Stephanou, Maria – ufrgs gt: História da Educação / n. 02 Agência Financiadora



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INFÂNCIA, HIGIENE & EDUCAÇÃO

BASTOS, Maria Helena Câmara – PUCRS



STEPHANOU, Maria – UFRGS

GT: História da Educação / n.02

Agência Financiadora: CNPq
Introdução

Nas primeiras décadas do século XX, a criança era pensada como formoso capital humano, que deveria ser cuidado, cultivado, acompanhado, disciplinado, para que pudesse frutificar como bom cidadão do futuro. Da atenção na família até a idade escolar, muitas eram as promessas, mas também os perigos para que o pleno desenvolvimento das crianças fosse alcançado. Considerava-se que o avançar da idade da criança era inversamente proporcional às possibilidades de moldar seu corpo, seu espírito, sua moral. Assim, era preciso iniciar sua educação desde a mais tenra idade, de modo a corrigir-lhe os possíveis desvios antes que fosse tarde para isso.

O discurso da higiene, médico-sanitário, ocupou-se privilegiadamente deste tema e promoveu inúmeras práticas educativas dos médicos voltadas às crianças. Primeiramente, orientando as mães de família - nos dispensários infantis, centros de puericultura e enfermarias de pediatria - quanto aos cuidados e educação das crianças pequenas. Contudo, a criança, uma vez em idade escolar, progressivamente escapava dos espaços de assistência médica e familiar. Como acompanhá-la? Indiscutivelmente, sobressai a atuação nas/das escolas. Nestas, uma atenção especial era dirigida a cada criança, uma vez que a idade escolar coincidia com um período crucial da formação do indivíduo e do cidadão (Stephanou, 1999). As escolas foram se tornando espaços por excelência de identificação, conhecimento, controle e normalização da população infanto-juvenil, em práticas como as aulas de Higiene e ginástica, os Pelotões de Saúde, a inspeção médico-escolar, dentre outros.

O discurso médico sobre a criança também circulou por diferentes campos do social e fez-se presente em muitas experiências que não se restringiram às práticas médicas ou escolares propriamente ditas. Por exemplo, além da educação sanitária nas escolas, foram sendo produzidas práticas educativas mais amplas dirigidas aos jovens e às crianças, à população em geral, através de programas radiofônicos, cinema educativo, cartazes de propaganda sanitária, manuais de saúde e impressos diversos para leitura.

Como indica Vigarello (1996), a higiene enfocada pela medicina e depois levada às escolas tornou-se o dispositivo inédito de uma nova forma de controle coletivo dos comportamentos. A socialização das técnicas do corpo, por mais que sejam expressamente regulamentadas, na verdade só conseguiram impor-se através de vários registros de representações e de práticas. Nessa intenção, podemos citar o papel da literatura de caráter didático com as obras dirigidas ao público infanto-juvenil. Tal literatura pode ser tomada como observatório privilegiado das concepções, relações intergeracionais e práticas educativas que uma determinada sociedade, no tempo e no espaço, formulou em relação aos seus jovens e crianças.
Aventuras da literatura e da higiene

A obra Aventuras no Mundo da Higiene1, do escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), publicada em 1939, constitui um exemplo paradigmático para examinar os dispositivos que visaram atingir as crianças e formá-las a fim de que se portassem de forma higiênica, condição indispensável à saúde individual e coletiva, requisito ao progresso da pátria.

A literatura, considerada como um dispositivo pedagógico, permite entrever os enunciados discursivos de um tempo e espaço, as representações sociais e o imaginário de atores sociais, reais e ficcionais (Cunha; Bastos, 2001, p.201). Grande parte da produção literária abarca, em alguma medida, um projeto educativo que lhe dá forma, sentido e lhe eterniza. Entre suas funções, as de civilizar e moralizar, entendidas como ensinabilidade de valores sociais e culturais, são as mais significativas. As palavras formam uma estética da existência e, embora a experiência estética possa ser desencadeada e vivenciada nos limites do texto, a sua recepção vai além dessas fronteiras mostrando que o mundo representado pode, também, funcionar como uma forma de socialização, de iniciação a valores do mundo factual (Ibid.).

