Sumário cinema e tv 3



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ARTES PLÁSTICAS




Folha de S. Paulo - Mostra propõe diálogo entre Brasil e exterior

"Caminhos Cruzados" apresenta videoinstalações do Pompidou e obras do Museu de Arte Moderna de São Paulo


FABIO CYPRIANO/ CRÍTICO DA FOLHA
(31/01/2013) Com exceção de Inhotim e das Bienais de São Paulo, raramente artistas brasileiros são vistos, em exposições no país, ao lado de grandes artistas estrangeiros.

Isso ocorre por conta do provincianismo dos museus e pela própria ausência de obras contemporâneas significativas em seus acervos.

"Circuitos Cruzados: o Centre Pompidou Encontra o MAM", em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com curadoria de Paula Alzugaray e Christine Van Assche, rompe essa tendência de forma inteligente e até ousada.

A exposição é composta por seis videoinstalações históricas do Pompidou, de Paris, e 47 obras da coleção da MAM.

É um bom retrato da situação dessas instituições: enquanto o Pompidou comparece com obras significativas e de grande porte, o MAM exibe, em sua maioria, obras de pequeno formato, mais identificadas a colecionadores privados.

No entanto, e aí está a ousadia, respeitando o caráter de ambas as instituições, é possível promover um diálogo. De forma geral, esse diálogo se revela de forma mais intensa com obras mais experimentais, como o vídeo de Dora Longo Bahia "Clássico (Corinthians X Palmeiras)".

Nele, a artista apresenta o registro em vídeo de um percurso pela cidade, de forma acelerada, que lembra mesmo a reflexão sobre a captação da imagem promovida por outras obras da coleção francesa, como a de Bruce Nauman "Going Around the Corner Piece".

Outro mérito foi encomendar a produção de novos trabalhos, tanto do estrangeiro Tony Oursler, que projetou imagens nas copas das árvores em frente ao museu, como da brasileira Lia Chaia.

Sua nova obra, "Piscina", apresenta duas projeções: um plano geral da própria artista nadando numa piscina, sobre o desenho de um labirinto, e uma câmera acoplada a ela, que traça o mesmo percurso de forma subjetiva.

Contrariando a típica forma de nadar em raias, Chaia revela uma estratégia poética para a percepção do espaço, como outras obras da mostra.




O Estado de S. Paulo – Luz Oriental

Na exposição Penumbra, aberta a partir de amanhã, o pintor Marco Giannotti mostra telas que louvam a sombra e evocam o Japão




(1º/2/2013) ANTONIO GONÇALVES FILHO - Assim como o escritor japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) usou a literatura para falar da beleza dos objetos e do papel da sombra como elemento revelador de sua harmonia, o pintor paulistano Marco Giannotti usa a pintura não para ilustrar Tanizaki, mas mostrar como estão equivocados aqueles que dividem o mundo entre Oriente e Ocidente. Um, afinal, é a sombra do outro. Se os artistas japoneses das xilogravuras Ukiyo-e estudaram os europeus do século 17 e aprenderam com eles noções de perspectiva, mais tarde, no século 19, eles iriam influenciar os impressionistas europeus, marcando de forma indelével a arte de Van Gogh. Giannotti, que passou um ano em Kyoto, a convite de uma universidade de lá, também não saiu incólume da experiência japonesa. Há, pelo menos, duas provas disso: a exposição Penumbra, que será aberta amanhã, às 11h, na Galeria Raquel Arnaud, e Diário de Kyoto, a ser inaugurada dia 21, no Instituto Tomie Ohtake.


