Solange Patrício Universidade Federal de Sergipe



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“A Escola de Aprendizes Artífices em Sergipe: O ensino profissionalizante e sua implantação no estado (1911-1942”

Solange Patrício

Universidade Federal de Sergipe

Este trabalho faz parte de uma pesquisa que se encontra em andamento no Núcleo de Pós-Graduação em Educação da UFS e pretende reconstruir e analisar a trajetória do ensino profissionalizante no estado, através do resgate histórico da Escola de Aprendizes Artífices de Sergipe, no período de 1911 a 1942. Temos como objetivo analisar os vários aspectos que contribuíram para a organização desse tipo de escola e as relações existentes na sociedade da época.

Naquele período o Brasil entra na era republicana com uma economia preponderantemente de cunho agrário, pautada na produção extensiva em latifúndios de matérias-primas tropicais e gêneros alimentícios.

O processo de industrialização no país era ainda incipiente, localizado em algumas áreas específicas, nas regiões sul e sudeste. As variedades das matérias-primas produzidas, eram poucas tais como: a cana de açúcar, o café, o algodão, o ferro, a borracha, etc.

Conforme nos fala Caio Prado (1956:231) a esse respeito:

“... A produção agrária continuará (na República) compartimentada e distribuída pelas diferentes regiões do país, como um gênero para cada uma; e desenvolvendo-se cada qual independente dos demais e voltados inteiramente para fora do país, isto é, para a exportação...”

Com a abolição da escravatura, os olhos dos fazendeiros brasileiros voltavam-se para o problema da mão de obra na lavoura. Rejeitando o negro, ex-escravo e os homens livres, porque os consideravam inaptos ao trabalho, os grandes proprietários de terras pressionaram o Governo Federal para que este tomasse medidas urgentes para sanar os problemas causados pela falta de mão de obra, através de medidas que atraíssem a vinda de imigrantes europeus para o Brasil, a fim destes trabalharem na lavoura no lugar do ex-escravos agora alforriados.

A expectativa da época era que a imigração de europeus resolveria o problema da mão de obra brasileira. Os grandes proprietários de terra, responsáveis pela maior parte da produção agrária do país, exigiam que as autoridades públicas adotassem ações para sanar os prejuízos causados em decorrência da abolição da escravatura do país, realizada sem indenização por parte das autoridades imperiais.

Conforme nos cita Caio Prado (1996:218), esses imigrantes não estavam adaptados aos trabalhos em grandes propriedades como as que havia aqui. Suas tendências logo eram de abandonar os empregos para se estabelecerem por conta própria, pois muitos eram camponeses em seus países de origem ou pequenos comerciantes.

Esses trabalhadores não se sentiam dependentes dos senhores proprietários como os ex-escravos e diante de qualquer dificuldade nas relações entre patrão x empregado, estes não hesitavam em abandonar as fazendas em busca de novos postos de trabalho em outras propriedades ou iam para as cidades.

Os homens livres que sempre existiram concomitantemente ao regime escravista, não se curvavam aos interesses econômicos dos grandes proprietários, que lhes ofereciam propostas de trabalho em troca de quantias nem sempre justas.

Assim, essa população de trabalhadores disponíveis no país era chamada de “arredia ao trabalho” e formavam uma “mão de obra rebelde ou inconstante”.

No contexto sergipano destacamos essa citação na obra de Oliva (1985:51) quando descreve

Na visão da burguesia açucareira, o trabalhador sergipano é “o negro boçal, o caboclo indolente, ou o mestiço sem ambição, todos fracos, mal-alimentados, sem interesses ligados ao solo, nômades, maltrapilhos, ignorantes e adoentados na maior parte pelo abuso do álcool, pelo impaludismo e mesmo pelo efeito da vida errante que levam, de fazenda em fazenda, à procura de melhor ganho, isto é, do proprietário mais aflito pela urgência do serviço.”

Numa sociedade até então escravista, mesmo após a libertação dos escravos, os negros continuam sendo concebidos com toda a carga social de inferioridade. Além do mais, essa discriminação racial era enfatizada pela desapropriação material dessa população que era desprovida de todo e qualquer bem material.

No Brasil, um contingente significativo de pessoas, formado principalmente por ex-escravos e imigrantes, que não se adaptavam as formas de produção impostas pelos fazendeiros, abandonavam a zona rural e foram habitar nas zonas urbanas, gerando grandes transtornos para as populações citadinas e seus administradores. Estas pessoas viviam em precárias situações, sem trabalho, sem moradia, sem alimentação, ou seja, sem as condições mínimas de sobrevivência.

