sempre à espera dele, que o amaria para sempre e que ele nunca mais ficaria sozinho, mas manteve-se em si­lêncio, observando a batalha íntima que ele travava consigo mesmo. Percebia que Cam estava numa encruzilhada, e o caminho que ele escolhesse decidiria seu futuro. Será que se­ria incluída? Será que o peso do amor faria a balança pen­der para o seu lado e ele continuaria ali, onde nunca mais se sentiria solitário? Ou a atração pela aventura seria mais forte? Ele estava sentado perto dela, mas parecia muito distante.

— Cam, eu te amo — Lisa sussurrou, controlando as lá­grimas.

Cam virou a cabeça para olhá-la, e ela viu a tensão e o desânimo desenhados no rosto dele. Ele se levantou e, soltando-lhe a mão, abraçou-a apertado, tão apertado que ela quase não conseguia respirar, mas manteve-se quieta, es­perando o tempo passar. Então de repente sentiu que ele re­laxava e soltava um profundo suspiro.

"O que estaria pensando?", Lisa imaginou aflita. Será que tinha chegado a alguma conclusão quanto ao balanço de sua vida, quanto ao futuro dos dois? Ou será que ainda estava preso à teia das incertezas?

— Quero fazer amor com você, Lisa — ele disse rouco. — Você vem comigo agora?

Nada. Nem uma demonstração do que lhe ia pelo cora­ção e a ela só competia esperar. Aquela não era uma novela que ela podia controlar, em que podia intervir. Ganharia ou perderia para sempre.

— Me ame, Cam... por favor — ela pediu, a voz trêmula.

Cam a beijou e levou-a para o quarto. Durante horas se­guidas fizeram amor. Descansavam e a brasa adormecida logo se acendia em chamas ao menor toque... Só então dor­miram juntinhos, as cabeças no mesmo travesseiro.
Lisa acordou ao amanhecer com o som da chuva batendo na janela. Um sorriso apareceu em seus lábios ao ver Cam dormindo tranqüilo ao seu lado. Por mais que quisesse conti­nuar abraçada a ele, sabia que não podia. Precisava ser prática; tinha um livro para acabar.

Levantou-se, ligou a cafeteira elétrica, tomou uma chuveirada no banheiro do corredor para não acordar Cam, e logo estava sentada em frente ao computador, com uma xí­cara de café fumegante ao lado, ativando o aparelho. Só Jasmine Peters passou a existir, perdida no mundo de anti­gamente.


Cam acordou, abriu os olhos e gemeu, tirando o braço fe­rido de baixo do travesseiro. Estranhou o lugar vazio ao seu lado, mas logo escutou, além do ruído da chuva, o barulhinho ritmado das teclas do computador.

Pensando em Lisa, repentinamente sentiu de novo um in­tenso desejo de fazer amor com ela. Nunca ia se satisfazer inteiramente, disso tinha certeza. O fato de estar apaixona­do modificava o ato do amor tornando-o mais envolvente, mais satisfatório. Queria passar o resto da vida casado com Lisa, desejava vê-la grávida, esperando um filho seu. Que­ria ficar com ela para sempre e nunca mais sentir o frio da solidão.

A resposta estava na Computadores Peterson. Bret lhe oferecia a oportunidade de se estabelecer, de ter segurança e uma vida normal. Mas será que ele conseguiria? Ficaria sentado entre quatro paredes o dia todo esperando que o re­lógio dissesse que podia ir embora? E se não conseguisse? Voltaria à vida de aventureiro?

Cam decidiu que não podia pedir Lisa em casamento até ter certeza de poder oferecer-lhe o tipo de vida que ela mere­cia. E antes disso tinha outra prioridade a resolver: Santini.

Sentou-se na cama e continuou pensativo. Esperava que Lisa tivesse uma manhã produtiva. Com seus problemas já a atrapalhara bastante. Uma escritora... piratas e donzelas em perigo... Uma pessoa de carreira tão promissora escre­vendo simples romances de aventuras... Que desperdício! As pessoas que liam aqueles livros provavelmente não con­seguiam lidar com a realidade e viviam num mundo de fan­tasia. Por que Lisa fazia aquilo? Não tinha sentido.

Ainda se lembrava com tristeza e amargura quando per­cebera que não ia poder freqüentar a universidade. E ali es­tava Lisa, com um diploma na gaveta...

Levantou-se, tomou uma chuveirada, se vestiu e foi inter­romper Lisa com um beijo apaixonado. Avisou que a tiraria dali quando fosse hora do almoço e pegou uma pilha de re­vistas sobre informática.

— Esta é minha Jasmine — disse ele, beijando-lhe nova­mente com paixão. Depois saiu da sala.

Cam acomodou-se no sofá; sentia-se estranhamente divi­dido. Por um lado, estava satisfeito, feliz por ter encontra­do Lisa e em paz consigo mesmo. Imaginava-se casado com ela e morando ali, bem à vista das areias prateadas. Possuía uma boa quantia de dinheiro guardada, que poderia usar para aumentar a casa quando viessem os filhos. Cam, mari­do e pai. Gostou do som daquelas palavras.

Mas outra parte sua continuava sendo Cam, o agente se­creto, e esse ser era tenso e nervoso. Olhava constantemente para o telefone, esperando uma ligação de Santini. Queria ação e queria já.

A chuva continuava a cair e ficara mais frio. A praia de­saparecera atrás de um denso nevoeiro e nada se avistava além da varanda. Na hora do almoço Lisa acendeu a larei­ra, e Cam disse que conhecia um modo mais prático de se aquecerem; mas logo depois, com um beijo, ela voltava pa­ra o computador.

Cam ficou vagueando pela sala e acabou se sentando no­vamente para ler. As horas passavam lentamente.

— Viva! — Lisa gritou quando eram cinco horas. Cam levou um susto e largou a revista que folheava.

— Prontinho! Tudo terminado! — disse ela vindo para a sala, um sorriso alegre no rosto. — Os dois estão no maior beijo apaixonado, jurando amor eterno. O vento está a fa­vor, as velas enfunadas, enfim, um final feliz.

— Parabéns — cumprimentou Cam sorrindo para ela. — outro final feliz?

— Sempre, um final feliz. Isso é certo. Amanhã eu corrijo, passo pela impressora e mando ao meu editor. — E desabou no sofá.

— Está muito cansada para começar a corrigir depois do jantar?

— Prefiro fazer tudo num só dia, assim não perco a continuidade da história. Por quê?

— É que eu me sentiria melhor com o livro já a caminho — ele disse preocupado.

— Só mais um dia. É tudo o que eu preciso Cam.

— Então espero que "ele" se atrase por mais um dia.

Apesar do mau tempo, Bret apareceu depois do jantar para jogarem cartas. Antes de voltar para casa, ele aceitou uma xícara de café. Lisa sentou-se no sofá, juntinho de Cam, que passou-lhe o braço pelos ombros e a beijou na têmpora.

— Ah, que lindo! O amor não é mesmo uma maravilha? — comentou o irmão. — Vocês dois estão quase me fazendo chorar.

— Oh, cale a boca! — reclamou Lisa.

— Ei, eu estou muito feliz por vocês dois. Verdade! Sou completamente a favor do amor, contanto que não seja comigo. Ah, Cam, queria lhe dizer uma coisa. A Computadores Peterson fechou um contrato hoje que serve como uma luva para você. Começa no próximo outono.

— É mesmo? — Cam interessou-se.

— A Secretaria de Educação está querendo que a gente instale laboratórios de computação nos ginásios desta região. Nós dizemos quais os equipamentos que devem comprar e depois treinamos o pessoal que vai ensinar as crianças a lidar com os aparelhos. Não vai ser um curso oficial, porque não somos professores formados, mas é melhor assim, pois só as crianças verdadeiramente interessadas procurarão os cursos. Você poderia dividir seu tempo entre a firma e as escolas, e não ficaria preso no escritório o dia todo.

— É interessante — concordou Cam.

