Sonho Grande Cristiane Correa Editora Primeira Pessoa, 264 páginas



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Encontro06.08.2016
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Sonho Grande – Cristiane Correa – Editora Primeira Pessoa, 264 páginas.

O livro narra a trajetória do trio de empresários que criou a Ambev e protagonizou alguns dos maiores negócios do capitalismo mundial nos últimos anos, chamando a atenção de setores importantes do mundo dos negócios e da mídia internacional. A estratégia deles é estipular metas ousadas e agressivas nos negócios - e persegui-las com tenacidade e bastante disciplina.


A última grande aquisição foi a empresa americana de alimentos Heinz, presente em mais de 200 países, em fevereiro, pelos empresários brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, fato este que não chegou a surpreender a comunidade internacional dos negócios. Em quatro anos e meio, eles já haviam arrematado a dona da Budweiser, a cerveja mais vendida no mundo, e o Burger King, a segunda maior rede de fast-food. Mais importante, imprimiram a sua marca de eficiência administrativa nas duas empresas, recolocando-as no caminho dos bons resultados e dos lucros fartos. Para quem os conhece há mais tempo, a compra da Heinz só reafirmou a determinação do trio. Tome-se o exemplo do americano Jim Collins, o consultor de negócios mais respeitado da atualidade. Para ele, Lemann, Telles e Sicupira já deixaram a sua marca ao lado de visionários como Walt Disney, Henry Ford, Sam Walton (Walmart), Akio Morita (Sony) e Steve Jobs (Apple). O livro conta a trajetória de obstinação e competência do trio na perseguição de seus objetivos e, por que não dizer, sonhos. Afinal, como costumam afirmar: "Sonhar pequeno dá o mesmo trabalho que sonhar grande. Então, por que não sonhar grande?". O pensamento paira como um mantra sobre todos os negócios administrados pelo trio e sua equipe, que formam a 3G, um fundo que se especializou na compra de empresas, reestruturação e venda posterior, angariando, com isso, grandes retornos financeiros.

Para escrever o livro, Cristiane Correa conversou com uma centena de pessoas - exceto seus três personagens, historicamente avessos a entrevistas. A ascensão do trio começou em 1971, com a compra da corretora Garantia, por Lemann e outros sócios - ela se transformou no maior banco de investimentos do país. Foi a partir dali que nasceram projetos como a compra das Lojas Americanas, em 1982, e a da Brahma, em 1989. Depois viria a fusão com a Antarctica, em 1999, que resultou na criação da Ambev. As uniões com os belgas da Interbrew, em 2004, e com os americanos da Anheuser-Busch, em 2008, deram origem à AB InBev, a maior cervejaria do mundo. Todas estas operações foram contadas de forma detalhada por Cristiane Correa, que disseca todos os bastidores das operações que envolvia o grupo, as estratégias, os equívocos e os sucessos constantes. O maior mérito deles, porém, foi ter desenvolvido e disseminado um modelo de gestão com base na meritocracia, algo muito distante das empresas estabelecidas no país, ou seja, no reconhecimento a quem trabalha duro e traz resultados e na redução de custos. Em outras palavras, na busca incessante pelos lucros e pela expansão dos negócios, e isto era perseguido com afinco e determinação, quem se mostrava em condições de seguir tais princípios eram muito bem remunerados, agora, todos que não se encaixavam eram convidados a sair. Nessa trajetória, eles formaram alguns dos melhores executivos do país, nomes de peso no setor produtivo e financeiro nacional passaram pela escola do Garantia, tais como: Armínio Fraga, André Esteves, Claudio Haddad, entre outros. Trata-se de uma prova de que um dos sonhos do trio já é realidade: a perpetuação de sua cultura empresarial, marcadas por muita disciplina, garra e determinação, além de uma calma e um sangue frio que impressionavam a todos os concorrentes e admiradores, só encontrados em pessoas que praticavam, como eles, um esporte radical, a pesca submarina.


Jorge Paulo Lemann, de 73 anos, é de uma geração anterior à de seus dois parceiros. Filho de um imigrante suíço, fundador da fabricante de laticínios Leco (abreviação para Lemann & Company), ele nunca chegou a trabalhar na empresa do pai, optando por atuar no mercado financeiro, antes disso, se enveredou pelo mundo dos esportes e das competições de alto desempenho, chegou a representar o Brasil em torneios de tênis, mas, num determinado momento, percebeu que nunca conseguiria chegar entre os melhores deste esporte no mundo, o que o fez escolher e optar por outras áreas de atuação.

Marcel Telles, hoje com 63 anos, e, depois, Beto Sicupira, 64, foram contratados para trabalhar no Garantia em 1972 e 1973, respectivamente. Começaram por baixo, mas subiram rapidamente na hierarquia e logo conquistaram a confiança do sócio controlador. Lemann inovara ao adotar o sistema de bônus com base em metas, em vez do tempo de casa ou no cargo, e em oferecer sociedade a quem se destacasse. Uma das características do Garantia eram os baixos salários, o grupo pagava salários abaixo dos de mercado, mas compensava agressivamente com a remuneração variável, que fez com que muitos de seus funcionários se tornassem milionários. O banco ganhou fama pelo ambiente competitivo e pelas longas jornadas de trabalho, seus funcionários começavam o expediente às 8 horas da manhã e, muitos deles, só começavam a encerrar o trabalho depois das 20 horas, alguns saiam do banco depois da meia noite.

A autora conta uma história interessante – o caso do economista Eduar­do Giannetti da Fonseca, oriundo da Inglaterra com seu título do doutorado, foi convidado para integrar as fileiras do Banco Garantia, mas, sua passagem pelo banco não durou mais de uma semana nos anos 90, Giannetti, com ares de intelectual e com grande formação em filosofia não se adaptou a carga excessiva de trabalho e com o ambiente altamente competitivo, resultado, chamou Lemman e pediu para sair do banco, alegando que sua preferência intelectual e profissional eram outra.

