Sumário 1 introdução 2 I – a problemática filosófica contemporânea a Wittgenstein 6



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3. 3 – Formas de vida


Nas Investigações, os jogos de linguagem estão diretamente relacionados com as formas de vida. O uso que Wittgenstein faz do termo forma de vida enfatiza o entrelaçamento entre cultura, visão de mundo e linguagem79. Os jogos de linguagem são sustentados pelo contexto da vida80. A forma de vida seria como que a totalidade das atividades comunitárias em que estão imersos os jogos de vida. A linguagem emerge de uma forma de vida. “[...] representar uma linguagem significa representar-se uma forma de vida” (I.F. § 19). Para Wittgenstein, todo o contexto que envolve uma atividade lingüística é de suma importância para a compreensão de tal atividade.

Para o reconhecimento e o emprego significativo de sentidos da linguagem deve, por conseguinte, existir uma situação global, uma espécie de forma lingüística de vida, um contexto, a partir do qual são exclusivamente compreensíveis os significados que são aprendidos e depois transmitidos. 81

Nessa nova concepção wittgensteiniana, o sentido da palavra é definido a partir da função que a palavra exerce no jogo de linguagem. Tal jogo deve estar situado num contexto prático lingüístico. É na relação própria de cada jogo de linguagem, o qual deve se adaptar a cada contexto prático, que a linguagem adquire seu significado. “O termo ‘jogo de linguagem’ deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida” (I.F. § 23).

Apesar da noção forma de vida ser mencionada apenas uma meia dúzia de vezes nas Investigações, ela é de suma importância para a compreensão do Segundo Wittgenstein. Para este autor, a linguagem é sempre uma parte constitutiva de cada forma de vida. A função de tal linguagem depende sempre de cada determinada forma de vida à qual está integrada. A forma de vida é constituída pela formação cultural ou social que representa a totalidade das atividades comunitárias em que estão imersos os jogos de linguagem. A linguagem é a expressão da práxis comunicativa interpessoal de cada forma de vida. A cada forma de vida existente ou a cada contexto prático lingüístico, corresponde um jogo de linguagem. Como há inúmeros jogos de linguagem, há também incontáveis formas de vida.

De acordo com as citações, acima apresentadas, é possível afirmar que o termo forma de vida, embora intrinsecamente ligado ao termo jogo de linguagem, seria de caráter mais geral e elementar que o termo jogo de linguagem. Seria como que algo relacionado ou parte da história natural. História natural aqui contemplaria dois aspectos. O primeiro deles ressaltaria a dimensão biológica e cultural presente nas formas de vida. O segundo ressaltaria o problema da fundamentação82, que não é abordado por este trabalho. Foi visto que a noção de jogos de linguagem nega qualquer forma de essência ou fundamento último. A forma de vida seria a encarregada de constituir ou oferecer o lugar onde a linguagem se assentaria. A forma de vida seria o abrigo da linguagem. “[...] o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida” (I.F. § 23), tanto quanto o andar, comer, beber, jogar (I.F. § 25).

A forma de vida é a base última da linguagem. O que pode implicar a pergunta sobre possibilidade ou necessidade de existir ou não um fundamento último também para garantir a forma de vida. No entanto, para Wittgenstein a forma de vida é algo dado83 de onde tudo se origina e se fundamenta e que não cabe à linguagem buscar explicações além do descrever o que acontece.

Em síntese, é possível afirmar que Wittgenstein apresenta, nessa segunda obra, Investigações, uma filosofia reacionária a sua primeira obra, Tractatus. No entanto, esse grande filósofo do século XX84, vai muito além da mera atitude de “ser contra”. Ele propõe, de maneira original e louvável, uma reviravolta metodológica que dificilmente será apagada da história da Filosofia ocidental. No Tractatus é possível ler um monólogo filosófico, marcado pelo atomismo lógico, por meio do qual o sujeito subjetivo, regido pela forma lógica, conferia o significado aos nomes, relacionando-os aos objetos do mundo. Já nas Investigações é possível ler uma espécie de diálogo filosófico, marcado pelo uso prático, por meio do qual a comunidade intersubjetiva, regida pela forma de vida, confere significado à linguagem na atividade dos próprios jogos de linguagem. Percebe-se um Primeiro Wittgenstein, que apresenta como resposta para o problema da significação a relação entre nome-objeto. E um Segundo Wittgenstein, que apresenta como resposta para o mesmo problema, a atividade lingüística realizada no próprio jogo de linguagem.

Conclusão


Chegar a determinado objeto ou conclusão que possa ser tomado como resolução dos problemas filosóficos foi o objetivo que regeu a vida de muitos pensadores. Alguns deles, como o Wittgenstein do Tractatus, até pensou ter certeza de que havia atingido tal objetivo. Pretensão que está longe do que foi possível desenvolver no trabalho que, por ora, é possível apresentar. Esse ainda não ultrapassa o patamar de uma exposição, bastante inicial, acerca da inquietude diante do exercício de uma das mais nobres formas do humano ser, a saber, como comunicativo. Aristóteles já dizia que o humano se diferencia dos outros animais pela sua capacidade de duvidar, de admirar, de memorizar, mas acima de tudo, de ensinar85. O ensinar, visto aqui, como um ato lingüístico por excelência. Ato que implica, diretamente, a capacidade de compreender, de significar, de expressar. Implicações que compõem a problemática central da Filosofia Analítica e das duas respostas wittgensteinianas.

