SÉrgio buarque de holanda visões de um radical



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Lembrança de Sérgio
O CRÍTICO LITERÁRIO FALA DA CONVIVÊNCIA COM O HISTORIADOR EM TEXTO ESCRITO PARA O LIVRO "SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA - VISÕES DE UM RADICAL", QUE SERÁ LANÇADO PELA EDITORA BOITEMPO NESTA SEMANA

Sérgio Buarque de Holanda era paulistano, mas no fim da adolescência foi morar no Rio de Janeiro e só voltou para cá em 1946 como diretor do Museu Paulista, tornando-se em 1956 professor da Universidade de São Paulo. Talvez muita gente não saiba que a mola deste último fato, tão importante para a cultura brasileira, foi a idéia de um grande amigo meu, infelizmente morto moço, Lourival Gomes Machado, professor de política na Faculdade de Filosofia. O professor de história da civilização brasileira, Alfredo Ellis Júnior, do qual fui aluno, teve uma doença grave que o impossibilitou de continuar ensinando. Foi então preciso arranjar um substituto e Lourival propôs o nome de Sérgio, que não era professor universitário. Graças a isso, ele foi contratado e começou a preparar a tese de concurso a fim de se efetivar. O concurso foi no fim de 1958 e a tese é o monumental "Visão do Paraíso" [ed. Brasiliense].


Essa tese lhe deu um trabalho incrível e é o seu livro mais erudito, talvez o principal, embora não seja o mais lido. E é não apenas uma obra máxima na historiografia brasileira, mas uma das grandes obras da historiografia do século 20. Não sou historiador e pouco entendo desses assuntos, mas lembro bem que, quando a li, tive a impressão de que era a primeira vez que um intelectual brasileiro fazia um livro do teor mais alto que se encontra nos intelectuais europeus. No Brasil temos bons historiadores, mas não temos um passado de erudição exigente, e esse é o livro de um notável erudito, de um homem que investiga e conhece profundamente a bibliografia e os documentos, mas ao mesmo tempo sabe refletir com profundidade e imaginação criadora sobre os problemas, coroando tudo por uma escrita de alta qualidade. Fiquei impressionadíssimo.
Eu me dei intimamente com Sérgio a partir de 1946, quando ele retornou para São Paulo, mas já o conhecia desde 1943, quando esteve na cidade com Maria Amélia e participamos de um almoço oferecido pelo editor José de Barros Martins no restaurante Caverna Santo Antonio. Ficamos logo cordiais. Depois estivemos juntos em duas ocasiões memoráveis. A primeira foi a inauguração em 1944 da editora Brasiliense, que tinha à frente Caio Prado Júnior, associado a Maria José Dupré, Monteiro Lobato, Hermes Lima e Arthur Neves. Foram dias de convívio entre intelectuais daqui e do Rio, e Sérgio aproveitou para autografar exemplares de "Cobra de Vidro" no escritório do editor Martins. A seguir nos encontramos de novo em janeiro de 1945 no Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, que foi uma tomada de posição dos intelectuais contra a ditadura do Estado Novo. O nosso manifesto não pôde ser publicado devido à censura e foi distribuído em volantes. No mês seguinte, com a famosa entrevista de José Américo de Almeida, a ditadura começou a entregar os pontos. Um ano depois, ele veio residir em São Paulo. Logo estabelecemos relações afetuosas e constantes, Maria Amélia, minha mulher, ele e eu, com base numa espécie de "afinidade eletiva", pois nos demos bem imediatamente. Devo dizer que não sou muito sociável e sempre freqüentei poucas casas. A de Sérgio e Maria Amélia foi a que mais visitei, e eles também iam à nossa com certa freqüência. Posso dizer que fomos amigos chegados, por isso pude conhecê-lo de perto, ter muitas conversas e avaliar o tipo extraordinário que era: um conjunto complexo, no qual um traço de personalidade parecia negar outro. Era, de fato, erudito da maior serenidade e, ao mesmo tempo, inclinado à molecagem.

