Supervisão número 19, de Wilfred Bion Comentada por Cecil José Rezze1



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Supervisão número 19, de Wilfred Bion

Comentada por Cecil José Rezze1.


De início, desejo agradecer ao Junqueira pelo convite para comentar esta fita dos seminários que ocorreram aqui em São Paulo, em 1978.

Tive a oportunidade de participar desses seminários e, até mesmo, de apresentar num deles material clínico, o qual, no momento, não me lembro o que teria sido.

O material que me foi encaminhado consta de folhas de papel em que tenho os escritos e, no caso, uma tradução cuidadosa do Junqueira, que me colocam frente a episódios que ocorreram há quase 30 anos. A leitura vai de início tendo uma certa frieza, mas pouco a pouco vão surgindo lembranças, recordações e o clima que acompanhava a presença do Dr. Bion, que era de muita empolgação, muito ânimo, muito entusiasmo. Tenho certa dificuldade de entrar no âmago desse episódio que se chama Supervisão n. 19, porque ele reflete de um lado algo que se refere a um paciente, como é chamado no texto, mas, de outro traz um acontecimento de grupo: relações entre os participantes e, também com essa pessoa de grande mérito e valor que veio para nos dar uma contribuição original sobre o trabalho psicanalítico. Então, é difícil acompanhar a supervisão propriamente, o acontecimento da supervisão, tanto quanto saber o que ocorreu com o cliente. Mas, me envolvendo na leitura - aliás, ficamos com o privilégio de poder ler e reler quantas vezes quisermos – considero que a situação que ocorreu não tem leitura e nem releitura; ela simplesmente ocorreu e se passou daquela forma inexoravelmente e é dentro desse campo que me movo.

Assim, temos presente que havia um clima de muito entusiasmo, muita alegria, senão mesmo de euforia com a presença de Bion e, portanto, as supervisões, essas conversas eram - pelo menos como me surge que eram na mente daquele analista de 30 anos atrás, que sou eu - algo bastante empolgante, algo que fazia uma interferência bastante grande em juízos de natureza crítica, de natureza de reavaliação, ou qualquer outra coisa que assim fosse.

Uma supervisão comum
Mas, me cingindo ao que foi apresentado, resolvi de início apreciar o que o analista apresenta como se fosse algo original, como se tivesse sido apresentado a mim numa supervisão comum, como faço às vezes com alguns colegas. Assim, fui acompanhando a primeira seqüência de narrativas do cliente e do analista, antes que Bion fizesse a sua intervenção. Acompanhando esse primeiro movimento, eu me vejo diante de uma conversa que tem dois aspectos. O primeiro é que o cliente, que se apresenta com determinada organização mental, conta para o analista ter feito a leitura de um livro de Guimarães Rosa - supostamente uma leitura bastante complexa, no sentido da representação e da simbolização. Por outro lado, como o analista chama atenção, é o de uma fala do paciente que revela tanto um aspecto fragmentário de um certo ângulo como, também, de um outro ângulo, uma espécie de percepção, alguma noção sobre algo que se passa consigo mesmo. Esta noção me parece que está presente quando o cliente fala que “é como se tivéssemos diversas situações que estão sobrepostas, uma sobre a outra”. Tenho a impressão que essa observação denota uma certa percepção da vida mental – ele percebe tal fato, talvez realçado pelo aspecto do duelo, portanto aspectos conflitantes que poderiam estar se passando entre o analista e o analisando.

A conversa me impactou, tanto assim que levando em conta o que o analisando e o analista falam, eu fiz na minha mente uma imagem, que é o refrão de uma música popular: o “samba do crioulo doido”. Então estaríamos com uma pessoa que no momento do encontro levar-me-ia a essas idéias. Talvez, se fosse escolher algo para comunicar ao paciente, depois da observação sobre as “situações sobrepostas”, eu pensaria em realçar para o cliente esta dimensão, ou seja, a captação que ele tem da superposição das imagens – seria a minha tentativa. Esta tentativa estaria mais ou menos de acordo com idéias que eu desenvolvo melhor no trabalho A Fresta em que eu creio que é necessário que haja uma certa distância, um certo hiato para que o analisando possa de alguma maneira distanciar-se de aspectos muito peculiares da sua personalidade e poder tomá-los e observá-los. Aí, então, eu realçaria o aspecto da capacidade do cliente, já que ele pôde fazer a observação. Porque se tomarmos situações sobrepostas como se elas não fossem, vamos nos envolver numa grande confusão.

Esses são alguns movimentos que eu não sei se teria feito, porque eu os estou fazendo agora e depois da leitura do texto. Esclareço que isso surgiu logo depois da primeira leitura, ainda sem ouvir aquilo que estaria na seqüência, sem ler o que Bion comenta, a interrupção que o Bion faz. Então, resumindo, eu trouxe dois aspectos: um o do “crioulo doido” e o do crioulo não tão doido, porque ele é capaz de perceber que há uma sobreposição de imagens e noticiá-la ao analista.

