Sérgio uff a educação Patrimonial como Proposta de Trabalho



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Aboud, Sérgio – UFF


A Educação Patrimonial como Proposta de Trabalho
A presente comunicação faz parte de um trabalho maior que vem sendo desenvolvido no Laboratório de Ensino de História, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, onde os professores que trabalham com o ensino de História, realizam uma boa parte dos seus projetos de pesquisa e extensão.

Este projeto específico encontra-se ainda em processo e com previsão para conclusão no ano de 2003. A forma como ele será apresentado é mais próxima de um relato de experiência, até mesmo por ainda encontra-se na metade do projeto planejado inicialmente.

O tema proposto e que vem sendo desenvolvido é a Educação Patrimonial. Acreditamos na sua importância como recurso e complementação do trabalho a ser feiro pelos professores de Educação Básica.

A gênese deste trabalho foi no ano de 1999 quando houve uma maior aproximação1 e o início de uma parceria com o IPHAN2 (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), fiquei estimulado a pensar como poderíamos propor uma possível solução para um dos problemas apresentados por esses novos parceiros: a dificuldade enfrentada pelas equipes de alguns museus em estabelecer estratégias de valorização dos seus respectivos patrimônios arqueológico, histórico e artísticos, já que alguns não contam com uma equipe de educadores. A partir desta dificuldade resolvi iniciar uma nova pesquisa, que ainda está em andamento3, sobre as possibilidades de uso do patrimônio histórico e espaços culturais por professores de Educação Básica, como estratégia para a melhoria do ensino de História.

Durante o ano seguinte, 2000, o projeto inicial foi elaborado levando em consideração, não só o estímulo inicial, mas também outros fatores tais como: a grande quantidade de museus e outros espaços históricos e culturais existentes nas cidades de Niterói, São Gonçalo e Rio de Janeiro, alguns destes já contando com excelentes projetos educativos, tanto para alunos quanto para professores, mas muitas vezes desconhecidos por vários educadores, enquanto outros ainda carecem dos setores educacionais. Mesmo nos outros municípios periféricos ao Rio podemos pesquisar e encontrar espaços que poderão ser visitados e estudados com o mesmo propósito, em São Gonçalo, por exemplo, há um forte movimento de construção e resgate de fontes sobre História regional.

Outra questão que esteve presente na elaboração deste projeto foi a necessidade da formação do hábito e prática de visitas a estes locais e estabelecimentos, e também de formação de leitores estéticos, alunos e professores, levando em consideração alguns pressupostos:



  • Compreender o Museu como fenômeno que se expressa sob diferentes formas, consoante sistemas de pensamento e códigos sociais;

  • Interpretar as relações entre homem, cultura e natureza, no contexto temporal e espacial;

  • Intervir, de forma responsável, na preservação e uso do patrimônio, entendido como representação da atividade humana no tempo e no espaço;4

Não foi possível desconsiderar os atuais Parâmetros Curriculares Nacionais5, principalmente o da área de História nas propostas para o Ensino Fundamental e a parte específica dentro da área de Ciências Humanas e suas Tecnologias.

o documento reinterpreta os princípios propostos pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, da UNESCO, amparados no aprender a conhecer, no aprender a fazer, no aprender a conviver e no aprender a ser. A estética da sensibilidade, que supera a padronização e estimula a criatividade e o espírito inventivo, está presente no aprender a conhecer e no aprender a fazer, como dois momentos da mesma experiência humana, superando-se a falsa divisão entre teoria e prática. A política da igualdade, que consagra o Estado de Direito e a democracia, está corporificada no aprender a conviver, na construção de uma sociedade solidária através da ação cooperativa e não-individualista. A ética da identidade, exigida pelo desafio de uma educação voltada para a constituição de identidades responsáveis e solidárias, compromissadas com a inserção em seu tempo e em seu espaço, pressupõe o aprender a ser, objetivo máximo da ação que educa e não se limita apenas a transmitir conhecimentos prontos.6
Considerando também algumas das competências propostas tais como7:


  • Criticar, analisar e interpretar fontes documentais de natureza diversa, reconhecendo o papel das diferentes linguagens, dos diferentes agentes sociais e dos diferentes contextos envolvidos em sua produção.

  • Produzir textos analíticos e interpretativos sobre os processos históricos, a partir das categorias e procedimentos próprios do discurso historiográfico.

  • Estabelecer relações entre continuidade/permanência e ruptura/transformação nos processos históricos. Construir a identidade pessoal e social na dimensão histórica, a partir do reconhecimento do papel do indivíduo nos processos históricos simultaneamente como sujeito e como produto dos mesmos.

  • Atuar sobre os processos de construção da memória social, partindo da crítica dos diversos “lugares de memória” socialmente instituídos.

Ora, podemos perceber o quanto uma proposta de educação patrimonial é pertinente e importante neste atual momento da educação brasileira se inserindo neste novo contexto.

Por último, não posso deixar de citar um referencial teórico de extremo valor para este trabalho que são as obras do grande historiador Jacques Le Goff.


Pois bem, depois de levar em consideração todas essas idéias o projeto de pesquisa foi elaborado e começou a ser desenvolvido no ano de 2001 com o título de “Educação Patrimonial: uma Proposta de Trabalho”. Este, foi elaborado para ser desenvolvido em sete etapas distintas, sendo que algumas seriam simultâneas.

