Star trek episódios da série clássica



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STAR TREK

EPISÓDIOS DA SÉRIE CLÁSSICA
James Blish

J. H. Lawrence


Tradução de Cristina Nastasi




1995

Impresso no Brasil pelo

Sistema Cameron da Divisão Gráfica da

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.

Rua Argentina 171 —20921-380 Rio de Janeiro, RJ —Tel.: 585-2000

Título original: Star Trek: The Classic Episodes

Copyright © Paramount Pictures Corporation,

Desilu Productions Inc. e Bantam Books

1967, 1968,1969,1971,1972,1973,1974,1975,1977

Todos os direitos reservados.

Publicado mediante contrato firmado com Bantam Books, uma divisão

da Bantam Doubleday Dell Publishing Group Inc. STAR TREK® é marca registrada da Paramount Pictures Corporation.


Editor:

Silvio Alexandre
Revisão e colaboração:

Georges Ribeiro, Sylvio Gonçalves, Isabel Grau e Cristina Segnin
Capa:

Maria Amélia de Azevedo

Produção Gráfica:



Leonardo Bussadori
ISBN 85-7272-967-7
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Blish, James Benjamin, 1921 - 1975

Star Trek: episódios da série clássica / adaptado por James Blish com J. A. Lawrence; tradução Cristina Nastasi. São Paulo: Mercuryo, 1995(Unicórnio Azul; 1)


1. Ficção científica norte-americana 2. Ficção norte-americana I Lawrence, J.A I. Título. II. Série.

95-1111 CDD-813.5


índice para catálogo sistemático:

1. Ficção: Século 20 : Literatura norte-americana

813.5

2. Século 20 : Ficção : Literatura norte-americana



813.5
Todos os direitos desta edição reservados à

Editora Mercúrio Ltda.

Al. dos Guaramomis, 1267 CEP 04076-012 - São Paulo - SP

Telefone: (OU) 531.8222 - Fax(011) 530.3265



APRESENTAÇÃO

' ..os dias e os anos a frente valerão a pena ser vividos...



Os homens que forem ao espaço serão capazes de

alimentar os milhões de famintos da Terra e curar suas

doenças. Eles serão capazes de encontrar

um meio de esperança para um futuro melhor.

Pois esses anos... valerão a pena ser vividos".

(Edith Keeler, em A Cidade à Beira da Eternidade)


Criada por Gene Roddenberry em 1966, a série Star Trek (Jornada nas Estrelas) tornou-se um fenômeno mundial. Cultuada em todos os países onde foi exibida (atualmente 75 países no mundo inteiro assistem a série), lidera hoje uma legião de fãs incondicionais chamados trekkers.

A série original com 79 episódios, conhecida como Clássica foi um marco na história da televisão americana, abordando assuntos polêmicos como racismo, confrontos políticos, religião, entre outros. A Série Clássica retrata as aventuras de uma nave espacial, abrigando uma tripulação de mais de 400 passageiros, rumo ao desconhecido, enfrentando a cada episódio uma nova aventura.

O sucesso, entretanto, só veio após seu término, em 1969- Foi a partir de 1970 que estações locais de tevê começaram a reprisar o seriado, conseguindo crescentes índices de audiência. Algumas estações inclusive chegaram a exibir os episódios sete dias por semana.

Pouco mais de três anos após Star Trek ter saído do ar e começar a se popularizar através das reprises, foi criada uma série de 22 desenhos animados que, se não atingiu o mesmo nível do seriado, marcou por apresentar uma qualidade bem superior em comparação aos demais desenhos da época.

Em 1975 o fenômeno Star Trek tinha se espalhado. Livros, brinquedos, kits, máscaras, roupas e toda uma parafernália de produtos invadiram o mercado. Naquele Natal, um livro de Star Trek foi colocado no topo da lista dos livros mais vendidos do New York Times. Se todo esse movimento ocorria devido à Série Clássica, os executivos da Paramount conjecturaram sobre os dólares que poderiam ser gerados por outra versão de Star Trek. E foi assim que Gene Roddenberry ganhou um novo escritório na Paramount Pictures.

