São Paulo, uma metrópole desigual



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São Paulo, uma metrópole desigual
Suzana P. Taschner – FAU/USP1

Lucia M. M. Bógus – PUC/SP2

1. Introdução
O objetivo central do presente estudo foi o de identificar e qualificar alguns tipos de impactos produzidos pela globalização sobre o espaço urbano da cidade de São Paulo, núcleo central da metrópole paulista.. Vivem hoje na sede da Região Metropolitana Paulista aproximadamente dez milhões de pessoas, que se somam a cerca de outros sete milhões nos demais 38 municípios de sua Região Metropolitana. Grande parte de seus habitantes vivem segregados nas periferias e regiões deterioradas, evidenciando uma geografia de exclusão.
Estudos sobre o tema da globalização são unânimes em apontar os seus efeitos sobre o desenvolvimento e a morfologia das cidades. Entre as questões gerais sobre os reflexos da globalização no urbano podem ser destacadas:


  • hipóteses sobre os impactos econômicos, onde se distinguem a perda significativa da função polarizadora das atividades industriais, com a fuga de indústrias portadoras de processos produtivos baseados na exploração de mão de obra intensiva, e a concentração de atividades terciárias, em particular as especializadas em serviço,




  • hipóteses sobre o impacto territorial, ligadas a um aumento de desigualdade e exclusão no tecido urbano. No território coexistiriam duas cidades, uma global e outra local. A primeira, a cidade global, se estrutura ligada a uma lógica de desenvolvimento específica, como sede para as finanças e para as empresas transnacionais, como centro de comando e controle da economia mundial, como local de produção e consumo de inovações e tecnologias; já a segunda, a cidade local, mantém-se estagnada, ou se encontra em decadência, crescentemente marginalizada dos investimentos.

Divisões espaciais na cidade não são fato novo. Historicamente, tanto as cidades do mundo antigo clássico, quanto as cidades medievais e as do mercantilismo são segmentadas espacialmente. Engels (1975:55-111) descreveu com apuro as condições de vida da burguesia e da classe operária em Manchester. Quais seriam as mudanças atuais?

A hipótese da “global city” (Sassen, 1991; Mollenkopf e Castells, 1991, entre outros) indica que as transformações do papel das cidades no mundo atual, que mudam a atividade econômica de industrial para serviços, levaria a uma estrutura social bimodal, tanto em relação à estrutura de empregos como em relação à renda. O mercado de trabalho seria caracterizado por uma mistura de empregos com remuneração alta e bem qualificados, ao lado de empregos muito mal remunerados e de baixa qualificação. A estas mudanças na estrutura de emprego corresponderia uma “nova ordem espacial”, também dual.

Esta hipótese tem sido contestada por estudos recentes (Preteceille, 1995), entre outros, que afirmam estar crescendo a desigualdade de renda na cidade, mas sem a tão famosa bipolarização exposta pelos autores citados. Preteceille (1994, apud Véras, 2000:18) coloca que “o conceito de globalização, indispensável para a compreensão das transformações nas grandes metrópoles, não é capaz de explicar tudo, podendo ser um fracasso como paradigma teórico”. Esse autor indica duas visões das tendências atuais da economia: uma que focaliza a produção industrial e outra, a pós-industrial, a da chamada “revolução informacional”. A primeira resultou em crise do fordismo, industrialização de algumas regiões e desindustrialização de outras na nova organização global da produção com novas técnicas produtivas. A segunda, com ênfase no terciário superior, sublinha o conjunto capital financeiro/serviços/tecnologia ligadas à circulação e ao trabalho

Segundo o paradigma da cidade global, alguns atributos seriam comuns em distintos países: desemprego crescente, polarização social, violência, de um lado; de outro, base de operações do capital financeiro, industrias sofisticadas tecnologicamente, empresas trasnacionais, rede de telecomunicações eficiente.

No modelo da global city a estrutura socioespacial da cidade industrial estaria sendo substituída pela polarização entre segmentos pobres e ricos. Como coloca Queiroz Ribeiro (2000:16), “o ovo é substituído pela ampulheta com metáfora da nova estrutura espacial, o que se expressa na existência de um grande contingente de trabalhadores dos serviço de pouca qualificação e baixa remuneração e de desempregados vivendo de “viração”, e de um pequeno segmento constituído pelos novos profissionais da economia de serviços e financeira (corretores, advogados, analistas de sistemas, especialistas em marketing, etc), altamente qualificados e muito bem remunerados”. Isso resultaria no desaparecimento da antiga classe operária e na reconfiguração das classes médias, dualizando a estrutura social e aumentando a distância entre seus polos superiores e inferiores. Desenha-se uma nova geografia de centralidade e marginalidade. Segundo Sassen (1998, s/p, Introdução), “centros urbanos de cidades globais e centros de negócios metropolitanos recebem aportes maciços em investimentos imobiliários e telecomunicações, enquanto que outras áreas da cidade estão famintas por recursos; trabalhadores altamente qualificados empregados em setores de ponta vêem seus salários subirem para níveis nunca antes alcançados, enquanto operários com qualificação mediana ou baixa nos mesmos setores percebem seus ganhos afundarem. Serviços financeiros produzem sobrelucros, enquanto que serviços industriais apenas sobrevivem. Estas tendências são evidentes, com distintos graus de intensidade, em número grande das cidades mais importantes no mundo desenvolvido e em número crescente de cidades nos países em desenvolvimento que integram a economias global”.

