São Paulo 2005 “( ) a arte torna visível o invisível”



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Diálogo com o Invisível

Elza Ajzenberg

Curso de Especialização em Arte Sacra

Faculdade Nossa Senhora Assunção

São Paulo

2005

(...) a arte torna visível o invisível”.


Paul Klee
Sumário:

______________________________________________________________________________________

Nota Introdutória 1

Arte: Iluminação da existência 2

O Espaço Sagrado 4

Imagens: Testemunhas do Invisível 7

Conclusão e pontos para reflexão 9

Notas 11
Bibliografia 11

Nota Introdutória

Quando Paulo, em pé, no meio do Areópago, dirige-se aos homens de Atenas, além de anunciar o Reino, dá asas à criação de uma fantástica imagem artística e divina. Com base na inscrição "A um Deus Desconhecido"(At 17,23), coloca no pedestal uma das visões mais universais de Deus, do Homem e de sua Felicidade. "o que adorais sem o conhecer, eu vô-lo anuncio! (...) Tudo isso para que procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo como à apalpadelas..."(At 17,23 e 27). Expressa uma obra de razões teológicas, com a genialidade poética e artística. Assim, como nessa passagem, ao longo das Sagradas Escrituras e do Caminho do Reino, as manifestações das obras de arte são constantes - sempre somadas à Vida, em abundância.

O Sagrado e a Arte têm um chão histórico de milênios. Entretanto, o século XX é caracterizado pelos desdobramentos capitalistas; por guerras; contradições urbanas; pelo imprevisível e por ideologias que se opõem ao Sagrado. Nesse final de século, pode-se indagar: como é possível elaborar imagens artísticas que correspondam à caminhada do Povo de Deus? Como equacioná-las renovações da Teologia pós-conciliares? Como adequar os "espaços sagrados" às pastorais, aos diálogos, ao mundo contemporâneo?

Teólogos, profetas, artistas, educadores, pensadores surgem como uma espécie de "termômetros de seu tempo". Transitam entre as mensagens que irradiam e indagações acerca de fenômenos e problemas vividos. Mas são sempre também personalidades originais, que se destacam pelos projetos de vida que elaboram e soluções de questões que são vitais para a humanidade. As sínteses entre Teologia e Arte, estabelecidas, por exemplo, a partir das páginas das Sagradas Escrituras, surgem extravasando mensagens com as questões e sentido existencial do homem. Nestas sínteses encontra-se um eixo básico de atuação: o processo criativo, capaz de somar campos que se articulam com a História. Aqui o papel da esperança teológica - assinalada por uma visão catequética que objetiva uma educação permanente da fé -, e as metáforas artísticas, unidas, podem romper limites.

"No princípio Deus criou o céu e a terra ..."(Gên 1.1). Assim começa o Livro dos Livros e não existe tema algum que tanto tenha fecundado o espirito humano como as páginas bíblicas. Dados de decisiva importância saem dessas páginas. Suprimindo-as, desaparece com elas todo um imenso capítulo de imagens e criações magníficas da História da Arte. Por isso não é de admirar que se tenha, apaixonadamente, procurado exprimir os mistérios e implicações que essas páginas contêm. E, ainda hoje - confrontando os seus dados com documentos da arqueologia, com as hipóteses da História e estudos antropológicos, - teólogos, membros de pastorais e artistas devem continuar dando as mãos, articulando a Revelação e os fatos que dão sentido e beleza à vida.
Arte: Iluminação da existência.

A Catequese Renovada assinala uma ação eclesial que leva a pessoa a entrar em contato com Cristo, explicitando sua mensagem e seu mistério segundo a capacidade de cada um. Por isso, a catequese desenvolve um papel de “iluminação” da existência; de interpretação de fatos, dos valores humanos e de libertação daquilo que é contra a dignidade da pessoa humana. Nesse sentido, pode-se pensar na Arte subsidiando essa "iluminação" ou mesmo como fator pedagógico da catequese.