Aproveitando-se do êxito de bilheteria alcançado por Guerra nas Estrelas, de George Lucas, a Paramount anunciou o lançamento da série Star Trek - Phase II. Durante o ano de 1977 roteiros foram escritos, cenários construídos e o antigo elenco contratado, com exceção de Leonard Nimoy. Entretanto, com o sucesso de Contatos Imediatos de 3o Grau, de Spielberg, e o conseqüente desmantelamento do departamento de produção televisiva da Paramount, que veicularia a série de tevê, o piloto foi transformado em Jornada nas Estrelas - O Filme. Em 1979 Star Trek chegava ao cinema trazendo seu elenco original. Outros cinco filmes sucederam-se, com igual sucesso, tornando-se carro-chefe da Paramount Pictures: A Ira de Khan (82), A Procura de Spock (84), A Volta para Casa (86), A Fronteira Final (89) e A Terra Desconhecida (91).

Em 1986 o universo de Star Trek foi expandido com a criação de uma nova série: Jornada nas Estrelas - A Nova Geração (The Next Generation), narrando as aventuras de uma nova tripulação em uma nova nave, quase 80 anos depois da sua antecessora.

Surgiram ainda duas novas séries derivadas: A Nova Missão (Deep Space Nine), em 1993, na qual há a inversão das séries anteriores, pois agora são "eles", as outras raças, que vêm de uma parte distante da Galáxia visitar o nosso Universo, audaciosamente vindo aonde jamais estiveram; e Voyager, que estreou em janeiro de 1995, no qual duas tripulações inimigas são obrigadas a unir forças após perderem-se numa região distante da Galáxia, oferecendo assim o conflito de personalidades e ideologias muito diferentes e várias outras surpresas reservadas por essa região inóspita, de onde nascerão as aventuras desta nova série.

Em novembro de 1994 estreou nos Estados Unidos mais um filme para o cinema do universo trekker. Jornada nas Estrelas - A Nova Geração (Generations). Um marco na história da série, onde duas gerações encontram-se. A definitiva união de dois grandes sucessos representados por seus capitães: Kirk e Picard.

Quase 30 anos após seu surgimento Star Trek ainda causa controvérsias e propõe discussões. Em sua visão de futuro mais esperançosa do que pessimista, Roddenberry apresentou-nos mundos quase livres de preconceito racial e seres sensíveis as ecologias de seus próprios meio-ambientes. Deu-nos, enfim, algo além do simples e puro entretenimento, fazendo com que observássemos e ponderássemos sobre nossos próprios futuros.


Silvio Alexandre
INTRODUÇÃO por D.C. Fontana

Uma ilustração de William Rotzler pode ser vista numa das paredes de minha casa. Ela mostra uma mulher conversando com um homem. No tornozelo da mulher há uma algema com uma corrente, no fim da qual está a USS Enterprise (NCC1701). A legenda indica: "Ela me segue por todos os cantos". Isso, em síntese, é o efeito que, Star Trek tem em minha vida. Se eu pago alguma coisa numa loja com cheque ou cartão de crédito,

geralmente o vendedor olha para o nome impresso, me olha e diz: — Você é a D.C. Fontana?

— Ãh... sim.

— De Star Trek?

— Isso mesmo. Vem em seguida (faça sua escolha):

(1) cumprimentos pelos roteiros que escrevi, (2) perguntas sobre o seriado ou seus atores, (3) o futuro do seriado (as esperanças não morrem), ou (4) perguntas de como ele/ela pode vender um roteiro para o seriado. Freqüentemente a pessoa comenta que ele/ela cresceu assistindo Star Trek. Dependendo da idade da pessoa, isso pode significar que ele/ela é um fã de terceira ou quarta geração e viu a série através de suas inúmeras reprises e não quando originalmente exibida na tevê.

Um dos muitos fenômenos ligados à Série Clássica é que a série nunca deixou de ser reprisada. Em algum lugar do mundo Star Trek está sempre sendo exibida para uma audiência sempre fascinada.

Algumas vezes fico curiosa a respeito da tradução para outros idiomas. "Ele está morto, Jim" provavelmente é uma tradução fácil de fazer, mas referências mais técnicas devem representar maior dificuldade.

Sempre que uma emissora resolve tirar o seriado da programação os telespectadores, agitados, prontamente iniciam uma campanha de cartas em protesto até que as coisas voltem ao normal. O seriado original ainda recebe um grande número de cartas e muitas pessoas escrevem para dizer como Star Trek mudou ou influenciou suas vidas para melhor. Certamente influenciou a minha.