Nessas mostras, o pintor lança dois livros que ilustram sua crença no nascimento da cor - autônoma, independente da redução científica newtoniana - por meio do embate entre luz e escuridão. No encerramento da primeira, marcado para o dia 9 de março, será a vez da terceira edição de Doutrina das Cores (Nova Alexandria, R$ 44), livro clássico de Goethe que Giannotti começou a traduzir há 20 anos, em seu mestrado de Filosofia. Antes, no dia 21 deste mês, ele lança Diário de Kyoto (Editora WMF/Martins Fontes, R$ 60), que reúne os artigos publicados no Caderno 2 durante a estada de um ano no Japão, de março de 2011 a março do ano passado. Incansável, Giannotti promove ainda, entre os dias 4 e 6 de março, um seminário internacional sobre a cor no Centro Universitário Maria Antonia. O evento terá a participação, entre outros, do diretor da editora Phaidon Press, David Anfam, responsável pelo catálogo raisonée do pintor Mark Rothko (1903-1970). Outros participantes do seminário são o professor japonês Toshya Echizen, pesquisador da Universidade Doshischa de Kyoto, e o curador do Museu Kawamura em Chiba, Takashi Suzuki, que vai falar sobre o sistema cromático xintoísta.
O primeiro impacto da temporada japonesa de Giannotti veio por meio da constatação de que o exercício morfológico do olhar no Ocidente tende a levar o observador ao território da abstração, quando, no Japão, o papel das sombras como formadoras da luz e a oscilação dos movimentos da natureza conduzem o pintor a uma relação mais "real" com a cor. "O que consideramos o Matisse puro nasce, enfim, de uma aproximação com essas referências orientais", observa Giannotti, definindo as 14 pinturas que integram a exposição Penumbra como frutos da "junção entre motivos orgânicos e alegóricos". Numa das páginas de seu Diário de Kyoto, ele explica como a passagem das estações, que no Japão é bem nítida, o levou a refletir sobre as relações cromáticas como frutos do movimento instável da natureza, reflexão essa que resultou, primeiro, em colagens com papel japonês e, depois, nas pinturas da exposição.
As colagens remetem automaticamente ao começo de carreira de Marco Giannotti, em 1988, quando, já doutor em artes plásticas pela USP, fez sua primeira exposição na galeria do marchand Paulo Figueiredo, morto em 2006, que promoveu a carreira de artistas como Mira Schendel (1919-1988), Paulo Pasta e Nuno Ramos. Mira teve grande influência sobre Giannotti nesse período. O uso de papel japonês nas colagens que ele vai mostrar no Instituto Tomie Ohtake (leia texto abaixo) é um exemplo. A viagem ao Japão apenas reforçou o desejo de trabalhar mais a questão cromática através da transparência do papel de arroz, usado por Mira e Antonio Dias, outra referência do artista.
Nas novas pinturas, Giannotti distancia-se da abstração de Rothko, que sempre admirou, para registrar a memória dos dias passados no Japão. Há na tela azul traços reconhecíveis das folhas vermelhas dos plátanos que encantam os turistas do Parque Imperial de Kyoto no outono. Essas folhas, no entanto, são apenas sombras sugeridas em spray preto numa pintura que usa ainda óleo e a antiga têmpera, unindo três técnicas de diferentes épocas - ousadia permitida pela experiência desse professor de pintura da USP.
Giannotti cita, a propósito, a série Shadows, pintada nos anos 1970 pelo artista pop Andy Warhol como homenagem ao pintor metafísico italiano Giorgio De Chirico. Incursão do artista em território abstrato, Shadows transfere para a tela a sombra de uma imagem que, paradoxalmente, não pode ser representada. As folhas de plátano em spray da pintura azul de Giannotti são quase evocações platônicas de uma Kyoto que Giannotti conheceu, mas que, de algum modo, é irrepresentável. Aí entra a literatura de Tanizaki, um esteta que, ao escrever o ensaio Em Louvor das Sombras, em 1933, sai em busca do modo singular de encarar a beleza que têm os orientais. Essa estética nipônica, que privilegia a limpeza formal, revela sua inclinação para eleger a penumbra como sinônimo do belo - daí o título da exposição, referência ao escritor.
"Foi bom parar de ler um pouco críticos como Clement Greenberg para ler Tanizaki", brinca Giannotti, que não saiu com boa impressão da arte contemporânea que se faz no Japão: "De modo geral, ela é um tanto paródica", observa. Com justa razão.