Essa meta aproxima-se, por exemplo, das reflexões desenvolvidas por André Malraux sobre a situação da obra de arte e o seu contexto. O historiador da arte afirma que o Sagrado não "implica apenas um Absoluto", mas insere a vida da sociedade "orientada por Ele".(1) Discute que se forem transportadas para os museus: imagens, objetos sagrados de diversos povos e culturas; imagens de Cristo, da Virgem e dos Santos; então, uma enorme parte da arte sacra (Ocidental) se transformará em temas de contemplação estética (2). É possível também pensar no caminho inverso. Se forem “deslocados” certos objetos, imagens, artefatos associados a fatos significativos do cotidiano - que possam ser “iluminados”por uma leitura sagrada -, ganham novos significados. Dessa forma, abrigados em santuários, elementos que possam expressar símbolo para a celebração litúrgica tais como “cabeças cobertas que surgem na mídia”, “sandálias de plásticos de caminhantes pela luta da terra”, novos artefatos tecnológicos, artesanatos, adquirem novas leituras, podem dar origem a novos conteúdos de reflexão teológica.

As orientações do Vaticano II enfatizam a ação pastoral e o diálogo ecumênico. Como conseqüência motivam a "caminhada do povo de Deus", marcada pela renovação e os "períodos de renovação da Igreja são também tempos fortes de catequese. Essas orientações devem levar a uma "nova" aproximação entre o Sagrado e a Arte. Na prática, equivale a fazer uma revisão sobre a "retirada da arte do acervo da Igreja com consequentes prejuízos para a pedagogia catequética". A Música, o Teatro, as Artes Plásticas, retirados do espaço sagrado, empobrecem a elaboração criativa da própria idéia de sagrado. As obras de arte facilitam o diálogo, a comunicação e a abertura para o "novo".

Giotto, Leonardo, Bach, Aleijadinho, Villa Lobos e Chagall elaboraram obras de valor sagrado não por causa da temática em si, mas porque criaram obras abertas e não fechadas sobre si mesmas. Toda obra-prima abre-se para várias leituras, diálogos, encontros do homem com ele mesmo e o Sagrado. É interessante perguntar porque, segundo a tradição, a obra de Leonardo Da Vinci Santana, a Virgem e o Bambino (estudo em cartão, c. 1510), foi visitada durante um dia e uma noite pela população florentina, que se organizou em fila para contemplá-la?
Apesar das variações históricas do sentido, na origem, a Arte está ligada a serviço (Arte, do latim Ars, Artis = serviço, função, trabalho). Segundo o pensamento clássico "a BELEZA é o esplendor da verdade" (Kalos: belo, bom, verdadeiro; ou ainda: Verdade = Belo = Bom). "Nesse sentido a mentira é feia". E BELEZA (Bet Elza = "o lugar em que Deus brilha". Beleza é talvez, a palavra mais próxima do Sagrado, de religiosidade. Pode-se dizer que Beleza é "o lugar onde Deus se manifesta". A idéia de "maravilhoso" está próxima dessa leitura. Como conseqüência, é próprio da arte "o encantamento e a sedução". Constituem, sem dúvida, fortes fatores para a motivação, valorizando: A Revelação, o Kerigma e a celebração Pascal.
REVELAÇÃO - A Revelação do mistério escondido nos séculos. Revelação do sentido da vida, do conhecimento do Deus Uno-Trino. O centro revelado é Jesus Cristo. A pessoa de Jesus Cristo e tudo o que O envolve é o alvo das atenções do Ensino Teológico. É o centro efetivo do Humano e do Divino. A obra de arte pode constituir o meio e o lugar de anúncio e celebração da “Beleza" desse fato.

O KERIGMA - É o anúncio desta verdade como missão do cristão, no mundo, para testemunhar a Morte e Ressurreição de Cristo. É a razão de ser de toda a atividade cristã. Portanto, a Arte como linguagem universal também anuncia Cristo. A Arte é também depositária e meio de manifestação teofanica do Senhor Vivo e presente entre os homens. E forte veículo de comunicação.




CELEBRAÇÃO PASCAL - Celebrar é elevar-se; sair do corriqueiro e, assim, elevar toda a criação até junto d'Aquele que é celebrado. A celebração eleva a vida e permite renascer o cotidiano. A Celebração Pascal é o Memorial de Cristo, o verdadeiro centro (e Beleza) . Define toda a ação da Igreja; é, portanto, artística também. A arte cristã nasce do memorial e converge para o memorial. É o Mistério da Redenção atualizado como fato histórico, cotidiano e perene. "A celebração é 'ação' do 'Cristo Total' (Christus Totus). Aqueles que a celebram além dos sinais, das aparências, estão já na liturgia celeste, lá onde a celebração é totalmente comunhão e festa"(3)
O Espaço Sagrado.