Lembro do dia em que primeiro ouvi o nome Star Trek. Era a primavera de 1964 e eu era uma das secretárias de Gene Roddenberry na série de tevê The Lieutenant, da Metro-Goldwyn-Mayer. Sabíamos que The Lieutenant não seria renovada pela NBC e que Gene estava trabalhando na criação de uma nova série. Gene sabia que eu era membro da Associação de Escritores na época e que tinha alguns créditos como roteirista. Ele foi uma das pessoas que mais me encorajou a continuar escrevendo e a tentar carreira como escritora em tempo integral. Uma tarde, ele me entregou algumas folhas datilografadas e disse "É isso que estou imaginando para a próxima série. Quero saber o que você acha".

Levei o material para casa e li naquela noite. Não havia muita coisa escrita, mas a nave (então a USS Yorktown) destacava-se como um excitante veículo para as estrelas, capitaneada pelo jovem e enérgico capitão Robert April, auxiliado por um oficial de ciências chamado Spock, que era meio-humano e meio-marciano (sua pele era avermelhada nos primeiros rascunhos). Não gostei muito desse oficial em particular naquela época, mas estava impressionada. Quando devolvi o texto no dia seguinte, disse para Gene: "Só tenho uma pergunta. Quem vai interpretar Spock?"

Ele pegou umas dez fotografias e jogou em cima da mesa. Era a foto de um ator que recentemente trabalhara em The Lieutenant que eu conhecia muito bem porque fora o ator convidado na primeira história que eu havia vendido quatro anos antes: Leonard Nimoy. Todo, o resto sobre o seriado estava em aberto, mas a escolha de Leonard Nimoy nunca mudou desde o início.

A MGM, que aceitara dar "uma primeira olhada" no projeto de Gene, desistiu de Star Trek (sempre visualizei os executivos dessa companhia se roendo em agonia e frustração por causa dessa decisão). Uma vez livre de sua obrigação com a Metro, Gene e seu agente começaram a oferecer Star Trek a outras companhias. Os felizardos foram Oscar Katz, diretor da Desilu Productions, e Herb Solow, que sucedeu o senhor Katz. Eles fizeram um acordo com a Norway Productions, empresa de Gene, para co-produzir Star Trek - mas só se a série fosse vendida a uma rede de televisão.

Então teve início à odisséia pelas "Três Grandonas" da época: CBS, ABC e NBC. Gene explicava como desenvolveria o projeto, descrevia seu potencial, os personagens e as aventuras - e recebia em troca um total silêncio. Por fim, frustradíssimo durante um encontro com executivos da NBC, ele explodiu:

"É como se fosse Caravana * para as estrelas!

* Caravana é o título em português da série de faroeste "Wagon Train".(N.T.)
Esse tipo de coisa eles conseguiram entender e Star Trek foi comprada pela NBC no final da primavera de 1964.

Dois longos anos se passaram antes de Star Trek virar série. Primeiro, um piloto de uma hora de duração foi desenvolvido do formato original. O roteiro foi escrito no verão e a USS Yorktown tornou-se a USS Enterprise. O capitão Robert April virou Robert Winter e, por fim, Christopher Pike. Ele ganhou uma tripulação além do sr. Spock, incluindo uma misteriosa primeira oficial mulher simplesmente chamada Número Um. O sr. Spock mudou de meio-marciano, meio-humano para um híbrido vulcano/humano. A nave e a tripulação possuíam lasers como armas e o teletransporte foi criado.

Franz Bachelin, o diretor de arte, e seu assistente Matt Jeffries elaboraram o visual da série e, especialmente, o visual da Enterprise (uma coisa interessante deve ser comentada: Franz era alemão de nascimento e piloto por seu país na Primeira Guerra Mundial. Matt Jeffries era piloto particular e co-pilotou um B 17 durante a Segunda Guerra Mundial. Gene também era um experiente piloto da guerra do Pacífico e um ex-piloto de companhia aérea. Toda essa experiência com aviação fez da Enterprise um "pássaro" muito interessante). Um velho amigo meu, William Theiss, impressionara Gene com suas criações e foi integrado à equipe como figurinista. E o inimitável Robert H. Justman foi o primeiro assistente de direção quando o primeiro piloto de Star Trek chegou aos estúdios da Desilu Culver, no inverno de 1964/65.

Foi quando a NBC rejeitou o piloto por ser "muito cerebral".

Mas os executivos também pressentiram que havia alguma coisa que poderia fazer da série um sucesso, e deram a Gene a ordem para realizar um segundo piloto, uma atitude sem precedentes na história da indústria televisiva. Samuel A. Peeples foi designado para escrever o roteiro do segundo piloto baseado na criação de Gene.

