Sistema digital de busca inteligente de fontes jornalísticas1



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Sistema digital de busca inteligente de fontes jornalísticas1



Prof. Dr. Walter Teixeira Lima Junior2
Resumo

Esse projeto de pós-doutorado está sendo desenvolvido na linha de pesquisa Comunicação e Tecnologia da Universidade Metodista de São Paulo. Ele integra um amplo trabalho que visa a elaboração de sistemas digitais on-line que permitam a melhora da produção e distribuição de conteúdos com informações jornalísticas. A sua metodologia está baseada no cruzamento das áreas quem envolvem a comunicação social, ciências da computação, psicologia cognitiva e antropologia.

Nesse estudo, a tarefa especifica é classificar as fontes jornalísticas utilizadas no jornal Folha de S. Paulo no que tange a natureza, a credibilidade, o prestígio e a atualidade, analisando a importância desses conceitos na qualidade da informação jornalística. A partir dessa análise, será estruturado o UML (Unified Modeling Language), servindo de base para definição de programas que serão utilizandos na produção de softwares de pesquisa e validação qualitativa de fontes de informação jornalísticas.
Palavras-chave

Fontes, jornalismo, tecnologia, ciências da cognição


Introdução

Conforme escopo deontológico3, a atividade jornalística4 está relacionada a ramificações na área das Ciências Sociais. Porém, para se consolidar como tal, recebe para o seu desenvolvimento e realização dos seus objetivos, em uma sociedade democrática, a contribuição estrutural das Ciências Naturais, principalmente, no que tange às inovações tecnológicas.

Desde a utilização da prensa gutenberguiana (tipos móveis) na elaboração do primeiro jornal contendo informações jornalísticas - isso ocorreu em outubro de 16055, com o "Relation", editado por Johann Carolus - a tecnologia introduz modificações no fazer jornalístico.

Papiro, caneta, imprensa, máquina de escrever, transmissão de ondas eletromagnéticas, aparelhos receptores (televisores e rádio), satélites, computadores, redes telemáticas, foram algumas das invenções que possibilitaram a melhora da produção, da reprodução e da transmissão de conteúdos em massa.

Entretanto, apesar da tecnologia estar fortemente inserida no processo de obtenção da informação, produção do material, do empacotamento e da distribuição dos conteúdos jornalísticos (texto, imagem, vídeo ou áudio), as tarefas decisórias (making decision) e de gerenciamento dependem exclusivamente da capacidade humana, fazendo com que todas essas etapas se interliguem e sejam executadas.
O conceito de decisão (do latim de-cidere, “separar, cortar”) indica um processo de redução das possibilidades de ação e, com tal, representa um dos núcleos mais problemáticos da racionalidade ocidental. Na medida em que evoca uma relação entre a razão e ação, a decisão se reveste das interrogações sobre os fundamentos da atuação humana.6
Para Maldonado, as teorias atuais sobre a decisão racional consideram elevado o papel da incerteza, da falibilidade e do risco. Herbert Simon (1983) definiu a atividade do decisor nos seguintes termos:
A teoria clássica é a teoria de um homem que escolhe entre um número fixo de alternativas, a cada uma das quais estão associadas conseqüências. Mas, quando entre decisor e ambiente objetivo intervêm sua percepção e seus processos cognitivos, esse modelo demonstra toda sua inadequação. Precisamos de uma descrição do processo de escolha que reconheça que as alternativas não são dadas, mas devem ser buscadas, uma descrição que leve em conta a árdua tarefa de determinar que conseqüências cada alternativa acarreta.
Porém, opondo-se às teorias fundamentadas na maximização, Simon propõe – de acordo com outros psicólogos cognitivos – uma teoria da racionalidade limitada, em que os limites cognitivos induzem o decisor a recorrer a um modelo simplificado do mundo com o qual interage. O critério fundamental desta teoria é noção de satisficing, cujo pressuposto é de que o indivíduo trabalha tendo em vista um resultado satisfatório, embora não necessariamente ótimo.

