SÍlmia sobreira: uma intelectual orgânica contra a ditadura ítalo Coelho de Alencar; Departamento de História /urca



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SÍLMIA SOBREIRA: UMA INTELECTUAL ORGÂNICA CONTRA A DITADURA
Ítalo Coelho de Alencar; Departamento de História /URCA, italocalencar@hotmail.com .
INTRODUÇÃO
Em primeiro de abril de 1964, o Brasil acordou sob as botas de uma ditadura militar que, ao longo de 21 anos, não se furtou em reprimir qualquer um que se opusesse às diretrizes que emanavam dos quartéis. Nessas duas décadas, diversos estratos da vida social – operários, intelectuais, artistas etc. – sentiram a significação mais cabal de um regime político assentado com aferro na repressão institucionalizada. Essa é uma página da história brasileira e latino-americana.

No cerne da resistência à ditadura militar, sobrelevou-se, no Cariri – Região sul do Ceará, a figura de Sílmia Sobreira. Militante, intelectual e articulista de um periódico que deixou a sua marca na história da imprensa caririense: a Tribuna de Juazeiro. Pelo intermédio desse hebdomadário, durante os anos de 1966 e 1968, Sílmia denunciou o regime dos generais, firme e repetidamente. Os seus artigos foram os mais vibrantes libelos que se escreveu no Cariri contra o autoritarismo militar.

Desse encadeamento de idéias surge a nossa hipótese de trabalho, qual seja: a de que Sílmia Sobreira atuou como uma intelectual orgânica, no sentido gramsciano do termo, quer dizer: uma intelectual militante que combateu – mediante a sua prática política – um regime repressivo e colocou o melhor das suas forças em nome da luta pela liberdade. Nesses termos, essa ação política é o objeto desse estudo.


OBJETIVOS
Analisar a ação política da intelectual caririense, Sílmia Sobreira, como parte da resistência à ditadura militar, por intermédio de seus artigos publicados na Tribuna de Juazeiro e recompor o cenário político da época.

MATERIAL E MÉTODOS
O presente estudo é resultado do exame dos artigos escritos por Sílmia Sobreira para a Tribuna de Juazeiro, nos anos de 1966 a 1968. Pretendemos observar e recuperar o cenário da época mediante a análise dos textos de Sílmia. Ou seja: ao tentar compreender a ação da articulista no período, não nos furtamos em recolher os elementos necessários para reconstituição de um momento histórico em que a região do Cariri, como parte de um contexto mais abrangente, esteve sob o domínio de um poder de inspiração militarista.

Antes de examinar esse impulso, cabe informar que a “Tribuna de Juazeiro” tinha um formato simples compreendendo certo número de colunas: “A semana que passou” (política), “Coluna das bandeirantes”, “Folclore, artes e letras”, “Trabalhismo”, “Meditação”, “Coluna de Etiqueta”, “Esporte” etc. Em seu devir, o periódico acompanhou os últimos dias do governo Castelo Branco, a transição para o segundo governo militar e, no marco do “populismo” de direita do general Costa e Silva, esse era tratado nas manchetes do jornal de “seu Artur” (“Seu Artur garantido: a ARENA o elegerá”; “A fim de estudar problemas que afligem o Nordeste: Seu Artur no Recife durante oito dias”; “‘Seu Artur’ de sobreaviso: Frente Ampla está nas ruas” etc.). Caberá, então, à editora de artes, Sílmia Sobreira, o papel de colocar o dedo na ulceração e só por isso já seria compatível a incluímos no núcleo essencial da resistência.