Irreverência modernista
Tinha um senso incomum da responsabilidade intelectual e era um gozador de marca maior, capaz de desmanchar momentos solenes com as atitudes mais inesperadas. É que conservou sempre a irreverência dos modernistas de 1922, em cuja esteira se formou. Os modernistas ensinaram à literatura brasileira que para ser sério não é preciso ser solene nem trombudo. A seriedade deve estar ligada à alegria, à sátira, numa disposição de espírito expressa, por exemplo, no artigo de Ronald de Carvalho intitulado "O Claro Riso dos Modernos". De fato, os modernos riam e se divertiam muito. E nós, mais moços, tivemos a sorte de conviver em São Paulo com Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Sérgio Buarque de Holanda, vendo por meio deles a importância do humor para dissolver as gomas convencionais. A companhia de Sérgio podia ser uma brincadeira sem fim e nós nos divertíamos muito. Um de nossos jogos era imaginar os diários íntimos de figurões da cultura nacional, caricaturando os seus fracos. Lembro de uma noite em que ficamos até alta madrugada, ele, Ruy Coelho e eu, aplicando a Gnomonia de Jayme Ovalle, não a pessoas, mas a fatos, momentos, obras, períodos, estilos. Creio que hoje pouca gente sabe o que foi essa Gnomonia, objeto de uma das melhores crônicas de Manuel Bandeira. Era uma classificação dos tipos humanos em cinco categorias, a saber: Dantas, Pará, Mozarlesco, Kerniano e Onésimo. Dantas é o puro, desinteressado, meio angélico; Pará é o arrivista ambicioso, que quer aparecer e furar na vida de qualquer jeito; Mozarlesco é o que leva tudo a sério, acredita na pedagogia, na importância das estatísticas e confia no poder redentor do voto secreto; Kerniano é o impulsivo de estouros incontrolados, mas de alma boa; Onésimo é o que faz a conversa animada morrer quando entra na sala, constrangendo misteriosamente.