— Pense nisso — pediu Bret. — Poderia ser a resposta aos seus problemas. Bem crianças, sei que partirei vossos corações, mas preciso ir embora. E do jeito como estão as ruas, vou nadando, não tem outro jeito. Cam, mantenha contato. Será que deixarão você telefonar antes de levá-lo embora? Não gosto da idéia de ver você e Lisa desaparecerem sem deixar vestígios. E afinal, quando é que eles vão aparecer?

— Não faço idéia. Vou ver se posso avisá-lo, mas não tenho certeza. Já fiz tudo o que podia em relação a esse caso.

— Mas, então, o que está achando?

— Lisa precisa de mais um dia para entregar o livro pronto. Depois disso, só Deus sabe...

— E se você fingisse sair da cidade? — indagou Bret.

— Eles iam me seguir. O chefão está dando as cartas. O remédio é esperar. Só que paciência não é uma das minhas virtudes — afirmou Cam.

— E por acaso você tem alguma virtude? — perguntou Bret, rindo. — Bom, até logo para os dois.

— Boa noite, Bret — Lisa disse, pegando a bandeja com as xícaras de café. Depois, na cozinha, indagou de Cam:

— O que você achou da proposta de Bret sobre o contrato com as escolas?

— interessante!

— Será que você gostaria de fazer um trabalho desses?

— Acho que sim — ele considerou. — Principalmente por saber que as crianças estariam lá por vontade própria, ansiosas por aprender.

— E também resolveria seu problema de ficar fechado num lugar, o dia todo — ponderou Lisa, pensativa.

— É, pode ser...

— Puxa Cam. Será que você não consegue ser um pouco mais positivo? É importante. Estamos falando sobre nosso... seu futuro.

Cam cruzou os braços no peito, com um ar de preocupação no rosto.

— Futuro? — repetiu. — Não dá para planejar tão longe assim. A primeira coisa é torcer pra ter um dia a mais, para que você possa terminar seu livro. Depois, é ver todo esse drama terminado. Como vê, não estou em posição de tomar qualquer decisão quanto ao meu futuro.

— Não entendo porque — retrucou ela, a testa franzida como a dele. — Você sabe exatamente o que sente em rela­ção a continuar ou não sendo um agente secreto. Está aca­bado e pronto. Não vejo motivo que o impeça de planejar alguma coisa nova. Não gostaria de ter pelo menos um plano?

— Claro que sim! Gostaria de encontrar tudo impresso num computador, com dia e hora em que as coisas vão acontecer. Essa é uma das suas fantasias, dessas que você tanto gosta. Olhe, não tenho nenhuma intenção de pôr o carro adiante dos bois. Por que de repente você está me forçando?

— Forçando? Acontece que eu te amo, lembra-se? Acho que tenho o direito de saber onde é que eu me encaixo nos seus planos.

— Mas não tenho nenhum. Não até saber que você já foi interrogada e está a salvo em casa. É só isso que eu quero: ver você em segurança. Todo o resto vai ter que esperar.

— Então eu também tenho que esperar! — protestou ela, erguendo os braços em desespero. — Talvez você fique, tal­vez você vá... quem vai saber? Eu fico quieta e pronto!

— Eu te amo! Será que isso não basta? Você quer tudo bonitinho e arrumadinho, mas não dá para fazer isso agora! Será que é possível você descer das nuvens e enfrentar os fatos?

— Por que você fala tanto em fantasia quando se refere a mim, Cam? Acho que tenho dado provas de ser realista, desde que você saiu correndo atrás daquele sujeito na praia. Também acho muito realista o fato de querer saber se você pretende voltar para as suas selvas ou ficar e manter nosso relacionamento. Você está deixando que um bando de ho­mens escondidos nas sombras controlem sua vida, e a mi­nha também.

— É, as coisas são assim mesmo! — ele berrou. — Dê um tempo, está bem? Eu preciso fazer uma coisa de cada vez. E Lisa, não quero mais falar sobre isso.

Lisa sentiu um aperto na garganta e concluiu que iria cho­rar. Baixou a cabeça e ficou olhando para os pés, de modo que Cam não visse as lágrimas que teimavam em brotar de seus olhos.

— Bem, acho que já entendi — disse, com a voz trêmula.

— Na verdade estou muito cansada e terei um dia difícil amanhã, por isso acho que vou me deitar.

— Lisa, eu...

— Boa noite, Cam — interrompeu ela e saiu correndo.

Cam disse um palavrão e apertou com toda a força a bor­da da pia. Por causa disso sentiu uma pontada forte no feri­mento do braço, mas nem se incomodou. Tinha conseguido magoar Lisa novamente, pensou incrédulo. Será que não percebia como estava preocupado com ela? Como poderia pensar no futuro enquanto aquela situação com Santini ain­da não estivesse resolvida?

Mas ele "tinha" pensado no assunto, percebeu. Já havia visualizado uma vida junto com Lisa, imaginando-a grávida de um filho seu. Planejara até o aumento da casa e, além dis­so, tinha sentido uma fagulha de entusiasmo quando Bret fa­lara sobre o contrato com as escolas.

Então por que não contara tudo aquilo para Lisa? Era por causa de Santini, por medo de que alguma coisa desse errada e ele tivesse que ficar preso à antiga vida para sempre...

Saindo da cozinha, aproximou-se vagarosamente do quarto de Lisa. Estava nervoso. Como é que um homem co­mo ele tremia só em pensar ter que enfrentar uma mulher que pesava uns cinqüenta quilos? Bem, diria a ela que era uma trouxa, pediria perdão e faria figa para que ela não o mandasse dormir no sofá.

Entrou pé ante pé no quarto e esperou que os olhos se acostumassem com a escuridão, então viu Lisa quase escon­dida sob as cobertas.

— Lisa! — chamou baixinho. — Lisa, será que posso fa­lar um instantinho com você?

Animou-se ao vê-la virar-se para ele, embora continuasse calada.

— Oi! — ele disse, fingindo alegria. Não houve resposta.

Cam puxou uma cadeira para perto da cama, sentou-se e inclinou o corpo para frente.

— Eu... bem, eu sinto muito por ter me enfezado com você ainda há pouco, Lisa. Você tem razão quanto a não haver nenhum motivo justificado para eu não começar a pensar no futuro.

Os olhos verdes piscaram uma vez, mas o rosto dela con­tinuou sério.

— Sabe — prosseguiu Cam, limpando o suor da testa com a mão —, é que eu nunca me preocupei com o futuro, isto é, antes de você... Lisa, eu te amo, e... bem, gostaria que você... isto é, será que você... Será que podia ao menos falar alguma coisa? Está me deixando nervoso! — Ao vê-la descontrair-se, Cam murmurou um "obrigado" e tentou re­tomar o assunto: — Bem, onde eu estava?

— Estava dizendo que me amava e falando sem parar so­bre algo que eu devia fazer, ou ser, ou sei lá o quê...

— Ah, é isso! — ele concordou e soltou um suspiro. — Lisa, o que estou querendo dizer é: será que você me daria a honra... bem, estou tentando falar...

— Cameron Porter!

— Droga — ele exclamou atrapalhado —, você aceita se casar comigo direitinho ou vou ter que amarrá-la e levá-la a força ao juiz de Paz? — Puxa, agora tinha posto tudo a perder!

Lisa, vestida só de camisola, atirou-se nos braços dele com tanta força que os dois quase foram para o chão.

— Isto quer dizer que você aceita? — ele indagou sorrindo.

— E será que tenho escolha?

— De jeito nenhum.

— Oh, Cam! Claro que me caso com você. Eu te amo de­mais. Estava desesperada, deitada aqui, sozinha. Não devia ter insistido tanto e peço que me desculpe.

— Você não insistiu, só apontou alguns fatos. Lisa, eu te amo e quero passar o resto da minha vida tentando fazer você sorrir. Eu... mas você está chorando? E agora, o que é que eu fiz?

— Nada, seu tonto. E que estou muito feliz.

— Bem, então não chore... suas lágrimas me deixam ar­rasado — confessou ele, tocando os lábios dela.

Lisa agarrou-se a ele, apertando os seios contra o peito forte, e devolvendo o beijo com igual ardor. De repente Cam ficou tenso e ela encarou-o surpresa.

— O que foi? — perguntou.

— Você ouviu? Alguém está batendo na porta da frente.