Folha de S. Paulo - Artista expõe ascensão de mercado de arte com objetos transformados

"Menos-Valia [Leilão]", de Rosângela Rennó, mostra como artigos simples viram obras caras

Projeto apresentado na 29ª Bienal de SP sai agora como livro; 15 artigos estão expostos na Galeria Vermelho

Fabio Cypriano crítico da folha

(02/02/2013) O que faz com que duas câmeras fotográficas compradas por R$ 85, em um mercado de pulgas na Cidade do México, cheguem a ser vendidas por R$ 52 mil, num leilão realizado na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010?

Essa é a questão essencial do projeto "Menos-Valia [Leilão]", da artista mineira Rosângela Rennó, que chega, hoje, ao seu último estágio, com o lançamento do livro homônimo (publicado pela editora Cosac Naify, R$ 75, 336 págs.), das 11h às 17h, na Galeria Vermelho.

A publicação documenta todo o processo da artista em torno dessa questão.

Na 29ª Bienal, Rennó apresentou um conjunto de 74 lotes, como são chamadas obras à venda em leilão (15 deles estão expostos na Galeria Vermelho). Eles eram compostos por objetos, em geral relacionados a instrumentos fotográficos, que Rennó garimpou em feiras populares e transformou.

Dentro da própria Bienal, nos últimos dias do evento, o leiloeiro Aloisio Cravo conduziu o leilão, que no conjunto alcançou nada menos do que R$ 666 mil.

"Eu pretendia fazer um exercício de avaliação de todo o processo: da criação do objeto até a especulação em torno de sua venda, uma longa ação ao mesmo tempo estética e política", diz Rennó.

Obviamente, um dos resultados do projeto foi enfocar o ascendente mercado de arte no país e o que o curador mexicano Cuauhtémoc Medina aponta como "a conversão do lixo em ouro no circuito comercial da arte", em seu texto no livro.

Medina, Rennó e Moacir dos Anjos, um dos curadores da 29ª Bienal, falam sobre o projeto, hoje, às 15h, na Galeria Vermelho. Poucos trabalhos de arte abordaram o mercado de forma tão ousada e irônica.




O Globo - TOMIE 100

Uma das maiores pintoras do Brasil, a matriarca do clã Ohtake relembra sua trajetória na semana em que começa a celebrar seu centenário com exposição em São Paulo