Fantasia livre
Eis um exemplo da nossa extrapolação, com referência aos estilos arquitetônicos: gótico será Dantas ou Onésimo? Concluí que talvez esteja mais para Onésimo, porque é frio. O barroco é sem dúvida Pará, porque se exibe demais, chama a atenção sobre si de modo indiscreto. O clássico deve ser Mozarlesco, por ser equilibrado e contido. Criamos nessa noite o refluxo dos estilos sobre a personalidade, pois pode haver, por exemplo, pessoas que são Pará flamboyant... Coisas como essas nos divertiam muito e acho conveniente mencioná-las para dar uma idéia da fantasia livre de Sérgio, e não apresentá-lo como se fosse um monumento nacional, coisa que o teria horrorizado.
Ele era sociável e hospitaleiro, gostando de ter gente em casa e de ir à casa de amigos. Os filhos dele poderão falar disso melhor do que eu, mas creio que preferia trabalhar durante o dia e ter vida social à noite, tomando o seu whisky e conversando com as visitas. Quando não iam à casa dele, costumava reclamar. De modo que é preciso ter sempre em mente a coexistência, nele, de um sábio rigoroso e de um boêmio irreverente, dotado de gosto bastante vivo pelas gozações. Lembro que certo dia apareceu numa mesa-redonda na Faculdade de Filosofia, na qual estavam também Audálio Dantas, Eduardo Suplicy, Francisco Weffort, Severo Gomes e eu, vestindo um flamante paletó vermelho e arvorando uma rutilante gravata da mesma cor... Mas nas tarefas intelectuais não brincava e sob certos aspectos era diferente nisso da média dos brasileiros, que ainda na sua geração achavam bonito improvisar ou fingir que improvisavam.
Apesar de ter chegado ao magistério universitário regular já maduro, o seu tipo mental era talvez mais parecido com o do scholar europeu, pressupondo preparo rigoroso de cada tarefa.
Estudioso incrível e onívoro, o seu conhecimento era enorme no campo da história, das ciências sociais, da literatura, da arte e se refletia na sua biblioteca variada, que ele renovava de vez em quando, doando livros generosamente nessas ocasiões. A mim deu uma vez cerca de 400, dos quais guardei alguns e passei quase tudo para a faculdade. Como não tínhamos verba para livros, a biblioteca de minha disciplina, teoria literária, que era nova, se constituiu com esses exemplares. Lembro de ter visto durante algum tempo no terraço de sua casa na rua Buri centenas de volumes meio expostos ao tempo, que ele queria doar, mas não sei por que iam ficando, até que apareceu um alfarrabista que os aceitou. Se tivesse guardado todos os livros que teve, creio que, em lugar dos 10 mil que compunham a sua biblioteca final, teria mais de 20 mil.
Talvez eu vá fazer uma inconfidência, mas já passou tanto tempo que não faz mal. Quando moravam na rua Haddock Lobo, a vida da família numerosa era apertada e de certo Maria Amélia ficava meio apreensiva com o vulto das suas compras em livrarias, sob o acicate da paixão bibliográfica. Então, ele fazia o seguinte: ao chegar, ia sub-repticiamente pela entrada do automóvel e rodeava até a cozinha, onde dava os livros a uma velha empregada que fazia parte da família. Ela os escondia até nova ordem, ele voltava para a frente, tocava a campainha e entrava de mãos limpas... Lembro que, quando a crítica brasileira sofreu o impacto do "New Criticism", ele reuniu rapidamente uma boa coleção a respeito e se tornou a maior autoridade no assunto por aqui.
Além disso, é preciso mencionar o seu perfil moral de homem reto, daquele tipo que cabe no velho dito português "de antes quebrar que vergar". Era corajoso e sempre assumiu atitudes com firmeza e desassombro; às vezes com violência, porque era bastante explosivo. A sua lealdade para com os amigos era exemplar, e para ilustrá-la dou um exemplo: em dada ocasião, numa festa de aniversário, ele, já com 70 e tantos anos, andando com certa dificuldade, eu o vi levantar a bengala e avançar furioso contra alguém que vociferava qualquer coisa. Corremos e conseguimos evitar maior dano, porque o outro se esquivara da bengalada. Por que isso? Porque o tal indivíduo tinha dito no correr da conversa que um amigo de ambos, já morto, procedera de maneira covarde em certo conflito político. Não admitindo a censura ao amigo morto, Sérgio reagiu imediatamente com a maior violência. Por aí se vê a que extremos podia chegar a sua lealdade.
Outro caso: pouco antes de morrer ele me disse meio constrangido que, por ocasião do Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, em 1945, tinha se posicionado contra mim, e eu lembrei imediatamente do fato. Tratava-se de certa moção que Paulo Emílio Salles Gomes preparou e eu subscrevi, visando a impedir a posse de um congressista, por motivos políticos. Juntos, fomos pedir a Mário de Andrade que assinasse. Mário ficou bravo e disse que não assinaria, verberando a nossa iniciativa e indo juntar-se a José Lins do Rego e Sérgio dali a uns passos. Senti que comentou a coisa com eles e eles de certo também nos censuraram. Mais tarde verifiquei que estávamos errados e íamos fazer uma coisa feia por competição ideológica (as brigas dentro da esquerda...). Pois 30 e tantos anos depois Sérgio sentiu necessidade de dizer que me desaprovara publicamente num momento em que nem sequer éramos propriamente amigos!
É preciso lembrar também que sem Maria Amélia Sérgio não teria sido o que foi. Maria Amélia não apenas assegurou o lar, mas foi colaboradora. Sendo muito inteligente, culta e conhecedora dos assuntos que interessavam o marido, ela pôde ajudá-lo consideravelmente.