Na primeira foi feito um levantamento e uma seleção de espaços patrimoniais nas cidades de Niterói, São Gonçalo e Rio de Janeiro (no Rio optamos pelo denominado Corredor Cultural, área próxima a Praça XV de Novembro), levando em consideração seus acervos e trabalhos educacionais existentes. Neste primeiro momento contei com o auxílio de Rafael B. dos Santos, aluno de História, desta universidade, como bolsista de treinamento8. Na Segunda etapa foram feitas várias visitas a todos os espaços selecionados. Não podemos deixar de comentar que em muitos lugares encontramos uma grande facilidade, tanto pela organização dos seus setores educacionais, quanto no atendimento gentil por parte das pessoas responsáveis, mas em outros não só o despreparo do material humano mas também a ausência de informações nos surpreendeu e dificultou bastante esta fase do trabalho9. A terceira etapa, na verdade paralela a Segunda foi o levantamento de informações, como documentos, registros históricos, literários, jornalísticos e visuais com referências aos espaços. Uma quarta etapa planejada tem como proposta a disponibilização do material coletado a professores de Educação Básica das redes públicas municipais, estaduais e federais, através do contato estabelecido com algumas escolas de Niterói, São Gonçalo e do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Nesta etapa estão planejados encontros onde, coletivamente, iremos construir material de apoio didático, visitação dos locais escolhidos pelos professores e um grupo de estudos, esta etapa estendesse até a próxima. A quinta etapa consistirá na aplicação dos recursos criados e nas visitas guiadas de alunos dos respectivos professores envolvidos no projeto. Na sexta etapa será feita uma avaliação dos resultados obtidos com o trabalho realizado com os alunos pelos professores. Por último, em uma sétima etapa, analisaremos os resultados obtidos com todo esse processo.


De todo esse trabalho proposto, por várias razões, só as três primeiras etapas estão cumpridas. As outras quatro ainda serão desenvolvidas, com expectativas de conclusão no final de 2003, ou no máximo no início de 2004.

Por estar em desenvolvimento não podemos, ainda, apresentar as conclusões finais, mas não nos impede de elaborarmos algumas conclusões parciais tais como: a certeza da importância do Laboratório de Ensino de História, como um espaço contínuo de formação de professores. A importância de um projeto que una o nosso ideal de ensino superior público, gratuito e de qualidade: o tripé ensino, pesquisa e extensão. A importância de estarmos pensando uma nova forma de trabalharmos as questões ligadas ao ensino de História,

Finalizando, acreditamos e esperamos que em um outro momento, possamos apresentar um resultado final, e positivo, sobre a importância da Educação Patrimonial no ensino de História.
Bibliografia

BITTENCOURT, Circe (org.). O Saber Histórico na Sala de Aula. SP, Editora Contexto, 2001.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade. SP, Cia das Letras, 1994.

BRASIL. MEC. Secretaria de Educação Básica. PCNs. Brasília, MEC, 1999.

BRAUDEL, Fernand. Escritos Sobre a História. SP, Perspectiva, 1978.

CARDOSO, Ciro F. e VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História. Rio de Janeiro, Campus, 1997.

COLL, César & TEBEROSKY, Ana. Aprendendo História e Geografia. SP, Ática, 1999.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, UNICAMP, 1990.

MARTINS, Ismênia de L & KNAUSS, Paulo (orgs). Cidade Múltipla. Niterói/RJ, Niterói Livros, 1997.

MATTOS, Ilmar Rohloff de Mattos(Org). Histórias do Ensino da História no Brasil. RJ, ACCESS Editora, 1998.

____. Ler & Escrever Para Contar: Documentação, historiografia e formação do historiador. RJ, ACCESS Editora, 1998.

PAGANELLI, Tomoko I & Outros. O Município de Niterói. RJ, ACCESS Editora, 1998.

____. Estudos Sociais: Teoria e Método. RJ, ACCESS Editora, 1993.

Parâmetros Curriculares Nacionais: História e Geografia . Brasília, MEC, 1997.

PESSOA, Jason Brito. A Outra Face da Memória in Revista Presença Pedagógica, nº 5, Setembro/Outubro-1995. Belo Horizonte.


1 Nem todos os professores participaram deste processo. Eu estive presente com o prof. Marcos Barreto, contamos ainda com a participação das Prof.as Tomoko Paganelli e Lígia Segala, ambas da Faculdade de Educação.

2 Contato feito inicialmente com a Sª Rosana Najjar, na época coordenadora regional, e com a Sª Vera Gigante, diretora do Museu Arqueológico de Itaipu, em Niterói.

3 Na verdade esta pesquisa foi interrompida durante este ano de 2002, já que estou em processo de escrita de minha dissertação de mestrado.

4 Estes pressupostos são na realidade algumas das diretrizes estipuladas pelo curso de Museologia da UNIRIO.

5 Não entrarei na discussão política ideológica dos PCN’s neste momento. Discussão esta que como muitos outros educadores (alguns, aliás, bem melhor que eu, venho fazendo).

6 PCN’s, Ensino Médio, pp. 72.

7 PCN’s, Ensino Médio, pp. 307.

8 A bolsa de treinamento é um dos vários tipos de bolsas existentes na UFF e concedidas aos seus alunos.

9 Por uma questão ética, não citaremos os locais onde tivemos dificuldades, mas seria injusto não comentarmos a sempre presteza e boa vontade dos funcionários do IPHAN nesta fase do trabalho.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002


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