AUDREY FURLANETO Enviada especial a São Paulo
(03/02/2013) Desde que trocou o Japão pelo Brasil, Tomie Ohtake nunca aprendeu a pronunciar a letra “l”. Há 77 anos no país e consagrada como uma das maiores pintoras brasileiras, para ela, galeria ainda é “gareria” e tela vira “tera”. Às vésperas de iniciar as celebrações de seus 100 anos (dia 21 de novembro), ela ri do próprio sotaque:
— Nunca “aprendeu” a falar português. Agora não “aprende” mais, né?
Mas Tomie fala com parcimônia. Como sua obra, ela é rigorosa, suave e de poucos elementos. Se um poema haikai trata do mundo em 17 sílabas, afirma, por que ela deveria usar mais? Sua carreira, que se iniciou aos 40 anos (só após ter criado os filhos), começa a ser revista a partir desta semana. Abrindo os festejos do centenário, o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, inaugura na quarta-feira a primeira de uma série de mostras que serão dedicadas à artista até novembro. “Tomie Ohtake — Correspondências” relaciona suas obras com as de Mira Schendel, Cildo Meireles e Nuno Ramos, entre outros. E, no dia 23, a galeria Nara Roesler, também em São Paulo, exibe telas recentes da artista, de 2012 e 2013.
— Agora só se fala em centenário — ela diz, sorrindo. — É engraçado. Nunca senti os anos...
AMÁLGAMA DE VIDA E OBRA
À cabeceira de uma mesa de concreto na casa modernista que o filho Ruy Ohtake projetou há 44 anos no bairro Campo Belo, em São Paulo, a artista recebe O GLOBO com um almoço à brasileira, servido em louças de delicada cerâmica (presente e obra de sua melhor amiga, a ceramista Kimi Nii), com talheres do designer finlandês Arne Jacobsen que, vaidosa, Tomie conta ter ganhado do filho Ruy nos anos 1970. À mesa, estão arroz, purê de batata-baroa, carne de panela com legumes.
— E tem saladinha, né?
Quando se trata de Tomie, os críticos de arte dizem que vida e obra estão “amalgamados”. A casa, de fato, parece o centro de tudo. Lá está seu ateliê, onde ela mandou instalar uma cama, de solteiro, ao lado das telas — “assim, já fica olhando quando acorda”.
E a sala de jantar não é só um ambiente a mais. Para Tomie, o “dia mais contente” é domingo, quando a mesa fica cheia. Há 30 anos, ela espera à cabeceira pela chegada dos filhos — Ruy, 75 anos, e Ricardo, 70, diretor do Instituto Tomie Ohtake — da nora Marcy (casada com Ricardo e também sua assessora de imprensa) e dos dois netos, Rodrigo, 28 anos, e Elisa, 32. Durante a semana, Tomie almoça sozinha, sempre às 13h. Tem a disciplina dos orientais. Acorda às 8h, toma banho, aplica um creme antirrugas e senta- se, às 9h, para o café. Três vezes na semana vai ao ateliê, onde um assistente a aguarda. Às terças e quintas, faz fisioterapia e, uma vez por semana, recebe a cabeleireira do bairro, que mantém seu corte rigorosamente na altura do queixo e os fios pintados de preto. Também costuma vestir-se de preto. Guarda as cores para as telas.
Quando desembarcou do navio que a trouxe, após 40 dias de viagem, de Kioto para São Paulo, a primeira sensação que teve foi relacionada a uma cor.
— Brasil tem sol muito claro. Quando saí do navio, olhei para o céu e senti cheiro de amarelo. Ali, gostei do Brasil.