Para ele, o artigo de jornal sempre teve consistência de ensaio ou estudo, seja quando falava de autores do passado, seja quando falava de autores no presente



Lembro que uma vez foi com ele a Cuiabá e outra vez a Assunção, dirigindo em estradas, que ainda não eram as de hoje, o Fusca da família por não sei quantas centenas ou milhares de quilômetros, para ajudá-lo em pesquisas nos respectivos arquivos. Tanto como esposa quanto companheira de trabalho, ela criou condições para que Sérgio pudesse se realizar. Não é possível entendê-lo sem Maria Amélia. Naturalmente, uma personalidade intelectualmente tão poderosa quanto a dele tinha de produzir uma obra igualmente poderosa, e nisso deve ter pesado a maneira pela qual soube fecundar as oportunidades de formação que teve. Na sua geração os intelectuais brasileiros eram presos de maneira absorvente aos padrões da cultura francesa, e ele não era exceção. Mas logo ampliou o campo e não apenas se tornou desde muito moço conhecedor das literaturas de língua inglesa, tendo sido dos primeiros a falar aqui sobre [James] Joyce e [T.S.] Eliot, mas aproveitou de maneira eficiente uma estadia na Alemanha durante cerca de ano e meio, 1929 a 1930.



Profundo e acessível
Da Alemanha voltou reequipado, pronto para fazer frutificar a experiência de um meio cultural marcado pela extrema seriedade, pois dos intelectuais europeus os alemães talvez sejam os que menos brincam em serviço, com a sua conhecida preocupação em chegar aos níveis profundos do conhecimento. Mas da primeira mocidade Sérgio já trazia o gosto francês pela expressão clara e elegante, que os alemães nem sempre têm. Por isso, pôde ser um escritor profundo que se exprimia de maneira acessível a despeito da complexidade dos temas e das reflexões. A sua maneira de escrever passou pelos modismos modernistas e acabou por ser muito própria, com ligeira tendência para torneios meio arcaicos da língua portuguesa, enfeitando a limpidez da frase com certos toques de artifício. Sérgio não tinha pressa em publicar e penso que a sua ampla colaboração em jornais foi devida sobretudo à necessidade econômica. Quanto a livros, publicou o primeiro, "Raízes do Brasil" [Cia. das Letras], aos 34 anos, em 1936, e só em 1944, oito anos depois, apareceria a coletânea "Cobra de Vidro" [Perspectiva], seguida um ano depois por "Monções" [Brasiliense]. Entre este e o próximo, "Caminhos e Fronteiras" [Cia. das Letras], passariam 12 anos, mas a necessidade do concurso fez sair apenas dois anos mais tarde "Visão do Paraíso". Só 13 depois sairia "Do Império à República" [Bertrand Brasil]. Nos intervalos, muitos artigos e ensaios, dos quais alguns foram reunidos em "Tentativas de Mitologia" (Perspectiva, 1979). Pensando no conjunto dessa produção, nota-se o fato de Sérgio ter percorrido, por assim dizer, toda a gama de temas brasileiros, desde as coisas mais simples da cultura material até a vida política e as criações literárias. A