Como assinala Marisa Lajolo,


tradicionalmente o enfoque da literatura na escola brasileira tende a assumir a função de educação pela literatura. O caráter de modelo e exemplo do texto literário é constante na apresentação de manuais escolares de qualquer época. Isso acaba identificando literatura com preleções morais, cívicas e familiares. O texto literário torna-se privilegiado não pela sua dimensão estética, mas pela dimensão retórica e persuasiva, de veículo convincente de certos valores que cumpre à escola transmitir, fortalecer e gerar. (1982, p.15)
Assim, a literatura de formação ou aprendizagem tem a função de fornecer informação científica, moralizante e fantástica, ensinando e divertindo. Também, essa produção age como um exercício preparatório para a vida futura, nos quais a criança adquire noções primárias sobre o meio ambiente através de uma efabulação com contornos dramáticos que, mesmo possuindo índole fantástica, volta-se para o real (Filipouski e Zilberman, 1982, p.58-59).

Cabe salientar, ainda, que a literatura é também expressiva para a compreensão de um momento histórico. No caso específico da obra examinada, durante o Estado Novo (1937-1945) as autoridades governamentais assumem um discurso de saneamento da sociedade, especialmente no tocante às questões de higiene pessoal e social. Esse discurso, por sua força de verdade e legitimidade, proliferou em diferentes espaços e projetos.

No âmbito nacional, em 1936, o então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, criou a Comissão Nacional de Literatura Infantil, a CNLI, que entre outras atribuições deveria organizar um projeto de bibliotecas infantis e promover o desenvolvimento de uma boa literatura para crianças e jovens, incentivando a leitura de obras educativas, especialmente na forma de “livros de leitura” que concorressem para a formação de hábitos e valores2. Na visão da comissão de intelectuais e literatos que integravam a CNLI, a virtude e poder da literatura infanto-juvenil estavam na possibilidade de, lançando mão dos recursos ficcionais e lingüísticos, educar apelando para a imaginação e interesse das crianças e dos jovens, aspectos inexistentes nos livros escolares em circulação na época (cf. Gomes, s.d.).

Entre outras ações, a CNLI organizou um concurso de livros infantis, cujo edital foi lançado em setembro de 1936, objetivando estimular a elaboração de novas histórias. O concurso aconteceu em 1937, tendo sido submetidos 80 livros. Dentre os premiados na categoria das obras destinadas às crianças com mais de 10 anos, figurou o livro Aventuras de Tibicuera, de Érico Veríssimo. Tal premiação contemplou um dos onze títulos de literatura infanto-juvenil escritos por Érico no início de sua carreira, de 1935 a 19383, entre os quais dois textos voltados ao público escolar: Meu ABC, de 1936, e Aventuras no Mundo da Higiene, de 1939. Outros escritos de Érico foram reunidos em Gente e Bichos (1956)4.

Em seu conjunto, podemos pensar nas variadas motivações que levaram Érico Veríssimo a essa produção para o público infanto-juvenil, seja como editor e escritor da Livraria do Globo de Porto Alegre, seja como pai de dois filhos, ou como intelectual de sua época. Como sugere Ângela de Castro Gomes,

A intelectualidade, a despeito das desilusões e descaminhos que identificou na República, apostou numa ação educativa ampla, no sentido da informação e formação do leitor mirim. Essa aposta, que se vincula à construção de uma cultura cívica republicana, torna-se parte constitutiva da identidade desses intelectuais, e pôde ser vivida como “missão”, útil e prazerosa, quer porque se dirigia às crianças – sempre os futuros cidadãos -, quer porque acenava com a possibilidade de ganhos materiais e simbólicos em um estreito mercado editorial. (s.d.)



A higiene: aventuras e desventuras
Aventuras no Mundo da Higiene é um livro dirigido às crianças e aos jovens, bem como a seus pais e professores. Seu objetivo é propor ao leitor a adoção de uma rotina disciplinar de higiene, indispensável à vida, em uma época de normatização de condutas no contexto de uma sociedade em processo crescente de urbanização. A obra não é um exemplo isolado, mas insere-se na extensa produção de manuais e guias de higiene e saúde5, que circularam no período6.

A obra, juntamente com Viagem à Aurora do Mundo (1939) e As Aventuras de Tibicuera (1937)7, podem ser caracterizadas como romances didáticos. Inscrevem-se numa experiência mais ampla de atuação de Érico Veríssimo em projetos dirigidos ao público infanto-juvenil. No final dos anos 30, coincidindo com o momento de produção de obras de literatura infantil, entre 1936 e 1937 Érico manteve um programa radiofônico para crianças, na então Rádio Farroupilha de Porto Alegre, intitulado “Amigo Velho”. O programa foi interrompido porque, obrigado a submeter-se às imposições da censura do Estado Novo, Érico preferiu encerrá-lo, defendendo vigorosamente a liberdade de expressão.