Cada Templo ensina, com mais eloqüência que os livros, as concepções que os homens engendram da divindade e as relações que esta mantém com as criaturas. Na visão Estética é também síntese das várias artes e do próprio homem ( "tenda-oração; resumo dos valores do próprio homem). É abrigo de todas as artes. Tudo artisticamente pode ocorrer num Templo: música, teatro, dança, pintura, escultura, cinema, vídeo, instalações artísticas, multimídia. Não deixa de ser um grande acervo para o catequista e agentes culturais e pastorais - um verdadeiro celeiro pedagógico!

Do ponto de vista religioso, o Templo é a imagem do Universo (Microcosmo). Todo edifício sagrado é cósmico, ou seja, está feito segundo uma imitação do mundo ( ou da idéia que se tem de mundo). Em todas as culturas o esquema geral do Templo é a simples paisagem constituída pela Colina (TUMULUS) com sua gruta, pedras, árvores, fonte - tudo inscrito e protegido por uma "linha" (de separação) anunciando o caráter sagrado do lugar.

Com o desenvolvimento humano e arquitetônico, o Templo torna-se uma Casa e seus componentes minerais e vegetais transformam-se para constituírem os próprios elementos do edifício. Assim sendo, a "linha" rudimentar torna-se parede; as árvores dão origem aos pilares, a pedra torna-se o altar; a fonte, piscina baptismal; a gruta transforma-se em ábside e o teto assimila a abóbada celeste. Surge o Templo como uma paisagem petrificada.

Na relação Homem-Universo, o Espaço Sagrado contém uma vitalidade. A Montanha ou Colina tem a forma de ventre (é a Natureza em gestação). Como num útero, "... nela se é gerado e projetado para a fora e para o alto"(4) Pode-se, aqui, estabelecer uma ligação com a idéia de projeto de Deus. Do desdobramento dessas idéias, várias construções sagradas procuram estar dirigidas para o Oriente, pois é do Oriente que vem a Salvação (5).

O Templo, assim como a idéia do Sagrado, sofre evoluções com o passar do tempo. O Templo egípcio é gigantesco, triunfal e mortuário. Os deuses, prisioneiros da eternidade, nele são submetidos ao retorno sem fim dos astros e das estações. Nele, o povo não tem ingresso facilitado; os seus recados aos deuses são mediados pela casta sacerdotal que habita e pesquisa no templo. O santuário propriamente dito é constituído por pequeno recanto no interior do templo.

O Templo grego, por exemplo, não é grande. Não foi construído para a multidão, mas para a solidão do deus que encerra, e sua harmonia obedece às leis de uma geometria maleável que se adapta às passagens de luz. É assim que o racional e o irracional, o que é razoável e o que não o é, misturam-se em vez de se combaterem; para formar o monumento mais irradiante de pensamento que tenha sido dado ao homem conceber.

O santuário cristão, em sua arquitetura viva como um organismo, historicamente, tem procurado reviver a harmonia grega ou, ainda, expressar outras adaptações estilísticas ou espaciais. Restabelece o equilíbrio e a união entre a sensibilidade e a razão; a mediação e participação celebrativa. Mas, ao contrário do mundo antigo, possui, como foco inextinguível, o Amor. A partir da Encarnação, a partir da Cruz e a Celebração Pascal, é inelutável que se humanize a expressão do Sagrado.

A evolução sofrida posteriormente sai desse nascedouro. Nas origens são observáveis algumas fases:

* casas privadas (p.ex.: At 2, 46; 12;12) - enquanto os pagãos constróem magníficos templos nas praças e estradas do Império Romano, enquanto os judeus afluem periodicamente ao esplêndido templo de Jerusalém, reconstruído por Heródes, os cristãos celebram em lugares simples e discretos, em "casas privadas";

* "domus eclesiae" (p. ex..: Dura Europa da metade do século III, na Mesopotâmia) - espaços mais amplos e funcionais. Revela uma distribuição de espaço segundo usos pastorais - um ambiente batismal com piscina para imersão, uma sala para catequese e uma sala ampla munida de jarros para sinapse eucarística;

* "Eclesia Basilicalis"- a partir do final do século III e início do IV, quando a comunidade eclesial pode superar os séculos de perseguição com a paz constantiniana, surge a fase solene das basílicas. Surgem construções grandiosas, concebidas para glória de Deus e para dar maiores espaços à crescente freqüência dos fiéis. No início, são adaptados locais romanos (fórum, senado, termas). A forma que passa a ser organizada é feita em função da “sinapse eucarística” e local de “aula magna”. No futuro, surgem desdobramentos dessas concepções originais; catedrais até a chegada aos templos atuais, somando novos estilos, épocas e estudos teológicos.