princípio, ele pensou em denominar o primeiro livro não "Raízes", mas "Corpo e Alma do Brasil". Eu diria que foi uma espécie de antevisão do que seria o conjunto da obra, que dá elementos para conhecermos o corpo e a alma do país. Primeiro esta, com "Raízes", enquanto "Monções" é voltado para o corpo: técnica das expedições sertanejas, a canoa, a balsa, a comida, os roteiros. Esse cuidado com a cultura material e a implantação na terra aparece também em "Caminhos e Fronteiras", onde se encontra um dos estudos mais importantes que escreveu, "Índios e Mamelucos", antes denominado "Índios e Mamelucos na Expansão Paulista". Quanto à alma, voltou a ela em "Visão do Paraíso" e nos estudos de literatura colonial publicados depois de sua morte. Quem o conheceu sabe que foi o avesso do improvisador, tendo baseado sempre o que escrevia num trabalho prolongado e tenaz. Quando morava na rua Haddock Lobo, me disse um dia: "Vou te mostrar uma coisa, mas não conte a ninguém" (naturalmente porque não queria que lhe furassem o projeto). Eram umas cadernetas encapadas de preto, nas quais ia registrando a formação das primeiras roças a partir de São Paulo, no rumo do vale do Paraíba. Com paciência e minúcia, levantava nos documentos uma por uma, com os nomes dos lavradores, a natureza dos gêneros, as datas etc. Esse exemplo ilustra o seu trabalho de beneditino, a partir do qual alcança o vôo das generalizações, porque nele o erudito acabava sempre pela interpretação sólida e brilhante. Mas devo dizer que me sinto mais à vontade falando de Sérgio como crítico literário, que foi de nível tão elevado quanto o do historiador. Não sei mesmo se será exagero considerá-lo, como o considero, o maior do Brasil no século 20. Na coletânea de seus escritos esparsos que Antonio Arnoni Prado organizou ["O Espírito e a Letra", dois volumes, Cia. da Letras], vemos que desde muito moço já mostrava argúcia e penetração que se desenvolveram com a maturidade, quando tudo o que publicava em jornais e revistas tinha, além do toque de originalidade, a segurança que só se obtém com o saber combinado à finura do gosto. Para ele, o artigo de jornal sempre teve consistência de ensaio ou estudo, seja quando falava de autores do passado, seja quando falava de autores no presente. Assim foi o Sérgio crítico dos anos de 1940 e 1950, quando trabalhou num livro meio misterioso que não acabou e cujos restos tanto podem ser do que devia escrever sobre literatura colonial para a gorada "História da Literatura Brasileira" projetada por Álvaro Lins quanto de obra mais vasta que chegou a anunciar, sobre a idade do barroco no Brasil. Mas, quando assumiu a cadeira de história da civilização brasileira na Universidade de São Paulo, abandonou esses trabalhos, dos quais restaram fragmentos que Maria Amélia localizou e pôs em ordem depois de sua morte. A seu pedido organizei com eles o volume "Capítulos de Literatura Colonial" [ed. Brasiliense], publicado em 1991.

