São Paulo, outubro de 2013 (versão atualizada)



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Ladislau Dowbor

Tecnologias do Conhecimento

OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO


São Paulo, outubro de 2013

(versão atualizada)


Índice

1 - Da educação à gestão do conhecimento 5

2 - Um mundo intensivo em conhecimento 8

3 - O salto tecnológico da informática e da comunicação 10

4 - O deslocamento dos paradigmas da educação 16

5 - A educação articuladora dos espaços do conhecimento 20

6 - Tecnologias do conhecimento e tecnologias organizacionais 27

7 - Tecnologias do conhecimento e desafios institucionais 29

8 - Comunicação, escola e comunidade 33

9 - Comunicação e Poder: os novos desafios 37

10 - O potencial de democratização 42

11 – A economia da criatividade 45

Bibliografia 51

Sobre o autor 55

A presente versão, de setembro de 2013, tem poucas modificações, essencialmente de referências ou sites desatualizados, e algumas evoluções tecnológicas mais recentes. Hoje com cinco edições, este pequeno livro sobre os impactos das novas tecnologias na educação continua surpreendentemente atual. As mudanças aqui propostas, quando muito, tornaram-se mais prementes.
Ladislau Dowbor, setembro de 2013

Terminada a última guerra mundial foi encontrada, num campo de concentração nazista, a seguinte mensagem dirigida aos professores:


"Prezado Professor,

Sou sobrevivente de um campo de concentração.

Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver.

Câmaras de gás construídas por engenheiros formados.

Crianças envenenadas por médicos diplomados.

Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas.

Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de

colégios e universidades.

Assim, tenho minhas suspeitas sobre a Educação.

Meu pedido é: ajude seus alunos a tornarem-se humanos.

Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou

psicopatas hábeis.

Ler, escrever e aritmética só são importantes

Para fazer nossas crianças mais humanas."
As tecnologias são importantes, mas apenas se soubermos utilizá-las. E saber utilizá-las não é apenas um problema técnico.

Tecnologias do Conhecimento

Ladislau Dowbor

Setembro de 2013

Tentamos aqui identificar as grandes linhas do imenso potencial que abrem as novas tecnologias do conhecimento, e também os novos perigos que apresentam. A educação já não pode funcionar sem se articular com dinâmicas mais amplas que extrapolam a sala de aula. Da mesma forma, a economia já não pode funcionar de maneira adequada sem enfrentar a questão da organização e da gestão social do conhecimento.
O autor destas linhas é economista. Porque está se aventurando nesta área que normalmente é da educação? Por um lado, porque ensinar economia é um trabalho de educação, e não há educador que não sinta que estamos avançando para novos horizontes. Por outro lado, estamos avançando a passos largos para uma sociedade do conhecimento, e a problemática da educação se tornou central para todos nós, para o desenvolvimento econômico e social de maneira geral.
As tecnologias em si não são ruins. Fazer mais coisas com menos esforço é positivo. Mas as tecnologias sem a educação, conhecimentos e sabedoria que permitam organizar o seu real aproveitamento, levam-nos apenas a fazer mais rápido e em maior escala os mesmos erros. Achávamos que o essencial para desenvolver o país seria criar fábricas e bancos. Hoje constatamos que sem os conhecimentos e a organização social correspondentes, construímos uma modernidade com pés de barro, um luxo de fachada.
Alguns trechos do presente livro apareceram em artigos, ou capítulos de livros. Com a dimensão dos desafios que enfrentamos, achamos útil elaborar uma visão de conjunto, e apresentar os nossos principais desafios de maneira sistematizada, ainda que sumária. Por outro lado, as reflexões presentes neste livro nos levaram a desenvolver outros trabalhos, como Da propriedade intelectual à economia do conhecimento http://dowbor.org/09propriedadeintelectual7out.doc ; O Professor frente à propriedadde intelectual http://dowbor.org/2011/08/o-professor-frente-a-propriedade-intelectual-7.html/ ou ainda Educação e desenvolvimento local, http://dowbor.org/06edulocalb.doc.
Vivemos hoje uma explosão tecnológica, com Wikipedia, Google, Facebook, Twitter, Mooc, Ocw, EdX, Rea e tantas siglas e iniciativas que nos permitem acessar conhecimentos e socializá-los pelo planeta afora de uma maneira inimaginável em outras eras. Os aparelhos de suporte, deste celulares a tablets e laptops vêm os preços cair rapidamente, e ainda durante a presente década se tornarão onipresentes por toda parte e em todos os níveis sociais. A conectividade permanente de todos com todos, e de todos com todo o conhecimento humano digitalizado, veio para ficar. A educação tradicional, sentada em cima deste vulcão de transformações, começa a sentir um calor crescente. Por enquanto, apenas acomoda-se o melhor possível. Mas as transformações terão de ser sistêmicas.

1 - Da educação à gestão do conhecimento

As transformações que hoje varrem o planeta vão evidentemente muito além de uma simples mudança de tecnologias de comunicação e informação. No entanto, as TICs1, como hoje são chamadas, desempenham um papel central. E na medida em que a educação não é uma área em si, mas um processo permanente de construção de pontes entre o mundo da escola e o universo que nos cerca, a nossa visão tem de incluir estas transformações. Não é apenas a técnica de ensino que muda, incorporando uma nova tecnologia. É a própria concepção do ensino que tem de ser repensada.


