Sob o olhar estrangeiro



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A EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS NO SÉCULO XIX

SOB O OLHAR ESTRANGEIRO

Magda Sarat Oliveira

A criança brasileira, diferente das crianças estrangeiras, é vista como indivíduo de comportamento duvidoso, mal educada, sem etiqueta para se comportar em determinados lugares e ocasiões. É ainda acusada de manter uma relação de insubmissão com adultos, desrespeitando-os. Além disso, suas relações afetivas com os mesmos adultos são baseadas em mimos, paparicações e falta de limites. Essa generalização, imposta às crianças brasileiras, data especialmente de finais do século XIX e início do século XX (é possível que permaneça até a atualidade), sendo registrada por viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil neste período. Tais registros transformaram-se em documentos que refletem um período da história do Brasil e expõem as relações estabelecidas entre crianças e adultos, na visão dessas pessoas.

Os documentos revelam uma concepção de mundo de pessoas adultas, na maioria europeus, que já tinham uma relação com a criança, estabelecida e normatizada por padrões de comportamentos. Segundo Norbert Elias, desde o século XI os manuais de etiqueta desenham um processo de civilização dos costumes para a sociedade e conseqüentemente para a criança:

a conduta e vida instintiva da criança são postas à força, mesmo sem palavras, no mesmo molde e na mesma direção pelo fato de que um dado uso da faca e do garfo, por exemplo, está inteiramente firmado no mundo adulto - isto é, pelo exemplo do meio. Uma vez que a pressão e coação exercidas por adultos individuais é aliada da pressão e exemplo de todo mundo em volta, a maioria das crianças, quando crescem, esquece ou reprime relativamente cedo o fato de que seus sentimentos de vergonha e embaraço, de prazer e desagrado, são moldados e obrigados a se conformar a certo padrão de pressão e compulsões externas. Tudo isso lhes parece altamente pessoal, algo “interno” implantado neles pela natureza (ELIAS 1993:134)

Na obra O Processo Civilizador, Norbert Elias faz referência aos manuais de etiqueta que traziam prescrições para regular o comportamento das crianças. Erasmo, em 1613, escreve A civilidade moral das crianças, mostrando que a formação do novo homem se iniciava na infância. Elias, referindo-se às regras e imposições presentes nos manuais de etiqueta, mencionará que, em 1780, um manual prescrevia normas para o comportamento da criança à mesa: “... a criança bem educada será a última a se servir, se estiver na companhia de seus superiores...” (ELIAS, 1994:108).

A citação mostra a preocupação em ensinar a regra, deixando clara a forma como a criança era tratada e qual a sua posição social nesse momento, ou seja, os adultos tinham prioridade. Outro aspecto, mencionado pelos manuais, referia-se à diversidade de costumes presentes em cada grupo social. Por exemplo, a maneira de mastigar os alimentos variava de acordo com o país (uns o faziam com a boca aberta, outros com a boca fechada). Então, a regra para as crianças dizia: “... e assim cada nação apresenta alguma coisa própria, diferente das demais. A criança, em vista disso, deve proceder de acordo com os costumes do lugar onde está(apud ELIAS, 1994:102).

Vale destacar que, se as crianças foram ao longo do período aprendendo a “civilizar-se” de acordo com os padrões vigentes, nem sempre sua presença foi prioridade na relação com os adultos. Como o próprio manual diz, “a criança será a última a servir-se”, ou seja, mais uma vez a prioridade era dos adultos. Em meados do século XVI a percepção da criança como indivíduo social aos poucos se estabelece principalmente nas transformações das relações sociais no Período Moderno. Assim, segundo ARIÉS (1981), a inserção social da criança, ou a importância da infância, aparece somente a partir deste período, caracterizada pelo que ele define como “sentimento de infância”. Este sentimento seria a percepção da criança como um indivíduo com características e peculiaridades próprias, diferentes do adulto. Tal percepção mudará os rumos e a visão sobre a infância. Assim teremos na configuração social os modelos de civilidade e de comportamento também para normatizar os pequenos.

As transformações ocorridas na Europa chegam ao Brasil por várias vias, entre elas a presença de viajantes estrangeiros que se hospedam nas casas brasileiras e que nas suas observações também se referem às crianças. Nesses relatos é possível perceber a crítica ao modo como crianças e adultos se relacionavam. As críticas são feitas tomando-se como parâmetro de comparação os modelos europeus:

Os pais brasileiros vivem com as crianças ao redor e as estragam a mais não poder. Uma criança brasileira é pior que um mosquito tonto. As casas brasileiras não têm quarto para elas e, como se considera cruel pôr as queridinhas na cama durante o dia, tem-se o prazer de sua companhia sem intervalos (R. E. EDGECUMBE apud MOREIRA LEITE, 1997:37).

Interessante perceber que a crítica revela qual deveria ser o comportamento das crianças. Entretanto as crianças brasileiras não pareciam corresponder à norma, ao estabelecimento de regras para determinação do espaço da criança numa sociedade de adultos. Ela não poderia viver junto com os pais nas atividades do cotidiano. Existia a necessidade de estabelecer limites na privacidade (aparentemente ausente) e a imposição de horários para as diferentes atividades, procurando medidas que tornariam a convivência mais interessante.