Utilizando o conceito de racionalidade limitada, “a recorrer a um modelo simplificado do mundo com o qual interage”, no processo decisório da escolha das fontes jornalísticas, encaixamos o trabalho do jornalista, que procura, geralmente, um “resultado satisfatório, embora não necessariamente ótimo”. Essa sistemática tem afetado a qualidade do jornalismo praticado e, conseqüentemente, sua credibilidade.


Fontes : Instituições ou personagens que testemunham ou participam de eventos de interesse público que fornecem informações para dar origem a conteúdos jornalísticos.7
Para (Gomis, 1991: 59), as fontes são pessoas, são grupos, são instituições sociais, ou são vestígios - discursos, documentos, dados - por aqueles deixados ou construídos. As fontes remetem para posições e relações sociais, para interesses e pontos de vista, para quadros espácio temporalmente situados.
Em suma, as fontes a que os jornalistas recorrem ou que procuram os jornalistas, são fontes interessadas, quer dizer, implicadas em táticas e estratégias determinadas. E se há notícias isso deve-se, em grande medida, ao fato de haver quem queira que certos fatos sejam tornados públicos. 8
As fontes são mais importantes para o processo de produção de notícias que o próprio jornalista, uma vez que são as fontes que oferecem a matéria-prima da notícia. Além disso, o jornalista renomado constrói sua carreira em função da rede de relações com suas fontes. O estudo dos emissores, na perspectiva do newsmaking, considera que, no atual contexto de produção de informações, é necessário que seja ampliada a visão convencional do conceito de emissor. Assim, é correto afirmar que, além da imprensa, do rádio e da TV, as agências de notícias, as fontes institucionais de informação e as assessorias de comunicação e imprensa são consideradas emissoras.9


Fontes são escolhidas pelo jornalista
No modelo atual de negócio, em grande parte dos veículos de comunicação - desde pequenos até conglomerados de mídia - o jornalista (repórter), ou na função de editor, é o elo da cadeia de produção industrial da notícia. É ele que decide o que entra ou não entra na formação do conteúdo jornalístico.
Qual o objetivo do jornalista? Para obter algum resultado, o jornalista trabalha com a informação, que é sua matéria-prima. Para existir notícia é necessário primeiro que haja uma informação de interesse universal. O consumidor da notícia pode não estar interessado no produto final da notícia, na sua embalagem ou conteúdo ideológico, mas quer obter a informação que ela deve obrigatoriamente ter. A notícia é a matéria prima do jornalismo, pois somente depois de conhecida ou divulgada, é que os assuntos aos quais se refere podem ser comentados, interpretados e pesquisados.10
Vários processos decisórios, incluídos na cadeia de produção da notícia, estão em poder do jornalista, como o da seleção de temas a serem abordados; a escolha de fontes de informação (selecionar e qualificar como interlocutor válido); o questionamento da fonte; a coleta de dados (depoimentos); a estrutura das informações conforme contexto; a utilização de técnicas de produção (exemplo: roteiro para uma reportagem de televisão) e como o conteúdo será entregue ao consumidor. Porém, é na produção da pauta11 que a procura por fontes é iniciada.
O processo de produção de qualquer tipo de conteúdo jornalístico começa com a elaboração da pauta. Essa fase consiste na listagem dos principais objetivos a serem alcançados na confecção da matéria noticiosa, como hipóteses a serem verificadas e angulação que a notícia irá adotar.12
Na realização da matéria, cabe ao jornalista a tarefa de encontrar fontes que tenham credibilidade, atualidade e que valide a informação obtida. A fonte é importante para fornecer veracidade à matéria jornalística e ajudar na compreensão do fato pela sociedade. Para que esse objetivo seja alcançado, o profissional deve verificar se a fonte é confiável, se ele pode verificar a informação por ela passada, avaliando a maturidade (se tem experiência consolidada no assunto abordado pela pauta), se tem proximidade com o assunto, se é a melhor autoridade (no sentido de conhecer o assunto) e se é possível saber o que outra fonte pensa da fonte contatada.