O livro Aventuras no Mundo da Higiene constitui uma unidade discursiva, produtora de ordenamentos, de afirmação de distâncias, de divisões (Chartier, 1990, p.28). Uma espécie de manual de civilidade para crianças e jovens em idade escolar, que serve, ao mesmo tempo, para propor novas condutas através de modelos altamente valorizados e para excluir necessariamente do espaço público comportamentos que outrora lhe pertenciam (Goulemont, Ibid., p.373). É, portanto, um livro educador (Chartier; Hébrard, 1995), com função moralizadora e intenção educativa, um pequeno manual de educação à saúde8.

É publicado pela Editora Globo de Porto Alegre9, com ilustrações de um renomado artista plástico gaúcho, João Fahrion10. Editado em formato pequeno (14cm x 18cm), é composto por dezesseis lições, que se distribuem em 144 páginas, com índice de assuntos, quadro sintético do valor dos alimentos e tabelas anexas que informam o peso proporcional à altura e à idade de meninos e meninas.

Como o livro destina-se ao público infanto-juvenil, o próprio autor justificou a inserção de várias ilustrações, especialmente na capa colorida. Para Érico Veríssimo, somente o “Guia Telefônico” dispensava gravuras. Ao longo do texto são reproduzidas imagens em preto, branco e laranja, caracterizadas por traçados singelos, além de quadros-negros que destacam as informações relevantes. Personagens de histórias infantis são evocados como espécie de atrativo e também ilustram a história: Pato Donald, Pluto, Mickey, Popeye, Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho, o Gordo e o Magro, os Três Porquinhos.

A união entre texto e imagem é mais do que um mero recurso gráfico, assumindo um caráter educativo. É uma estratégia de linguagem, implicando na adoção de um arsenal amplo de comunicação. O fundamental é usar a imagem como um elemento informativo que seja processado pelo olhar juntamente com o texto. A ilustração é, enfim, um recurso lúdico que atrai e diverte o leitor, favorecendo intimidade com o texto, pois fala a linguagem da infância, brinca com formas, traços, movimentos. A imagem é um protocolo de leitura, sugerindo ao leitor a correta compreensão do texto, seu indiscutível significado (Chartier, 1998). Daí que muitas imagens são propositalmente caricaturais, enfatizando a gravidade das situações descritas, que devem ser combatidas, como é o caso de um mosquito desenhado em proporção quase dez vezes maior que uma pessoa.

Érico Veríssimo inicia a obra com um bilhete destinado aos “meus amigos”, sendo possível identificar que esta apresentação dirige-se aos pais e professores. No pequeno texto introdutório, informa o objetivo da obra:


Meus amigos, é inútil franzir a testa, engrossar a voz e falar difícil quando queremos ensinar. O aluno só se entrega de corpo e alma àquele que lhe contar a melhor história de fadas e aventuras. A estrada mais curta e certa para a inteligência tem passagem obrigatória pelo coração. Não será humano tentar outros caminhos...

Neste livro procurei fazer que as noções de higiene viajassem para o entendimento das crianças confortavelmente instaladas no trem colorido da ficção. Fiz o possível para que a viagem fosse divertida, rápida, sem enjôos nem solavancos. Não basta que se diga tiranicamente aos alunos: “Matem as moscas e bebam o leite”. É preciso explicar por que as moscas são nocivas e por que o leite é benéfico à saúde. Por outro lado, como falar na higiene da respiração sem explicar o fenômeno respiratório? (Veríssimo, 1939)


O autor também se preocupa em ensinar ao leitor como pode proceder à leitura do livro: “Como fazer quando queremos descobrir em que página deste livro se fala, por exemplo, em doentes, alimentação ou água? Muito simples: procurar essas palavras – ou as outras que quisermos – no índice que se encontra no fim deste volume”. O índice da obra é um “índice onomástico”, em que o autor informa ao leitor que “procure aqui os assuntos que você quer estudar agora, e este índice lhe dirá em que página eles são tratados”. Essa observação permite uma leitura não linear, flexibilizando o caráter informativo e técnico do conteúdo abordado. Examinando atentamente o índice, para a letra “a”, por exemplo, temos os seguintes assuntos: água, álcool, alimentação, altura, aparelho circulatório, aparelho digestivo, aparelho respiratório, ar, ar livre. O assunto mais recorrente é sobre “micróbios”, presente em treze páginas; os demais assuntos aparecem em uma até sete páginas. Paralelamente aos temas mais técnicos e informativos, o autor apresenta assuntos ligados ao disciplinamento de modos e atitudes próprios das práticas de civilidade: bons costumes, bons e maus hábitos, higiene, limpeza e asseio pessoal.