CAPÍTULO VIII
— Ah, não! — Lisa sussurrou agarrando-se a Cam. — São eles, Cam!

— Calma — ele pediu, carregando-a e colocando-a na ca­ma novamente. — Fique aqui. Não saia deste quarto a não ser que eu venha buscá-la.

— Mas...

— Eu te amo. — Cam a beijou rapidamente e depois saiu, fechando a porta.

Lisa pulou da cama e correu para a porta, encostando o ouvido na madeira.

Cam a estava protegendo novamente. Ainda bem. A últi­ma coisa que queria era abrir a porta naquele instante. Ele a pedira em casamento! Tudo era lindo, maravilhoso, fan­tástico e... complicado. Afinal podia ser só algum vendedor de enciclopédia... Ela ia ficar bem, assim que controlasse o tremor que percorria seu corpo...


Cam abriu a porta e deu com dois homens igualmente ves­tidos com terno e gravata escuros e camisa branca. Um já era meio velho e o outro, um pouco mais moço. Os dois se encolhiam de frio.

— Porter, deixe-nos entrar — pediu um deles. — Está mui­to úmido aqui fora.

Cam levantou a mão e meneou a cabeça.

— Minha mãe sempre me disse para não permitir estra­nhos em casa. Que tal alguma identificação, minha gente?

Os homens apresentaram suas carteiras, lançando olhares furiosos. Cam examinou cada uma com a maior atenção, co­mo alguém que tivesse dificuldade em ler. O mais moço soltou um palavrão e Cam olhou para ele de cara feia, devolveu as carteiras e se afastou da porta.

— Bem, acho que podem entrar, mas não quero que se sentem, senão vão molhar o estofado.

— Você é um chato, Porter — reclamou o mais moço.

— Eu? — indagou Cam, a mão no coração. — Ora, Tom, você me ofende. Não se incomoda de eu chamá-lo de Tom, não é? E você é Jerry? — perguntou ao homem mais velho. — Tom e Jerry... parece que conheço os dois...

— Cale a boca, Porter — disse Jerry. — Já causou bas­tante encrenca. Cabeças estão rolando por sua causa.

— Ora, não me diga...

— Não sei como conseguiu, mas o homem em pessoa quer vê-lo, e à moça também. Arrumem suas coisas, os dois. Es­tamos com pressa.

— E a moça também tem pressa. Ela precisa de mais um dia para terminar uma coisa muito importante para sua carreira.

— De jeito nenhum — objetou Jerry. — Temos ordens a cumprir.

— Droga — Cam reclamou. — Primeiro preciso avisar o irmão dela.

— Bret Peterson? Tudo bem, ele está limpo. Faça a liga­ção daqui, de onde possamos ouvi-lo.

— Está bem, está bem, mas antes vou falar com Lisa.

— Ande depressa — disse Tom. — Estamos congelando nestas roupas molhadas.

— A maior parte das pessoas tem juízo o bastante para não sair de casa com uma chuva dessas — Cam falou por cima do ombro.

— Estou começando a não gostar de você, Porter — dis­se Tom.

— O que é uma pena — Cam retrucou saindo da sala. Lisa saltou quando Cam entrou no quarto. Ele fechou a porta e pousou as mãos nos ombros dela.

— Não consegui escutar nada — ela revelou. — Era um vendedor de enciclopédia?

— Não era bem isso — respondeu Cam sorrindo de leve.

— Lisa, há dois agentes lá na sala e teremos que ir com eles. Arrume algumas roupas e objetos pessoais, coisas simples. Eu pedi a eles mais um dia, mas não deu certo. Sinto muito.

— Eu estou adiantada, tenho algum tempo de sobra até entregar o livro. Mas, Cam, para onde vão nos levar?

— Não sei, e não adianta perguntar. Vista-se e arrume suas coisas. Vou avisar Bret. Droga, você parece tão assustada!

— Estou bem — assegurou ela, séria. — Não se preocupe comigo, não vou ter uma crise. Isto servirá como pesquisa, se algum dia eu resolver escrever um livro sobre espionagem...

Cam deu-lhe um beijo apaixonado e saiu depressa do quar­to enquanto Lisa ficava parada, os dedos apertados contra os lábios.

Depois respirou fundo e tratou de correr. Tomou um ba­nho rápido, vestiu jeans e um suéter preto, decidindo que a cor combinava com a situação, e depois pegou duas male­tas. Tinha começado a arrumar a roupa de Cam quando ele voltou.

— Já falei com Bret — avisou enquanto jogava o apare­lho de barba dentro da maleta. — Você deve ligar para ele assim que voltar para casa.

— Você acha que não vamos voltar juntos?

— Tomara que não. Espero que eles vejam logo que você está falando a verdade, que não sabe de nenhum detalhe, e assim a liberarão rapidamente. Lisa, essa gente é do gover­no e ninguém vai torturar você. É gente decente fazendo seu trabalho. Não há motivo para ficar com medo se nos sepa­rarem, o que eu acho que vai mesmo acontecer. Coopere, diga a verdade, e logo tudo estará terminado.

Lisa não conseguia falar e só assentiu com a cabeça. Que­ria que Cam a abraçasse mais uma vez, mas ele apenas apa­nhou as maletas e fez um gesto em direção à porta.

— Vamos — murmurou.

Na sala, Cam a apresentou aos dois homens que, para seu espanto, a trataram por "senhorita", ao apertarem-lhe a mão. Sem que ninguém dissesse nada, Cam abriu as maletas no sofá e os dois examinaram o conteúdo, fechando-as em seguida. Depois ele levantou os braços e deixou que Tom o re­vistasse.

— E sua arma, Porter, onde está? — indagou Jerry.

Cam foi até o quarto e voltou com um revólver, entregando-o a Jerry. Lisa estremeceu. Era muita coisa de uma só vez... Quando Cam estendeu-lhe a capa de chuva, ela ficou olhando sem entender.

— Está tudo bem... calma — tranqüilizou ele, ajudando-a a vestir a capa. — Isso é rotina, nada de anormal.

— Srta. Peterson — disse Jerry sorrindo para ela. — Pe­ço desculpas se a assustamos, o que não era nossa intenção. Existem regras que precisam ser seguidas numa situação co­mo esta. O Sr. Porter tem razão, é tudo rotina. Vamos dar uma volta, falar com algumas pessoas, e se tudo der certo estará de volta antes do que imagina. Falando nisso, sou um grande admirador de Jasmine Peters. Já li todos os seus livros.

— Oh, muito obrigada — Lisa agradeceu, conseguindo sorrir. — Agora já estou bem.

Cam agradeceu a Jerry com um aceno, por cima da cabe­ça de Lisa, e os quatro saíram da casa. Lisa, Cam e Jerry subiram na parte de trás de um furgão, onde não havia ja­nelas, enquanto Tom pegava a direção. No interior havia ban­cos estofados e Cam segurou a mão de Lisa.

Jerry puxou conversa, elogiando os livros de Jasmine en­quanto Cam dava a impressão de estar completamente rela­xado, a cabeça recostada, os olhos fechados. Mas Lisa sentia a tensão emanando do corpo dele e percebeu quando ele es­ticou um dedo, outro um pouco depois e outro em seguida.

De algum modo Cam estava mapeando o percurso que se­guiam, Lisa percebeu admirada. E fazia aquilo por ela, para dar-lhe ao menos uma vaga noção de onde estavam. Oh, co­mo adorava aquele homem!

A viagem continuava, assim como os movimentos discre­tos dos dedos de Cam. Depois, pegou os da mão de Lisa e começou a brincar com eles, dobrando-os um após o outro. Como ela os deixasse do jeito que ele colocava, Cam a bei­jou na têmpora.

— Você tem acompanhado o campeonato de beisebol, Cam? — Jerry perguntou.

"Droga", pensou Lisa, "Jerry vai atrapalhar os cálculos de Cam com essa conversa". Mas Cam respondeu calmamen­te, dando sua opinião sobre diversos jogos enquanto conti­nuava dobrando os dedos dela. Que ótimo, ela respirou aliviada, ele não tinha perdido a conta.

Cerca de uma hora depois o furgão parou.