O ator Jeff Hunter declinou do papel principal e a procura por um novo capitão começou. Os trajes mudaram em estilo e cor. O visual da nave também sofreu uma leve alteração e as armas tornaram-se feisers ao invés de laseres. Gene revisou seus personagens, com exceção do sr. Spock; e todo o elenco do seriado foi reescalado.

Depois de muitas considerações, o novo comandante da Enterprise passou a ser William Shatner como o capitão James R. Kirk (sim, James R. Kirk). O segundo piloto foi filmado no verão de 1965. Somente no início de 1966 é que a NBC deu seu consentimento definitivo para Star Trek decolar como série.

A equipe de produção consistia de Gene Roddenberry como produtor/ escritor e John D. F. Black como editor de roteiro/escritor. Bob Justman virou produtor associado da série. Bill Theiss permaneceu responsável pelos figurinos e Matt Jeffries tornou-se o diretor de arte. Quase to dos os outros envolvidos eram novos na equipe.

Nessa época, já não trabalhava apenas para Gene como sua secretária de produção, mas sim continuava com minha carreira de escritora, que começara em 1960 com a venda de vários roteiros para uma série chamada The Tall Man. Outros roteiros seguiram-se (lentamente) até que, no início de 1966, eu tinha nove títulos com meu nome. Quando a produção da série teve início, Gene me perguntou se eu queria fazer um roteiro para ele. Escolhi uma história que o Guia dos Escritores e Diretores da série intitulava "O Estranho Charlie".

A série já estava em produção quando alguém (acredito que Bob Justman) percebeu que os novos roteiros referiam-se ao capitão como James T. Kirk - e a lápide que Gary Mitchell fez para o capitão em Onde Nenhum Homem Jamais Esteve claramente mostrava James R. Kirk. Gene pensou a respeito e decidiu que, se perguntassem o por quê da discrepância, a resposta seria: "Gary Mitchell tinha poderes divinos, mas basicamente era um humano. Ele cometeu um erro".

Nunca arranjamos uma explicação plausível para o fato de a nave auxiliar não ter sido usada no roteiro de Richard Matheson, O Inimigo Interior . O enredo indicava que os membros da tripulação ficavam presos num planeta glacial devido a um defeito no teletransporte. A verdade é que a nave auxiliar ainda não havia sido construída. A companhia AMT finalmente entregou o modelo da nave já com um terço do primeiro ano da série em andamento, a tempo de ser usada no Primeiro Comando, roteiro de Oliver Crawford. Uma vez estabelecido que havia uma nave auxiliar a bordo da Enterprise, os fãs começaram a escrever apontando a discrepância. Finalmente tivemos de admitir nosso erro. Não tínhamos visto necessidade para uma nave auxiliar até que uma história surgiu exigindo sua utilização.

De fato, a Enterprise precisou cresceu com o desenvolvimento das histórias e novos cômodos e áreas foram criadas para essa necessidade. À medida que a temporada passava, novos corredores eram acrescidos; os tubos Jeffries e a sala de controle auxiliar surgiram. A enfermaria e a engenharia mudaram e foram expandidas. "Como isso podia acontecer durante uma missão de cinco anos no espaço?", alguém perguntaria.

"A Enterprise é colocada numa doca espacial num planeta da Federação para manutenção e reforma", nós respondíamos com a maior seriedade.

Um executivo da NBC uma vez disse: "O problema com o pessoal de Star Trek é que vocês acreditam mesmo que aquela maldita nave está lá em cima".

Bob Justman o encarou fixamente e se saiu com um: — "E está".

Em setembro, John D. F. Black, que estava atuando como editor de roteiro, recebeu uma oferta para escrever um filme e optou por deixar Star Trek. Ele foi substituído por Steven Carabatsos. Ao mesmo tempo, Gene L. Coon juntou-se à série como produtor, e Gene Roddenberry assumiu o título de produtor executivo. Eu deixei minha função de secretária de produção para escrever como free-Iancer e completar meu segundo roteiro, Amanhã é Ontem.

No início de novembro, Gene já sabia que não renovaria o contrato de Carabatsos por mais treze semanas. Entregou-me um roteiro intitulado O Caminho dos Esporos, que, segundo ele, não estava funcionando direito. Se eu pudesse reescrevê-lo de forma que agradasse a ele, à Desilu e à NBC, eu seria contratada como editora de roteiro. Comecei a reescrever a história, e reformulei todo o enredo. Em princípio, a história envolvia o encontro de Sulu com um antigo amor, Leila Kalomi, o exótico nome da personagem de Jill Ireland. Depois de pensar a respeito, disse para Gene Roddenberry: "Isso deveria ser uma história de amor... para o sr. Spock".