Restos
Desses restos (digamos assim), todos excelentes, o mais importante é a análise inacabada, com mais de cem páginas de composição cerrada, de um soneto de Cláudio Manuel da Costa. Lembro que certa vez me disse que a estava fazendo e já tinha escrito 60 laudas, o que me assustou... Mesmo incompleta, é sem dúvida a mais bela análise de textos de nossa crítica e não conheço em qualquer outra algo do mesmo nível -como erudição, engenhosa capacidade de descobrir significados e de estabelecer correlações pertinentes.
Como historiador e como crítico, Sérgio tinha a mesma capacidade de perceber a importância de pormenores aparentemente insignificantes e de saber ligá-los a uma visão interpretativa de grande generalidade. E o leitor fica pensando como pôde deixar na gaveta textos tão importantes de crítica, sobretudo a análise de Cláudio. Será que preferia o prazer da tarefa ao louvor da divulgação? Talvez seja um aspecto do desinteresse que o fez deixar esparsos tantos escritos de qualidade por periódicos e opúsculos.
A propósito, dou um exemplo do qual me orgulho: foi minha, não dele, a idéia de reunir em volume os estudos que vieram a formar o livro "Caminhos e Fronteiras". Eu os admirava, sobretudo "Índios e Mamelucos" (que teve influência decisiva em muitos momentos da minha tese de doutorado em ciências sociais) e pensava comigo mesmo que era uma pena estarem dispersos em jornais e em periódicos de pouca difusão. Por isso, perguntei um dia a Octavio Tarquinio de Sousa, diretor da famosa coleção Documentos Brasileiros e grande amigo de Sérgio, por que não sugeria a este que os reunisse. Ele achou boa a idéia, fez a sugestão, Sérgio concordou, o editor José Olympio fez o convite e dali a pouco surgiu o livro. Se não fosse isso, talvez os estudos continuassem dispersos. A obra-prima que é "Do Império à República" nasceu porque Sérgio estava coordenando a "História da Civilização Brasileira" para a Difusão Européia do Livro e era preciso preencher aquela etapa (1868-1889). E, se não fosse a necessidade de apresentar tese ao concurso da Universidade de São Paulo, talvez não tivéssemos "Visão do Paraíso". Por estas e por outras tenho às vezes a impressão de que, no fundo, o que mais interessava a Sérgio não era publicar, mas saber. De que gostava mesmo era de ficar com os livros e documentos lendo, anotando, de manhã, de tarde, de noite, dia após dia. Se fosse preciso e houvesse oportunidade, o seu conhecimento e sua reflexão poderiam virar livro. E isso deve estar ligado à sua personalidade generosa e desinteressada, desprovida de ambição, embora ele fosse muito cônscio do próprio valor e inclinado a polemizar em defesa dos seus pontos de vista. Mas essencialmente talvez quisesse saber para ser, meio em desacordo com o nosso tempo, no qual a tônica é parecer para aparecer. Por isso, a sua grande contribuição à cultura brasileira vai ficando cada vez mais evidente, à medida que se sucedem os estudos a seu respeito. Eu terminaria essa visão fragmentária e incompleta dizendo que, para mim, é importante na obra e na atuação de Sérgio um aspecto que tem sido pouco focalizado: o político. Ele nunca foi militante regular, mas sempre teve convicções e atuação de cunho político, inclinado desde moço para a esquerda. Já em 1928 foi convidado para ser candidato a vereador no Rio de Janeiro pelo Bloco Operário Camponês, orientado pelo Partido Comunista, mas não aceitou. Isso mostra como era vista a sua colaboração ideológica. Na Alemanha, de 1929 a 1930, viu o crescimento do nazismo, avaliou o seu significado e tomou posição contra. Em 1945 foi um dos fundadores da Esquerda Democrática, denominada a seguir Partido Socialista Brasileiro, pelo qual foi candidato em São Paulo a deputado ou vereador, não lembro bem. Durante o regime militar foi um dos fundadores do Centro Brasil Democrático, foco ativo de oposição e em 1980 foi membro fundador do Partido dos Trabalhadores. "Raízes do Brasil", de 1936, me parece ter mais conotações políticas do que se tem registrado, a começar pelo que se poderia chamar de atenuação do entusiasmo pela raiz portuguesa em nossa formação, que resultava freqüentemente numa visão conservadora ou pelo menos pátria-amada, porque era uma forma de saudosismo, visível em Oliveira Viana e mesmo em Gilberto Freyre. Essa sobrevivência atrapalha a compreensão do que é o Brasil do nosso tempo, não mais português, mas feito pela contribuição das novas camadas de imigrantes. Analisando com pertinência a raiz portuguesa, que é a nossa matriz, Sérgio deixou não obstante claro que o novo Brasil tinha características diferentes, que deveriam levar a uma organização política e social também diferente, com rejeição do poder oligárquico e de soluções autoritárias. Para o nosso perfil contemporâneo sugeria a denominação de "americano".

O Brasil do imigrante
É curioso que não tenha feito referência expressa à imigração, cuja contribuição foi decisiva para a mudança; mas o que descreve é de fato o Brasil do imigrante, que proporcionou a passagem da aventura ao trabalho como linha diretriz. O Brasil português foi de certo modo o da aventura, com o trabalho relegado ao escravo. O Brasil contemporâneo é o do trabalho, timbre do imigrante. Daí a necessidade de prever formas políticas nas quais o povo assumisse o papel que lhe cabe, em detrimento das oligarquias tradicionais.
Talvez eu esteja organizando um pouco a meu modo o que em "Raízes do Brasil" se encontra difuso e mais sugerido do que afirmado, segundo o modo ensaístico adotado pelo autor. Mas creio não estar fazendo extrapolações e sei que alguns estudiosos mais jovens estão explorando com êxito esse filão político da obra de Sérgio, que a meu ver tem uma conotação de radicalidade, à qual chegou mediante a profunda compreensão do corpo e da alma do seu país.



Antonio Candido é crítico literário, professor emérito de teoria literária e literatura comparada da USP e autor de "Formação da Literatura Brasileira" (ed. Itatiaia), entre outros.


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