— Vou ter que colocar venda nos dois — avisou Jerry. — Sinto muito, mas...

— Não tem problema — disse Cam. — Lisa, segure-se em mim para não tropeçar. Não quero que você tropece, está entendendo?

— Sim, eu compreendo — ela respondeu. Tinha que tro­peçar. Já estava começando a pegar as coisas...

Tinha parado de chover, mas o ar ainda estava frio e úmi­do. Lisa agarrou-se em Cam e foram caminhando, as ven­das amarradas com firmeza.

— Estou segurando o braço de Jerry — Cam avisou. — Estamos indo muito bem.

— Ai! — exclamou Lisa, depois de uns quinze passos. Cam estendeu o braço e a amparou, encostando os lábios no ouvido dela.

— Ainda estamos em Malibu — informou bem baixinho e depois, no volume normal de voz: — Você está bem? — Em seguida sussurrou novamente: — Demos uma grande vol­ta e estamos praticamente no seu quintal.

— Sim, eu estou bem — assentiu Lisa. — Eu não sabia por onde estava indo... mas agora estou melhor. Obrigada.

— Estamos quase chegando — avisou Jerry. — Subam três degraus. São largos, por isso vão devagar... assim... um, dois, três. Agora uns três metros até a porta.

Uma golfada de ar quente os recebeu, e Jerry avisou que podiam tirar as vendas. Assim que as retiraram, Cam deu uma de suas célebres piscadas para Lisa, cujo coração deu um salto.

Tom chegou e subiu por uma escada em caracol à direita. Estavam parados num hall bem grande com um candelabro de cristal faiscando acima de suas cabeças. À esquerda fica­va uma enorme sala de jantar só com uma lâmpada acesa. Toda a mobília estava coberta com panos brancos.

— Jerry — Tom chamou do alto da escadaria — pode trazê-los.

— Está bem. Srta. Peterson, as damas primeiro.

Já em cima, Tom abriu uma porta e fez Lisa entrar. Ela hesitou e olhou para Cam interrogativamente.

— Pode ir, Lisa. — Ele respondeu, aparentando calma. — Não vai acontecer nada com você, não é, Tom?

— Dou minha palavra — assegurou Tom. — Venha, Por­ter e pare de olhar para mim como se quisesse me bater. Sua garota está a salvo com o agente. Nós não somos animais.

— É, eu sei — ele falou, suspirando fundo e beijando de leve os lábios de Lisa. — Até mais...

Lisa conseguiu sorrir e entrou no quarto. Era bonito e muito bem decorado em tons de rosa e cinza. Ela se sentou numa poltrona e esperou, mas logo levantava os olhos, assustada ao ver a porta se fechando e Tom sorrindo para ela.

— Quer jogar cartas? Pode escolher o jogo, mas a aposta mínima é um milhão de dólares.

Apesar de tudo Lisa caiu na risada.


No fim do corredor, dois homens enormes ladeavam uma porta, os braços cruzados na frente de peitos largos e fortes.

— O que é que eles comem? — Cam perguntou, fazendo um gesto com a cabeça na direção dos dois. — Carne crua?

— Olhe Porter, fique calmo. Não há perigo nenhum. Tom está jogando cartas com Lisa, pode ficar sossegado. Agora entre. Ele está esperando por você.

Cam deu mais uma olhada nos dois gigantes perto da por­ta e entrou no que parecia ser o quarto principal da casa. Fechou a porta atrás de si e viu um homem se aproximando.

— Olá, Cam — cumprimentou ele.

— Você é Santini — adivinhou Cam, de olhos apertados — Reconheço a voz, mas...

— Não sou como você imaginava, não é? — o outro dis­se, sorrindo diante da expressão surpresa de Cam. — É, acho que não sou mesmo...

Era um senhor miúdo, de rosto enrugado e cabelos com­pletamente brancos.

— Você mais parece o padrinho de alguém.

— Mas sou mesmo o padrinho de alguém — concordou ele, caindo na risada. — Sente-se. Quer uma bebida?

— Não, obrigado — Cam respondeu, observando o ou­tro sentar-se à sua frente. — Santini, quero Lisa fora daqui.

— Tenho certeza que quer — retrucou Santini, encarando-o com firmeza. — Gostaria que você me informasse exata­mente o que ela sabe. O que você contou a ela?

— Santini, as coisas não ocorreram bem assim. Vou lhe dizer tudo o que a própria Lisa me contou.
À uma hora da tarde do dia seguinte, Lisa entrava em ca­sa e corria para os braços de Bret.

— Eu estava morrendo de aflição — confessou ele alivia­do. — Por isso resolvi acampar aqui. Você está bem?

— Sim. Não. Acho que sim. Oh Bret, eu não vi mais Cam desde que nos separaram, logo depois de chegarmos lá. Eu ganhei quarenta e dois milhões de dólares de Tom, e conver­sei com o homenzinho, o tal Sr. Smith, que parecia um duen­de, e ele me disse que Cam ia passar algum tempo com velhos amigos. Mas não me deixaram vê-lo. O Sr. Smith falou que eu havia deixado muita gente embaraçada por ter descober­to o tal sujeito na lanchonete e percebido que Cam era um agente secreto. Mas disse também que respeitava minha in­teligência, que tinha lido Jasmine Peters e... Oh, Bret... eles não me deixaram mais ver Cam... — Lisa começou a chorar.

— Quarenta milhões de dólares? — Bret indagou espantadíssimo.

— Bret, eles pegaram Cam!

— Querida, ele tem que ficar detido por uns tempos, vo­cê sabe disso. Vamos nos sentar, está bem?

Lisa afundou-se no sofá e enxugou as lágrimas.

— Sinto muito, mas estou muito nervosa. Eles foram mui­to educados, me trataram bem, mas eu estava apavorada. Queria ver Cam mais uma vez antes de vir para casa, mas não deixaram. Bret, nós não saímos de Malibu. Cam conse­guiu descobrir que demos apenas uma grande volta para che­garmos na casa onde ficamos detidos.

— Bem, mas agora acho que ele não está mais na cidade — conjeturou Bret. — Acho que eles têm algum lugar pró­prio para usar numa situação como essa.

— Então só posso mesmo esperar. Oh, Bret... sinto tanta falta dele. Cam me pediu em casamento e eu aceitei, mas nesta situação... Odeio o que está acontecendo. Não tenho a me­nor idéia de quando Cam vai voltar.

— Bem, os dias talvez passem depressa. Termine seu li­vro. Você vai ver Lisa, o tempo vai voar.

Mas não voou. O tempo tornou-se um inimigo com o qual Lisa não contara. Escoava lentamente em segundos, minu­tos, horas e depois dias e noites de angústia e insônia. Lisa sonhava com Cam, morta de saudade, chorava a ausência dele.

Uma semana... sete dias...

O livro ficou pronto, e o editor ligou de Nova York dizen­do que era o melhor que ela já escrevera. Lisa visualizava o pirata da história e enxergava Cam.

Ela procurava encher o tempo trabalhando. Retirou na bi­blioteca uma pilha de livros sobre o velho Oeste para come­çar a pesquisa para o próximo romance. Pensou em como seria o vaqueiro, alto, moreno e rude, e só enxergava Cam.

Catorze dias se passaram...

Bret aparecia sempre. Levava-a para jantar ou lhe trazia pizza, ou comida chinesa, e ficavam jogando cartas. O edi­tor aceitou o livro, e Bret quis comemorar.

Vinte e um dias depois...

A pesquisa terminou, o enredo e os personagens já esta­vam definidos e Jasmine Peters começou a escrever, enquanto Lisa Peterson continuava sonhando com Cam e morrendo de saudade dele.

"Vinte e três dias", constatou Lisa uma manhã bem cedinho, olhando para o calendário. Suspirando levou a xícara de café para a varanda e acomodou-se na espreguiçadeira. O nascer do sol era espetacular, mas ela nada via. Não con­seguia alegrar-se também como o primeiro capítulo do novo livro de Jasmine Peters. Levantou-se e, junto ao gradil, fi­cou observando a praia, o mar e o céu bem azul.

— Praia prateada... — disse baixinho. — Oh, Cam, on­de você está? Quando vai voltar para mim?