Tomie chegou ao Brasil Nakakubo, sem o sobrenome Ohtake. Veio acompanhada do irmão em 1936. Algum tempo depois, estourou a Guerra do Pacífico, e o irmão voltou. Morreu lutando. Mas Tomie tinha outro irmão em São Paulo, que mantinha um laboratório em sociedade com Oshio Ohtake, “esse moço muito boa pessoa e muito bonito”, diz ela, sorridente. Em um mês no país, aos 23 anos, ela se casou com Oshio.
— Minha mãe pediu uma fotografia do casamento. Não acreditava! Tive que botar vestido para a foto — diverte-se.
Um ano depois do casamento, nasceu Ruy. A família Ohtake, então, mudou-se para o Rio, onde Tomie desfrutou do mar, de que tanto gosta: — Pegava a barca e ia nadar em Niterói, porque a praia era muito bonita!
Recém-casada, a jovem Tomie se fez a pergunta: “Família é mais importante que trabalho?”. Já tinha apreço pela pintura e, no Japão, comprava catálogos e desenhava. Mas a decisão de priorizar a família a manteve distante dos pincéis até os 40 anos, quando encontrou o artista Keisuke Sugano.
Ele dava aulas a Tomie e outros japoneses. Pedia aos alunos que pintassem uma flor, por exemplo. Ao fim, criticava as pinturas. A de Tomie, no primeiro dia, foi eleita a melhor. Começava ali uma carreira que nasceu figurativa e tornou-se abstrata. Dez meses depois, ela já exibia telas no Museu de Arte de São Paulo (Masp).
GRAVURAS, CORES E ESCULTURAS
Em 1951, com o filho Ricardo já nascido, voltou ao Japão. Sentia saudade da mãe, Kimi. Passaram o dia conversando e, entre um diálogo e outro, conta, a mãe suspirou e morreu. — Meu irmão colocou a mão no pulso dela e disse: “Ih, parou!”.
Às vezes tenho saudade, mas já estou acostumada. A única coisa que pode me deixar muito triste hoje é a morte de um filho. Se um filho morre antes de mim, eu morro.
Depois da pintura abstrata dos anos 1960, Tomie se aventurou pelas gravuras nos anos 1970. Em 1977, ficou viúva de Oshio Ohtake e não voltou a se casar. Na década seguinte, sua obra foi marcada por cores contrastantes e intensas, talvez inspirada em Mark Rothko, seu pintor preferido. Foi também nos anos 1980 que floresceu sua produção de esculturas, muitas delas públicas, como a “Estrela-do-mar” (1985), instalada na Lagoa, no Rio, que gerou polêmica, foi removida para manutenção em 1990 e nunca voltou.
Na casa onde vive, fez o paisagismo com mudas que ganhou de Burle Marx. Ao lado das plantas e da piscina, estão esculturas suas. Todos os dias, ela alimenta os pássaros no jardim, vizinho a seu ateliê.
ARTE ‘CONTIDA’, ‘NIPÔNICA’
Antes de passar por uma cirurgia na coluna aos 93 anos, Tomie era assídua de exposições. No ano passado, teve pneumonia, caiu doente e “a perna ficou muito fraquinha, né?”. Passou a usar cadeira de rodas e não vai mais a vernissages. Mas lê quase todos os (muitos) catálogos que recebe. Leitura é sua distração. Não gosta de cinema ou TV, porém não dispensa jornais, incluindo o “São Paulo Shimbun”, em japonês. Sobre arte contemporânea, não se sente muito tocada pelo que vê. Gosta de Regina Silveira, Tunga e Adriana Varejão.
Arte, diz, é para ser sentida. O curador Paulo Herkenhoff costuma dizer que “não há pintura brasileira sem Tomie Ohtake”. Para o crítico Frederico Morais, ela soube equilibrar a tradição japonesa e a vivência no Brasil. Tomie criou algo muito particular entre os artistas nipo-brasileiros, afirma ele, ao combinar o informalismo dos anos 1950 com o “desejo de organizar” o informal.
— A arte de Tomie nunca foi muito expansiva, excessivamente lírica. É contida, nipônica. A pintura dela é como ela mesma: de poucas palavras.