Tínhamos, então, no Cariri uma situação, segundo tudo tem nos levado a crer, em que o intelectual se encontrava frente à seguinte disjuntiva: parecer ridículo e ingênuo, enfrentando a ditadura; se mostrar pragmático e silenciar ou amparar política e ideologicamente a ditadura. Com isso em mente, opinamos que Sílmia estivesse cônscia desse horizonte disjunto para intelectualidade, considerando o “momento que o país atravessava”. Talvez por isso afirmasse: “numa sociedade pragmática como a nossa, o intelectual é contraditoriamente admirado e ridicularizado”. O texto em que ela recorre a essa reflexão, sugestivamente se chama “Artigo de luxo em casa de pobre” (Tribuna de Juazeiro, 02 de outubro de 1967, p. 2). O que se pode dizer, de antemão, é que o texto em si nos indica que a sua autora, frente à disjuntiva acima mencionada, não se negou a tomar uma posição. Estudar o seu trajeto de vida – nos tempos do militarismo burguês – tem a significação de apreciar as relações entre o intelectual acadêmico e a política. Não será preciso especular muito para se concluir assim, vez que os seus artigos não deixaram jamais de entrar no cerne desta problemática. Em um deles, quem sabe o mais incisivo, ela afirmou:

Como criticar a ordem social presente, nossa inserção em um mundo capitalista de escaladas, como criticar o fato de ajudarmos às nações ricas a ficarem mais ricas à custa da nossa pobreza crescente, nossa inconsciência e nosso sono que, desde o século passado, nos colocam às margens das reformas que nunca houve nem com a independência, nem com a República, nem em 1930, nem em 1964? Quem dirá que nunca houve revolução porque nunca houve reforma de estrutura e que mudança de cúpula sem participação popular não é revolução? Quem dirá sem risco que capitalismo não é sinônimo de democracia e pode ser até mesmo seu contrário? Quem denunciará a utilização desonesta dos sentimentos religiosos do povo que, dopado com o ópio de uma falsa religião, passa a defender o que pode ser tudo menos um valor cristão?

Quem dirá que “a marcha da família com deus pela família e pela liberdade” foi organizada por uma empresa publicitária (SOBREIRA, O rei está nu, in: Tribuna de Juazeiro, 1967:2).

A noção de “ópio” é retomada no esforço de analisar o comportamento da igreja católica na conjuntura que conduziu o Brasil aos braços de uma estrutura organizada de poder permeada pelo mais absoluto autoritarismo. Essa leitura, contudo, estava a serviço de um objetivo: o de demonstrar que, em 1964, não ocorrera uma revolução. Nem aí, nem antes. A revolução não é um processo dirigido de cima a baixo, não é um movimento de “cúpula”. Ela deriva, em última análise, da efetiva “participação popular”. Foi exatamente para deter esta que a “cúpula” se articulou à volta de uma proposta de retrocesso histórico que se traduziu no golpe de Estado de primeiro de abril. Três anos depois, Sílmia Sobreira demonstrava com propriedade de que já não era possível encobrir o logro. O rei estava nu!

As reflexões presentes nos artigos de Sílmia, a despeito deles guardarem uma cara própria, se relacionam aos debates e controvérsias aparentemente sepultadas pelos acontecimentos de 1964. Nesse caso, talvez tenha razão o poeta Ferreira Gullar que se aventurou a entender esse fingido paradoxo, tentando elucidar a permanência daquilo que deveria inelutavelmente estar morto:

O rio que vinha avolumando suas águas e aprofundando seu leito, até março de 1964, desapareceu de nossas vistas. Mas um rio não acaba assim. Ele continua seu curso, subterraneamente, e quem tem bom ouvido pode escutar-lhe o rumor debaixo da terra (apud RIDENTI, 2006: 227).

No caso do Cariri, este “bom ouvido” era o de uma educadora, docente universitária (professora da Faculdade de Filosofia do Crato) e intelectual orgânica, a quem competiu à chancela do reavivamento desse debate estratégico pré-64, que é retomado no marco de uma tarefa, não somente por cumprir, mas, em certa medida, suspensa como um espectro da subversão anterior ao golpe de Estado. Ao relacionar subdesenvolvimento e educação, ou melhor, à ausência desta, de que estaria vestida Sílmia Sobreira senão do traje da subversão? Uma vez mais, ela vestiu a indumentária de resistente, conforme observamos em seu artigo “Educar ou domar?”:



Refletindo nesses antecedentes, o prof. Paulo Freire idealizou um método de educação de adultos que fosse o reflexo de uma confiança amorosa na capacidade que tem o povo de se transitivar, de emergir do estado de consciência ingênua para o de consciência transitiva, isto é, do estado de objeto para o de sujeito (SOBREIRA, In: Tribuna de Juazeiro, de 1º a 6 de setembro de 1967, p. 2).