— Lisa...

Ela sorriu, ainda olhando a paisagem, lembrando-se da voz quente de Cam dizendo seu nome com tanta clareza como se estivesse ali ao seu lado.

— Lisa, cheguei...

Sim, eram exatamente essas palavras que ela tanto deseja­va ouvir. Significariam o fim de seu tormento e uma infini­dade de amanhãs cheios de aventura. Mas isso demorava a acontecer, e ela continuava a lutar contra o tempo, seu inimigo.

— Lisa, você ainda me ama? Você ainda me quer? Lisa estranhou. Por que sua imaginação estava sendo tão cruel? A voz então tornou-se um gemido estrangulado que a fez estremecer.

— Por Deus, Lisa... Por favor!

Ela se virou de repente, os olhos grudados na figura que aparecia ao pé da escada. Não conseguia respirar e seu cora­ção disparava.

— Cam? — murmurou, as lágrimas começando a turvar-lhe a vista. — Cam Porter, é você? — gritou, e disparou de­graus abaixo.

Atirou-se nos braços dele soluçando e enterrou o rosto em seu ombro. Cam abraçou-a apertado e ela ficou, os pés lon­ge do chão.

— Lisa, minha Lisa... — Cam murmurava, a voz cheia de emoção.

— Cam — ela perguntou, o rosto lavado em lágrimas — é você realmente? De verdade? Oh, até que enfim você está em casa. Senti tanta saudade... eu te amo! Você é a minha vida!

Cam colocou-a cuidadosamente no chão mas não a lar­gou. Com um gemido tomou-lhe os lábios e a beijou em de­sespero, procurando sentir o gosto, o sabor de sua Lisa. A paixão invadia-lhes os corpos, exigindo satisfação; Lisa sentia-se em brasas, e Cam não suportava mais de tanta excitação.

O tempo não era mais inimigo, agora fluía. A praia, a ca­sa, o mundo desaparecia numa névoa, e só existiam Cam e Lisa, e o amor que unia os dois.

Cam levantou a cabeça, quase sem poder respirar, os olhos mais brilhantes do que nunca.

— Quero você — disse, a voz rouca de desejo. — Quero fazer amor com você. Depois a gente conversa, eu prometo. Agora só quero amá-la...

— Oh, Cam!

— E essas lágrimas são de alegria?

— Você sabe que são.

— Então é melhor eu me acostumar, pois pretendo pas­sar o resto da vida lhe dando alegrias. E se você ainda duvi­da que estou aqui, posso provar agora mesmo que sou bem real. Nunca mais vou sair de perto de você, amor.

— Oh... oh... — ela recomeçou a soluçar.

— Não sei se vou conseguir entender você com tanta feli­cidade... — ele disse, pegando-a no colo e subindo a escada.

Lisa riu e escondeu o rosto no ombro dele, que só a colo­cou no chão quando chegaram no quarto.

Cam beijou-a apaixonadamente. Depois tirou-lhe toda a roupa e segurou os seios fartos com as mãos, enquanto ela trançava-lhe os dedos pelos cabelos. Depois foi Cam quem se despiu e, impacientes, caíram abraçados sobre a cama, sor­rindo, trocando beijos, cadeias.

Lisa sentia-se viva novamente e logo se sentiria inteira, com­pleta: quando unisse seu corpo ao de Cam.

— Cam, por favor! — ela pedia, até que ele cumpriu o que prometera, dando-lhe mais alegria e uma satisfação.

Os corpos brilhavam de suor, os corações disparavam enquanto a cadência aumentava e eles chegavam mais perto do êxtase.

— Cam! — ela finalmente gritou, agarrando-se aos om­bros dele, enquanto Cam também chamava cheio de paixão:

— Lisa!
Finalmente Cam estava em casa, e o coração e a mente de Lisa cantavam.

— Olá — ela disse, abrindo os olhos e sorrindo para ele.

— Olá — Cam respondeu, erguendo-se um pouco e beijando-lhe de leve os lábios.

Só então Lisa reparou na feia cicatriz rosada no braço dele.

— Já tirei os pontos. Está ótimo — Cam tranqüilizou-a. — Não sei se vou conseguir um modo de contar a você co­mo esses dias e noites foram longos...

— Uma eternidade, eu sei — anuiu Lisa. — Às vezes eu ficava apavorada por não saber onde você estava... e nem sabia por quanto tempo teria que manter minha coragem...

— Não posso lhe contar onde estive, Lisa, mas agora tu­do já passou. Vou me sentir sempre culpado por ter-lhe cau­sado tudo isso, mas isso já é coisa do passado. Aliás, eu tenho um recado para você. Tom mandou dizer que vai lhe pagar os quarenta e dois milhões de dólares em suaves prestações de um dólar ao ano.

— Parece justo. Preciso ligar ao Bret e dizer que você já voltou. O coitado do meu irmão teve muita paciência para me agüentar nestas três últimas semanas.

— Você terminou o livro?

— Sim, e o editor o aceitou sem exigir nenhuma mudan­ça, o que é ótimo. Já comecei uma nova história, ambienta­da no velho Oeste. Se não fosse esse meu trabalho, acho que teria ficado louca de aflição.

— Acho que é para isso que serve a fantasia — conjeturou Cam, saindo de cima dela —para fugir da realidade. Venha cá — disse, ajeitando-a ao seu lado.

— Não fujo da realidade quando escrevo. Fique sabendo que é trabalho sério, meu caro.

— Se você diz isso... — assentiu ele e bocejou. — Descul­pe. É que fiquei acordado a noite toda.

— Verdade? Então é melhor dormir um pouco.

— Eu queria mesmo era ficar fazendo amor com você ho­ras seguidas, mas estou esgotado. Só que me recupero bem rápido. Vou tirar só um cochilo e acordarei novo em folha.

— Você está com fome?

A resposta foi uma piscadela sexy, e Lisa caiu na risada. Fechando os olhos, ele suspirou fundo e ainda perguntou:

— Lisa, quer casar comigo?

— Sim, Cameron, eu quero. Durma bem, meu amor. Durante a meia hora seguinte Lisa não se mexeu. Ficou deitada olhando Cam dormir. Parecia uma atitude boba, mas ela não se importava. Admirando cada pedacinho daquele corpo bem-proporcionado, já sentia dentro de si a labareda do desejo se acendendo novamente ao imaginar o que ia acon­tecer quando ele acordasse. Enfim Cam voltara para casa...

— Eu te amo — disse bem baixinho, e em silêncio saiu da cama.

Mais tarde, depois de ter tomado banho e colocado o short e a camiseta que estava usando um pouco antes, olhou no relógio e resolveu checar se Bret ainda não tinha saído para o trabalho. Ligou o computador e escreveu: "VOCÊ ESTÁ AÍ OU JÁ SAIU PARA GANHARA VI­DA?"

Alguns minutos se passaram e então as palavras começa­ram a aparecer na tela verde.



"JÁ ESTAVA NA PORTA. O QUE HOUVE?"

"MEU PIRATA VOLTOU PARA CASA" Lisa digitou, sorrindo.

"VERDADE? CAM VOLTOU PARA O MUNDO DOS VIVOS? QUE ÓTIMO! O CASAMENTO AINDA ESTÁ DE PÉ?"

"É MELHOR IR SE PREPARANDO. MUITO OBRIGA­DA POR TUDO, VOCÊ FOI UM AMIGO. "

"ADORO VOCÊ, MENINA. E GOSTO DO GRANDÃO COM QUEM VOCÊ VAI SE CASAR. A GENTE SE VÊ QUANDO VOCÊS RECUPERAREM O TEMPO PERDI­DO! AGORA TENHO QUE CORRER. "

Lisa jogou um beijo ao computador e voltou seu pensa­mento ao homem adormecido em sua cama.

— Jasmine — disse alto, endireitando o corpo na cadeira —, já para o trabalho! Será que não tem pena do coitado do vaqueiro sentado já há tanto tempo naquele cavalo?

Uma hora mais tarde ria da própria infantilidade. A cada dez minutos ia dar uma olhada em Cam, que continuava dor­mindo a sono solto, um dos braços jogado acima da cabeça.

