Sumário 1 introdução 2 I – a problemática filosófica contemporânea a Wittgenstein 6



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I – a problemática filosófica contemporânea a Wittgenstein


Os pensadores que deixaram sua colaboração para a história do pensamento foram indivíduos que conseguiram, de alguma forma, interpretar problemáticas vigentes em sua época e apresentar possíveis respostas.

As escolas filosóficas freqüentemente surgem da emulação ou imitação de um mestre, cujo poder de convicção consiste na sua colocação de novas questões, e amiúde também de sua descoberta ou invenção de uma resposta adequada a novos métodos de argumentação. 3

Conforme a afirmação de Haller, este trabalho apresenta Wittgenstein como alguém que, talvez, de forma mais genial e rápida, conseguiu oferecer respostas à principal problemática filosófica de sua época, a saber, à problemática do significado da linguagem. Tanto assim, que é um dos únicos autores capaz de, em seis décadas de existência, conseguir formular e deixar para a História duas respostas para essa problemática. Tais respostas fazem com que esse autor seja visto de duas maneiras bastante diversas com relação à concepção de Filosofia.

Embora haja uma distinção já consagrada na Filosofia Analítica entre o ‘primeiro’ Wittgenstein, representado pelo Tractatus lógico-philosophicus, e o ‘segundo’ representado pelos escritos posteriores a 1929, sobretudo pelas Investigações filosóficas, a maior parte dos intérpretes atualmente têm encontrado muitos pontos de contato entre as duas fases de seu pensamento. Notadamente quanto à sua concepção da tarefa terapêutica da Filosofia, do método filosófico e do papel da análise em produzir esclarecimentos e desfazer problemas filosóficos tradicionais, bem como formas errôneas de se compreender a linguagem. Por outro lado, é o próprio Wittgenstein que se refere negativamente à visão lógica do ‘autor do Tractatus’ nas Investigações como uma visão da qual teria se afastado. 4



O que se percebe é que a cada maneira de conceber Filosofia o autor apresenta uma resposta, também diversa, para a questão do significado. Conforme o comentário de Marcondes, isso não significa mudança de problema, mas sim diferentes interpretações e respostas ao mesmo problema. O problema da Filosofia da Linguagem torna-se o centro das discussões filosóficas a partir do final do século XIX e início do século seguinte. Esse problema será aqui abordado à luz das duas formas metodológicas que marcam a Filosofia wittgensteiniana. As duas formas de respostas a tal problema serão distinguidas como as respostas do Primeiro Wittgenstein e as do Segundo Wittgenstein. Antes de entrar propriamente na resposta do Primeiro Wittgenstein, que é condição para se chegar ao Segundo, o qual interessa mais propriamente a este trabalho, será desenvolvida, como primeiro capítulo, uma contextualização básica do movimento filosófico em que Wittgenstein está radicado, a saber, o Movimento Analítico. Dentro desse movimento será focalizada a existência de duas escolas analíticas diversas e o caminho que Wittgenstein toma em tal diversidade.

1 .1 – Ambiente de Crises e Re-propostas


É de conhecimento básico para quem estuda a História da Filosofia o fato de cada época ser marcada pela predominância de uma certa espécie de problemática situacional e temporal em torno da qual as atenções, pesquisas e produções são mais centralizadas5. Isso acontece desde o nascimento da Filosofia. Segundo Aristóteles, a Filosofia nasce da admiração e da dúvida6. Tal admiração e dúvida não deixam de ser movidos pelas questões que inquietam tal período ou situação. Sabe-se que a Filosofia surge como cosmologia, voltada para a Física e regida pela pergunta: o que é a realidade? Em seguida as perguntas priorizam a teoria do conhecimento, cuja centralidade dos questionamentos se deslocam para a indagação sobre a possibilidade de conhecer a realidade7. Daí decorrem a metafísica, a ontologia, a epistemologia, o racionalismo e, destes, os tratados políticos, o rompimento revolucionário marxista, a Psicologia8, temas que são pressupostos como “a priori” à pesquisa aqui desenvolvida, mas que não serão conteúdo do problema que este trabalho pretende abordar. O que se constata é que daqui se originam correntes filosóficas como o neokantismo, o existencialismo e a fenomenologia, formando o cenário filosófico em que nasce Wittgenstein9. Cenário este do qual, segundo Kurt Wuchterl, os intelectuais mais cultos se haviam afastado devido à insatisfação com a Filosofia de Hegel, Marx, Kierkegaard e Nietzsche. Tal fato fez com que se passasse a valorizar o pensamento das ciências naturais, desafiando a Filosofia a entrar na área científica caso quisesse ter vez e voz10. O que conduziu ao surgimento da Filosofia Analítica, que centraliza sua discussão na Filosofia da Linguagem, da qual Wittgenstein é um dos principais defensores. A primeira obra que marca a ação de Wittgenstein no campo da Filosofia Analítica é o Tractatus, publicado em 1921.