O Estado de S. Paulo – Próximo e distante

(5/2/2013) Camila Molina “Se o artista tem uma missão, acho que é a de melhorar a qualidade do desconhecido”, diz o carioca Waltercio Caldas. Criador consagrado de uma produção erudita, mas, ao mesmo tempo, com senso de humor – de uma obra sofisticada, que se centra na relação do trabalho com o espectador e o espaço que o abriga –, Caldas está sempre a tratar de um campo complexo de reflexão: “as questõesda linguagem”, como afirma. Fios de lã, vidro, metais, livros, espelhos são tratados pelo artista como materiais– ou objetos –assim como a cor e o ar. A história da arte voltae outra também é indagada por ele em sua carreira. De fato, não é tão fácil entender de primeira toada o universo de sua obra–eesse foi um dos “atrativos” que engendraram a realização da mostra Waltercio Caldas – O Ar Mais Próximo e Outras Matérias, que será inaugurada quinta-feira na Pinacoteca do Estado.


Não se trata de uma retrospectiva, mas de um “ensaio retrospectivo”, como diz Gabriel Pérez- Barreiro, curador desta exposição que já foi apresentada na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, e que depois seguirá para o Blanton Museum of Art da Universidade do Texas, em Austin, nos EUA. A mostra reúne mais de 80 obras de Caldas, um conjunto que perpassa mais de 40 anos de sua trajetória.
“O trabalho dele escapa de uma lógica cronológica. Há poucos artistas em que o atrativo é o fato de não poder compreendê-los no sentido de que seus trabalhos colocam a arte no lugar privilegiado, além do seu discurso. Há uma dinâmica de aproximação e afastamento”, diz Pérez-Barreiro, que assina a curadoria com Ursula Davila-Villa, do museu Blanton. Reunir um “corpo” de criações do carioca é uma forma de contextualizar sua produção, apresentá-la com peso nos EUA. “O trabalho de Caldas foi muito ignorado ou ma linterpretado no mais ou menos recente boom e revisão da arte brasileira fora do Brasil”, escreve o curador. Waltercio Caldas cria imagens, no seu sentido mais puro, tridimensionais, em que não são desconsideradas a relação de sua obra com o espaço e questões como gravidade, transparência, opacidade,presença, ausência e estrutura. “Tudo isso para mim é muito real, objetivo”, define. Há quem diga que sua arte é intelectualizada demais, mas o artista rebate essa ideia.“Acho absolutamente inadequado acreditar que exista apenas dois tipos de artistas – os que são sensíveis eos quesão intelectuais. Para mim, numa obra de arte, tudo está em jogo. A emoção, o pensamento, o desejo, ointelecto, nada é desconsiderado. Pensar é uma sensação, um sentimento”, afirma, considerando a dualidade estanque entre razão e emoção como algo do “século 18”. Artista de uma “geração sem slogan” e sem “ismos”, como ele próprio diz, a da década de 1960, da qual fazem parte também Tunga, Cildo Meireles, José Resende e Antonio Dias, entre outros, cada um de caminho diferente, Waltercio Caldas propõe jogos e seus temas são “circunstanciais” – “a imagem realiza a autonomia d apalavra”. Sua instalação O Ar Mais Próximo (1991), que está no título da exposição, é feita apenas de fios de lã coloridos no espaço, por exemplo. “Certamente, o meu trabalho não se justifica por um tema, nem por uma sociologia, psicologia, nem por umaabsorção de fatos dos diversos do dia a dia. Minha questão é pensar como os fatos do dia a dia podem ter tanta importância, como têm e por que têm. O questionamento disso, o porque de hoje em dia a arte sofrer de uma doença chamada o ‘assunto’”, explica.


Correio Braziliense - Natureza subjetiva

(05/02/2013) A pintura de Franzé surge de uma caravana de pensamentos e desemboca em imagens íntimas — porém com olhar voltado para fora. Na atual exposição, inaugurada hoje, às 19h, no Espaço Chatô, o artista apresenta 15 telas em acrílica, que refletem esse processo de criação e visão sobre a natureza, primeira morada do homem e destino final de grande parte de suas obras.


“Dentro dos meus lapsos de memória, as imagens criadas por mim são aspectos profundos de minha alma humana”, pontua o artista, que lança mão desses códigos pessoais, ou do que poderia ser chamado de estilo, para pintar — em sua maioria — abstratos da natureza. “Faço isso como um certo protesto em proteção da natureza. O homem não percebe que a está destruindo. A natureza tem existência e ela vive.”

A


Caixiuanã - 2014 Ninho de cobras é uma das telas expostas por Franzé


lém das abstrações, suas obras têm moradia na arte naïf e figurativa. “O processo acontece dentro da minha mente. Tenho que estar totalmente compenetrado, concentrado e autoconsciente para o que vou fazer. Se vou abstrair uma rocha, penso em rocha todo o tempo, para falar com a tela em branco que está em minha frente. Se alguém vier atrás de mim e gritar ‘Francisco!’, já foi. Acabou a obra, acabou tudo”, conta.
No céu

Destacam-se pinturas como Queimada, protesto diante do desmatamento da Floresta Amazônica, e Caixiuanã — Ninho de cobras, simbologia Guarani de união dos povos indígenas. “Quando estou concentrado para pintar, não estou na terra, estou no céu. Para abstrair, você tem que estar consigo mesmo. Tem que estar espiritualizado”, detalha Franzé.

O caminho de artista começou camuflado pela graduação em pedagogia. Em 2003, passou a tomar aulas com a professora de pintura Shirley Indig e, em 2005, já na primeira coletiva de seu trabalho, nasceu Franzé, corruptela simpática de Francisco José de Araújo Costa, agora autógrafo registrado.


Folha de S. Paulo - Arte não era contemplação, mas sim enfrentamento Entrevista / Waltercio Caldas

Artista abre mostra na Pinacoteca e resgata o valor de sua geração, que reintroduziu obras no circuito institucional


Fabio Cypriano, crítico da Folha
Waltercio Caldas na Pinacoteca do Estado, onde abre exposição individual
(06/02/2013) Waltercio Caldas é o artista brasileiro que mais fez exposições nos últimos 25 anos.