Tradicionalmente, a educação seria um instrumento destinado a adequar o futuro adulto ao mundo do trabalho, disciplinando-o, e municiando-o de certa maneira com conhecimentos técnicos, para que possa “vencer na vida”, inserindo-se de forma vantajosa no mundo como existe. Esta inserção vantajosa, por sua vez, asseguraria reconhecimento e remuneração, ou seja, “sucesso”. É uma educação que é vista de certa maneira como “trampolim” para a vida séria que vem depois. Claramente, esta visão já é insuficiente, e são tantos anos na escola, que a fase escolar precisa passar a ser útil e agradável em si, não só para um futuro distante. A criança é uma realidade presente, não um projeto.
Este paradigma de trampolim para o sucesso, amplamente dominante, gerou outra visão, contestadora, que tenta assegurar à educação uma autonomia que lhe permita centrar-se nos valores humanos, na formação do cidadão, na visão crítica e criativa, menos utilitarista, e mais rica na própria dinâmica de apropriação do conhecimento e de convívio social escolar. Menos centrada no objetivo de assegurar uma entrada na estreita porta do sucesso – o que aliás leva a priorizar a competição em detrimento da aprendizagem da colaboração – esta visão permite curiosamente uma transição mais suave para o mundo do trabalho.
Tal como existe, salve algumas ilhas de excelência, a nossa educação é frágil demais para assegurar ao aluno os instrumentos técnicos para ser competente na linha profissionalizante, e insuficientemente estruturada e socialmente inserida para ser transformadora. A base tecnológica do conhecimento mudou, mas também mudou o mundo do trabalho, pela própria expansão da dimensão do conhecimento que exige em todas as áreas.
O mundo que hoje surge constitui ao mesmo tempo um desafio ao mundo da educação, e uma oportunidade. É um desafio, porque o universo de conhecimentos está sendo revolucionado tão profundamente, que ninguém vai sequer perguntar à educação se ela quer se atualizar. A mudança é hoje uma questão de sobrevivência, e a contestação não virá de “autoridades”, e sim do crescente e insustentável “saco cheio” dos alunos, que diariamente comparam os excelentes filmes e reportagens científicos que surgem na televisão e na internet, com as mofadas apostilas e repetitivas lições da escola.
Mas surge também a oportunidade, na medida em que o conhecimento, matéria prima da educação, está se tornando o recurso estratégico do desenvolvimento moderno. O conhecimento científico, é preciso dizê-lo, nunca esteve no centro dos processos de transformação social. Desempenhava um papel folclórico na Grécia antiga, mais preocupada com as guerras, e mobilizou minorias ínfimas em termos sociais nas grandes civilizações, seja da China, de Roma, ou do mundo árabe.
Frente às transformações tecnológicas que varrem o planeta, o mundo da educação permanece como que anestesiado, cortado de boa parte do processo de pesquisa e desenvolvimento, hoje essencialmente concentrado nas instituições científicas de ponta para a pesquisa fundamental, e nas empresas transnacionais2 para a pesquisa aplicada. Fica assim privado de uma visão mais ampla do desafio que tem de enfrentar. Mas a realidade é que, por primeira vez, a educação se defronta com a possibilidade de influir de forma determinante sobre o nosso desenvolvimento, pelo próprio peso que o conhecimento adquiriu nos processos econômicos.
Junto com os fins, surgiram os meios. Ao mesmo tempo em que a educação se torna um instrumento estratégico da reprodução social3 e de promoção das populações, surgem as tecnologias que permitem dar um grande salto nas formas, organização e conteúdo da educação. Informática, multimídia, telecomunicações, bancos de dados, vídeos e tantos outros elementos se generalizam rapidamente. A televisão, hoje um agente importante de formação, pode ser encontrada nos domicílios mais humildes. Os custos destes instrumentos estão baixando vertiginosamente. A internet em banda larga, em particular, que hoje atinge dois bilhões de pessoas, deverá nos próximos anos tornar-se um instrumento público universalmente disponível.
Partindo das tendências constatadas em diversos países, vislumbramos um conceito de educação que se abre rapidamente para um enfoque mais amplo: com efeito, já não basta hoje trabalhar com propostas de modernização da educação. Trata-se de repensar a dinâmica do conhecimento no seu sentido mais amplo, e as novas funções do educador como mediador deste processo.
As resistências à mudança são fortes. De forma geral, como as novas tecnologias surgem normalmente através dos países ricos, e em seguida através dos segmentos ricos da nossa sociedade, temos uma tendência natural a identificá-las com interesses dos grupos econômicos dominantes. E a verdade é que servem inicialmente estes interesses. No entanto, uma atitude defensiva frente às novas tecnologias pode terminar por acuar-nos a posições em que os segmentos mais retrógrados da sociedade se apresentam como arautos da modernidade.
Com as transformações revolucionárias que atingem o universo do conhecimento em geral, dotar-se de instrumentos e instituições adequados de gestão nesta área constitui seguramente um eixo essencial de ruptura do nosso atraso. Trata-se de inverter o sinal político das tecnologias, torná-las em instrumento de inclusão, de democratização social através do conhecimento, e não mais instrumento de dominação das elites.

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