Gene concordou e me disse para escrever dessa forma. O resultado foi Deste Lado do Paraíso, que acabou agradando a Gene, à Desilu e à NBC, de forma que comecei a trabalhar com a equipe de escritores. Em meados de dezembro de 1966, fui contratada como editora de histórias de Star Trek.

Os dezoito meses seguintes foram os mais deliciosos que já vivi. Trabalhando nos roteiros em associação com Roddenberry e Coon era estimulante e desafiador. Todos os atores eram maravilhosos e queriam ajudar a desenvolver seus personagens. Interpretando a mesma pessoa semana após semana numa série pode tornar-se algo muito aborrecido para os atores e a audiência se o personagem for o mesmo todas as semanas. O segredo de manter o interesse das pessoas é como descascar lentamente uma cebola. Cada vez que uma camada é retirada, algo novo é revelado sobre o personagem. É como dividir um presente surpresa com a audiência — algo fresco e especial. Os atores davam a seus personagens um pensamento real e isso servia de trampolim para que novas histórias fossem desenvolvidas. Às vezes era apenas uma situação (como o duelo verbal de Spock e McCoy) ou um gesto (como o Famoso Toque Neural de Spock, mencionado nos roteiros como "FTNS"), mas tudo isso coloria e dava um sabor especial aos roteiros e personagens.

A equipe era talentosa e engenhosa em poupar tempo (e, portanto, dinheiro) e em colocar as melhores imagens possíveis na tela. Todos estavam orgulhosos com o fato de que nenhuma equipe era tão rápida em movimentar-se de um cenário para o outro e deixar tudo pronto para o início da filmagem. Mesmo os carpinteiros, os pintores e todos que criavam os cenários tinham orgulho por estarem trabalhando em Star Trek. Acima de tudo, eles eram a única equipe em Hollywood a construir toda semana um planeta diferente no Estúdio 10.

E, é claro, todos experimentávamos um certo prazer em ver como Bill Theiss iria se sair com suas novas criações. Havia vezes em que seus trajes faziam Jean Messerschmidt, o censor da NBC, subir pelas paredes. A "Teoria Theiss de Estimulação" consistia em pegar uma parte não muito sensual do corpo (como as costas ou as coxas) e exibi-la escancaradamente. Acrescentava-se a isso a promessa de que uma parte do traje poderia cair a qualquer momento e revelar tudo. Aqueles que acreditavam na promessa morriam de frustração. Os vestidos nunca falhavam... e as atrizes praticamente tinham de ser coladas a eles!

Apesar dos índices de audiência do seriado não serem os mais altos, nós nos sentíamos recompensados pessoalmente pelo fato de que os fãs aos milhares estavam escrevendo todas as semanas e nos dizendo que amavam Star Trek. As cartas começaram a chegar depois que o primeiro episódio foi exibido. No princípio, era pilhas de cartas, depois uma sacola e, então, montes de sacas cheias de correspondência. Embora algumas das cartas mais curiosas e interessantes merecessem uma resposta pessoal da equipe, á maioria era respondida por um serviço de correspondência. Curiosamente, pela primeira vez que se tinha conhecimento, os escritores do seriado estavam recebendo cartas de fãs. Isso indicava o nível de inteligência dos telespectadores. Eles tomavam o cuidado de ler os créditos e sabiam que eram os escritores que faziam os roteiros e que os atores não apenas "falavam e faziam as coisas acontecerem". Mas a NBC não ficou impressionada com isso. E, no fim da primeira temporada, decidiu cancelar o seriado.

Os fãs, contudo, tinham outras idéias. Eles simplesmente não aceitaram o fato de que a NBC planejava cancelar Star Trek. Uma campanha de cartas teve início, uma campanha que acabou se tornando uma verdadeira enxurrada de cartas de protesto. Uma vez que as emissoras tradicionalmente acreditavam que cada carta recebida expressava a opinião de cem outros telespectadores que não tinham tempo para escrever, o número de cartas recebidas os convenceu de que Star Trek tinha audiência suficiente para merecer uma segunda temporada. E quando o seriado mais uma vez estava sob ameaça no fim da segunda temporada, a correspondência começou novamente. Eles mantiveram a série. E, ao mesmo tempo, decidiram acabar com ela.