O índice, no entanto, não expressa o caráter de ficção e aventura da obra, que somente é percebido por uma leitura contínua. O início da história ou o princípio da aventura é a apresentação do personagem central – “Patinho Feio”: dez anos, olhar tristonho, magricela -, cuja representação aproxima-se do Jeca-Tatu de Monteiro Lobato11. O autor preocupa-se em alertar o leitor de que esse anti-herói pode se transformar de uma hora para outra em herói12, como no livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Caroll, explicitamente referido no texto de Érico. Essa transformação ocorre quando o personagem depara-se com “a porta de um mundo novo”, através do encontro com outros personagens, um adulto médico-professor e o menino Mário, descrito como a criança ideal: “mas esse rapazinho que acaba de chegar é uma maravilha. Deve ter a mesma idade do Patinho Feio. Mas é cheio de carnes, tem o rosto corado e alegre, olhos limpos, dentes fortes, claros e brilhantes, pele lisa, pernas musculosas”. O contraponto menino bonito x menino feio é expresso em termos de ter saúde ou doença, higiene e limpeza ou sujeira.

Os personagens dirigem-se à casa de Mário, identificada como “vila da alegria e da saúde”, onde se encontram com o professor de higiene, Dr. Salus, que inicia a viagem pelo mundo da higiene, cujo objetivo é transformar Patinho Feio – menino magro, amarelo e triste em um rapagão forte, corado e alegre.

Érico intercala o papel de contador de histórias com orientações e alertas ao leitor:

Antes de contar o que aconteceu ao nosso Patinho Feio, eu peço que vocês prestem muita atenção em tudo quanto o dr. Salus vai ensinar a ele (Patinho Feio) e a Mário. São lições de higiene e todos os meninos e meninas que estão lendo este livro devem seguir os conselhos desse professor, que parece um mágico. Ele é tão habilidoso, tão engraçado e tão bom este camarada que é capaz de transformar a mais cacete das matérias num conto de fadas, numa novela de aventuras. (Veríssimo,p.15-16)


É interessante observar a ambientação da história. Embora transcorrendo no interior de uma casa, a narrativa adota o modelo escolar. O médico, dr. Salus, assume o papel de professor e as crianças o papel de alunos. Os capítulos da história são sessões de aula, em que se destacam os recursos tipicamente escolares, especialmente o uso do quadro-negro, de cartazes, mapas, filme - “A triste história duma boca suja”- ; e de exercícios escolares, como copiar, decorar e responder as perguntas do médico-professor, adulto responsável por conduzir a todos ao mundo da higiene.

O copiar é um exercício recorrentemente indicado nas aulas do Dr. Salus, que chega a afirmar “copiem o que vou escrever. É copiando as frases que a gente melhor as grava na memória”. Assim, a forma como são reproduzidas no livro as principais lições é a de um quadro-negro, com letras garrafais manuscritas, sugerindo que como livro didático os textos podem ser copiados pelo leitor, como forma de sistematização e memorização das aprendizagens propostas pela narrativa.

Quanto ao estilo da narrativa, Érico Veríssimo opta pela forma de catecismo, isto é, centra-se no jogo de perguntas e respostas, entremeadas por breves descrições exemplares. De certo modo, a dimensão ficcional, caracterizada por um enredo muito simples e pela inserção de personagens de outras tramas narrativas para crianças, como Donald, Mickey e outros referidos anteriormente, serve apenas para a difusão de um grande número de preceitos higiênicos e conselhos morais. Há, de certa forma, uma secundarização da ficção em favor do conteúdo instrucional. Indiscutivelmente, como parte da estratégia de didatização13 dos preceitos a infundir nas crianças, os recursos ficcionais possibilitam o trabalho de reelaboração dos saberes médicos que são transformados em saberes emblematicamente escolares no decurso da narrativa.

O processo de transformação do anti-herói, Patinho Feio/menino doente e sujo, passa pela raspagem da cabeça, corte de unhas, um banho que lhe muda a cor como camaleão, ficando mais claro. Recebe roupas limpas, sapatos, meias, chapéu e escova de dentes, com a seguinte ordem “escove os dentes ao levantar, antes de deitar, após o almoço e o jantar”.