Essa pesquisa, que foi inicialmente motivada pela necessidade de apresentar um tema como Trabalho de Conclusão de Curso, aos poucos, transformou-se numa prazerosa empreitada. Empreitada que, a cada passo, desperta aquela curiosidade de ir além na constante busca do desvendamento do mistério implicado na problemática aqui estudada. O problema perseguido por este trabalho foi o da significação da linguagem na tradição filosófica ocidental, no Tractatus e nas Investigações Filosóficas de Wittgenstein. Toda a problemática foi abordada de maneira bem resumida e limitada. Sabe-se da dificuldade em abarcar a grande empreitada filosófica apresentada pelo autor trabalhado, uma vez que a grande maioria de sua obra não esteve ao alcance desta pesquisa. Por isso, o que foi aqui trabalhado se resume à interpretação de idéias contidas nas duas obras citadas. O que não significa uma limitação frustrante, uma vez que o objetivo deste trabalho é trazer para o meio acadêmico a discussão acerca do problema da Filosofia da Linguagem e sua significação. Este problema é visto aqui, como a principal questão da Filosofia do século XX. Mais que isso, se está apresentando o maior dos filósofos que trabalha este tema. Wittgenstein, a partir do seio do Movimento Analítico, em seis décadas de vida, apresenta duas das mais geniais e originais respostas para o problema filosófico de sua época. A primeira mantém-se de acordo com a tradição, elevando-a ao extremo. A segunda protagonizando a maior reviravolta pragmática e lingüística da história.

Mesmo parecendo ser contrário à pretensão de exaltar o autor, apresentada no parágrafo anterior, uma constatação importante que este trabalho despertou foi a possibilidade de entender que um escrito, ou uma análise, a respeito de um autor, não deixa de ser “uma análise” e situa-se muito longe da pretensão de ser “a análise”. Ajudou a entender que é muita pretensão afirmar que se “trabalha um autor”. Não se faz mais que fazer um “trabalho num autor” focalizando alguns dos tantos aspectos possíveis. O que é bem diferente da pretensão de trabalhá-lo como um todo. Foi possível sentir, bem de perto, a afirmação de Paulo Freire, segundo a qual “todo o ponto de vista é a vista de um ponto”. Isso fez com se tornasse um tanto consolador o fato de sentir a necessidade em deixar de lado tantos aspectos wittgensteinianos importantes, para optar por alguns que só vão expressar uma parcela do pensamento do autor do tema aqui estudado. Longe de apresentar aqui uma lamentação ou justificação de mediocridades, mas sim a necessidade de expressar a percepção de que foi feito um trabalho “em Wittgenstein” e não trabalhado “o Wittgenstein”. Aqui foi trabalhada uma página, das inúmeras que seriam possíveis em tal autor.

Neste texto, que é fruto da empreitada que este trabalho conseguiu atingir até o momento, é possível, como é feito no primeiro capítulo, acenar para a Filosofia Analítica, vendo-a como um movimento filosófico muito amplo. Movimento que abriga diversas áreas do conhecimento, mas que se caracteriza pela abordagem da Filosofia da Linguagem. O Movimento Analítico busca, principalmente num primeiro momento, a aproximação da Filosofia com os campos científicos. As ciências naturais, na passagem do século XIX para o XX, desfrutavam de boa credibilidade. Por isso, aproximar-se das áreas científicas somava créditos para a Filosofia da Linguagem, que almejava um patamar de objetividade e exatidão lingüística.

No segundo capítulo é trabalhada a primeira resposta de Wittgenstein à problemática de sua época. Essa resposta eleva ao extremo a concepção objetivista da linguagem, que se resume em descrever objetos. Essa descrição é regida pelo atomismo lógico e Wittgenstein a desenvolve baseada na teoria da figuração e na teoria da verdade. Segundo essa concepção, o significado da linguagem depende de sua referência ao objeto. O primeiro Wittgenstein, do Tractatus, acredita que a possibilidade de referência dos nomes simples – dos quais não dá nenhum exemplo – aos objetos é o que permite enunciar proposições com sentido, que podem ser verdadeiras ou falsas, ou seja, todo enunciado tem de poder, em princípio, fazer referência ao mundo, por meio dos nomes simples, para ter sentido. Proposições mais complexas devem poder ser reduzidas, ou traduzidas, a proposições elementares, que contêm apenas nomes simples. Deve sempre haver uma correlação entre nomes simples – que formam proposições elementares – e objetos simples – que se combinam e formam estados de coisas – para que a linguagem fale do mundo, descreva o mundo, e, portanto, faça sentido, transmita informações sobre este mundo. Toda essa atividade é regida pela forma lógica que expressa, justamente, as formas que as combinações entre os objetos podem assumir nos estados de coisas. Combinação que, portanto, também assumem os nomes nas proposições.