A maioria das pessoas sabe o que aconteceu com a terceira temporada. O seriado foi colocado num horário péssimo, que naquela época representava morte certa, especialmente para uma série com o tipo de audiência que Star Trek possuía: sexta-feira, às 22 horas. O público leal a Star Trek não era apenas um grupo de fãs de ficção científica ou crianças, mas geralmente consistia de estudantes de 2Q Grau e universidade, jovens casais, homens de negócios e outros profissionais liberais. Infelizmente, eles não possuíam o aparelho medidor de audiência em seus aparelhos de tevê (Vários anos depois de Star Trek sair do ar, uma análise da audiência demonstrou que era

esse exatamente o tipo de audiência que a NBC mais queria conquistar). Gene Roddenberry, que voltara à série como produtor ativo, decidiu novamente afastar-se das funções, inclusive da produção executiva. A série tornou-se menos filosófica e começou a seguir a fórmula "um monstro por semana". Os índices caíram muito abaixo do nível e do ponto que qualquer campanha de cartas pudesse lazer alguma coisa e Star Trek foi retirada da programação em 1969.

Fiz muitos amigos em Star Trek Escrevi oito roteiros e duas histórias e iniciei com êxito minha primeira experiência como editora de história. O seriado era bastante reconhecido dentro da indústria e, portanto, seus créditos eram uma espécie de passaporte para novos empregos. Mas era triste ver uma série tão querida morrer por um caso terminal de negligência executiva.

Deixei Star Trek no final de sua segunda temporada para trabalhar como free-lancer de novo. Naquele ano, fiz roteiros para Big Valley, Lancer e Chaparral, assim como duas histórias e um roteiro para a terceira temporada de Star Trek. Nos anos que se seguiram estive muito ocupada como escritora e, inclusive, recebi uma indicação para um prêmio da Associação de Escritores. Star Trek agora vivia através das reprises em estações de tevê no interior do país. Por volta de 1971, as convenções de Star Trek tiveram início.

Star Trek passou a ser incluída nos programas das convenções de ficção científica em geral. Nessa época, contudo, convenções dedicadas apenas a Star Trek começaram a ser organizadas. Acredito que elas não apenas prolongaram a vida das reprises do seriado, como também conquistaram novos fãs com a “Star Trek completa". Se alguém tivesse visto apenas a série em reprise, certamente assistira apenas episódios editados. As estações locais costumavam editar uns cinco minutos de história para poder acomodar o grande número de mensagens comerciais. Geralmente era a apresentação do episódio que sofria a incisão, mas o editor de cada emissora podia muito bem cortar as passagens que achasse melhor. Portanto, o mesmo episódio exibido em, vamos dizer, São Francisco, Los Angeles e San Diego poderia ter sido cortado de três formas completamente diferentes. Os organizadores das convenções alugavam cópias diretamente da Paramount e as exibia na íntegra. Os famosos "bloopers" (erros de gravação) também surgiram nessa época e tornaram-se uma grande atração das Convenções.

Fui convidada para algumas Convenções (os escritores eram muito apreciados pelos fãs de Star Trek, um fato que nós, escritores, adorávamos: podíamos contar histórias sobre a origem e o desenvolvimento dos roteiros, enquanto os atores contavam anedotas sobre a vida em estúdio). Nessa época surgiu o Star Trek Welcommittee, uma organização nacional que fazia a coordenação e a troca de informações entre os fãs individuais e demais fãs-clube, mantendo-os a par das atividades das convenções. Fiz amizades com muitos desses fãs.

Um dos fãs que mais impressionava a qualquer pessoa ligada a Star Trek era o jovem George La Forge**. Portador de uma deficiência física de nascença, que o mantinha confinado a uma cadeira-de-rodas, George não perdia uma convenção de Star Trek. Numa delas, Gene Roddenberry chegou a formalmente promovê-lo a almirante da Frota. A mãe de George uma vez disse acreditar firmemente que o interesse do filho por Star Trek tinha dado a George força para viver mais anos do que talvez conseguisse. Star Trek podia orgulhar-se disso ou dos vários jovens que escreviam dizendo que o seriado (ou um episódio específico) os encorajara a seguir uma carreira produtiva, uma educação, ou então os incentivara a trocar um caminho destrutivo de vida para um mais positivo. Alguns deles chegaram a comentar a esperança proporcionada pelo seriado, que os tirara até mesmo de uma depressão suicida. Algumas vezes os episódios apenas os faziam pensar. Star Trek podia ter orgulho disso também.

** Gene Roddenberry posteriormente homenageou esse fã dando seu nome a um dos personagens da Nova Geração, o engenheiro-chefe Geordi LaForge. (N.T.)