Classificação de fontes
Entre algumas classificações e tipificações de fontes, as catalogadas por Nilson Lage e por Brian McNair, citado por Manuel Pinto, em Fontes Jornalísticas: contributos para o mapeamento de campo, são as duas mais completas e que contribuem com os seus conceitos para catalogação dos elementos que compõem as fontes.

Para Nilson Lage, as fontes podem ser classificadas quanto em oficiais, oficiosas e independentes.


Fontes oficiais são mantidas pelo Estado; por instituições que preservam algum poder de Estado, como as juntas comerciais e os cartórios de ofício; por empresas e organizações, como sindicatos, associações, fundações etc.

Fontes oficiosas são aquelas que, reconhecidamente ligadas a uma entidade ou indivíduo, não estão, porém, autorizadas a falar em nome dela ou dele, o que significa que o que disserem poderá ser desmentido. Fontes independentes são aquelas desvinculadas de uma relação de poder ou interesse específico em cada caso.
Já McNair não define as suas tipificações e nem faz exemplificações, porém, acrescenta outras naturezas como âmbito geográfico, fontes episódicas ou permanentes entre outras.
As taxonomias daí resultantes são vastas e naturalmente vinculadas a perspectivas e interesses distintos. Teríamos, assim:

- segundo a natureza, fontes pessoais ou documentais; públicas ou privadas- segundo a duração, fontes episódicas ou permanentes;

- segundo o âmbito geográfico, fontes locais, nacionais ou internacionais;

- segundo o grau de envolvimento nos factos: oculares / primárias ou indirectas /secundárias;

- segundo a atitude face ao jornalista, fontes activas (espontâneas, ávidas) ou passivas(abertas, resistentes) (Caminos Marcet, 1997; Borrat cit in Bezunartea et al.1998, p81-82);

- segundo o estatuto de visibilidade exigido, fontes assumidas ou fontes confidenciais;que é mencionável na esfera pública relativamente ao que não é”. Refira-se, enfim, a sugestão de Ramonet (1999) de que a esfera da comunicação tende a absorver a da informação.

- segundo a metodologia ou a estratégia de actuação, fontes pro-activas ou reactivas, preventivas ou defensivas.13
O pesquisador Pepe Rodrigues encontrou outras angulações para explicar a natureza das fontes, inclusive com termos assíduas e ocasionais, que nesse caso, se equiparam aos conceitos formulados por Brian McNair.

Quanto à natureza das fontes de informação jornalística, Pepe Rodríguez classifica os informantes de "fontes pessoais". Dentro desta categoria, encontram-se quatro blocos genéricos diferenciados em relação à temporalidade, ao conteúdo informativo, à estrutura de comunicação e à ética.


O conceito de temporalidade divide as fontes jornalísticas em assíduas e ocasionais. O conteúdo informativo refere-se à divisão entre fontes pontuais (específicas) e gerais. A estrutura de comunicação que mediatiza as relações entre o jornalista e a fonte diferencia estas entre fontes públicas, privadas e confidenciais.

Cabe ainda destacar a classificação quanto à ética, definido pelo conceito de voluntariedade na transmissão da informação desde a fonte até o jornalista. Desta forma, depara-se com fontes voluntárias e involuntárias. Distingue-se, ainda, o informante do confidente, que varia conforme o grau de confiança e credibilidade.14
Apesar de McNair ter citado o grau de envolvimento das fontes com os fatos como oculares / primárias ou indirectas / secundárias, é Nilson Lage que faz um detalhamento completo dos conceitos. Para ele fontes primárias são aquelas em que o jornalista se baseia para colher o essencial de uma matéria; fornecem fatos, versões e números. Fontes secundárias são consultadas para a preparação de uma pauta ou a construção das premissas genéricas ou contextos ambientais.