O Templo Sagrado cristão vai além do espaço físico. No famoso diálogo entre Cristo e a Samaritana, junto ao poço de Jacó, no Vale de Siquém, há um dado fundamental para a reflexão Teológica (“iluminação” da existência e “abertura” litúrgica). Cristo diz: “Acreditai em mim, mulher; vem a hora que nem neste monte e nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vem a hora, aliás já chegou a hora, na qual os verdadeiros adorares adorarão o Pai em espírito e verdade”(Jo.4,2-3).

O Templo cristão não nasce da necessidade de “localizar uma presença de Deus”, mas da “conveniência de dar um digno espaço material ao rito do culto cristão” (5). Atinge fundamental significado quando os fiéis comemoram os acontecimentos do Cenáculo: da Morte e Ressurreição de Cristo. A Igreja, que é o “próprio cristão”, tem o próprio Jesus como pedra chave (I Ef.2,20). O templo cristão, portanto, como morada física que se constrói para os “templos vivos de Deus , é o receptáculo do “Corpo Místico do Cristo”; “Onde é a minha sala, onde poderei comer a Páscoa com os meus discípulos?” ( Mc. 14,14).


Imagem

“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança... Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus. Ele criou homem e mulher...”(Gen1,26-27)


A imagem tem uma capacidade objetiva de síntese petrificando uma verdade muito além de divagações individualistas e subjetivas. A imagem passa uma verdade mais que as palavras. (8)


“A iconografia cristã transcreve para a imagem a mensagem evangélica que a Escritura Sagrada transmite pela palavra. Imagem e palavra se esclarecem mutuamente”(9) (Catecismo da Igreja Católica nº 1160)




Imagens: Testemunhas do Invisível
O aprendizado através de imagens é fundamental na integração do “eu” e de um povo. A IMAGEM é testemunha do Invisível - Aproxima e Une. É o indicativo de uma presença (palavra latina que significa sombra de um morto, espectro, fantasma, visão, retrato, cópia, imitação, parábola, lembrança, sinal - IMAGO = IMAGEM).

A imagem de culto tem autoridade em si mesma. É Kerigma, indica que Deus existe. Motiva a presença do Invisível. Produz atenção, comoção (10). Eleva o homem do seu âmbito próprio ao sobrenatural, a uma ordem cheia de poder. Com isso, o homem renova-se; ordena-se; transforma-se. Mesmo voltado à vida cotidiana alcança a visão da sacralidade.

A imaginária cristã expressa diversidades de tempo e espaço; de correntes filosóficas e espiritualidades. Através das obras de Arte são conhecidas a História da Igreja e a trajetória dos povos. As imagens sofreram mudanças, pois são reflexos de diferentes espiritualidades nos diferentes séculos. Porém, as imagens, igualmente, provocaram mudanças nas pessoas, no “chão histórico, na visão teológica”. Pode-se perguntar: na frente de que imagética oraram os antepassados cristãos? Quais imagens correspondem à espiritualidade atual? Como adequá-las às renovações teológicas e catequéticas ?

A Arte Cristã, nas origens, apoia-se na cultura romana, é especialmente descritiva, decorativa e simbólica. A Teologia não se dedica à especulação e os textos bíblicos têm representações mais sacramentais. As cenas mais comuns variam entre: Batismo, Eucaristia, Curas, Morte e Ressurreição. Por serem pagãos, os artistas primitivos retratam o “Cristo Hérmes” (Cristo Sol); o Cristo Mestre - os Cristos são figuras de jovens sem barba; pois, nos três primeiros séculos, os artistas de origem romana não recebem influência da arte original do Oriente ( que passa a elaborar o Cristo com barba, por exemplo).