No terceiro capítulo é trabalhada a segunda resposta de Wittgenstein ao mesmo problema que é trabalhado na primeira resposta. Nas Investigações, Wittgenstein abre o leque de possibilidades da linguagem. Nessa obra a referência ao objeto não é o mais importante para o sentido. O sentido dá-se no jogo de linguagem, sem que seja necessário determinar a referência das palavras aos objetos. Aqui o significado da linguagem se dá na atividade do jogo de linguagem, que é alojado e determinado conforme cada tipo de jogo e, principalmente, conforme o contexto no qual o jogo se desenvolve. Esse contexto, no qual acontece a prática da linguagem, é o que Wittgenstein chama de formas de vida. Enquanto o Tractatus era sustentado pela teoria de figuração e pela teoria de verdade, as Investigações é sustentada pela teoria dos jogos de linguagem e pela teoria das formas de vida. Nessa segunda obra, é condenada qualquer conceituação ostensiva. Isso faz com que Wittgenstein não diga, com clareza, o que é um jogo de linguagem. Ele chega a dizer o que ele vai chamar de jogos de linguagem; o que não parece ser a conceituação do que realmente seria o jogo de linguagem: “Podemos também imaginar que todo o processo do uso das palavras em (2) é um daqueles jogos por meio dos quais as crianças aprendem sua língua materna. Chamarei esses jogos de ‘jogos de linguagem’, e falarei muitas vezes de uma linguagem primitiva como de um jogo de linguagem”. [...]. “Chamarei também de ‘jogos de linguagem’ o conjunto da linguagem e das atividades com as quais está interligada” (I.F. § 7).

A Filosofia dessa segunda fase de Wittgenstein é acusada de cair num relativismo desregrado, segundo o qual a linguagem sem referência ou essência perderia sua credibilidade. Tal linguagem é acusada de negar a ética, a moral, o espiritual; enfim, relativisaria tudo. Mesmo que tal problema seja assunto para outro trabalho, igual ou maior que esse, é bom lembrar que existem jogos de linguagem sobre a moral, sobre regras morais, que são usados diariamente. É um entre muitos jogos. Não é necessário que tenhamos um só jogo para ter regras morais. Tal acusação parte do princípio de que tudo se tornaria válido. Mas nem tudo é válido, porque nas Investigações é possível elaborar intersubjetivamente muitos jogos de linguagem. Saber jogar um jogo é saber seguir regras que são estipuladas durante o próprio jogo. Jogos têm finalidades práticas. Um jogo que não tem nenhuma finalidade, nenhuma utilidade, nem que seja uma utilidade estética ou lúdica, não é jogado. Sabe-se que esta questão é muito complicada; por isso, fica aqui aberta a discussão que desperta, neste trabalho, muito interesse de continuidade, mas que devido às limitações presentes, tal continuidade, será adiada.

E assim é marcado o limite deste primeiro degrau empreendido na construção da grande, e quem sabe infinita, escadaria que é exigida para quem deseja chegar ao topo do problema que envolve a Filosofia da Linguagem e sua significação. Ao mesmo tempo em que este trabalho gera satisfação pelo gosto de ter dado início à base de uma complicada empreitada – é difícil que alguém ouse dizer que trabalhar Filosofia Analítica é fácil, no entanto é gostoso – fica o vazio e o clamor para ir à busca de tantos temas e conceitos que ficaram fora, ou foram tratados superficialmente, e que em muito enriqueceriam este trabalho. Não foram tratados conceitos como gramática, regras, ter-em-mente, compreensão. Poder-se-ia ter enfatizado a concepção wittgensteiniana da função terapêutica da Filosofia (I.F. § 133). A concepção de Filosofia como aquela que mostra à mosca a saída do vidro (I.F. § 309), dentre tantos outros conceitos que limitam um melhor desenvolvimento das idéias aqui expressas. Fica aqui uma página preenchida. Página que além de exigir o preenchimento das que a seguem é sujeita à retificação daquilo que nela está escrito.

Este Trabalho de Conclusão de Curso deixou uma clara preferência pela segunda obra, alvo original desta pesquisa, mas que no decorrer de seu desenvolvimento, passou a perceber o enriquecimento que poderia advir de um enfoque em que situasse Wittgenstein como o autor que ofereceu duas respostas a uma mesma problemática. No entanto, aqui a primeira resposta não deixou de ser vista como base para a segunda e mais simpatizada resposta, mas que parece necessitar ser entendida como oposição e superação da primeira. O próprio autor afirma, no prefácio das Investigações, que “Há quatro anos, porém, tive oportunidade de reler meu primeiro livro e de esclarecer seus pensamentos. De súbito, pareceu-me dever publicar juntos aqueles velhos pensamentos e os novos, pois estes apenas poderiam ser verdadeiramente compreendidos por sua oposição ao meu velho modo de pensar, tendo-o como pano de fundo”86. Apesar de não ter um espaço tão privilegiado como as Investigações, o Tractatus não pode ser considerado, por este trabalho, como uma obra de segunda categoria, uma vez que a resposta apresentada pela primeira obra está imbricada na resposta apresentada pela segunda.

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