Sonda Mars Express Encontrou Água em Marte



Baixar 8.74 Kb.
Encontro25.07.2016
Tamanho8.74 Kb.
Fonte: Jornal Público

Sonda Mars Express Encontrou Água em Marte
Por TERESA FIRMINO
Sábado, 24 de Janeiro de 2004

Há mesmo água em Marte. A sonda europeia Mars Express, em órbita de Marte desde o dia de Natal, encontrou água e dióxido de carbono congelados no Pólo Sul - anunciou ontem a Agência Espacial Europeia (ESA), que divulgou belas imagens da superfície marciana ferida por torrentes de água ou marcada pelo curso vagaroso de rios que outrora correram pelo planeta.

Pode parecer só mais um anúncio, como o que foi feito em Maio de 2002, dizendo que os dados da sonda norte-americana Mars Odyssey 2001 revelavam a presença de hidrogénio congelado, em depósitos no subsolo que iam desde as calotes polares até às latitudes médias. Água, considerou-se então, seria a forma mais provável desse hidrogénio, mas ficou sempre espaço para alguma ambiguidade.

"Estas provas eram indirectas, porque o hidrogénio podia estar associado a outros minerais", referiu o geólogo Ivo Alves, do Instituto Geofísico da Universidade de Coimbra e coordenador científico de uma equipa portuguesa que pretende analisar dados da Mars Express (embora, depois de ter sido aprovado pela ESA, o projecto continue à espera de resposta da Fundação para a Ciência e a Tecnologia sobre um pedido de financiamento).

"Agora foi mesmo a molécula de água que foi detectada. Estes resultados mostram que o hidrogénio está em água", comentou Ivo Alves, para quem estes dados são "muito encorajadores".

Por isso, anúncio de ontem da ESA não foi só mais um. "É a primeira vez que detectou água no chão. Esta é a primeira confirmação directa", sublinhou Allen Moorehouse, responsável pelas operações da Mars Express, numa conferência de imprensa no Centro de Operações Espaciais da ESA, em Darmstadt, Alemanha. "Trata-se de água à superfície e que não está coberta por gelo carbónico", acrescentou outro investigador, Jean-Loup Bertaux.

A 5 de Janeiro, o primeiro instrumento científico da Mars Express - que atingirá a órbita final em torno de Marte no dia 28, para aí ficar dois anos - começou a recolher dados. Ora os primeiros mapeamentos do Pólo Sul, a 18 de Janeiro, com um dos instrumentos da sonda - o OMEGA, que combina uma câmara e um espectrómetro de radiação infravermelha - já revelaram a presença de gelo de água e de dióxido de carbono.

A informação recolhida pelo OMEGA foi confirmada por outro instrumento da sonda, o espectrómetro planetário Fourier, com uma resolução sem precedentes, diz um comunicado da agência. Os espectrómetros medem as assinaturas específicas produzidas por cada substância química.

"Parece haver quantidades maiores de água do que se supunha. Isto confirma os dados da Mars Odyssey 2001", referiu ainda Ivo Alves. "A quantidade e o estado são importantes. Gasoso e sólido sabe-se que há. O Eldorado é encontrar água no estado líquido, que é possível em profundidade. Na superfície não é possível, porque a pressão e a temperatura são demasiado baixas. Aí, a água ou é vapor ou gelo."

Será então que a água em gelo à superfície é o que resta dos gigantescos oceanos que se pensa terem banhado Marte? E se teve tanta água no passado, será que a vida chegou a surgir? E o que aconteceu a toda essa água? Para onde foi?

Para tantas perguntas, há ainda poucas respostas concretas. Em relação à água actual, os cientistas ignoram, no entanto, se está sempre congelada ou se se evapora para a atmosfera durante o Verão marciano, para voltar a condensar e congelar no Inverno. "Estamos no fim do Verão. O facto de haver ainda gelo no Pólo Sul tende a provar que é permanente", considerou Jean-Loup Bertaux, citado pela AFP.

Mas mesmo estando a observar Marte há tão pouco tempo, a Mars Express já deu a resposta de base. E obteve mais provas de que Marte, hoje árido e assolado por tempestades de poeiras, por vezes tão gigantes que cobrem todo o planeta, já foi no passado abundante em água. Basta ver as imagens espectaculares feitas pela câmara estereoscópica de alta resolução da sonda: revelam as marcas da erosão feita pela passagem de água pela superfície. Vêem-se o que parecem ser sedimentos deixados no leito dos rios mas também poeiras a resvalar por crateras abaixo. O Vale Marineris, o maior desfiladeiro do sistema solar, que se prolonga por 4000 quilómetros, não escapou ao olhar da sonda.



"As análises confirmam que a erosão por água aconteceu outrora na superfície de Marte", frisou o investigador Gerhard Neukum, da Universidade Livre de Berlim e o principal responsável pela câmara estereoscópica de alta resolução. Já foram tiradas imagens de 1,87 milhões de quilómetros quadrados da superfície marciana - o que corresponde à área de França, Alemanha, Áustria, Itália, Espanha e Portugal, e que foi coberta com uma resolução de 10 a 15 metros por "pixel". Já se receberam cerca de 100 "gigabytes" de dados.

Tanto Ivo Alves, como o engenheiro aeroespacial Tiago Hormigo, da empresa portuguesa Deimos Engenharia, pensam que dados ainda mais importantes vão surgir em Abril, quando entrar em funcionamento um radar a bordo da Mars Express. Não se ficará pela superfície, vai procurar água no subsolo, até cinco quilómetros de profundidade.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal