Sumário 1 introdução 2 I – a problemática filosófica contemporânea a Wittgenstein 6



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3. 2 – Jogos de linguagem: a nova imagem de linguagem


O centro das Investigações, como foi visto, é o conceito uso. Aqui Wittgenstein privilegia o uso que é feito das palavras e expressões. Não cabe mais a pergunta sobre o que é linguagem. Agora se pergunta como é utilizada a linguagem nos diversos contextos lingüísticos.

Quando os filósofos usam uma palavra – “saber”, “ser”, “objeto”, “eu”, “proposição”, “nome” – e procuram apreender a essência da coisa, deve-se sempre perguntar: essa palavra é usada de fato desse modo na língua em que existe? – Nós reconduzimos as palavras do seu emprego metafísico para seu emprego cotidiano (I.F. § 116).

O uso cotidiano das expressões, nas diferentes situações e contextos em que elas acontecem, conduz Wittgenstein a formular a noção de jogos de linguagem. Conforme Condé, as Investigações abandonam a concepção de linguagem como cálculo para adotarem a concepção de linguagem como um jogo, abrangendo, com isso, o aspecto pragmático presente na linguagem. A noção de jogo de linguagem envolve o todo das atividades que estão ligadas às expressões. “Chamarei também de ‘jogos de linguagem’ o conjunto da linguagem e das atividades com as quais está ligada” (I.F. § 7). Os jogos de linguagem são múltiplos e variados. Só possuem em comum certas semelhanças de família. Eles estão aparentados entre eles de diversas e diferentes formas e é este parentesco que os possibilita serem denominados jogos de linguagem (I.F. § 65-67).

No entanto, o autor não perde de vista sua problemática básica. Sua reviravolta não atinge a pergunta pelo significado das expressões. O problema que o inquieta e para o qual ele oferece uma primeira resposta lógica e uma segunda resposta prática, segue o mesmo do início ao fim de sua Filosofia. O que muda nas Investigações é a metodologia da pergunta, mas o objeto de sua preocupação é o mesmo. Wittgenstein critica agora a teoria objetivista da linguagem na qual inclui-se o Tractatus. Combate, também, a função afigurativa da linguagem, para a qual a mesma seria uma cópia fiel dos fatos no mundo. Lá, a Filosofia enquanto análise da linguagem tinha uma íntima relação com a essência do mundo, embora não pudesse exprimi-la em frases.

Aqui é possível afirmar que Wittgenstein nega-se a formular, pelo menos sistematicamente, teorias. Teorias filosóficas passariam a ser frutos de desconhecimentos do funcionamento da linguagem. O que se deve fazer agora não é especular sobre a linguagem para buscar sua estrutura ou essência. Deve-se agora observar como a linguagem funciona, como usamos as palavras. Por isso, agora não se fala de nova teoria da linguagem, mas de nova imagem.

A linguagem agora é uma atividade humana como andar, passear, colher... Aqui o conceito de linguagem está muito próximo do conceito de ação. A linguagem chega a ser considerada uma ação. Não mais é separada a consideração da linguagem da consideração do agir humano ou a consideração do agir não mais ignora a linguagem. A linguagem é sempre realizada em contextos de ação bem diversos e só pode ser compreendida a partir do horizonte contextual em que está inserida. A função de tal linguagem, que passa a ser um jogo, depende sempre de cada determinada forma de vida em que acontecem tais jogos.

A categoria jogos de linguagem é o centro da nova imagem de linguagem wittgensteiniana. Só que ele não define o que é um jogo de linguagem. Mais que isso, segundo sua nova maneira de pensar, tal definição torna-se impossível. No segundo parágrafo das Investigações o autor chega, no máximo, a apresentar um exemplo do que pode ser um jogo de linguagem.

Aquele conceito filosófico da significação cabe bem numa representação primitiva da maneira pela qual a linguagem funciona. Mas, pode-se também dizer, é a representação de uma linguagem mais primitiva que a nossa. Pensemos numa linguagem para a qual a descrição dada por Santo Agostinho seja correta: a linguagem deve servir para o entendimento de um construtor A com um ajudante B. A executa a construção de um edifício com pedras apropriadas; estão à mão cubos, colunas, lajotas e vigas. B passa-lhe as pedras, e na seqüência em que A precisa delas. Para esta finalidade, servem-se de uma linguagem constituída das palavras “cubos”, “colunas”, “lajotas”, “vigas”. A grita essas palavras; - B traz as pedras que aprendeu a trazer ao ouvir esse chamado. – Conceba isso como linguagem totalmente primitiva (I.F. § 2).

Tal jogo de linguagem seria composto de três elementos:

a) aquilo de que se fala: cubo, coluna, chapa, trave;

b) os sujeitos da fala: A e B;

c) o contexto: uma construção em que alguém pede os elementos da construção a um auxiliar.

A linguagem serve de compreensão entre o construtor e seu auxiliar. Linguagem para Wittgenstein seria essa unidade entre elementos lingüísticos e seus modos de comportamento, conforme cada situação. Nesse simples exemplo estariam contidos todos os elementos que constituem a linguagem72.

A partir da análise de situações como esta, Wittgenstein supera a concepção tradicional da linguagem e mostra sua parcialidade. A linguagem não mais trata apenas de designar objetos por meio de palavras. As palavras estão inseridas numa situação global que regra seu uso; neste caso, são regidas pela relação dos objetos da construção. E a relação a tais objetos é resultado da situação de tal construção. Aqui não se pode fazer análise da significação de nenhuma palavra sem levar em consideração o contexto global de vida em que elas estão. A busca da solução do problema central da tradição, do Primeiro e do Segundo Wittgenstein, a saber, o problema da significação, deve levar em consideração os diversos contextos de uso das palavras.

Aqui, com os jogos de linguagem, Wittgenstein acentua a afirmação de que cada contexto implica novas regras e novas determinações de sentido para as expressões lingüísticas. Assim sendo, o estudo do sentido das palavras e frases implica o estudo do contexto pragmático de cada uma delas. A consideração lingüística que não atingir o contexto pragmático é abstrata. Neste caso, saber usar corretamente as palavras, ou jogar corretamente, significa saber comportar-se corretamente. Este comportamento é regido por regras gramaticais.

3. 2. 1. Os Jogos de linguagem seguem regras gramaticais


Mesmo que os diferentes tipos de linguagem se dêem por meio da linguagem, são operados de acordo com sistemas de regras diversos. A mistura ou não-consideração desses sistemas diversos faz surgir inúmeros problemas. Uma das fontes de erros em Filosofia consiste, precisamente, em isolar expressões do contexto em que elas surgem. Isso significaria não compreender toda a dimensão da gramática73 da linguagem. Wittgenstein distinguiu dois tipos de gramática.

Poder-se-ia distinguir, no uso de uma palavra, uma “gramática superficial” de uma “gramática profunda”. Aquilo que se impregna diretamente em nós, pelo uso de uma palavra, é o seu modo de emprego na construção da frase; a parte do seu uso – poderíamos dizer – que se pode apreender com o ouvido. – E agora compare a gramática profunda da expressão “ter-em-mente” (meinen), por exemplo, com aquilo que sua gramática superficial nos permitiria conjecturar. Não é de espantar que se julgue difícil entender disso (I.F. § 664).

Resumindo, poder-se-ia dizer: gramática superficial é o conjunto de normas para a construção correta de frases e, gramática profunda, o conjunto de regras que constitui determinado jogo de linguagem. Mesmo negando a designação ostensiva, o Wittgenstein da segunda fase não abandona a idéia de que a linguagem deve ser governada por regras. O que o autor faz é buscar um esclarecimento da linguagem, comparando-a não mais com um cálculo, mas sim a um jogo. Por isso, para compreender a linguagem é necessário dominar a aplicação de certas regras. A diferença é que aqui a regra tem uma função funcional. A regra gramatical é algo que depende de seu papel ou função nas práticas lingüísticas74.

Conforme Glock, um dos motivos que causava as confusões filosóficas tradicionais seria o fato de ter se concentrado na análise da gramática superficial, a qual não expressa mais do que aquilo que é imediato e evidente à audição e à visão. Já na gramática profunda, as palavras seriam regidas por inúmeras possibilidades de combinação e as proposições constituiriam lances diferentes no jogo de linguagem, possuindo relações e articulações lógicas e distintas. A gramática profunda seria a que preveniria as proposições filosóficas de erros absurdos75.

Seria a partir dessa linguagem profunda que surgiriam os diversos modos da linguagem humana, bem como o critério para o emprego correto das palavras, porque: “Correto e falso é o que os homens dizem; e na linguagem os homens estão de acordos. Não é um acordo sobre as opiniões, mas sobre o modo de vida” (I.F. § 241). Pois seria este acordo entre os membros de uma comunidade que tornaria possível a comunicação. Aqui é possível dizer que para Wittgenstein as expressões lingüísticas têm sentido, porque existem hábitos determinados de manejar com elas que são intersubjetivamente válidos:

Não pode ser que apenas uma pessoa tenha, uma única vez, seguido uma regra. Não é possível que apenas uma única vez tenha sido feita uma comunicação, dada ou compreendida uma ordem, etc. – Seguir uma regra, fazer uma comunicação, dar uma ordem, jogar uma partida de xadrez são hábitos (costumes, instituições) (I.F. § 199).

As palavras têm, em circunstâncias habituais, um emprego que nos é familiar (I.F. § 349). É o hábito que confere a significação determinada para cada palavra e constitui o jogo de linguagem em questão. Aqui se expressa a reviravolta no pensamento de Wittgenstein. A pergunta pela linguagem permanece, só que a resposta vem da consideração da linguagem em ação; os jogos de linguagem mostram como ela funciona. No Tractatus, Wittgenstein considera o jogo de linguagem, ou como ele mesmo diz, preparação para o jogo de linguagem76, algo específico da ciência natural. Este seria o único jogo possível. Agora, tal jogo é reduzido a um sistema, entre outros, na diversidade de fatos nos quais ocorrem os jogos lingüísticos. Mas para melhor entendê-lo e aplicá-lo no texto, mesmo contra as Investigações, faz-se necessária uma noção básica da significação do conceito jogo de linguagem.

Sabe-se, como foi visto acima, que o próprio Wittgenstein, talvez para não incorrer num essencialismo, recusa-se em definir com precisão a significação do termo jogo de linguagem (I.F. § 65). Se determinasse um conceito preciso para o termo jogo de linguagem, Wittgenstein estaria caindo em um essencialismo, contrário a sua intenção básica da segunda fase77. Oliveira apresenta três distinções de sentido que K. Wuchterl apresentara para o conceito jogo de linguagem no Segundo Wittgenstein:

“ 1 – modelo de uma linguagem primitiva;

2 – unidade funcional lingüística;

3 – totalidade das atividades lingüísticas”78.

O que possibilitaria resumir o sentido do conceito jogo de linguagem como uma unidade funcional. Pois a primeira pode ser considerada um caso especial da segunda e a terceira é uma espécie de generalização que Wittgenstein pouco usa para não cair em mal-entendidos filosóficos (essencialismo). Aqui a rejeição ao essencilaismo não significa ceticismo, uma vez que é, de antemão, eliminada da filosofia a questão da demonstração.

Tal rejeição significa a consideração dos diferentes usos das palavras e a descoberta de características semelhantes e parentescos. O que Wittgenstein chama de semelhanças de família.

3. 2. 2 – Jogos de linguagem resguardam semelhanças de família


Como foi visto, os jogos de linguagem são múltiplos e variados. Só possuem em comum certas semelhanças de família. Estão aparentados entre eles de diversas e diferentes formas e é este parentesco que os possibilita serem denominados jogos de linguagem (I.F. § 65-67). Tal parentesco ou semelhança não pode ser confundido com a essência invariável do Primeiro Wittgenstein. Aqui, não se postula a identidade das semelhanças. As semelhanças podem variar dentro de um determinado jogo de linguagem ou ainda de um jogo de linguagem para outro, ao passo que no Tractatus a essência era a mesma em todos os contextos lingüísticos.