Destaca-se ainda, que todas as empresas do trio se ancoram em alguma empresa já existente, o trio acredita que não é necessário inventar nada se temos empresas bem sucedidas no mercado, o Banco Garantia se inspirou no modelo implantado pelo Banco norte-americano Goldman Sachs, as Lojas Americanas se inspiraram na rede varejista Walmart e a aquisição da Brahma se inspirou na Anheuser-Busch, empresa que produz a cerveja Budweiser, todas estas serviram de inspiração, seus modelos foram implantadas, copiados e aperfeiçoados, trazendo grandes retornos financeiros para seus controladores.

Na Brahma, uma das inspirações para dar mais produtividade aos negócios foi o modelo 20-70-10, idealizado pelo lendário Jack Welch, ex-presidente da General Electric (GE), considerado, no mundo dos negócios, o maior dos gestores do século XX. A cada ano, os 20% de funcionários com melhor desempenho eram premiados; os 70% seguintes mantinham o emprego; e os 10% com pior resultado eram demitidos, o que exigia de seus funcionários uma constante atualização e qualificação, sob pena de serem substituídos pelos mais capacitados e adaptados a filosofia da empresa.


Um ponto importante a se destacar na obra, é que, todos os funcionários eram estimulados a estudar e buscar sua qualificação, cursos eram uma constante nas empresas geridas por Lemman, muitos foram estudar em Harvard e em outras grandes instituições internacionais e, quando retornavam eram alocadas em cargos maiores e com mais responsabilidades, um dos pressupostos interessantes desta filosofia era a constante rotatividade, os mais velhos tinham a clareza de que não se perpetuariam no cargo, logo seriam substituídos por novatos, para que novas ideias fossem adotadas, e os mais experientes eram alocados em conselhos de administração das empresas adquiridas pelo grupo.

Outro ponto destacado na obra, a obsessão do trio pela redução dos custos, em todas as empresas adquiridas os gestores passavam um verdadeiro pente fino nos custos, luxos desnecessários eram eliminados, jatos executivos eram cortados, gastos com hotéis luxuosos foram eliminados por completo e, o mais interessante, todos os executivos eram atingidos pelos cortes, inclusive os donos e controladores das empresas, todos sentiam na pele a redução dos custos e, com isso, percebiam os ganhos adicionais oriundos destas políticas de contenção de gastos.

O livro Sonho Grande, de Cristiane Correa, destaca os fracassos do grupo, embora o faça de forma bastante tímida, analisa alguns dos equívocos cometidos nesta trajetória de investimento e reestruturação de empresas. A venda do Garantia para o Credit Suisse, em 1998, ocorreu depois de o banco sofrer um prejuízo de 110 milhões de dólares com a crise asiática, muitos acreditam que este prejuízo foi em decorrência das grandes bonificações pagas no Garantia em anos anteriores, estes bônus acabaram desviando os gestores da instituição de seu foco principal e fazendo com que, muitos novos milionários, passassem a administrar seus recursos e deixarem de lado os recursos geridos pelo banco. Em 1994, o banco acumulou um de seus mais expressivos resultados, neste ano distribuiu US$ 1 bilhão de bonificação, com isso, muitos funcionários se tornaram milionários da noite para o dia, um dos mais brilhantes operadores de câmbio da instituição chegou a ganhar um bônus de US$ 20 milhões.

A crise asiática fez com que investidores perdessem muito dinheiro, fragilizando o nome da instituição, um nome até então bastante respeitado pelo mercado nacional e internacional, o patrimônio dos fundos administrados pelo banco caiu pela metade, obrigando-os a passarem o banco para os sócios mais novos, assumir o prejuízo financeiro e computar o episódio como uma de suas maiores decepções, afinal, o Banco Garantia foi a sua primeira grande criação, uma empresa que revolucionou o mercado financeiro e, infelizmente, não seria perpetuada.

Outro motivo que se destaca para as perdas ocorridas no banco garantia, foram as ausências do trio no comando da instituição, um envolto na gestão das Lojas Americanas (Beto Sicupira), o outro com a Brahma, depois Antarctica e Inbev (Marcel) e Lemman se afastou por problemas de saúde, a ausência dos grandes controladores da instituição abriu espaço para equívocos constantes e generalizados, que culminaram em estratégias mal executadas e prejuízos pontuais.



Outra característica importante do grupo é a atuação direta no terceiro setor, todos os três dividem seu tempo em dirigir ou influenciar ONGs, que tem por princípio melhorar as condições sociais do país, atuando no setor educacional, na melhoria da gestão pública e no setor de empreendedorismo, mas todos, de uma forma ou de outra levam sua experiência para impulsionar os negócios no país e no mundo.

O livro foi muito bem escrito, texto de leitura fácil e agradável, o que senti falta na obra foi uma atenção maior aos críticos do banco, isto porque muito da filosofia adotada pela instituição se restringe ao próprio espírito do sistema capitalista, um sistema que visa o lucro, que tende, sempre, a maximizar o lucro e minimizar os custos, aumentando, com isso, os retornos de seus controladores, no decorrer da obra, percebemos uma implacável e até, obsessiva, busca por redução dos custos, demissões em escalas crescentes e um modelo de gestão que extrai tudo dos funcionários e lhes entrega em mãos, limpinhos, um calhamaço de dinheiro enorme, que abrem portas e oportunidades imensas mas, que muitos não estão interessados, haja vista que tudo isso tem um preço e todos devem fazer suas escolhas e assumi-las integralmente.


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