"Agora podemos nos casar logo", Lisa pensava. Não ha­via mais nada que os impedisse. Ou será que havia? Ela es­tava presumindo que Cam ia trabalhar na Computadores Peterson, mas ele tinha confirmado aquilo? Não, apenas dis­sera que começaria a pensar no futuro quando estivesse li­vre. O que faria na verdade? Assim que ele acordasse, combinariam tudo. Enquanto isso era melhor voltar a es­crever e se concentrar por um período maior do que apenas dez minutos.

Ela tentou recomeçar a história, mas parou novamente diante do teclado do computador. Dissera a Cam que escre­ver era um trabalho duro, e o que ele respondera mesmo? "Se você diz isso...", insinuando que o fato de ela escreve nada mais era do que uma fuga ao mundo da fantasia. Cam não tinha idéia da dimensão e dos desafios de sua carreira.

Bem, não havia problemas. Lisa sorria novamente. O pior já havia passado. Iam se casar e conviver com todos os as­pectos da vida em comum. Cam veria como era difícil a pro­fissão de escritora, e ela já conhecia o mundo dele, o mundo da computação.

"Tudo vai dar certo", pensou ela. "Agora Cam está em casa."



CAPÍTULO IX
Mergulhando numa zona enevoada, entre a lucidez e a sonolência, Cam tinha pensamentos confusos. Teria de jogar cartas com Tom e Jerry por mais um dia inteiro. No momento em que se visse livre de tudo aquilo, nunca mais pegaria num baralho... e nem provaria mais macarronada. Já estava cheio de macarronada...

— Espere aí — disse a si mesmo, sentando-se ereto.

Deu uma olhada à volta e sorriu feliz. Estava em casa. O en­volvimento com Santini terminara e o futuro pertencia apenas a ele e Lisa.

— Tudo vai dar certo — garantiu em voz alta, saltando da cama.

Tomou banho, vestiu roupas limpas e foi procurar Lisa. Encontrou-a concentrada em frente à tela do computador. Deu-lhe um beijo no pescoço.

— Oh! — Lisa surpreendeu-se. — Você me assustou. Dor­miu bem? Que horas são?

— Passa um pouco das duas. Você já almoçou?

— Não.


— Então, vamos comer — convidou ele, puxando-a pela mão.

— Mas estou bem no meio de uma frase.

— Ela espera. Venha, linda donzela. Seu pirata está esfomea­do. — Encantado com o sorriso de Lisa, ele a abraçou e beijou longamente. — Comida — Cam insistiu, os lábios roçando os dela.

— Você quer... — Lisa tentou dizer, recuperando o fôlego — uma omelete?

— Grande idéia!

Logo depois sentavam-se à mesa e Cam disse depois da pri­meira garfada:

— Delícia! E não é macarronada. Acho que vai levar anos até que eu possa enfrentar novamente um prato de massa.

— Você só comeu isso? Está bem, então nada de macarrão nos próximos cinco anos.

— Lisa, você nem imagina como isso soa bem. Poder falar em ficarmos juntos anos e anos, para sempre. Olhe, eu gostaria de marcar o casamento o mais breve possível, mas, se preferir fazer uma grande festa, se for isso o que você sempre desejou, não quero desapontá-la.

— Não, eu não gosto dessas festas muito produzidas. Há uma pequena capela aqui perto que seria perfeita. Meus pais estão fazendo um cruzeiro marítimo e só voltam daqui a alguns meses. Vão ficar um pouco desapontados por perderem a cerimô­nia, mas terão de compreender. E suas irmãs?

— Comunicaremos depois. É complicado para elas virem: as duas têm filhos pequenos. — Cam a fitou nos olhos. Irradia­va felicidade. — Então está certo assim? Trato dos papéis e pronto. Bret será meu padrinho e você escolhe uma madrinha.

— Minha amiga Tracey. Fizemos o ginásio juntas, e eu fui madrinha dela nos três casamentos.

— Três?

— Ela tem péssimo gosto em relação aos homens. E quanto à Companhia de Computadores Peterson?



— Eu ia falar com você na noite em que fomos tão rudemente interrompidos. Eu vou aceitar o convite de Bret, e me decidi por causa do contrato com as escolas. É um desafio e também terei oportunidade de sair do escritório. Espero que Bret não tenha dado meu emprego a outro, enquanto estive fora.

— Não, claro que não. Ele me disse outro dia que torcia pa­ra que você pensasse bem no caso enquanto estava detido.

— Pensei em muitas coisas — Cam disse baixo. — Na mi­nha vida toda e em você. Quase fiquei louco de tanto pensar em você.

— Sei o que é isso...

— Na verdade Lisa, estou me casando com você por causa da sua casa.

— E por causa das minhas areias prateadas — ela disse rin­do. — Eu já havia percebido isso.

— Tenho um bom dinheiro no banco, em Washington, só esperando para ser gasto. Planejei reformar e aumentar esta casa para... Bem, para o caso de você querer... Nós ainda não conversamos...

— Acho uma graça quando você fica gaguejando assim — ela observou, meneando a cabeça. — Por acaso está se referin­do ao nosso bebê?

— Ah, é isso. — Cam estalou os dedos. — Quero um bem parecido com você.

— Ou então com você. Sim, quero ter um filho seu. Ah, é tudo tão maravilhoso que eu tenho até medo de acreditar.

— Mas é verdade. Acabe de comer, depois vamos fazer um exame de sangue e comprar as alianças.

— Hoje?


— Isso mesmo. Não quero perder mais tempo.

— Bem, eu gostaria muito de terminar pelo menos o capítu­lo que estava escrevendo quando você me chamou.

— O pirata vai continuar lá quando voltarmos.

— Agora é um vaqueiro.

— O vaqueiro — ele assentiu, olhando bem dentro dos olhos verdes de Lisa. — Será que não prefere ir acertando as coisas para se tornar a Sra. Cameron Porter?

— Isso parece um sonho — ela murmurou sorrindo apai­xonada.

— Ótimo. Então coma logo para a gente sair.

Já passava da meia-noite quando voltaram para casa. Haviam esperado muito para fazer os exames. Depois escolheram duas alianças simples de ouro escovado; tinham ainda visitado a capela e acertado a hora para a cerimônia. Em seguida haviam en­contrado Bret, quando este acabava de chegar do trabalho. Ele ficara satisfeitíssimo com as novidades e insistira num jantar de comemoração pelo casamento próximo e pela decisão de Cam de ser seu sócio na Companhia.

Não faltou champanhe, e todos se divertiram muito, mas Lisa não lembrava como havia chegado em casa, ao acordar tarde na manha seguinte.

— Ai, ai... — queixou-se, segurando a cabeça.

— Problemas? — Cam indagou da porta do quarto, um ar de inocência no rosto.

— Minha cabeça está doendo. E meus olhos, meu nariz, meus dentes, e até meu cabelo dói.

— Quem mandou se embebedar? — ele indagou rindo.

— Não fiquei bêbada! Aliás... fiz isso mesmo, mas me diverti a valer, não foi?

— É verdade — Cam concordou, sentando-se à beirada da cama. — Tínhamos muito a comemorar, e como eu sou um sujeito bonzinho, vou lhe trazer uma xícara de café e uma aspirina. Será que sua cabeça vai piorar, se eu a beijar?

— Beije minha boca, não minha cabeça. Minha boca não dói nadinha.

— Já entendi — ele sussurrou, baixando o rosto para ela e fazendo-lhe uma trilha de beijos da boca até o pescoço. — Senti falta de você esta noite — murmurou.

— Eu estava aqui.

— Mas apagada não conta. Imagine o que senti ao tirar suas roupas e vestir-lhe a camisola.

— Verdade? Coitadinho.

— Está interessada em tirar novamente a camisola?

— Imaginei que nunca fosse perguntar — confessou ela, começando a desabotoar a camisa de Cam.

Então fizeram amor, doce e lentamente... Depois tomaram banho juntos, comeram algumas frutas que encontraram na geladeira e, ao entardecer, andaram de mãos dadas pela praia, conversando bobagens e rindo muito. Ao voltarem para casa, foram novamente para a cama, e juntos se entregaram novamente ao amor. Só então dormiram, cansados e em paz.

Lisa franziu a testa, sacudiu a cabeça e pressionou a tela do computador, rolando o texto na tela, para ler mais uma vez o que havia escrito. Tinha tomado um café rápido com Cam e depois sentara em frente ao vídeo com a intenção de prosseguir a história do vaqueiro.

Agora, uma hora mais tarde, não produzira nada. Tinha relido os últimos parágrafos, como fazia sempre antes de recomeçar a escrever, mas não conseguia se concentrar. Cam havia dito que arrumaria a cozinha, e ficara cantando alto uma música de FM. Depois ele fora até o quarto, pois resolvera trocar os lençóis da cama, e continuava a cantar em alto e bom som, só que completamente desafinado.

— Uma vaca morrendo — disse Lisa, trincando os dentes. — O danado canta como uma vaca morrendo...

Deixou o computador, pisando duro, e encontrou Cam no corredor com os braços cheios de lençóis, ainda aos berros.

— Detesto ser desmancha-prazeres — interrompeu, aborrecida —, mas não dá para cantar baixo?

— O quê? — ele perguntou surpreso.

— Não consigo me concentrar com... com isso que você está fazendo.

— Estou cantando.

— Não tente viver disso, pois morreria de fome.

— Oh! É assim tão ruim?

— Pior!


— Ora, querida! Eu estava cantando uma música country — ele disse sorrindo —, para dar mais clima à sua estória.

— Silêncio, está bem? — Lisa pediu, um dedo nos lábios.

— Sim, madame. O que a senhora mandar...

— Obrigada — ela disse, girando nos calcanhares e marchando para a sala do computador. Quando ia se sentando...

— Lisa! — Cam chamou da porta.

— Ai! — Ela gritou. — Não é possível!

— Eu só quero saber quanto sabão coloco na máquina de lavar roupa.

— A medida está indicada na caixa — ela disse virando-se na cadeira. — Mais alguma coisa? Ei, por que está tão nervosa? Concordamos que eu só começaria a trabalhar com Bret depois do casamento e de uma curta lua-de-mel. Você está agindo como se eu estivesse incomodan­do, atrapalhando.

— Oh, Cam! — ela suspirou. — Claro que não está incomo­dando. — Foi até ele, abraçou-o apertado e explicou: — É que eu não estou acostumada com ninguém perto de mim quando escrevo. É só isso.

— Então não escreva mais até que eu comece a trabalhar — ponderou ele. — Tenho certeza de que descobriremos muitas formas de passar o tempo até lá.

— Não seja bobo. Tenho uma programação diária e, se não cumprir, não entrego o livro no prazo.

— Mude a data de entrega.

— Não posso, Cam. Não posso mudar um contrato. Eles en­tenderiam se houvesse alguma emergência, mas não vou pedir um adiamento por causa de uma bobagem.

— Bobagem? Eu? Nós? Será que passarmos juntos esses pou­cos dias é bobagem para você? — ele indagou aborrecido.

— Sim. Não. Droga, Cam, isso não é justo. Na verdade eu deveria até estar adiantando o livro para compensar o tempo em que viajarmos na lua-de-mel. Eu não sabia que você ia entrar na minha vida quando concordei com os prazos de entrega.

— Bem, mas agora eu estou aqui — ele afirmou, elevando a voz —, e acho que você poderia muito bem pegar esse telefo­ne e avisar seu editor que a situação mudou. Diga a ele que você resolveu viver no mundo real, junto comigo, em vez de passar seus dias no mundo da fantasia.

— O quê?

— Você não precisa mais dessa forma de escapismo. Posso entender por que se enterrou nisso depois do que Jim Weber lhe fez, mas isso acabou há muito tempo. Já é hora de você voltar à vida real.

— O que você está dizendo? — ela indagou num fio de voz

— Nós podíamos fazer juntos o projeto das escolas, para a firma, você não vê? Pensei muito nisso enquanto estive detido. Seria ótimo trabalharmos juntos. Poucos casais têm a sorte de ter interesses comuns, como nós.

— Não, nós não temos interesses comuns — protestou ela. — Sou uma escritora. Escrevo romances e sou muito boa nisso. Não sou mais uma técnica em computação, nem trabalho para a Computadores Peterson. Você não está entendendo nada. Pen­sa mesmo que estou fazendo algum jogo psicológico enquanto escrevo meus livros? Não tem a menor idéia do grande desgaste mental que há nisso, quanta concentração é necessária.

— São coisas que deveriam ser mais bem utilizadas! — Cam afirmou, falando sério.

A dor foi tão profunda que até a assustou. Lisa sentiu um frio enorme em seu íntimo e apertou os braços à volta do corpo, co­mo que procurando calor. Encarou Cam de olhos arregalados, como se visse um homem estranho, alguém que não conhecia.

— Ah, Lisa, não olhe desse jeito para mim. Eu só disse o que precisava ser dito, e bem no fundo você sabe que tenho razão. Suas fantasias, seus piratas ajudaram quando você estava numa fase de depressão. Mas agora tudo já passou. Você pertence à Companhia de Computadores Peterson, junto comigo e Bret.

— Não! — ela gritou desesperada.

— Sim! Essa é a verdade! Estaremos juntos no projeto das escolas, e depois, quando tivermos o bebê, você poderá traba­lhar em casa, desenvolvendo programas para...

— Não vai haver nenhum bebê! — Lisa berrou, os olhos cheios de lágrimas. — Nem casamento, nem nós dois trabalhan­do juntos em coisa alguma, por nenhuma razão!

— Lisa, pare com isso — Cam disse, preocupado.

— Sim, já estou parando — ela murmurou, a voz repentina­mente sem forças. — Estou parando antes que seja tarde demais. Não quero e não posso manter um relacionamento, um casa­mento, onde meu marido não respeita a minha carreira, a mi­nha profissão. Tenho orgulho do que faço Cam, e sei o que posso levar às vidas das pessoas. Não admito que me ridicularizem na minha própria casa, que queiram me fazer sentir culpada e sem valor por causa do caminho que escolhi. Seu amor por mim não lhe dá o direito de me julgar e de me achar indigna dos seus padrões.

— Eu só disse que...

— Escutei o que você falou. Cada palavra. Vá embora. Por favor, vá embora e me deixe sozinha.

— Não é isso que você quer. — Ele olhou sério para ela. — Quando você se acalmar, vai ver que tenho razão.

— Vá... embora — Lisa conseguiu repetir, ignorando as lá­grimas que escorriam pelo rosto.

— Ótimo, então tenha um ataque, se jogue no chão... — re­trucou Cam, os olhos negros brilhando de raiva. — Estarei na casa de Bret quando você cair em si.

Quando Cam bateu com força a porta da frente, Lisa estre­meceu como se tivesse recebido um golpe. Estendeu a mão trê­mula até uma cadeira e conseguiu sentar-se antes de cair. Respirava com dificuldade e mal via as coisas à sua frente, os olhos marejados.

— Cam? — chamou baixinho.

Não houve resposta. Estava tudo acabado. Arrebentado em milhões de pedacinhos, espalhados como areia ao vento, como as areias prateadas da praia. Cam não conhecia nem respeitava Jasmine Peters. Não podia em hipótese alguma aceitá-lo como marido sabendo que ele tinha uma opinião negativa sobre algo tão importante para ela. Não tivera outra escolha a não ser mandá-lo embora. Só que já estava sentindo falta de Cam...

Ela o amava, sempre o amaria. Só que, além de ser Lisa, era também Jasmine, e ele a queria apenas pela metade. Não ia de­sistir de escrever por causa dele, pois perderia parte da persona­lidade, da identidade. Tinha que se sentir inteira, para se entregar completamente àquele relacionamento de amor.

— Oh, Cam! — repetiu, cobrindo o rosto com as mãos.
Cam corria pela praia, batendo com força os pés no chão, ma­nifestando a raiva que sentia. Tinha ido até a casa de Bret, en­fiara um short velho que deixara lá e saíra novamente, tenso demais para ficar parado. Fora para o lado oposto da casa de Lisa, e logo chegava a uma parte pública da praia.

— Ei, cuidado com essa areia — um velho reclamara.