Lage também é o único a fazer distinção entre testemunhos e experts. Esses conceitos são importantes para entendermos como o caráter emocional influencia num depoimento ou como o interesse pessoal de determinada fonte pode contaminar o conteúdo da informação.


O testemunho é normalmente colorido pela emotividade e modificado pela perspectiva de modo geral, o testemunho mais confiável é o mais imediato. Ele se apóia na memória de curto prazo, que é mais fidedigna, embora eventualmente desordenada e confusa; para guardar fatos na memória de longo prazo, a mente os reescreve como narrativa ou exposição, ganhando em consistência o que perde em exatidão factual.

Experts são geralmente fontes secundárias, que se procuram em busca de versões ou interpretações de eventos. No entanto, costumam costurar os fatos em suas próprias convicções. De toda sorte, é conveniente ouvir mais de um especialista e variar os especialistas que se ouvem.15


Importância da fonte no processo de produção da informação
A mediação, entre de onde a informação emana e o consumidor do conteúdo jornalístico, começa na obtenção dos dados necessários e fundamentais para compreensão e formação da qualidade do material noticioso.

Pepe Rodrigues afirma que encontrar fontes importantes e confiáveis é um dos objetivos prioritários de todo jornalista. “Poucas coisas são tão desejadas como encontrar uma boa fonte que facilite o trabalho investigativo. Sem uma, ou muitas, boas fontes, a atividade jornalística de investigação está condenada a morrer de sede noticiosa”, afirma.


A fonte também pode ser definida como toda pessoa que, de um modo voluntário e ativo, facilite algum tipo de informação a um jornalista. Pode ser considerada fonte toda variedade de informação encontrada na imprensa, em livros, arquivos, etc16.
Dependendo do tema e da abordagem que o repórter fará, o direcionamento de fontes também mudará. Por exemplo, para Nilson Lage, as principais fontes de informação científica para o jornalista são universidades, centros de pesquisa, organismos internacionais, pesquisadores, bancos de dados, congressos, documentos, Internet, livros e revistas.17
Relacionamento com a fonte
Como dito anteriormente, a atividade jornalística é ligada à Ciências Humanas. O contato visual, auditivo ou virtual com a fonte faz parte dos procedimentos necessários para o exercício da atividade profissional. Portanto, esse relacionamento está sujeito a todas as variáveis que também atuam em outros processos de contato humano. Empatia, por exemplo, é um dos fatores que influenciam o trabalho do jornalista, fazendo com que ele tenha um comportamento favorável ou não a fonte.
Os jornalistas que convivem frequentemente com determinados meios onde a informação se obtém – e designadamente com centros de diferentes tipos de poder, com os quais mantêm relações não apenas de proximidade, mas mesmo de intimidade - correm o risco de interiorizar excessivamente a lógica das fontes e mesmo de se sentirem identificados com elas, a ponto de perderem de vista o destinatário primeiro da informação que produzem: o público (Bezunartea, 1998: 89)18.
Outra questão importante é o fortalecimento de certas fontes, por exemplo, oriundas do mercado financeiro brasileiro, onde algumas delas alcançaram o status de divindade. O relacionamento entre jornalista e esse tipo de fonte tornou-se automático e apenas referenciador de uma determinada informação econômica.
Os jornalistas, por sua vez, precisam de forma vital das fontes e dos seus serviços, pelo que têm de pôr em ação processos exigentes que permitam conciliar a colaboração produtiva da fonte e o distanciamento crítico que o trabalho jornalístico supõe. Existe nesse ‘comércio’ um terreno de encontros (e desencontros) altamente instável, que supõe uma permanente negociação (Santos, 1997) e que leva López-Escobar a referir-se-lhe como “um

casamento de conveniência” (1988:521)19
Problemas na escolha de fontes
Com o passar dos anos, a atividade jornalística ficou mais complexa. A fragmentação da sociedade; o aumento populacional, portanto, fornecendo mais temas para serem abordados pelo jornalista; o surgimento de novos processos de difusão da informação; o fortalecimento de grandes grupos de mídia e a incorporação pelas empresas privadas de mecanismos de comunicação profissional forçaram, teoricamente, os jornalistas a terem muito mais cuidado na escolha das fontes.