Com a evolução do tempo, surge a iconografia mais conhecida da Igreja. O ÍCONE é uma imagem sacra. É a arte de culto a decorar paredes das igrejas com os principais mistérios bíblicos da fé. Faz parte da vida interior da Igreja. Encontra-se intimamente ligado ao Evangelho e à Liturgia, deles recebe vida. O ícone é o reflexo da presença de Mistério. Jamais o ícone é feito para “decorar” uma residência ou um ambiente que não seja especialmente religioso. Ele tem um lugar central nas celebrações litúrgicas e tem lugar específico na Igreja. Quando alguns ícones são levados para “altarzinhos domésticos” dos fiéis e para ser “pouco da Liturgia e do Mistério”, contemplado em suas casas. Por exemplo, a “leitura do Presépio” demonstra, na Tradição, um interesse não sentimental dos antigos pela cena de Belém. O Presépio é como um dado dogmático. O Filho de Deus, estendido na manjedoura, torna-se, assim, o centro da História Salvífica do Homem.

“A imagem Sagrada, o Ícone Litúrgico, representa principalmente o Cristo. A imagem não pode representar o Deus Invisível e Incompreensível; e a Encarnação do Filho de Deus que inaugurou uma nova Economia da Imagem”(Catecismo, nº 1159).

Na História da Arte, a IMAGEM DE CRISTO passa por diferentes formas. Algumas mais numa ‘linha de continuidade por libertação pós cristãos, por Constantino”, outras com nítidas diferenças e outras, ainda, como reflexos emergentes e particulares de culturas. Uma variedade enorme de versões e estilos tem sido produzida pelos maiores artistas do mundo. A Cruz é grande constante na Arte. É o simbolismo de Centro e Universalidade. ( É o símbolo do centro em si, identifica-se com o Eixo Cósmico. Leva também aos quatro lados; o número 4; o quadrado; a direção humana para poder caminhar; os pontos cardeais). A CRUZ DE CRISTO é a Árvore da Vida; é a Páscoa; e eixo do mundo. Apresenta muitas variações com o tempo. Não são comuns nos primeiros tempos. São mais representadas depois do século V. Entre o Renascimento e o Barroco são imagens contundentes. Hoje, após o Vaticano II, insiste-se nas “cruzes processionais” levadas até o altar, mais do que nos crucifixos grandes nas paredes. Levam à reflexão da caminhada do povo de Deus e de sua inserção na História.

As imagens sagradas têm enorme diversidade temática. Um outro grande centro de atenção artística: é o de MARIA, “a mulher ícone do Mistério” (10). Ao longo da História, recebe atenções especiais dos artistas e teólogos enquanto Mãe do Verbo Encarnado - representa a comunhão entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo e entre Eles e o mundo. Essas imagens todas, plenas de significado e sentido da vida, constituem acervo importante para a reflexão teológica e pedagógica catequética.


Entretanto, o contexto atual pode levar à questão: é possível uma arte sacra hoje? Os acervos culturais demonstram que a partir do século XVIII a temática profana domina. Nos séculos XIX e XX, a Arte ocila entre expressar a angústia da realidade e de suas contradições e eliminar imagens anteriormente consideradas sacras. Essa questão não possui uma resposta tranquila - merece um exame atento, cuidadoso. Todos os períodos da História produzem obras sagradas e profanas. Nem sempre é possível demarcar na obra onde termina o Humano e começa o Sagrado. Pode-se pensar na Arte Sacra também como exaltação do Humano.
O Sagrado não implica apenas no envolvimento de “um Absoluto”; mas que a vida em sociedade em que parece esteja orientada para Ele. Esse reexame deve conduzir a uma visão estética voltada a projetos que humanizem a sociedade e celebre a vida (Só acredito num Deus que dance, diz Nietzche).

Conclusão e pontos para reflexão.
Uma Celebração do Sagrado e do Humano

A Arte vem acompanhando o Sagrado dando-lhe forma e beleza. O entrelaçamento entre Catequese - Teologia e as Celebrações deve continuar a busca de soluções para o aperfeiçoamento humano, diálogo comunitário e elaborações de projetos solidários. Nesse sentido, alguns pontos e contribuições podem ser assinalados:




1. De modo geral:
* Manutenção do Patrimônio Artístico - A Igreja é depositária de importante legado arquitetônico, literário, musical, escultórico, pictórico que deve ser conservado, consultado e divulgado, constituindo rico material pedagógico para a Catequese Permanente (A documentação do Concílio Vaticano II orienta esse ponto);

  • Liturgia, Estética e Pesquisa

Este dia será como um memorial e o celebrareis como uma festa...” Ex 12, 14.