Outra maneira de expressar o problema era atualizar a temática da educação, tratando-a no bojo do sistema de poder militar, segundo pode ser notada em um artigo que Sílmia escreveu em fins de 1967, em que se lê:



Ministério da Defesa pode comprar mais armas; a universidade precisa restringir seus programas. Mais uma contribuição valiosa é dada para dividir o país em militares e civis, em “eles” e “nós” (Tribuna de Juazeiro, 12/11/1967, p. 4).

Pouco mais de um ano depois, esse fosso que ela descreveu será aprofundado com a edição do Ato Institucional nº 5. No fundo, a autora já vinha vaticinando a escalada repressiva, que saia de uma progressão aritmética para a sua co-irmã geométrica. No início daquele ano, ela elaborou um escrito para o jornal (“Novas leis”), no momento em que ascendia Costa e Silva, e ali afirmou: “Sabendo que a lei geral da natureza é a evolução, essas leis e decretos parecem ‘corrigir’ a natureza” (Tribuna de Juazeiro, 02/04/1967, p. 2). Através de uma magistral ironia, a autora, efetivamente, definiu a real significação de uma ditadura.

Nos estertores do ano 1967, os presságios para 1968 não pareciam figurar na categoria dos melhores. Talvez por isso, um ano antes da imposição do AI-5, a articulista da Tribuna recorrerá a Brecht para referir-se a uma “má hora para o lirismo”. Fez isso pensando na educação, mas nem assim se recusou a lutar por ela, pelo teatro (“Façamos o nosso teatro”) e demais formas de representação artística (“Abrigo para a nossa arte popular”). Tanto ou mais do que seus contemporâneos, reivindicou a construção de um teatro para Juazeiro, anelo que seria concretizando somente na década 1970. Ademais, essa “má hora” tinha a ver com o cenário interno, mas também estava relacionada ao quadro mais geral. Por isso, ela não se esquivou de se pronunciar sobre o fato político que dividia águas no mundo inteiro, à época, a Guerra do Vietnam, e citando apelo de Bertrand Russell, traduzido e publicado na Revista da Civilização Brasileira, exprimiu-se: “O que o governo dos Estados Unidos está fazendo no Vietnã pode ser comparado ao que os nazistas fizeram na Europa Oriental, excetuando a matança sistemática de Judeus” (Tribuna de Juazeiro, 26/02/1967, p.2). Nessa passagem bastante incisiva, é oferecido ao leitor o que denominaremos aqui de persistência temática do antiimperialismo, um dos aspectos ideológicos que se revelaram da cuidadosa leitura dos seus escritos.

A autora tinha clareza do significado e alcance dos seus textos, do caráter nacionalista e antiimperialista do seu conteúdo, conforme se exprimiu em um deles:



Não duvido que chamem esse artigo de subversivo como chamaram outros, o que me faz achar uma graça imensa. Recuso-me absolutamente a aceitar com tranqüilidade a posição de colônia e de satélite para o Brasil e certamente não faltará fanático ou mistificador que chame de comunista a todo aquele que denuncia a aproximação das garras da grande águia (SOBREIRA, S/D, p. 2).