Entretanto, segundo o pesquisadores Nilson Lage e Manuel Pinto, a escolha fontes noticiosas têm sido, há algum tempo, motivo de inquietações.


Estas se distribuem em duas condições: a homogeneização da informação (quando todos os veículos fazem uso das mesmas fontes, o que fica bem explícito no caso das fotografias distribuídas vai agências internacionais) e a credibilidade da fonte (face à auto-legitimação das agências e ao uso, pelos veículos de arquivos donde é sempre retirado algo que se aplique ao caso, mesmo que seja fora de contexto).

Portanto, o estudo de fontes jornalísticas deve receber grande atenção na pesquisa em comunicação, principalmente, na área de jornalismo, pela importância delas na construção da qualidade informativa do conteúdo jornalístico. As fontes são fundamentais no processo de produção da notícia, como matéria-prima

Compreender como se constrói a rede de fontes, em um dos principais jornais brasileiros, servirá para entender qual o processo de qualificação das fontes e a importância da escolha que determina a qualidade ou não do conteúdo jornalístico do veículo.20
Com o crescimento da influência sobre os três poderes constituídos (Executivo, Legislativo e Judiciário), a imprensa, considerada por alguns setores da sociedade como um quarto poder, tem muitas vezes exorbitado a sua função de vigilante do bem-estar da sociedade. Casos emblemáticos, como o da Escola Base, são sinalizadores que alguma coisa não está correta nas atuais práticas jornalísticas e que falta responsabilidade no trato com a informação coletada e publicada. Sabedoras dessas deficiências, muitas fontes são reticentes em falar com a imprensa ou, simplesmente, se negam a fornecer informações. Esse fenômeno pode ser constatado em fontes que estão em todos os extratos sociais. A fonte acredita que o repórter pode ser uma ameaça, dando uma reposta parcimoniosa, conforme escreve Nilson Lage.
A fonte pode mentir ou omitir, mas é de esperar que não faça isso. Ela pode ser lacônica, falsa, vaga, ambígua ou desordenada.21
Profissionalização das fontes

O pesquisador Carlos Chaparro notou o crescimento do número de fontes profissionalizadas. São fontes que têm a capacidade de pautar ou se comunicar com eficiencia com a imprensa. Elas podem assessorar pessoas (ex: personalidades ou políticos) ou organismos (por organizações públicas, privadas ou não-governamentais).

Chaparro denominou esse estágio de “a revolução das fontes”. Ele descreve como a institucionalização e a capacidade delas de passar à ‘ofensiva’, chegando a marcar a agenda

das redações, fazendo de tudo “para que a pergunta do repórter se torne o mais dispensável