— Desculpe — dissera Cam sem diminuir a velocidade. Lisa pertencia à Computadores Peterson, ele sabia disso e ela também. Precisava sair de qualquer jeito daquele mundo de ilusão onde vivia. Por que Bret não insistia com ela para que voltasse a trabalhar na firma? Será que ele não via que era mais do que hora de Lisa voltar para o mundo real? Cam, o futuro dos dois, a vida que planejaram juntos, tudo fazia parte do mundo real, e ela não tinha mais razões de fugir disso. Ele a amava demais e a protegeria... E se não parasse logo de correr, seus pulmões iam explodir!

Diminuiu a velocidade, depois parou, as mãos na cintura e as pernas abertas, enquanto recuperava o fôlego. Vagarosamente recomeçou a caminhar de volta à casa de Bret. Não queria pen­sar mais. Só esperava que Lisa não estivesse chorando.


— Você disse o que a ela? — Bret indagou, arregalando os olhos e encarando o amigo de boca aberta. — Será que ficou doido?

— Ora, Bret, tenha dó! —protestou Cam, falando alto. — Claro que também acha que Lisa devia parar de escrever esse lixo.

— Lixo?!

— Estou surpreso que você mesmo não tenha insistido com ela para que voltasse a trabalhar na firma.

— Está maluco! Será que não percebe? — enfatizou Bret. — Você nem conhecia Lisa na ocasião. Eu fui testemunha do que os livros fizeram por ela. Transformaram Lisa numa mu­lher adulta, feliz e satisfeita. Quem você pensa que é? Como te­ve coragem de dizer que o que ela escreve não serve para nada?

— Ela tem capacidade para muito mais! Claro, no mundo há lugar para todos, mas o lugar de Lisa não é no mundo do faz-de-conta.

— Tenho uma única pergunta a fazer, sabidão. Por acaso você já se deu ao trabalho de ler algum dos romances de Jasmi­ne Peters? — inquiriu Bret, cutucando o peito do amigo com o dedo.

— Não, mas...

— Você é incrível — Bret falou, meneando a cabeça. — E também um grandessíssimo idiota. Os livros dela estão no meu escritório. Vou sair e não volto esta noite. Use seu tempo com

sabedoria, amigão. Tenho a impressão de que não percebeu que seu futuro está em jogo.

Cam murmurou um palavrão quando a porta bateu atrás de Bret. Depois de pegar uma cerveja na geladeira, foi até o escri­tório e parou em frente à estante de livros. Com um suspiro pegou um romance de Jasmine Peters e sentou-se numa poltrona. Franziu a testa ao ver a capa, abriu na primeira página e come­çou a ler.

Três horas mais tarde fechou o livro, passou a mão pelo ros­to e respirou fundo. Levantou-se vagarosamente. Cam tinha em mente uma importante determinação.

Lisa saiu da varanda e voltou para a sala. Tentara fugir da casa e das lembranças de Cam, mas nada adiantava. A imagem dele continuava também na paisagem, e ela acabara chorando novamente ao ver a praia de areias prateadas estender-se à sua frente a perder de vista.

Tinha chorado até ficar exausta, depois se atirara na cama sem conseguir sequer cochilar. Quase não comera o jantar e as horas seguintes pareciam não ter fim.

Precisava de Cam, queria que ele estivesse perto dela, rindo, falando e até cantando desafinado. Queria ser beijada, acari­ciada, amada...

Só que desejava mais ainda. Queria que ele a compreendesse e respeitasse pelo que era e pelo que escolhera fazer na vida. Mas ele não entendia... e isso a magoava... doía demais!

Um som estranho de repente a trouxe de volta à realidade. — O modem — disse a si mesma. — Deve ser Bret. Correu para perto do computador e estacou ao ver a mensa­gem na tela verde:

"LISA, SERÁ QUE EU POSSO IR A TÉ AÍ FALAR COM VOCÊ? QUE TAL UM ENCONTRO EM NOSSAS AREIAS PRATEADAS?"

"Oh, Cam", pensou aflita. Ele ia dizer o quê? Iria dar-lhe um ultimato? Ou ele, ou a carreira de escritora? Não! Oh, não!

"Saí", escreveu com dedos trêmulos.

Calçou tênis e voltou à varanda. Depois desceu vagarosamente a escada e começou a caminhar sem pressa pela praia. Em me­nos de dez minutos escutava o carro de Cam chegando, a porta batendo, e com o coração disparado ficou a observá-lo enquanto se aproximava, banhado pela luz do luar e das estrelas.

— Olá, Lisa — saudou ele, parando à sua frente e enfiando as mãos nos bolsos. Como a amava!

— Olá, Cam — ela respondeu baixinho. "Olá, meu amor", pensou, o coração apertado.

— Lisa, eu... eu vim aqui implorar seu perdão.

— Perdão? — ela indagou, num fio de voz.

— É verdade. Estou implorando para que me desculpe por ser tão intolerante, por ter idéias preconcebidas sobre uma coi­sa que eu não conhecia.

— Não estou entendendo.

— Acabei de ler um romance de Jasmine Peters.

— Você leu... Verdade?

— Como fui tolo! — ele admitiu devagar, levantando o ros­to para o céu e respirando fundo. — O que você escreve faz tan­to sentido para mim agora! Claro, passa-se em outra época, mas isso não muda as mensagens que encontrei naquelas páginas. Você fala sobre o verdadeiro amor, sobre a vida, sobre a entre­ga total. Fala da união das almas bem como dos corpos, e mostra as maravilhosas diferenças que existem entre sexo e amor.

— Oh, Cam... — foi só o que ela conseguiu dizer...

— Sua mensagem é que não desistam, que vençam os con­tratempos, que lutem pelo que desejam na vida. Você transmi­te esperança, dá aos leitores uma oportunidade de rir e também de chorar. Não, Lisa, não é fantasia, não é faz-de-conta, é tudo real, bom e interessante. Você tem um dom, um raro talento que lhe permite tocar o coração e a alma das pessoas.

— Eu... — Lisa começou, mas não conseguiu continuar.

— Há mais uma coisa. Percebi que em algum lugar, bem no fundo da minha alma, eu tinha muita raiva, muita tristeza por não ter conseguido me formar. Mesmo tendo uma profissão que me satisfaz plenamente, uma parte de mim se ressentia por você não estar usando seu diploma. Meu Deus! Como pude ter si­do tão estúpido!

— Cam, não. Você...

— Lisa, eu sinto muito. Por favor me desculpe — pediu Cam, falando com dificuldade. — Diga que me perdoa. Sinto orgu­lho dos seus livros, das coisas que você consegue dar a tantas pessoas. Deixe que eu volte para você. Oh, Lisa, eu te amo tanto!

— Oh, Cam! — Soluçando, ela se atirou nos braços dele, que a abraçou apertado. — Sim, quero partilhar tudo isso com vo­cê. Cam, eu te amo demais. Eu achei... tive tanto medo...

— Diga que me perdoa.

— Sim, eu o perdôo. Oh, Cam, entendeu agora? Algumas pes­soas lêem os livros e enxergam apenas uma aventura de um pi­rata corajoso. Mas você sentiu todo o resto, as mensagens escondidas, as esperanças e os sonhos. Isso significa que acre­ditamos nas mesmas coisas. Cam... muito obrigada por ser tu­do o que eu sabia que você era no fundo do meu coração. Adoro você, meu pirata querido.

— Ah, Lisa — foi tudo o que ele expressou antes de beijá-la com ternura.

As estrelas cintilavam, as ondas chegavam mansamente até a praia e uma brisa suave soprava sobre as areias prateadas da praia de Malibu. E Lisa e Cam, o pirata e a donzela, subiram vagarosamente a escada e entraram em casa, fechando a porta, ao mundo exterior.



Lá fora, o luar criava reflexos de rara beleza sobre o mar. Qual­quer pessoa sensível, ao vê-los, logo imaginaria um romance emocionante e apaixonado. Um belo veleiro, as velas enfunadas ao vento... na proa, alto, viril, moreno e forte, o pirata; ao lado, sua bela donzela... singrando as águas prateadas para sempre...

* * * *




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