No âmbito desse debate Marcuse (1996), baseado em seus estudos sobre New York, propõe o conceito de “cidade fragmentada” (quartered cities), destacando nas áreas residenciais espaços correspondentes a moradias de alto padrão, à cidade renovada e remodelada (local dos yuppies), à cidade suburbana (reduto tradicional da classe média), à cidade de aluguel (locus dos cortiços e das pequenas unidades de locação) e à cidade abandonada, local dos excluídos, dos sem teto, da pobreza mais aguda.

Gilbert (1998) admite sua incerteza no uso de conceitos como cidade mundial e mega-cidade analisando a América Latina. “O que é globalização e que implicações teria para a vida nas maiores cidades da América Latina?”. Segundo este autor, a “a única generalização que pode ser feita é que a globalização levaria a uma maior desigualdade e instabilidade. As cidades latino –americanas estão ficando mais desiguais e mais instáveis. Ambos processos estão ocorrendo porque estas cidades estão agora firmemente ligadas a uma economia mundial desigual e volátil.” (Gilbert, 1998:174). Para Gilbert, a idéia de polarização de Sassen, compartilhada por Friedmann (1982:320), onde “o fato social primário da cidade mundial é a polarização das suas divisões de classe” pode ser discutida para as cidades do mundo desenvolvido, onde esta polarização não parece ser inevitável. “Mas, nas cidades da América Latina parece não restar dúvida: o novo modelo econômico está acentuando os níveis pré- existentes de desigualdade”(p. 193)

A evolução do crescimento populacional na Região Metropolitana de São Paulo acompanhou, historicamente, seu desempenho econômico. Desde fins do século XIX com o auge da produção cafeeira, passando pela década de 50 com a implantação da indústria automobilística, até os anos 70, a região concentrou grande parte da atividade econômica nacional: em 1970 a RMSP respondia por 42,2% do valor da transformação industrial nacional e 74,6% do total estadual, de acordo com dados do Censo Econômico do IBGE.

A partir da década de 80, com a redemocratização política do país, expansão dos meios de comunicação e fortalecimento das instituições, acentua-se um processo de descentralização regional, já iniciado na década anterior, que atinge todo seu apogeu nos anos 90, com a abertura e a desregulamentação da economia, impulsionando os processos de globalização e reestruturação produtiva das empresas.

A desconcentração da atividade industrial, rumo ao interior do Estado e outras regiões, acompanhada pelo comércio e serviços tem sido, entretanto, objeto de discussão, pois as empresas que "migraram" continuaram mantendo com a região metropolitana os mais íntimos nexos, em termos de gestão, uma vez que nesta área permaneceram seus centros de decisão e de planejamento. Quando emigravam, eram apenas as plantas produtoras que se deslocavam. Tinha-se a impressão de que a atividade industrial passava por extenso e profundo esvaziamento, acompanhado de altos índices de desemprego e de precarização das condições de trabalho. Observou-se, no entanto, que nem todo desemprego industrial verificado na década era decorrente de uma diminuição dessa atividade na região, mas sim de sua modernização e de seu fortalecimento.

Assim, enquanto o interior e outras regiões recebiam novos investimentos, a região metropolitana reciclava a sua competitividade, através da reestruturação das plantas já instaladas e mediante a introdução de novos métodos de gestão.

Segundo dados da PAEP/SEADE (Pesquisa da Atividade Econômica Paulista da Fundação SEADE), a região metropolitana responde por 60,4% do valor adicionado industrial do Estado, 56,8% do pessoal ocupado e detém 56,9% das unidades locais de natureza industrial. Indicadores semelhantes atestam igual comportamento para o comércio: 51,6% do valor adicionado, 50,5% do pessoal ocupado, correspondendo a 40,5% das unidades locais.