A seguir, começam as aventuras em torno das aulas do dr. Salus, que é representado como professor limpo e alegre – “Se dona Juventina fosse limpinha e alegre como o dr. Salus eu nunca faltaria às aulas...”. A primeira lição é intitulada “A história dos gêmeos”, cuja tônica é esclarecer o que é saúde e falta de saúde, o que é ser limpo, o que é higiene. A lição centra-se na idéia de que “quem obedece às ordens da higiene e vive limpamente é um candidato à saúde, à beleza e à vida longa. Quem desobedece as regras de higiene e ama ou suporta a sujeira fica doente, vive sofrendo e morre cedo”.

A próxima aula é sobre os inimigos do corpo: os micróbios14, o mosquito, a mosca, o álcool, o fumo, os maus hábitos, o abuso do chá e do café. Essa listagem apresenta os inimigos encontrados na natureza e aqueles que poderíamos chamar de sociais. O Sr. Maus Hábitos, personagem que entra em cena, é definido como adulto que não obedece às regras de higiene – o príncipe da sujeira, o representante da doença, o caixeiro-viajante da morte.

São listados ao leitor suas atitudes, todas condenáveis: mete o dedo no nariz, não gosta de tomar banho, leva à boca tudo quanto encontra ao alcance da mão, fuma, bebe álcool, toma chá e café como desesperado, respira pela boca, anda sujo, não sabe sentar, não faz exercícios físicos e odeia o ar livre, escarra e cospe no chão, etc. Seu desenho é asqueroso. Essa aula é resumida no quadro-negro da seguinte forma:




  • SUJEIRA + CALOR + UMIDADE = MOSCA

  • MOSCA = MICRÓBIO

  • MICRÓBIO = DOENÇA

  • DOENÇA = SOFRIMENTO OU MORTE

Como contraponto ao personagem Sr. Maus Hábitos, enxotado aos gritos de “fora! fora!” pelas crianças, o autor apresenta o personagem Sr. Bons Hábitos, combatente incansável de mosquitos e micróbios, que é recebido com palmas e grande entusiasmo pelos meninos, descrito com a retórica do “amor à limpeza e aluno obediente da grande professora que é a Higiene”. Como um manual de bons hábitos, o livro contrapõe as atitudes positivas às práticas condenadas socialmente. O uso recorrente de dicotomias - amigos/inimigos, limpo/sujo, alegre/triste, corado/pálido, robusto/magricelo, forte/débil, saudável/doente, bonito/feio -, nesta passagem do texto e em todas as demais, constitui uma espécie de gramática discursiva voltada para a normalização das condutas do leitor.



A quarta lição do dr. Salus é sobre o corpo humano, com destaque para os olhos, os dentes, os ouvidos, o aparelho respiratório, o aparelho circulatório, a coluna vertebral, os ossos, o fígado e os rins, o sistema nervoso. Esses assuntos são entremeados com lições de higiene da respiração, do coração, da pele, das unhas, do cabelo, dos músculos, do sistema nervoso, do sono, do aprender a parar de pé, sentar e caminhar. Toda essa seqüência de normas e cuidados que crianças e jovens devem ter com a higiene do corpo culmina com a máxima de que “a higiene deve começar por casa”. A vida ao ar livre, os exercícios físicos, a alimentação, a água, os banhos de sol são também abordados.

É interessante registrar as observações do dr. Salus sobre a atitude adequada para o ato de ler. Inicialmente, demonstra a forma correta de segurar o livro sobre a mesa. Aconselha que, a cada 15 minutos, devemos erguer os olhos do livro e olhar para a distância; o livro ou a revista deve ser segurada à distância de uns 33 centímetros dos olhos; devemos fazer com que a luz bata sobre a página que lemos. Não recomenda ler em veículos em movimento; desaconselha a leitura quando estamos deitados, pois a luz não incide no livro de acordo com as regras da higiene; não devemos ler livros ou revistas mal impressos ou de letras miúdas. As recomendações sobre a atitude postural para a leitura também recaem sobre a qualidade dos livros: “escolher livros sãos para ler, leitura que não excite, que não cause pavor ou tristeza”.

A apreciação da obra em seu conjunto mostra que as lições do personagem adulto da história, um médico-professor, destinam-se indistintamente para o Patinho Feio, menino doente, e para Mário, menino sadio, sugerindo que a obra transmite lições exemplares tanto para aqueles que precisavam de uma decisiva orientação para modificar integralmente seus hábitos, quanto para aqueles que deveriam cultivar os bons hábitos que já possuíam. Dirige-se, assim, a todos e a cada um.

Na quinta lição, intitulada “A máquina maravilhosa”, a narrativa indica que a saúde do Patinho Feio começava a se modificar ainda no decurso da história, uma vez que ele havia aprendido e praticado as lições iniciais da higiene: “Zé Pedro já sabia fazer pilhérias, sinal de que sua saúde melhorava”.