O quadro provocado pela situação dessas famílias era tão grave que as autoridades públicas e/ou privadas, vezes em conjunto e vezes separadas, criavam instituições a fim de amenizar esta situação. Dessa maneira, muitas das iniciativas do ensino profissional no Brasil foram voltadas ao assistencialismo, buscando atender às necessidades primárias (alimentação, moradia, noções rudimentares de escrita e leitura, ensino de ofícios) dos indivíduos das camadas sociais mais populares.

O fenômeno educativo, que desde o século XIX ocupara tribunas de deputados e a atenção de intelectuais da época, emergia nos inícios do século XX como um importante instrumento capaz de romper o atraso cultural e a dependência econômica do país, pois acreditava-se que com a escolarização das classes populares, os trabalhadores estariam mais aptos para executarem suas tarefas e portanto, a produção cresceria gerando riquezas.

Passos eram dados na busca de alternativas que respondessem aos problemas gerados nas esferas sociais, econômicas e políticas. A escolarização das massas era uma das alternativas que se impunham na pauta dos governantes da época como solução para a qualificação da mão de obra ociosa nas cidades, preparando-a para o trabalho e a nova ordem econômica capitalista.

Em Sergipe, no mandato do Presidente do Estado Sr. Rodrigues da Costa Dória (1909-1912), foi inaugurada a Escola de Aprendizes Artífices, em 1.o de Maio de 1911, pelo médico Dr. Augusto Leite, então primeiro diretor, nas festividades do Dia do Trabalho. Esta Escola de Aprendizes e Artífices começou a funcionar com 120 alunos matriculados no curso primário e de desenho. As primeiras oficinas foram de alfaiataria, marcenaria e ferraria e mecânica, sendo ampliadas depois pelas de sapataria e selaria, pois estas guardavam os maquinários chegarem da Europa.

Evidenciava-se o crescimento econômico do Estado. Segundo o Recenseamento do Brasil – ano 1920 – Indústria, no período de 1907 a 1920, Sergipe possuía 41 estabelecimentos industriais e passou a possuir 237, um aumento representativo no número de indústrias concentradas principalmente na capital. (Dantas, 1974:42)

A cidade de Aracaju, se modernizava instalando-se água encanada, inaugurando-se o sistema de bondes, introduzindo-se a energia elétrica, o serviço de esgotos e rodovias.

Havia necessidade das autoridades responderem positivamente às questões do setor educacional, principalmente voltadas ao ensino primário e profissional. Acreditava-se que com o processo de escolarização das classes populares estas seriam mais adaptadas ao novo ritmo que o processo capitalista impunha ao regime de trabalho.

Segundo análise de Nagle (1974:100) sobre o período havia um “entusiasmo” e um “otimismo” pela escolarização no qual acreditava-se que com a “multiplicação das instituições escolares” e a “disseminação da educação escolar” seria possível “incorporar grandes camadas da população na senda do progresso nacional, e colocar o Brasil no caminho das grandes nações do mundo”. Era uma tentativa de adequar os passos da educação nacional ao inevitável processo desencadeado pelo capitalismo mundial.

Em sua fase inicial, a Escola de Aprendizes Artífices, como as outras demais instituídas, passou por diversas dificuldades: programas inadequados, oficinas mal aparelhadas, equipamentos insuficientes, professores mal preparados, entretanto mesmo diante de tantas dificuldades impostas pela própria dinâmica do processo social ela continua atuando na formação profissional de diversas gerações do estado.

Pelo decreto-lei n.o 4073 de 30/01/1942 que criou a Lei Orgânica do Ensino Industrial, as Escolas de Aprendizes Artífices tiveram a sua denominação alterada e passou a chamar-se Escola Industrial Federal de Sergipe. Já a Portaria n.o 239 de 03/09/1965, tendo em vista a Lei n.o 4795 de 20/08/1965, determinou a adoção do atual nome: Escola Técnica Federal de Sergipe, que considerando toda essa trajetória, está completando noventa anos de existência.

Nesse sentido, entendemos que esta pesquisa histórica sobre as raízes do ensino profissionalizante no estado e da implantação da Escola de Aprendizes Artífices, constitui um trabalho significativo e importante para a compreensão do papel desta instituição de ensino no contexto da época e as contribuições que a sua criação permitiu à sociedade sergipana.

Finalmente, consideramos que compreender e explicar a existência histórica de uma instituição educativa, integrando-a na realidade ampla do sistema educativo, significa contextualizá-la, questionando-a no quadro de evolução de uma sociedade inserida na sua localidade, sendo por fim necessário sistematizá-la e descrevê-la na biografia de sua vida, revelando toda sua multidimensionalidade e evidenciando seu sentido histórico.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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______________, O ensino de manufatureiros em arsenais, asilos e liceus. In: Fórum Educacional. Rio de Janeiro, v. 3, ano 2, Jul/Set, 1979.



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