possível”5.
Na minha opinião (...) a mais importante modificação ocorrida nos últimos 40 anos nos processos jornalísticos é a organização e a capacitação das fontes interessadas, produtoras e controladoras de acontecimentos, revelações e falas que alteram, explicam ou desvendam a actualidade”.22
A função estratégica, desse tipo de fonte, consiste em se posicionar perante à mídia do seu interesse, ou seja, municiando os jornalistas com releases e pautas sobre o que deseja ver veiculado. Portanto, quer ver publicado o que é do seu interesse pessoal ou da organização a qual pertence, passando, a partir desse momento, a ser fonte privilegiada.
Há, hoje, claramente instituída, uma vasta e complexa teia de mecanismos e de instituições, cujo propósito assumido é utilizar e, se possível, marcar a agenda dos media, jogar o seu jogo, tirar partido da sua lógica de funcionamento e, por essa via, atingir os objectivos que são, em primeiro lugar, os dos interesses que servem23.
No estudo publicado em 1989, com o título Negociating Control – A Study of News24, Richard Ericson, Patricia Baranek e Janet Chan afirmam que cabe ao jornalismo dar publicidades às matérias (fatos, eventos e declarações). Mas, o seu objetivo maior é o interesse público, fornecendo informações relevantes para o desenvolvimento de uma sociedade justa e igualitária. Já os objetivos das fontes organizadas é promover ou ser porta-vozes de instituições, com o objetivo de dar publicidade às matérias que lhes interessam.
Estas movem-se, por conseguinte, por uma lógica privada - naturalmente legítima - mas privada, ainda quando procuram a visibilidade através dos media. E isto vale quer para instituições claramente privadas, do ponto de vista jurídico-econômico, como sejam as empresas, associações e grupos da sociedade civil, quer se trate dos partidos políticos e dos órgãos do Estado (embora, neste último caso, com especificidades). A todos é comum uma lógica de funcionamento que assenta.25
No estudo de Ofa Besurnarte é veficado que os jornalistas têm o poder de gerir, facultar e redirecionar a informação. Assim como as fontes, embora precisando dos jornalistas e de se submeterem aos seus critérios e às suas lógicas de actuação, têm o poder de gerir, facultar, redireccionar a informação e, mesmo de encenar, como via de chamar a atenção e adquirir visibilidade. Os jornalistas, tanto individualmente como enquanto grupo profissional, também detêm um poder efetivo que não pode ser menosprezado.

Já para Manuel Pinto, os interesses são conflitantes entre jornalistas e fontes organizadas, pois seus objetivos, muitas vezes, são opostos. Por um lado, as fontes procuram atingir os seus objetivos como a visibilidade e atenção dos media; a marcação da agenda pública e a imposição de certos temas como foco da atenção coletiva; a angariação de apoio ou adesão a ideias ou a produtos e serviços; a prevenção ou reparação de prejuízos e malefícios; a neutralização de interesses de concorrentes ou adversários e a criação de uma imagem pública positiva.


Já os jornalistas buscariam, teoricamente, a obtenção de informação inédita; obtenção de confirmação ou desmentido para informações obtidas noutras fontes; dissipação de dúvidas e desenvolvimento de matérias; lançamento de ideias e debates; fornecimento de avaliações e recomendações de peritos; atribuição de credibilidade e de legitimidade a informações directamente recolhidas pelo repórter26
O relacionamento entre jornalistas e fontes é outra preocupação dos pesquisadores. Determinados tipos de envolvimento prejudicam a veracidade, qualidade e relevância da informação. Mesmo sabendo que a atividade jornalística não pode fugir do contato pessoal, telefônico ou virtual com a fonte, os manuais de redação de veículos informativos, reconhecidamente importantes mundialmente, recomendam distanciamento entre o jornalista e a fonte e a recusa, pelos profisssionais, de brindes ou presentes oferecidos pelas fontes interessadas na publicação dos seus interesses.
Os jornalistas que convivem frequentemente com determinados meios onde a informação se obtém – e designadamente com centros de diferentes tipos de poder, com os quais mantêm relações não apenas de proximidade, mas mesmo de intimidade - correm o risco de interiorizar excessivamente a lógica das fontes e mesmo de se sentirem identificados com elas, a ponto de perderem de vista o destinatário primeiro da informação que produzem: o público27
Interesses e pressões
A atual lógica de mercado, em um mundo globalizado, em muitos casos, sobrepõe o interesse público em detrimento dos interesses das grandes coorporações. Esses interesses, infelizmente, têm a anuência de alguns editores ou donos de grandes veículos de comunicação. No meio desse jogo, estão os repórteres, profissionais pagos para produzir informações relevantes para a sociedade, mas que se deparam com forças intimidatórias e economicamente fortes e influentes, limitando o posicionamento dos profissionais face as suas fontes de informação.
Ao lado das fontes, jornalistas e redações têm de lidar igualmente com as pressões e constrangimentos oriundos dos proprietários dos meios, dos anunciantes, dos lobbies e interesses políticos, sem esquecer a própria cultura profissional dos jornalistas.28
Delineamento da pesquisa
1 - Questionamento
Será que com o aumento do número de fontes (devido à possibilidade do acesso a elas via on-line); o aumento de fontes organizadas (que distribuem pré-pautas e releases); do forte poder econômico ou político dos ´patrões´ das fontes organizadas (intimidando jornalistas e empresas de comunicação); ampliação, pela ciência, da área do conhecimento humano; relação cada vez mais hegemônica entre determinadas fontes organizadas e jornalistas - pasteurizando enfoques e invertendo a lógica da relevância social têm prejudicado o jornalismo no seu quesito principal: credibilidade perante a sociedade?
2 - Objetivo da pesquisa
Classificar as fontes jornalísticas utilizadas no jornal Folha de S. Paulo no que tange a natureza, a credibilidade, o prestígio e a atualidade, analisando a importância delas na qualidade da informação jornalística contida no veículo.