Diante disso, podemos perceber que esses costumes estão presentes na sociedade européia, no modelo de relacionamento familiar imposto num extenso período pelas regras de civilidade. A inexistência de tais padrões no Brasil provoca estranhamento, como percebemos neste relato:

No Brasil não existem crianças no sentido inglês. A menor menina usa colares e pulseiras e meninos de 8 anos fumam cigarros. A linguagem desses meninos é terrível, embora eu precise admitir que, como os cocheiros de Londres, não percebem que estão usando expressões chulas (R. E. EDGECUMBE apud MOREIRA LEITE, 1997:37)

O relato demonstra indignação com relação a concepções já construídas pelo modelo de ser criança. Havia um modelo europeu constituído, no sentido inglês. Provavelmente seria uma criança que não tinha atitudes de adultos, uma criança polida na forma de comunicar-se, que não usava expressões “chulas”, não utilizava objetos ou adornos destinados aos adultos, não participava das atividades dos adultos. Enfim, se já havia na Europa um universo próprio para a infância, que contemplava um determinado modo de ser, vestir, falar, como seria isso no Brasil? Pelo olhar dos estrangeiros, não existia nenhum modelo de civilidade, sendo necessário construí-lo, pois nas famílias que tinham alguma “tintura de costumes europeus” certas atitudes não eram permitidas:

Nas casas dos fluminenses ricos, pode-se atravessar uma fila de crianças de cabeça lanosa, na maioria despidas de qualquer roupa, que tem licença de correr por toda a casa e de se divertirem vendo as visitas. Nas famílias que têm alguma tintura de costumes europeus, esses desagradáveis bípedes são conservados no quintal (KIDDER & FLECTCHER apud MOREIRA LEITE, 1997:33).

Nesse universo povoado de crianças, adultos e diferentes formas de relacionamento, buscamos pesquisar a existência de “modelos” de civilidade para as crianças brasileiras, considerando a literatura e a pesquisa no sul do Brasil, região marcada pela colonização estrangeira, especialmente no centro-oeste do Paraná, com suas colônias e grupos étnicos organizados.

Essa literatura reflete um período e uma pesquisa específica desenvolvida por alguns pesquisadores que trabalham com literatura de viagem como MÍRIAM MOREIRA LEITE, MARIA LÚCIA MOTT e ROBERT SLANES, que será utilizada no andamento da pesquisa.

Contudo, estaremos também trabalhando com o levantamento das concepções de alguns grupos étnicos sobre a questão da infância. Na chegada ao Brasil se processa um choque de relacionamentos e concepções de mundo, considerando as diferentes culturas e a formação dos grupos.

É nossa intenção fazer um recorte. O percurso da caminhada será definido no processo de pesquisa (mesmo porque ela está no início). Buscaremos então construir documentos a partir da história oral de vida, entrevistando pessoas na faixa dos 70 a 90 anos que residem na região e fazem parte de alguns grupos, como os alemães, os ucranianos, os italianos, os portugueses e os poloneses. Alguns desses grupos mantêm escolas organizadas com o objetivo de preservação dos valores culturais e manutenção de costumes e tradições dos antepassados.

A questão que se apresenta é de como essas comunidades vêem a formação e a educação de suas crianças, considerando o fato de estarem no Brasil e manterem relacionamentos com crianças de diferentes grupos. Ao mesmo tempo, procuramos verificar que valores estão presentes na formação de filhos e também de alunos, já que a formação se estende à escola, especialmente nas comunidades que têm escolas próprias.

A necessidade de pesquisar a história da criança brasileira é relevante, pois, conforme lembra a historiadora Mary Del Priore (1999:11), no Brasil a historiografia internacional pode servir de inspiração mas não de bússola”.

Portanto, buscar a história de crianças estrangeiras ou brasileiras criadas sob diferentes concepções de vida é uma possibilidade de construir a história da infância brasileira e, a partir dela, de conhecer melhor a organização social brasileira.

Finalmente, empreendemos a pesquisa como possibilidade de uma contribuição à história da educação, especialmente à história da infância, um campo restrito e com poucas pesquisas dos profissionais envolvidos na educação infantil. Além disso, é a possibilidade de:

...escrever uma história do menino - da sua vida, dos seus brinquedos, dos seus vícios - brasileiro, desde os tempos coloniais até hoje. (...) É um grande assunto. E creio que só por uma história desse tipo - história sociológica, psicológica, antropológica, e não cronológica - será possível chegar-se a uma idéia sobre personalidade do brasileiro. É o menino que revela o homem. (FREIRE, apud, PRIORE, 1999:11,12)

Está é uma possibilidade que envolve e encanta, no sentido de que esse menino e essa menina estão presentes em todos os períodos e regiões, fazendo e sendo feitos pela história.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARIÈS, Phillipe. 1981. Trad.Dora Flaksman. História social da criança e da família. 2a. ed.. Rio de Janeiro: Livros técnicos e Científicos Editora.

BINZER, Ina Von. 1992. Os meus romanos: alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil. Trad. Alice Rossi e Luisita da Gama Cerqueira. 3a. ed.. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

ELIAS, Norbert. 1993. O Processo Civilizador. Formação do Estado e civilização. Trad. Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Zahar.

________. 1994. O Processo Civilizador. Uma História dos Costumes. Trad. Ruy Jungmann. 2a. ed.. Rio de Janeiro: Zahar.

MOREIRA LEITE, Míriam L. 1996. O óbvio e o contraditório da roda. In: PRIORE, Mary Del (org). História da Criança no Brasil. São Paulo: Contexto, pp. 98-111.

MOREIRA LEITE, Míriam. 1997 A infância no século XIX segundo memórias e livros de viagem. In: FREITAS, Marcos César de (org).1997. História social da infância no Brasil. São Paulo: Cortez.

PRIORE, Mary Del (org). 1996. História da Criança no Brasil. São Paulo: Contexto.



________. 1999. História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto


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