O nome Filosofia Analítica, mesmo que Tugendhat afirme que em nenhum lugar está escrito o que seja11, é atribuído a uma certa maneira de fazer Filosofia que pretende dar um passo além da Filosofia anterior. Pretende tornar as reflexões filosóficas mais claras e precisas no intuito de evitar mal-entendidos.

O rigor metodológico que caracteriza a Filosofia Analítica serve para nos prevenir de cometermos erros ao raciocinar com palavras ou conceitos abstratos. A Filosofia Analítica resulta, pois, do fato de que a maioria dos filósofos contemporâneos, cientes do quanto as palavras podem nos confundir e do quanto elas efetivamente confundiram os filósofos no passado, concebe os problemas filosóficos primeiramente como problemas de esclarecimento do sentido de nossas expressões, de modo a assegurar que a investigação não se perca, logo no início, em confusões conceituais, originadas de uma compreensão inadequada da maneira como a nossa linguagem funciona. 12

Costa afirma que o rigor metodológico e a concepção de que os problemas filosóficos são oriundos do uso não crítico da linguagem é característica comum entre os filósofos do Movimento Analítico. Tal movimento surge como uma “re-proposta” filosófica que pretendia reconquistar a adesão e a confiança dos intelectuais que, como foi mencionado no parágrafo anterior e por motivos que aqui não se pretende trabalhar, se haviam afastado da Filosofia. Esse movimento torna-se o cenário de diversas concepções, o que faz surgir uma diversidade de caracterizações de Filosofia Analítica. Elas variam de acordo com a orientação de quem as formula13. Aqui os escritos tomados como modelar para o desenvolvimento deste trabalho são as duas obras que marcam as fases filosóficas de Wittgenstein, um dos mais representativos e influentes filósofos analíticos. Isso fará com que tal caracterização de Filosofia Analítica não fuja de uma parcialidade uma vez que a intenção de tal caracterização visa unicamente contextualizar Wittgenstein, a fim de ter um ponto de partida para depois acompanhar suas andanças que resultam em duas formas diversas de responder à problemática de então. A primeira resposta eleva ao auge a concepção tradicional da linguagem designativa, a segunda é a marca do total rompimento com a tradição lingüística.

Uma singularidade desse movimento filosófico, que parece paradoxal, e não deixa de ser, é o fato de, ao mesmo tempo, perseguir uma precisão do objeto de sua pesquisa e dificultar a precisão de sua origem, seu estilo e seu conteúdo. Toda a caracterização do estilo analítico de filosofar tende a ser parcial, uma vez que estudiosos de diversas tendências filosóficas e de outras áreas do conhecimento podem ser, e foram, incluídos nesse movimento. Segundo D’Agostini, aqui se encontram autores da filosofia, da psicologia à filosofia do direito, da ética à lógica14. O termo comum que caracteriza este conjunto é o estilo de argumentação e de escrita, o modo de trabalhar em filosofia e de conhecer as tarefas e os fins do discurso filosófico15. D’ Agostini, inspirada em Russell, ainda afirma que o Movimento Analítico buscava superar o heroísmo filosófico, através do qual filósofos pensavam em resolver qualquer problema por si próprio, sem nenhum método minucioso.

É importante lembrar que esse Trabalho de Conclusão de Curso não ignora o fato de Wittgenstein não ser o fundador da Filosofia Analítica. Wittgenstein é inserido neste movimento, cuja origem, como já foi visto, não é precisa. Dummett considera Frege como o fundador desta corrente filosófica, na medida que faz da Filosofia da Linguagem o conteúdo filosófico principal, desprezando a teoria do conhecimento a qual ocupara um lugar privilegiado na modernidade a partir de Descartes. Para Dummett, a primazia da Filosofia da Linguagem seria a característica distintiva da Filosofia Analítica. Na mesma linha surge Milton Munitz que afirma ser o interesse por questões de caráter lógico-lingüístico que caracteriza a Filosofia Analítica, em oposição às questões epistemológicas da Filosofia moderna. Thomas Baldwin discorda de Dummett e enfatiza a análise lógica e epistemológica desenvolvida por Moore e Russell como ponto fundacional de tal movimento. No entanto, parece não haver uma incompatibilidade entre as teses de Dummett e Baldwin, uma vez que o primeiro se embasa em Frege e o segundo em Russell e a preocupação de Frege pela linguagem estaria estreitamente conectada com a preocupação de Russell. Da proposta de ambos teriam surgido dois aspectos próprios do Movimento Analítico: o estilo disciplinado e a tentativa de unificar as discussões filosóficas16.

Segundo Franca D’Agostini, precisar a data em que se inicia a Filosofia Analítica dependeria de qual aspecto do programa analítico seria considerado determinante. Se considerada como “ciência”, teria seu início entre os séculos XIX e XX com Brentano. Se considerada como “análise” teria seu início em Frege, nos fins do século XIX. Se considerada Filosofia “pura”, é possível remeter sua origem a Aristóteles, Descartes e Kant, que, de forma não-consciente, a teriam desenvolvido como análise lingüística. Por outro lado, se pensada a Filosofia Analítica como exercício sobre a linguagem, não contaminada por implicações epistemológicas, se está definindo como analítica somente a Filosofia surgida na Inglaterra via as novas pesquisas do Segundo Wittgenstein e ao trabalho de Austin17.