Em suma: história, imperialismo, nacionalismo, ditadura, subdesenvolvimento, educação, arte e religião estiveram entre as temáticas preferenciais tratadas por Sílmia Sobreira no periódico Juazeirense. No plano teórico, se apoiou em autores e textos exatamente adequados ao contexto da época e às intenções que a moviam. No plano metodológico, não se deixou levar pela neutralidade axiológica que movia, e ainda hoje, segue movendo, milhares de seus pares. Politicamente, tomou posição frente aos acontecimentos do seu tempo. A exemplo do ocorrido em outras partes do país, envolvendo também intelectuais, - Caio Prado Junior, Florestan Fernandes etc. - Sílmia combinou - com maestria - política e especialização. Por tudo isso, quando a caracterizamos não é por outra expressão, salvo a de uma intelectual moderna, urbana, orgânica e de incontestável sensibilidade social. No artigo “Por uma história combatente”, reivindicando Nelson Werneck Sodré e José Honório Rodrigues (este, em particular), ele desmistificará a sonsa noção de neutralidade, afirmando que “Não há história neutra, imparcial. A que parece neutra, na realidade, está a serviço do status quo”. Não por acaso, em seu artigo “Antes tarde do que nunca”, classificou a política externa do governo Castelo Branco de “política externa de espinha curvada”, colocando o Brasil “muito mais a serviço da segurança externa dos EUA do que da sua própria”.

Ao contrário dos intelectuais tradicionais, representantes – como bem o disse Gramsci – “de una continuidad histórica ininterrumpida”, Sílmia Sobreira compôs o time de uma categoria especial de intelectuais, cuja práxis estava a serviço de novas relações sociais e políticas, colocando-se frontalmente em oposição ao status quo.

RESULTADOS

Uma coisa é estarmos lendo e analisando esses artigos hoje, reproduzindo-os; outra, bem distinta, distinta pelo vértice, é alguém a escrevê-los exatamente em pleno governo do marechal Castelo Branco ou do general Costa e Silva. Podem classificar essa postura de inúmeros modos; quanto a nós, só podemos classificá-la de resistência.

Saltam aos olhos, a expressão nacionalista e antiimperialista que, em última hipótese, define o caráter político-ideológico dos textos, confirmando assim a sua adesão à vertente crítica e nacionalista. Não conseguimos vislumbrar em nenhum autor do período, que vivesse à época sob o céu do Cariri, uma eloquência mais meridianamente antiditatorial, com toda a carga de significação do regime militar, do que aquela expressada por Sílmia Sobreira em seus artigos de 1966/1968.

Desse modo, entendemos que a hipótese que levantamos, qual seja: a de que Sílmia Sobreira atuou como uma intelectual orgânica, expressa em uma práxis marcadamente antiditatorial, fato evidenciado pelo caráter expressamente de oposição dos seus gestos e falas, sem esquecer-se da sua defesa de um projeto em que a combinação entre justiça social e liberdade se mostrou patente.



Agradecimentos

Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa de iniciação científica que tem permitido a presente pesquisa.



referÊncias

FREIRE, Paulo. Conscientização 3ª Ed., São Paulo: Editora Moraes, 1980.

GRAMSCI, Antônio. Cadernos do Cárcere, vol. 4, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

________. Maquiavel, a política e o Estado moderno, 8ª Ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

________. Os intelectuais e a organização da cultura, S. P.: Circulo do Livro, 1985.

RIDENTI, Marcelo. Artistas e políticos no Brasil pós-1960 – itinerários da brasilidade, in: intelectuais e Estado, Marcelo Ridenti; Elide Ruga Bastos; Denis Rolland (orgs.), Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2006.

SOBREIRA, Sílmia. Abrigo para a nossa arte popular, in: Tribuna de Juazeiro, ano I, 1º/07/1967

________. Antes tarde do que nunca, in: Tribuna de Juazeiro, 06/05/1967.

________. Artigo de luxo em casa de pobre, in: Tribuna de Juazeiro, Nº 2, 02/10/1967.

________. Educar ou domar? (I), in: Tribuna de Juazeiro, 25 a 31/08/ 1967.

________. Educar ou domar? (II), in: Tribuna de Juazeiro, 1º a 06/09/1967.

________. Façamos o nosso teatro, in: Tribuna de Juazeiro, nº 7, 23/10/1966.

________. Má hora para o lirismo, in: Tribuna de Juazeiro, nº 64,10/12/1967.

________. O rei está nu, in: Tribuna de Juazeiro, nº 18, 15/01/1967.



________. Por uma história combatente, in: Tribuna de Juazeiro, 1967.



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