Os jogos de linguagem comportam uma rede de ações e significações que podem mudar completamente de um jogo de linguagem para outro. Neste sentido, dá até para dizer que não há algo em comum a todos os jogos. Para enfatizar a não existência de uma unicidade invariável de um jogo de linguagem para outro, é possível dizer que o que um jogo de linguagem possui em relação a outros é uma certa analogia. Para um jogo ser considerado jogo, basta que tenha apenas uma semelhança ou característica comum de um jogo para outro, sem haver a necessidade de que tal semelhança ou característica seja a mesma em todos os jogos.

“Considere, por exemplo, os processos que chamamos de ‘jogos’. Refiro-me a jogos de tabuleiro, de cartas, de bola, torneios esportivos, etc. O que é comum a todos? Não diga: ‘Algo deve ser comum a eles, senão não se chamariam jogos’, - mas veja se algo é comum a eles todos. – Pois, se você os contempla, não verá na verdade algo que fosse comum a todos, mas verá semelhanças, parentescos, e até toda uma série deles” (I.F. § 66).

O que confirma que as noções de jogos de linguagem e de semelhanças de família levam ao abandono da busca de uma essência invariável que garanta a identidade formal da linguagem. Também é impossibilitada a busca por uma linguagem universal. Ao contrário, é enfatizada a dimensão particular dos jogos de linguagem, uma vez que eles não mais possuem propriedades comuns a todos, mas somente parentescos e semelhanças de família. Para Wittgenstein o termo jogo de linguagem pode significar “o conjunto da linguagem e das atividades com as quais está interligada” (I.F. § 7).

Aqui a linguagem significa a inserção no processo de interação social. Tal inserção implica uma capacitação que é algo historicamente adquirido. Mesmo que a linguagem seja natural para o humano, o poder de usá-la é uma capacidade adquirida por meio de um aprendizado das normas e dos papéis implicados nesses atos. O que comprova que Wittgenstein não separa a linguagem da práxis social; o que não significa cair num behaviorismo que também relaciona linguagem com práxis. Pois, enquanto o behaviorismo pensa a linguagem como um fenômeno natural (estímulo-resposta), Wittgenstein a pensa como um fenômeno histórico, que é fruto da liberdade criativa do humano. No jogo de linguagem, Wittgenstein salva a liberdade humana desde que o indivíduo aja de acordo com regras e normas que ele juntamente com outros indivíduos estabeleceram. Cada um segue o que foi comunitariamente estabelecido com a participação das próprias iniciativas.

O interessante é que mesmo seguindo as mesmas regras, ninguém joga do mesmo modo. O reconhecer as regras não significa aceitá-las e aplicá-las de modo mecânico. Tais regras são flexíveis e resguardam a possibilidade de reflexão e decisão no assumir concretamente seu uso comum. O aprendizado de uma regra não se confunde com um condicionamento causal como o behaviorismo pensa. A linguagem é ação comunicativa entre sujeitos livres, diferente dos processos mecânicos naturais.

É um jogo que não tem fronteiras definidas. É jogando que se aprende as regras. Cada jogo tem suas regras específicas:

[...] não deveria ser deste modo, mas sim deste: cada interpretação, juntamente com o interpretado, paira no ar; ela pode servir de apoio a este. As interpretações não determinam sozinhas as significações (I.F § 198).

Seguir uma regra, no sentido wittgensteiniano, mesmo que em linguagem não wittgensteiniana, seria o mesmo que se inculturar em determinada comunidade; adquirir determinada práxis da comunidade humana implicada, o que é o mesmo que assumir a forma de vida de tal comunidade. Seguir uma regra seria o mesmo que seguir as formas de vida que são seguidas em cada comunidade. Uma vez que o Wittgenstein, dessa segunda fase, prioriza o contexto no qual acontece a linguagem, a teoria das formas de vida se apresenta como uma conceituação de suma importância para essa nova concepção. Concepção que necessita de uma base para alojar os jogos de linguagem. Algumas das idéias principais, de tal concepção, essa pesquisa monográfica apresenta no item que segue.

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