Para ter presente todos esses aspectos, de acordo com D’Agostini, poder-se-ia admitir que os precursores do Movimento Analítico tenham sido Frege, alguns discípulos de Brentano, os primeiros lógicos polacos, Russel, Moore e o Primeiro Wittgenstein, que formula sua primeira resposta filosófica na qual se reflete o auge e o desfecho deste primeiro período do Movimento Analítico. No entanto, D’Agostini afirma que o verdadeiro Movimento Analítico teria surgido mais tarde com o afirmar-se autoconsciente de uma Filosofia lingüística, primeiro pensada como Filosofia lógica, depois como análise da linguagem, por volta dos anos de 1930, com a publicação da revista oficial do neopositivismo vienense. Ainda seria de relevância a ascensão de Hitler ao poder (1933), fazendo com que muitos intelectuais alemães, austríacos e polacos fossem obrigados a migrar. Os principais neopositivistas teriam se refugiado na América ou na Inglaterra18. Isso tem relação com o autor aqui trabalhado, porque, em 1929, Wittgenstein retorna à Inglaterra, onde já se desenvolvia a tradição de análise filosófica. Essa tradição e forma de filosofar compõem o cenário onde Wittgenstein protagoniza toda a reviravolta lingüística oferecendo sua segunda e original resposta à problemática vigente.

Confirmando e aprofundando o que é mencionado acima, Costa diz que, para diferenciar o Movimento Analítico da Filosofia tradicional, não é necessário negar sua caracterização pela investigação das coisas (idéias, conceitos) mais fundamentais, gerais e abstratos, que buscam entender a maneira como se relacionam as coisas entre si. Platão buscava entender a relação hierárquica das idéias. Aristóteles perguntou sobre as diferentes maneiras pelas quais o ser se diz. Descartes buscou a existência de um fundamento seguro para o conhecimento. Kant perguntou pela possibilidade o conhecimento19. Essas questões continuam vigentes na Filosofia Analítica. Tal diferença expressar-se-ia na maneira como a Filosofia Analítica trataria tais problemas. O que a Filosofia Analítica tem de novo é seu paradigma de clareza e de rigor metodológico capaz de evitar certos erros por vezes cometidos pela Filosofia tradicional.

Muitas das questões referentes às coisas ou idéias mais gerais e abstratas começavam com expressões do tipo “O que é?”. Eis alguns exemplos de perguntas desse tipo, feitas pelos filósofos de todas as épocas: O que é o conhecimento? O que é opinião? O que é uma pessoa? O que é o ser? O que é a existência? O que é uma categoria? O que é um objeto? O que é uma idéia? O que é um pensamento? O que é a verdade? O que é a possibilidade? O que é liberdade? O que é o bem? O que é o belo? O que é ação? O que é o tempo?. 20

Conforme Costa, essas eram as perguntas da Filosofia tradicional. Tais perguntas eram por demais gerais e abstratas. Por serem gerais e abstratas, elas careciam de precisão. Essa carência de precisão fazia com que elas se tornassem a origem dos próprios problemas da Filosofia. Como as perguntas eram gerais e abstratas, as respostas também eram gerais e abstratas. O filósofo analítico inicia pela pergunta sobre o modo como são utilizadas e significadas as palavras. Ele se preocupa antes com os conceitos e significados. Ao invés de perguntar o que é o conhecimento, o analítico pergunta o que significa a palavra conhecimento.

Em vez de se perguntar, por exemplo, o que é o conhecimento, a verdade, a existência, a liberdade, o bem, o filósofo analítico prefere começar perguntando o que significam ou de que modo são usadas tais palavras. 21

Como se percebe, Costa enfatiza que, nessa nova forma de questionamento, incorre-se num menor risco de tomar o abstrato pelo concreto22. Conforme Wittgenstein o erro fundamental da metafísica, aqui combatida, consiste em confundir o que pertence à lógica da linguagem com aquilo que é empírico e factual.

Como foi visto, há uma dificuldade em conceituar com precisão o todo do Movimento Analítico e nem é o objetivo, muito menos a pretensão, deste trabalho, que busca, neste capítulo, nada mais do que vislumbrar um fio condutor que situe as raízes do pensamento de Wittgenstein, a fim de saber de onde ele parte para oferecer as duas importantes respostas à Filosofia da Linguagem. Para tanto, serão aqui tomados, de forma não profunda e de maneira bem esquemática, os conceitos gerais que alicerçam o todo da construção de tal movimento, a saber, as duas tendências ou escolas principais, para em seguida situar as andanças de Wittgenstein em tais escolas.


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