Ainda assim, cerca de 60% das 84 obras que serão exibidas a partir de amanhã na mostra "O Ar Mais Próximo e Outras Matérias", individual de Caldas na Pinacoteca do Estado, nunca foram expostas na cidade.

"Ele pode ser o artista mais visto, mas dificilmente é o mais compreendido", diz o curador da mostra, Gabriel Pérez-Barreiro, diretor da Coleção Patricia Phelps de Cisneros, o maior acervos privado da América Latina.

"É possível conhecer as obras de muitos artistas apenas por sua descrição, mas não é o caso do Waltercio", explica Pérez-Barreiro. "É preciso estar na presença de suas obras para de fato poder conhecê-las."

A diversidade de suportes, materiais e temáticas tornam a obra de Caldas de difícil tradução, extrapolando os rótulos limitantes em geral aplicados a ela, como arte conceitual ou arte minimalista.

"O Ar Mais Próximo e Outras Matérias" passou pela Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, e segue em outubro para o Museu Blanton, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

Caldas, 66, faz parte de uma geração de artistas surgidos nos anos 1970, como Tunga e Cildo Meireles, que reintroduziu a arte contemporânea no circuito institucional, após rompimento promovido por artistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark nos anos 1960 e 1970.

Oiticica e Clark deixaram de criar obras para museus, propondo trabalhos em ambientes não convencionais, como a própria casa do artista ou as ruas da cidade.

"Percebemos que havia uma certa ingenuidade [por parte de Oiticica e Clark] na maneira como tratavam a questão institucional", diz o artista.

Leia a seguir trechos da entrevista à Folha.

Folha - Cerca de 60% de suas obras nesta exposição nunca foram vistas em São Paulo.

Waltercio Caldas - Eu até fiquei espantado quando percebi isso! Muitos trabalhos só foram exibidos fora do país e alguns, feitos há mais de 30 anos, nunca tinham sido mostrados aqui.

Gabriel Pérez-Barreiro selecionou 84 obras, mas muitas ainda ficaram de fora.

A seleção privilegiou uma característica importante do trabalho: a presença individual deles; afinal, cada um tem uma especificidade formal e plástica, já que trabalho com 60 tipos de materiais distintos, e o fato de a relação entre eles ser também importante em minha poética.

Sempre vi meu processo de trabalho como a possibilidade de ampliar a linguagem. E a questão da linguagem, para mim, é a arte: o estatuto do objeto de arte e do objeto em si. Um quadro do Picasso é, na realidade, uma tela esticada em um gabarito de madeira com tinta aplicada.

Sua geração é vista como aquela que passou a criar para espaços institucionais depois que artistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark romperam essa relação. Você concorda com essa análise?

Nós percebemos que havia uma certa ingenuidade [por parte desses artistas] na maneira como tratavam a questão institucional, como se houvesse uma utopia, que não seria mais realizável. Nós enfrentamos a instituição dentro de sua estrutura, pensando a inserção das obras como parte do trabalho.

Mas a geração anterior negou instituições de arte, enquanto vocês a afirmaram, não?

Nós percebemos que talvez não houvesse instituições! Eu lembro que quase não havia galerias no Rio, e o trabalho da Lygia Clark seguia apesar de não haver onde mostrá-lo.

Fiz parte de um movimento que pedia a instalação de uma sala experimental no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro para criar oportunidades a artistas vivos e atuantes.

Foi um espaço conquistado. Eu me atrevo a dizer que não havia nem espaço para os neoconcretos. Eles são mais vistos hoje do que naquela época.

Sua geração teria então criado o circuito institucional?

Eu diria que a idade da inocência havia acabado. De certa maneira, nós éramos pessoas inseridas no mundo real. Ao contrário do que se acreditava, de que a arte fosse uma fuga do real, a arte era uma inserção radical e poderosa dentro do real.

A política dizia isso para nós: que não dava para participar do mundo com utopias, mas existia um mundo real a ser conquistado.

Isso trazia uma urgência de atitudes, que não dava para dizer que arte era contemplação, mas sim enfrentamento.