Para isso, a pesquisa buscará classificar sintaticamente e semanticamente a natureza das fontes e como elas são codificadas pelo leitor. Para isso, utilizará o conhecimento consolidado da Psicologia Cognitiva para testar e classificar a natureza das fontes, formatando uma base conceitual buscando estruturar um UML (Unified Modeling Language) 29 . Essa formação das bases conceituais e criação de UML servirão, na segunda fase da pesquisa, para definição de programas que serão utilizados para a produção de software, visando à pesquisa e validação qualitativa de fontes de informação jornalística.



3 - Metodologia
A pesquisa consiste em tipificar as fontes jornalísticas que são utilizadas pelo jornal Folha de S. Paulo, classificando-as nos critérios levantados por Lage, Pinto e McNAIR, verificando os conceitos de credibilidade, de prestígio e de atualidade. Para isso será feito um levantamento em exemplares, abrangendo cadernos de Política e Economia, pois são os que contem mais assuntos de relevância social, investigando as origens (natureza) das fontes (oficiais, oficiosas, independentes, primárias, secundárias, testemunhos e experts).

A partir do cruzamentos dos dados levantados pela natureza das fontes com os conceitos da Psicologia Cognitiva, será elaborada tabelas de valoração dos conceitos e sua frequência.




4 - Instrumento de verificação

Serão constituidos grupos de controle para verificar qual o entendimento do leitor sobre os conceitos de credibilidade, prestígio e atualidade contidos nas fontes (oficiais, oficiosas, independentes, primárias, secundárias, testemunhos e experts).


5 - Revisão bibliográfica
No que tange à parte dos conhecimentos jornalísticos fontes, utilizo Nilson Lage, Brain McNair e Manuel Pinto, que são os principais autores na parte da conceituação de fontes jornalísticas, além de utilizar as definições de precisão jornalística contidas nas obras do pesquisador americano de Philip Meyer.

Já na área da ciência da computação, a decisão por modelos UML foi tomada em função de se ter uma modelagem que contem flexibilidade, que pode garantir uma melhor adaptação do fluxo conceitual em algumas linguagens de programação, como JAVA ou Labview.



Bibliografia
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1 Projeto, em adamento, de pós-doutorado na Universidade Metodista de São Paulo

2 Jornalista, professor e pesquisador. Pós-doutorando em Comunicação e Tecnologia na Universidade Metodista de São Paulo. Doutor em Jornalismo Digital pela ECA/USP, pós-graduado em Consultoria em Internet (área de Exatas) e certificado Internet/Intranet System Programmer Analyst (ISPA). Pesquisador do Grupo de Pesquisa Comunicação e as Tecnologias Digitais, (UMESP) e coordenador do Grupo de Trabalho da História da Mídia Digital da Rede Alfredo de Carvalho e fundador do Grupo de Pesquisa Aplicada na Comunicação (PESAC). Professor do Programa de Pós-Graduação Strito sensu da Faculdade Cásper Líbero e dos Cursos de Midias Digitais e Rádio e Tv da Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente trabalha na Assessoria de Imprensa da USP.