De outro lado, as informações coletada mostram que, na cidade de São Paulo, o processo de deterioração das condições de trabalho e aumento de desemprego têm ocorrido de maneira sistemática. Apesar da População Economicamente Ativa ter se mantido praticamente estável em torno de 62% da População em Idade Ativa, o número de ocupados decresceu ( de 56,4% em 1988 para 51,7% da PIA em 1998). O desemprego da PEA saltou de um patamar de 8% a 10%, em 1991, para 17,0%, em 1998. Neste período, ocorreram também modificações na estrutura de ocupação, com diminuição da industrial de transformação (de 29,1% em 1988, para 17,8% em 1998) e da construção civil (de 4,0% em 1988, para 2,4% em 1998). Parte desta força de trabalho engrossou as fileiras do desemprego; parte foi absorvida pelos setores de serviço e comércio (que cresceram respectivamente de 51,% e 14,9% em 1988 para 62,4% e 17,0% em 1998; dados da Secretaria Municipal do Planejamento, Prefeitura Municipal de São Paulo).

Decresceu o trabalho assalariado (70,7% para 61,2% da população ocupada) e cresceu o trabalho autônomo (de 15,8% para 20,8% da ocupação). O emprego assalariado com registro em carteira vem decrescendo sistematicamente. Resumindo, a queda do emprego industrial, o crescimento do setor de serviços, o crescimento do trabalho autônomo e a queda do registro em carteira são indicações claras de perda dos direitos e garantias trabalhistas previstas na legislação.
Ao longo desse conjunto de transformações, processos múltiplos de reengenharia, reestruturação organizacional e da produção foram levados a cabo pela grande maioria das empresas, o que implicou grandes cortes de pessoal. Quanto aos processos de reestruturação organizacional e da produção, a estratégia mais adotada, alcançando 64,2% das empresas, foi a introdução de novos métodos de organização do trabalho. Grande parte do contingente de trabalhadores foi terceirizado, e assim sendo, o emprego industrial sofreu queda acentuada. A redução dos empregos não foi acompanhada por redução efetiva da atividade industrial em escala equivalente. Houve ganhos de produtividade e competitividade. Mas, a perda de meio milhão de empregos no setor em curtíssimo prazo ocasionou grave seqüela social.
Nesse contexto, avançou a internacionalização do controle patrimonial da indústria paulista, bem como sua diversidade e complexidade. Alargou-se a base industrial e modernizaram-se as empresas dos ramos e gêneros em que o Estado já contava com vantagens competitivas importantes.
A região metropolitana reaparece, então, com toda sua força econômica e em pleno processo de reestruturação dos principais segmentos produtivos. Concentra o esforço inovador da indústria e do comércio estadual, assim como amplia a heterogeneidade técnica e funcional de sua estrutura de produção. São Paulo ainda permanece na dianteira da economia, apesar da descentralização de investimentos. (Gazeta Mercantil, 2000): dos 311 maiores conglomerados brasileiros, 90 estão em solo paulista.
Se por um lado, a região tem reagido com maior agilidade às mudanças econômicas, modernizando-se rapidamente e sendo o alvo principal dos investimentos externos, por outro, vem sofrendo os efeitos perversos do processo em vigor com aumento do desemprego, da exclusão social e da violência urbana. Mantém-se uma estrutura dual na metrópole: regiões com completa infra-estrutura pública convivem com áreas desprovidas de serviços básicos; salários altíssimos se contrapõem a uma imensa massa de desempregados de baixa qualificação; prédios luxuosos convivem, lado a lado, com favelas.

Como um dos principais impactos físicos na estrutura urbana, registra-se um aumento no “fosso” existente entre áreas onde as atividades denominadas “globais” têm se instalado e as áreas periféricas. Outra característica de São Paulo é o deslocamento do “centro” de atividades modernas para novas áreas, associado a um processo de gentrification, que vem ocorrendo nos últimos trinta anos. Esses processos que ocorrem nas áreas modernizadas são resultado da intervenção do capital privado associado aos investimentos públicos em infra-estrutura.

Frente às discussões apontadas e tendo em vista a compreensão dos processos de distribuição socioespacial da população em São Paulo, ao longo das duas últimas décadas, a pesquisa "Metrópole, Desigualdades Sócio-Espaciais e Governança Urbana"3, na qual este trabalho se inscreve, propõe-se analisar, de forma comparativa e longitudinal, o "comportamento ocupacional" da população a partir de categorias socioocupacionais, construídas com base nos censos demográficos de 1980, 1991 e nos dados das PNADs (Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílios) de 1985, 1995 e 1997.

Estas categorias são resultado da construção de uma variável que fornecesse um sistema de hierarquização social das ocupações, como proxy da estrutura social. Esta variável, construída a partir da combinação das variáveis de renda, de ocupação, de posição na ocupação, de setor de atividade e de grau de instrução, foi denominada categoria socioocupacional (Queiroz Ribeiro, 2000; Tabard, 1993; Chenu e Tabard, 1993). A variável se distribui em 25 modalidades, agregadas em 8 grandes grupos. O Quadro I mostra a composição e evolução das categorias socioocupacionais na metrópole de São Paulo entre 1980 e 1997.



QUADRO I

EVOLUÇÃO DAS CATEGORIAS SÓCIO –OCUPACIONAIS, 1980-1997.



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