Tanto que você repara aqui, na exposição, que esse enfrentamento se dá a cada obra. É como se eu achasse que a arte fosse não um sistema de empatias, mas um sistema de enfrentamentos.

O curador da mostra disse conhecer seu trabalho há dez anos, mas que, quanto mais se aproxima dele, mais sua obra parece se afastar. É a esse enfrentamento que você se refere?

Eu sinto pelo meu trabalho a mesma coisa que ele. Veja bem, quando se começa, você tem algumas obras.

Dez, 15 anos depois, você tem outra situação, é preciso lutar contra você mesmo.

É preciso conversar com aquelas afirmações que você já fez e acrescentar novas questões, que às vezes duvidam das afirmações já feitas anteriormente.

Neste novo momento, passa-se a acreditar mais em um processo do que em um fim. Nesse sentido, para mim, arte é um processo de que não se sabe de onde vem nem onde vai dar. E, quanto mais ininterrupto for, melhor para o artista.

Arte pode mudar as pessoas?

Sim, porque a arte sempre oferecerá uma nova expectativa de desconhecido para cada um.

A arte seria uma forma de produzir desconhecimento e, por isso, ela é diferente da cultura. A cultura pode viver do que já conhece. A arte jamais.




Estado de Minas – Espaço para reflexão

Exposição no BDMG Cultural propõe diálogo entre a arte das ruas e das galerias. Mostra reúne colagens e montagens dos artistas Gabriel Nast, Dagson e Haisson


Obra do artista Dogson, que integra mostra no BDMG Cultural
(06/02/2013) Um linguagem entre a arte de rua e das galerias e museus. Esse aspecto, explica o curador Rafael Perpétuo, merece atenção nas colagens, montagens e aquarelas que os artistas plásticos Gabriel Nast, Dagson e Haisson mostram a partir de amanhã na Galeria de Arte do BDMG Cultural. O trio é conhecido pelos grafites que realiza nas ruas ou em espaços institucionais. A exposição leva o nome de Antropologia para formar uma topografia de um lugar sagrado, expressão do suíço Harald Seezmann, um dos criadores da prática da curadoria, e remete à ideia de estudar manifestações humanas para investigar um lugar (o mundo das artes) tido como sagrado.
Os trabalhos de Nast, explica Rafael Perpétuo, valem-se da colagem para criar representações da cultura brasileira. “São colagens de culturas buscando uma representação do Brasil”, observa, sinalizando a homologia entre tema e técnica. Dagson, por sua vez, usa materiais descartados, especialmente madeiras, para criar peças tridimensionais que dão corpo ao imaginário pessoal que são “quase uma mitologia” da comunidade onde vive o artista. As aquarelas de Haisson, observa o curador, são suaves. Com “construções sem muita ordenação”, que oscilam entre o abstrato e o figurativo, o artista processa memória de infância na favela.
Rafael Perpétuo, falando sobre a relação dos grafiteiros com galerias e museus, conta que a distância entre uns e outros está no fato de os autores não aceitarem a mercantilização da arte e “estruturas sistemáticas” que tendem para formações muito rígidas. Os grafiteiros, na opinião do professor, deveriam também apresentar suas obras em galerias e museus. “O que mostraria que a arte contemporânea é também construída pelo grafite, além de evidenciar o quanto a prática tem conceito e técnica”, observa. Ele explica que, como professor, o que interessa não é exatamente esse debate, mas “construção e aprofundamento de uma história da arte pelos artistas”.
Arena

O curador é artista plástico e professor do Arena da Cultura. O projeto, depois de interrompido por dois anos para reformulação, fazendo discussões sobre metodologias de ensino, retomou atividades a partir de 2011. O momento atual é de trabalhos que consolidem o programa como uma escola de arte da prefeitura e voltado para arte contemporânea. Ele oferece cursos livres em cinco áreas: artes visuais, música, teatro, dança e patrimônio. Rafael comemora a inserção do último no rol do projeto: “Faltava a Belo Horizonte alguma atividade que formasse cidadãos interessados na preservação da cultura da cidade”.







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