A Liturgia ganha maior dimensão quando envolve toda a existência numa celebração:

. das manifestações do Criador;

. da própria Vida como dom divino;

. das razões e motivações por ELE próprio almejadas.

Esses pontos supõem atitudes que possam demonstrar:

memorial” - atualizando sempre (sempre) a certeza dos compromissos da Aliança de Deus com o seu povo e que essa Aliança continua (e é recordada - anámnese) com os seus efeitos salvívicos e de esperança;

mistério pascal (mysterion)- centralizando a encarnação, morte e ressurreição de Cristo. Da passagem da morte para a vida (“... porque eu vivo e vós vivereis...” Jo, 14, 19), deve resultar a luta pela vida em plenitude (pessoal e comunitária);

liturgia da vida - entendida como própria de um povo de “vocação sacerdotal”. Esse povo possui uma missão libertadora, comprometida com Jesus Cristo - apoiado no “chão da história”-, situa a Liturgia como ponto alto da caminhada.

A dimensão Litúrgica não deve perder de vista:



o mistério da Liturgia (incluindo o sentido etimológico, do grego Leitourgía = função pública) - como “memorial”, Cristo torna-se presente no meio de seu povo. Realiza-se a Koinonia trinitária - a comunhão que liga o Pai, o Filho e o Espírito Santo, antecipando a comunhão plena de todos em Deus;

o povo sacerdotal - pela participação na Liturgia forma-se um só corpo, um só templo espiritual (“...para que sejam um como nós...” Jo, 17, 1

as celebrações - brotadas a partir do acervo bíblico, ouvindo e respondendo a Deus. Essas são formadas pelos sinais sensíveis incorporados na Koinonia e, principalmente pela Eucaristia - o centro e o fundamental para a vida.

As criações artísticas valorizam a acolhida pastoral, o processo catequético e motiva celebrações mais envolventes. A devoção e a fé professadas devem transparecer nos elementos das celebrações, na música e nas imagens. O Belo não é uma questão de luxo, mas envolve senso estético e bom uso dos materiais pesquisados como extensão do aprofundamento e Espiritualidade. A Igreja deve tratar com carinho criadores, artistas, especialistas. Por mais simples que seja o Espaço Sagrado, as festas ou celebrações não devem impedir a preparação de corais, encenações litúrgicas por profissionais da área, (certas improvisações feitas por pessoas despreparadas comprometem ações pastorais e catequéticas). Esse aspecto envolve pesquisa com grupos de estudos - leva tempo, porém o efeito aguardado vale a pena. Não se pode perder de vista, ainda, que hoje são mais valorizados espaços sagrados mais despojados.

* Adequação aos dados históricos emergentes - A Arte, técnicas e tecnologias contemporâneas constituem importantes recursos para leituras e vivências do dia-a-dia catequético ou litúrgico. Vídeos, performances, intervenções espaciais, danças, instrumentações sonoras, luzes, artesanatos, multímidia, por que não usá-los? Não se pensa aqui em exageros ou folclores, mas em vitalidade na expressividade do Sagrado.

2. A vida do dia-a-dia: (“existência e qualidade de vida”)
Por insistência nacional e internacional, segundo conclusões do HABITAT II, Istambul, junho/1996, o Brasil deveria sediar experiências habitacionais. Ao lado das leis básicas de zoneamento, conservação e manutenção, é necessário lutar ( é uma grande extensão missionária/catequética!), por bolsões de implantação de projetos que melhorem as condições de vida urbana e sub-urbana (ou mesmo do campo).
* moradias populares e abrigos - movimentos de base, pastorais associadas a universidades ou regionais - devem buscar organizar soluções adequadas. A técnica do tijolo-secado-ao-sol, por exemplo é econômica, segura e de bom efeito estético. Experiências com esses recursos podem crescer nos lugares pobres: Favelas e abrigos também podem ser reformulados com campanhas do “colorido nas paredes” - a cal e pigmentos cedidos pelas indústrias dão vida e minimizam o insalubre;
* diagramação e despoluição visuais - lutas, normalizações programadas; informações orgânicas sobre a cidade; leis de trânsito, propaganda; tapumes de construções são iniciativas que tranquilizam e provocam bem-estar em centros urbanos ou periféricos;
* organização espacial - cada perímetro habitado deve ter feição própria. Todos merecem - além de condições básicas de saneamento, água, saúde, educação, equilíbrio entre construções e paisagem (ainda que em espaço pequeno e simples). Às vezes a luta por um espaço de lazer, com muito verde, torna-se crucial para lugarejos ou cidades (um parque, um mini zôo, centro esportivo ou cultural).