3 Conjunto de deveres profissionais de qualquer categoria profissional minuciados em códigos específicos

4 Na definição de MILLINSON (1999), o jornalismo é qualquer narrativa não-ficção ou documental que reporta ou analisa fatos e eventos firmemente fundamentados no tempo (atual ou histórico), selecionados e organizados por repórteres, redatores e editores para contar uma história de um ponto de vista particular

5 COSTA, Luciano Martins. Quatro séculos de jornalismo. Observatório da Imprensa, 8 de março de 2005. http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=319MCH001. Acessado em 12 de março de 2005

6 MALDONADO, Mauro. Decisões que a razão desconhece. In Scientific American Brasil, Ano 3 n. 33, 22 fev 2005, p76 – 82

7 LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001.

8 GOMIS; Lorenzo (1991). Teoría del Periodismo: Cómo se Forma el Presente. Barcelona:

Paidós.


9 http://www.pepe-rodriguez.com/Publica_estud/Saccomori_1_perinves.htm

10 LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001.

11 Primeiro roteiro para a produção de textos jornalísticos e material iconográfico. In Manual de Redação da Folha de São Paulo, PubliFolha, São Paulo, 2001 p.46

12 LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001.

13 McNAIR, Brian. The Sociology of Journalism. London: Arnold, 1998, p 147 -150


14 http://www.pepe-rodriguez.com/Publica_estud/Saccomori_1_perinves.htm

15 LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001.

16 http://www.pepe-rodriguez.com/Publica_estud/Saccomori_1_perinves.htm

17 LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001.

18 BESUNARTEA, Ofa; Mercedes del Hoyo; Florencio Martínez. Lecciones de Reporterismo. Bilbao: Ediciones de la Universidad del País Basco, 1998.

19 SANTOS, Rogério (1997) A Negociação entre Jornalistas e Fontes. Coimbra: Minerva

20 LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001

21 LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001

22 MESQUITA, Mario. O Jornalismo em Análise - A coluna do Provedor dos Leitores, Coimbra, Minerva, 1998, p91

23 PINTO, Manuel. Fontes Jornalísticas: contributos para o mapeamento do campo. Braga, Portugal. Paper apressentado no III Encontro Lusófono de Ciências da Comunicação, realizado na Universidade do Minho, Braga, de 27 a 30 de Outubro de 1999, p6

24 ERICKSON, Richard V., BARANEK, Patricia M. et Janet BL CHAN. Negociating Control : A Study of News Sources. Toronto, University of Toronto Press, 1989

25 ERICKSON, Richard V., BARANEK, Patricia M. et Janet BL CHAN. Negociating Control : A Study of News Sources. Toronto, University of Toronto Press, 1989

26 PINTO, Manuel. Fontes Jornalísticas: contributos para o mapeamento do campo. Braga, Portugal. Paper apressentado no III Encontro Lusófono de Ciências da Comunicação, realizado na Universidade do Minho, Braga, de 27 a 30 de Outubro de 1999, p5

27 BESUNARTEA, Ofa; Mercedes del Hoyo; Florencio Martínez. Lecciones de reporterismo. Bilbao: Ediciones de la Universidad del País Basco, 1998, p89

28 SOLOSKI, John . ‘O Jornalismo e o Profissionalismo: Alguns Constrangimentos aoTrabalho Jornalístico’, in Nelson Traquina (org.) Jornalismo: Questões, Teorias e‘Estórias’. Lisboa: Vega Sage, 1993


29 A UML é um método aberto para especificar, visualizar, construir e documentar os artefatos de sistema de software intensivo orientado a objeto. A UML representa uma compilação da melhor prática de engenharia que tem provado ser útil em ampla modelagem, sistemas complexos e especialmente no nível de arquiterura da informação.



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