As convenções naquele tempo eram grandes, reuniam milhares de pessoas. Algumas convenções doavam seus rendimentos para organizações beneficentes; outras apenas faziam dinheiro para seus promotores. Esse tipo de atração deve ter feito alguém pensar porque, na primavera de 1973, Gene Roddenberry e Lou Scheimer, presidente da Filmation, me convidaram para almoçar. Eles me disseram que a NBC estava interessada em fazer uma versão em desenho animado de Star Trek para sua programação de sábado de manhã. A Filmation faria a animação; Gene seria o produtor executivo e eu fui convidada a me unir ao time. Assinei contrato como produtora associada e editora de histórias.

Gene estava determinado a fazer de Star Trek um desenho animado que não fosse apenas para crianças. Deveria ser fiel ao seriado original e deveria contar histórias adultas, independente do fato de que a audiência de sábado de manhã era constituída basicamente por crianças. Esperávamos atrair telespectadores mais velhos. Além disso, a animação permitia uma nova dimensão impossível aos filmes com atores de verdade. As histórias poderiam acontecer em ambientes hostis (debaixo d'água, por exemplo). Cenários mais variados e mais complexos poderiam ser criados e novos alienígenas poderiam surgir sem ter de esbarrar na dificuldade de máscaras, maquiagens ou zipers aparecendo. Apenas nos desenhos animados poderíamos desenvolver tão bem os felinóides carnívoros de Larry Niven, os Kzin. A animação tornou possível a participação de tripulantes alienígenas regulares, como o navegador Arex, com seus três braços e três pernas, e a tenente M'Ress, outra felinóide. Também permitia aos fãs verem pela primeira (e única) vez como um "ursinho de pelúcia vulcano", o sehlat, realmente se parecia. As vozes pertenciam aos atores da série, Bill Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, George Takei, Jimmy Doohan, Nichelle Nichols e Majel Barret, com a participação especial ocasional de Mark Lenard, que interpretava Sarek.

Participei da Convenção de Ficção Científica Mundial em Toronto naquele final de semana que coincidia com o feriado do Trabalho levando, com muita ansiedade, uma pequena amostra do nosso trabalho. Não tínhamos concluído nenhum episódio ainda e tudo que podíamos exibir era uma breve (um minuto!) seqüência do novo seriado. Eu estava programada para a noite de sábado e durante todo o dia ouvi comentários nada favoráveis quanto à versão animada de Star Trek. Havia previsões terríveis e observações mordazes sobre os desenhos para crianças e o clima estava absolutamente frio quando pedi ao operador que projetasse meu pedaço de filme para um salão lotado de fãs.

Então foi pura magia. A música familiar tomou conta dos alto-falantes e a Enterprise cruzou a tela novamente contra o fundo escuro de estrelas. O título e o nome dos atores também invadiram a tela. Não importava que fosse animação. Não importava que, para os objetivos da animação, o brilho prateado da nave tivesse de ser um cinza escuro para proporcionar o "movimento" na animação. A fidelidade ao original já no primeiro minuto de desenho ganhou a confiança dos fãs. Quando a tela escureceu, a audiência aplaudiu em delírio. Então começou a propaganda boca a boca. Star Trek - o verdadeiro Star Trek — estava de volta, mesmo que em desenho animado.

O fato de a Associação de Escritores estar em greve entre março e junho daquele ano nos ajudou em nossa insistência quanto a qualidade do material do desenho. Excelentes escritores que provavelmente não estariam disponíveis nesse período encontravam-se sem emprego e trabalhar para um desenho animado era um campo perfeitamente legal para eles, uma vez que isso não fazia parte do estatuto da Associação de Escritores. Por isso chamamos veteranos de Star Trek como Sam Peeples, David Gerrold, Margareth Armen, Stephen Kandel, Paul Schneider e David Harmon para fazer os roteiros da primeira temporada. Walter Koenig escreveu um roteiro para nós. E eu escrevi Yesteryar.

A NBC estava muito preocupada com Yesteryar. Afinal, lá estava eu falando em eutanásia de um animal de estimação em um desenho para as manhãs de sábado: "Não se preocupem!", disse Gene. "Confiem em Dorothy". O resultado da história é o que eu sinto em relação à morte com dignidade de animais sofrendo dores horrorosas ou ferimentos severos. Pelo que eu saiba, a NBC jamais recebeu qualquer carta de protesto a respeito do final do desenho.