A penúltima lição do dr. Salus intitula-se “Os três porquinhos higiênicos”, em que se encontra o resumo do que devemos fazer ou devemos evitar fazer para vivermos em um mundo da higiene. É destacada a vida exemplar que Patinho Feio, agora identificado por seu nome, Zé Pedro, passou a viver.

A última lição, “Onde está o Patinho Feio?”, apresenta um final feliz. Os alunos do Dr. Salus seguem suas vidas praticando o que foi ministrado em aula, uma vida higiênica. Patinho Feio transformado em Zé Pedro, está completamente mudado: engordou, ganhou cores sadias, tem o corpo ereto, o olhar limpo e é alegre!

Érico Veríssimo finaliza com a seguinte recomendação:

Vocês acabaram de ler a grande aventura do Patinho Feio no Mundo da Higiene. E eu pingo o ponto final neste livro pedindo a vocês que sigam o caminho dos dois amigos, fazendo-se também soldados da higiene na grande guerra contra a sujeira e a doença. (1939)
Ao longo do texto, o uso intensivo de metáforas militares – aviões inimigos, invadir, combater, destruir, guerra aos micróbios, soldados, bombardeios, etc -, sinaliza para uma ação conjunta da/na sociedade, em que as crianças teriam sua parcela de participação e contribuição, através dos “Pelotões de Saúde” organizados nas escolas15.

A propósito dos Pelotões, é sugestivo o excerto abaixo, referindo-se ao livro de Érico, sua difusão na escola e a educação sanitária que se difundia:
Escola Típica Rural de Capivari, Rio Claro, Rio de Janeiro.

Ilmo. Sr. Érico Veríssimo,

Em nosso nome e no de nossos coleguinhas, escrevemo-vos a fim de por-vos ao par de que fostes o escolhido para patrono do nosso “Pelotão da Saúde”. Nossa professora contou-nos que escrevestes um lindo livro de higiene intitulado “Aventuras no Mundo da Higiene”, onde fazeis um paralelo entre dois meninos: um que seguia todas as regras higiênicas e outro que nem essas regras conhecia. A diferença que havia entre os dois era enorme. Enquanto o primeiro era forte e bonito, o segundo era magro e feio. (...) Nós, como monitores, temos o dever de transformar todas as crianças magras e feias em fortes e sadias, e como afilhados, já começamos a abusar da bondade de tão bem escolhido padrinho, pedindo que nos mande um exemplar de sua bela história.” [Do Pelotão de Saúde Érico Veríssimo. Monitores Benedito Rodrigues e Sílvia Carvalho, 25/abr./1942.] (Revista do Globo, 1942)

Leituras de formação e a pedagogia da higiene


O historiador, como leitor dos documentos literários, produz o seu sentido e essa produção se dá como resultado de sua inserção social e cultural, movido por certos objetivos e expectativas. Para Goulemont,
devemos perguntar sobre a produção dos modos de leitura pelos próprios textos. Com seu processo de escritura, cada texto inventa um leitor fictício ao qual interpela e convoca. É uma evidência que essas sociabilidades de leitura inscritas nos livros dependem do debate entre privado e público nas práticas de leitura. (1986, p.395)
Por seu conteúdo marcadamente técnico e específico, podemos inferir que a obra Aventuras no mundo da higiene tenha sido escrita a quatro mãos, com assessoria de um médico ou de um professor de história natural. Ou ainda, que o autor, como sujeito de seu tempo, tenha recorrido aos inúmeros manuais e guias de saúde, muito difundidos como literatura popular e incorporados às práticas de leitura da época.

Para Chartier (2001, p.135), a produção de um conhecimento é constitutiva de uma intencionalidade histórica. A obra de Érico Veríssimo evidencia seu comprometimento com um discurso de higienização da sociedade, especialmente no tocante às questões de higiene e saúde pessoal e social. Nesse momento, a fórmula para a salvação e o progresso do país incluía saúde e educação como elementos de redenção da Pátria16. Assim, o objetivo era criar e cultivar novos hábitos de higiene e preservação da saúde na criança brasileira, pois esta estava predisposta, ainda, a um estado de desnutrição e a uma elevada incidência de morbidade e mortalidade. As noções de higiene na alimentação e no asseio pessoal fazem parte de um projeto de modernidade para a sociedade brasileira ligado à conservação da saúde e ao vigor do corpo.