3. Criatividade - Ação Missionária e Celebração.

São historicamente indissociáveis (em todas as religiões e culturas). Quanto maior for a atenção dada a este ponto, maior poder de aglutinação terão a pedagogia catequética e as celebrações litúrgicas.

* organizar um acervo artístico catequético e litúrgico - (envolvendo recursos de multimídia, equipes de pesquisa de objetos e materiais criativos, indumentárias, instrumentos musicais e principalmente o convite aos artistas e profissionais capacitados para subsidiarem as atividades);

* criar e manter o espaço de diálogo íntimo com Deus - Das igrejas mais simples às mais sofisticadas sempre oferecer o máximo para o ensino catequético, as celebrações e diálogos ecumênicos. Essas atividades podem envolver desde o oferecimento de encenações, corais, concertos para as celebrações propriamente ditas, ou dinâmicas catequéticas até "bálsamo e clima para as orações dos fiéis". Depois de um dia de trabalho ou semana de lutas, os espaços das igrejas constituem dons salutares. As igrejas também podem criar, ao lado de serviços sociais e escolas, os seus centros de artesanato (é uma pastoral que não deve ser descuidada, pode transformar-se numa tradição e valorizar e aproximar comunidades).

Notas:

1. MALRAUX, André. Les voix du silence. Paris, La Galerie de La Pléiade,

1956, p. 11 e seguintes.

2. Idem.


3. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, São Paulo,

Vozes/Paulinas/Ave-Maria, 1993, nº 1136,p.279.

4. PASTRO, Cláudio. Arte Sacra - o espaço sagrado hoje. São Paulo,

Arquidiocese de Colônia, Alemanha, 1993, p. 88 e seguintes.

5. Idem, p. 89.

6. Ibidem, p. 240.

7. Ibidem, p.35.

8. Catecismo da Igreja Católica, op. cit. nº 1160....

9. Existe um longo debate sobre “arte de devoção”( experiência humana do sagrado; de ordem mais sentimental) e “arte sagrada” (de natureza mais Ontológica e Cosmológica). Vide in: GOMBRICH, E. História da Arte.

10. FORTE, Bruno. Introdução à fé, São Paulo, Paulus, 1994, p.49.


Bibliografia:

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo, Vozes/Paulinas/Ave-Maria, 1993.
FORTE, Bruno. Introdução à fé, (Aproximação ao mistério de Deus).

São Paulo, Paulus, 1994.


GOMBRICH, E. H. História da Arte. São Paulo, Zahar, 1979.
HAUSER, A. História social da Literatura e Arte. São Paulo, Meste Jou, 1972.
HUYGHE, René. A Arte e a Alma. Porto/Paris, Flammarion, 1960.
MALRAUX, André. Les voix du silence. Paris, La Galerie de La Pléiade, 1956.
OCHSÉ, Madeleine. Uma Arte Sacra para nosso tempo. São Paulo, Flamboyant, 1960.
PASTRO, Cláudio. Arte Sacra - o espaço sagrado hoje. São Paulo,

Arquidiocese de Colônia, Alemanha, 1993.


PLANO PASTORAL - 1995/1998 - Missão na cidade, São Paulo,

Arquidiocese de São Paulo, Vozes, 1995.


RIBEIRO, Hélcion. Ensaios de Antropologia Cristã (Da imagem à semelhança com Deus),

São Paulo,Vozes, 1995.


ROPS, Daniel. História Sagrada - O Povo Bíblico, Porto, Livraria Tavares, Martins, 1957.

São Paulo, junho de 1997



Elza Ajzenberg


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