Embora a série de desenhos tenha durado duas temporadas, eu trabalhei nela apenas na primeira. Devido à natureza da animação e a extraordinária quantidade de tempo e dinheiro dispensada a um episódio de meia hora, a primeira temporada teve apenas dezesseis histórias. A segunda foi originalmente exibida com apenas seis episódios inéditos misturados aos antigos. Esse curto seriado em desenho animado, assim como seu predecessor, teve sua vida revigorada através das reprises e, posteriormente, através do videocassete e videodisco.

Voltei a escrever para seriados de tevê, como São Francisco Urgente, O Homem de Seis Milhões de Dólares, Elo Perdido e Police Woman. Em 1976, fui editora de histórias da série Viagem Fantástica. Logo depois trabalhei para Logan's Run. Esses dois trabalhos foram conseqüência direta da reputação que adquiri com Star Trek. Roteiros para Os Waltons, Dallas e outras séries ocuparam meu tempo no final dos anos 70.

Durante esse tempo houve uma tentativa de produzir outra série Star Trek. Não sei por que o projeto não foi avante, mas alguém da Paramount notou o enorme sucesso de Guerra nas Estrelas, em 1977, e lembrou que a empresa também era dona dos direitos de uma aventura de ficção científica. Todos nós sabemos até onde isso levou - especialmente agora que, enquanto estou escrevendo esse texto, um roteiro para um sexto filme de cinema está em preparação. Os filmes tornaram um sucesso tão popular quanto lucrativo e acredito que serviram de incentivo para o anúncio de uma nova série Star Trek, logo depois que a série clássica completou seus 20 anos de existência.

O novo conceito estabelecia uma nova tripulação, especialmente um novo capitão, e a expansão da visão de Star Trek para os anos 80 e 90. Os fãs mais leais odiaram a idéia desde o início. Pela primeira vez, a correspondência que começou a chegar era de protesto. Talvez eles tenham se sentido mais seguros quando souberam que Gene Roddenberry estaria encarregado da nova série, assim como outros nomes familiares à equipe, como Bob Justman, Bill Theiss, John Dwyer, Charles Washburn, David Gerrold e... D.C. Fontana.

Mas um capitão careca? Uma nave com mil tripulantes, inclusive famílias? Um adolescente considerado um gênio e sua mãe médica? Uma mulher como oficial de segurança? Um andróide? Um oficial klingon na ponte? Não me admira que os fãs tivessem lá suas dúvidas. Era algo tão diferente da Star Trek que eles apoiaram tão fielmente durante anos... Afinal de contas, os fãs tinham Star Trek como algo muito seu.

Todos nós envolvidos na evolução de A Nova Geração também tínhamos particularmente nossas dúvidas. A tarefa era difícil de ser feita uma vez, impossível de se fazer duas vezes. Mesmo assim a equipe, o elenco, e todos envolvidos com A Nova Geração estavam determinados a realizar o impossível.

Produzir uma série de tevê é um verdadeiro exercício de loucura. É muito divertido fazer, mas requer longas horas de trabalho exaustivo, inclusive noites e finais de semana. Demanda total dedicação da mente e de nossas energias. Pessoas de criação raramente são muito tensas e a produção de uma série pode significar relações personalidades em conflito. Todos querem que o projeto seja um sucesso, apenas não concordam nos caminhos trilhados para atingir esse sucesso. Quando chega o dia em que o seriado recém-nascido é apresentado à audiência, uma cosa é definitiva: ou cai em seus primeiros passos ou então continua engatinhando e em crescimento. A Nova Geração está agora em seu quarto ano de sucesso.

Deixei a produção da nova série depois dos treze primeiros episódios e agora estou concentrada em escrever roteiros para cinema. Estou muito orgulhosa do fato de ter contribuído para as três versões de Star Trek. Também tenho orgulho do fato de que escrevi mais roteiros para Star Trek*** do que qualquer outra pessoa e a maioria deles foi bem recebido e é lembrado com carinho pelos fãs.

Aconteceu no outro dia: parei numa livraria para comprar um livro de referência. Quando entreguei meu cartão de crédito, o vendedor naturalmente conferiu o nome e, em seguida, o observou de forma mais atenta.

— É D.C. Fontana?

— Ãh... sim

— Céus, eu amei seu trabalho em Star Trek..

Eu também, amigos, eu também.

Dezembro de 1990.

*** D.C. Fontana refere-se obviamente a Série Clássica, uma vez que agora foi superada por outros escritores da Nova Geração. (N.T.)

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