Na obra de Érico Verissimo, as recomendações de higiene são divulgadas de maneira sugestiva e pretensamente agradável, animadas por expressivas ilustrações, de modo a que a ficcionalidade possa capturar os pequenos leitores imprimindo-lhes uma convicção sincera quanto ao valor dos preceitos que são sugeridos às personagens da história, identificadas com os potenciais leitores. O teor das lições da narrativa sinalizam para condutas saudáveis e asseadas que igualmente observam as “leis de civilidade”. Como indicado anteriormente, conservar a saúde física, mental e moral foi a tônica desenvolvida pelos intelectuais desse período que, como Érico Veríssimo, estavam comprometidos com um projeto de salvação nacional traduzida em um apostolado que pretendia orientar, em especial as crianças e os jovens, quanto aos hábitos de higiene, para formar o cidadão saudável, que poderia lutar em defesa da nação. Enfim, um cidadão civilizado, fruto da “raça nova” e, por isso, consciente de seus deveres para com a família, a sociedade, a pátria, a humanidade.



Aventuras no Mundo da Higiene, por suas características, constitui-se em um “manual escolar”17, com a função de informar e educar. Nessa obra, a ficção cria o enredo para estimular a leitura e tornar mais agradável o conteúdo técnico, fortemente prescritivo. Procura aliar seu caráter científico à graça e à simplicidade, capazes de atrair a atenção do público infanto-juvenil.

Entretanto, é preciso salientar que, como alerta Chartier (1998, p.14), os leitores constróem diferentes sentidos às mensagens expressas e apropriam-se diversamente do objeto de sua leitura, o que equivale a dizer que a significação de uma obra jamais é definitiva e única, assegurada por uma presumível estabilidade do texto.

Os significados e o poder sugestivo que a obra obteve junto a seus leitores são necessariamente múltiplos, pois se a leitura é uma prática inventiva e criativa não podemos reduzi-la, como nos ensina Certeau (apud Chartier, 1998), às intenções do autor, sujeito que ocupa um determinado lugar em sua época. Os recursos ficcionais, imagéticos e discursivos abundantes na obra de Érico Veríssimo indicam, de qualquer modo, o empenho do autor em estabelecer alguns limites à livre apropriação do texto, demarcando prescrições, urgência, necessidades imperiosas, dramatizações que assegurassem comportamentos desejados. A história de seus usos na escola ou fora dela é tarefa a ser empreendida.

Érico, efetivamente, se esforça para produzir uma representação de criança saudável, educada, urbana, de classe média, construída a partir da estereotipia da criança pobre, feia, suja, mal educada, doente, lugar de todas as misérias humanas. Essa força da dicotomia é amplamente explorada no texto ficional, mas com uma força realista que certamente impressionou seus leitores. Desse modo, o romance didático de uma época constitui-se como discurso que sistematicamente se coloca a produzir aquilo que enuncia. O menino pobre, Patinho Feio ou José Pedro, e o menino saudável, Mário nos aproximam daqueles que foram as crianças dos anos 40 e 50, e Aventuras no mundo da higiene transforma-se em um observatório privilegiado dos discursos sobre a criança e o jovem dos anos 30, 40 e 50 do século XX no Brasil.


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MARCHI, Diana Maria. A literaura infantil gaúcha: uma história possível. Porto Alegre, Ed, UFRGS, 2000.

NAXARA, Márcia R.C. Estrangeiro em sua própria terra. Representações do brasileiro (1870-1920). São Paulo: Annablume/FAPESP, 1998.

PRADO, Maria Dinorah Luz. A Literatura Infantil de Érico Veríssimo. Porto Alegre: UFRGS, 1978.

ROCHA, Patrícia. Livros que não podem faltar. Zero Hora. Segundo Caderno. Porto Alegre, 18 de abril de 2001.p.6-7.

STEPHANOU, Maria. Tratar e Educar. Discursos médicos nas primeiras décadas do século XX. Tese de doutorado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, PPGEdu, 1999.

____. Práticas formativas da medicina: manuais de saúde a formação da urbanidade. Véritas, Porto Alegre, EDIPUCRS, v.43, n. especial, p.97-102, 1998.

TORRESINI, Elisabeth. Editora Globo. Uma aventura editorial nos anos 30 e 40. São Paulo: EDUSP; Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1999.

VIGARELLO, Georges. O limpo e o sujo. Uma história da higiene corporal. São Paulo: Martins Fontes, 1996.



1Várias biografias e estudos sobre a obra de Érico Veríssimo não fazem referência a seu livro Aventuras no Mundo da Higiene. Maria Dinorah Luz Prado (1978), na dissertação de mestrado sobre a literatura infantil de Érico Veríssimo, não cita e nem faz referência a esta obra.


2 “Os romancistas e a crítica de 30 compartilham a evolução da literatura infantil brasileira. O crescimento quantitativo da produção para crianças e a atração que ela começa a exercer sobre escritores comprometidos com a renovação da arte nacional demonstram que o mercado estava sendo favorável aos livros. Essa situação relaciona-se aos fatores sociais: a consolidação da classe média, em decorrência do avanço da indústria e da modernização econômica e administrativa do país, o aumento da escolarização dos grupos urbanos e a nova posição da literatura e da arte após a revolução modernista. Há maior número de consumidores, acelerando a oferta” (LAJOLO; ZILBERMAN, 1984, p. 47).

3 A vida de Joana D’Arc, As aventuras do Barão Vermelho, Os três porquinhos pobres, Rosa Maria no castelo encantado, As aventuras de Tibicuera, O Urso-com-música-na-barriga, A Vida do elefante Basílio, Outra vez os Três Porquinhos, Viagem à aurora do mundo.

4 Em 1999, o Ministério de Educação divulgou a lista de títulos considerados indispensáveis em bibliotecas de escolas públicas, selecionados entre autores nacionais e clássicos da literatura para crianças. Nesta lista não consta nenhuma obra de literatura infantil de Érico Veríssimo. ZERO HORA. Caderno de Cultura. Porto Alegre, 6 de março de 1999.

5 A respeito de manuais de higiene e saúde ver STEPHANOU, 1999.

6 Como Cecília Meireles que escreve o livro escolar A Festa das Letras, em colaboração com o médico Josué de Castro, inaugurando a série “Alimentação” (1937), destinada à campanha de alimentação nacional. Sobre essa obra, ver CUNHA, M.T.S; BASTOS, M.H.C. (2001).

7 Romance premiado pelo Ministério da Cultura, em 1937.

8 Leituras de formação ou aprendizagem são aquelas em que “as instituições sociais como a família, a escola, a igreja, a fábrica, o hospital, pelas quais transita o herói da obra, procuram influenciá-lo, moldá-lo, direcioná-lo, segundo seus valores e normas específicas” (FREITAG, 1994, p.68).

9 Sobre a Editora do Globo, ver TORRESINI, 1999.

10 Para Érico Veríssimo, somente o “Guia Telefônico” dispensa gravuras.

11 Ver NAXARA (1998).

12 Para Bakhtin (1992, p. 235), o romance de educação ou de formação caracteriza-se por apresentar o herói/personagem em processo de aprendizagem/formação - a “vida do herói e seu caráter se tornam de uma grandeza variável”, objetivando com sua leitura a formação (transformação) do homem, do leitor.


13 Podemos caracterizar, ainda, uma espécie de didatização dos conteúdos prescritos nos meios utilizados para assegurar os ensinamentos: a seqüenciação dos temas abordados, os exercícios de fixação propostos, os diferentes recursos pedagógicos utilizados pelo personagem professor – mapas e cartazes coloridos, a escrita de lições e sínteses em quadros-negros, a observação direta de situações próximas e os filmes.

14 O autor compara o micróbio com o personagem do romance de H.G. Wells “O Homem Invisível”.

15 No Rio Grande do Sul, o Relatório do Secretário de Educação, de 1943, informa a expansão dos “Pelotões de Saúde” nas escolas: 1940, um (1); 1941, sessenta e cinco (65); 1942, cento e vinte e três (123). (RS/SEC. Relatório de maio de 1943, p. 52).


16 Ver a propósito STEPHANOU, 1999.

17 Para Choppin (2002, p.22),“os autores de manuais não pretendem somente descrever a sociedade, mas também transformá-la, o manual apresenta uma visão deformada, limitada, até mesmo idílica da realidade: constituindo uma purificação. Tende, por razões de ordem pedagógica, à esquematização, chegando até a inexatidão por simplificação ou por omissão, especialmente quando se destinam aos níveis menos elevados. O manual funciona assim, ao mesmo tempo, como um filtro e como um prisma: revela bem mais uma imagem que a sociedade quer dar de si mesma do que sua verdadeira face. O manual impõe uma hierarquia no campo dos conhecimentos, uma língua e um estilo. Se um livro de classe é necessariamente redutor, as escolhas que são operadas por seus idealizadores tanto nos fatos como na sua apresentação (estrutura, paginação, tipografia, etc.) não são neutras, e os silêncios são também bem reveladores: existe dos manuais uma leitura em negativo.




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