Neste ponto da supervisão, Bion pergunta se o analista permite que possa haver indagações interrogações a fim de clarificar o que está em andamento. O analista concorda e ele então prossegue trazendo uma pergunta: “Vocês formaram alguma opinião sobre se iriam querer ter um paciente desse tipo? Vocês o receberiam se ele viesse vê-los?”.

Bem, creio que aqui Bion está introduzindo uma questão que talvez possamos inferir que esteja ligada a isso que tenho anotado, que é essa situação do samba do crioulo doido. É uma hipótese.

Um dos participantes do encontro diz que não receberia esse cliente – não fica claro por quê. Mas, isso talvez seja o caminho para Bion fazer uma observação sobre o nosso poder de decisão: “Eu, freqüentemente, sinto nessas situações que, apesar de dizer que decidimos, não estou certo que algum de nós realmente decide. Penso que é como ver uma folha caindo de uma árvore: ela desce assim, assim...(Bion provavelmente faz movimentos de flutuação com a mão) e depois, pousa de um lado para cima – sim ou não”. Bion trata de um tema que lhe é caro: decisão e responsabilidade.



Desarranjar o que foi arranjado
Vamos, em seguida, ao Participante 2, que indaga se a situação atual do diálogo entre analisando e analista não seria muito diferente daquela da primeira sessão. Bion diz que sim e faz uma observação que coloca a sua forma de trabalhar, que expande o universo em questão. Diz: “Superficialmente, a análise é muito lenta, leva muito tempo! Quanto mais próximo dela você está mais possível se torna ver o quão rápida ela é. O problema que foi arranjado ontem é desarranjado hoje”. O ponto importante é essa idéia de desarranjar o que foi arranjado. Isto surge de forma espontânea, imediata de realçar de como estamos diante de uma situação de grande movimentação, a qual não temos por antecedência nenhum controle, nenhum acesso.

Voltemos a uma supervisão comum
Voltemos ao andamento da sessão. Há uma fala do analisando e do analista e, após um pequeno silêncio, o paciente continua: “quando você fala, eu sinto como se fosse a marca do sinete do Zorro”. Creio que ele faz referência a que o Zorro deixa marca do Z nas pessoas ou nas coisas com as quais entra e contato. E diz o cliente: “eu penso que isso acontece aqui também”. O analista, então, diz: “Zorro é um homem que leva a justiça e luta contra excessos e injustiças”. O cliente riu: “ele, com sua espada, corta os suspensórios da calça do sargento e deixa o inimigo sem roupas. É por isso que eu penso que você me deixa irritado; porque você me faz sentir como se eu estivesse sem roupa, nu. As histórias que estão nas revistas sempre terminam assim; talvez seja por isso que estou desconfortável”. Ele pergunta para o analista: “Você não concorda comigo?” O analista continua: “você não se lembra que o sargento é amigo do Zorro? Apesar do Zorro fazer com que ele se sinta nu, sem roupas”. Diz o paciente: “Ah, sim! Eu concordo, o sargento é uma pessoa boba”. E o analista responde: “Bem, um amigo para você é pouco e é por isso, talvez, que você não revela os seus sentimentos de amizade em relação a mim aqui, durante a sessão”. Depois disso há um silêncio.

Segundo o método que eu havia assinalado, de tentar inicialmente ver pelo meu viés a situação clínica que foi apresentada, vou examinar esse trecho que foi reproduzido.

A situação parece paradoxal. De um lado vai havendo uma fala entre analista e analisando que, a meu ver, tanto bate quanto não bate. De parte do analisando, nós podemos ver que ele parece que segue um caminho diferente do analista, mas que não deixa de haver um “insight” de sua parte, porque ele se apercebe sendo deixado nu pelo analista, o que o faz ficar irritado. Se tomarmos isso como um insight, o ponto é o uso que ele faz desse insight. Ele pergunta ao analista se ele não concorda. Parece que a intenção do analisando é atribuir ao analista algum ato hostil a ele, através dessa impressão de deixá-lo sentir-se nu. O analista faz um comentário sobre o Zorro e o sargento e entre ele e o paciente, no sentido, parece-me, de salientar aspectos, talvez, da realidade, Mas, o paciente diz: “Ah sim, eu concordo, o sargento é uma pessoa boba”. Aí me dá a impressão que o analista ainda insiste, tentando esclarecer o que, para o paciente, é uma pessoa boba, e complementa assinalando que o analisando não revela os sentimentos de amizade em relação a ele, analista, durante a sessão. Os caminhos possíveis são inúmeros e aqui estamos fazendo um exercício. Várias situações podem ser tomadas e fiquemos com a idéia do paradoxo. O analista tem percepção do que permeia a sessão, porém sua contribuição, tenho a impressão, é tomada diferentemente pelo analisando. E há que se levar em conta a conclusão de que o sargento é uma pessoa boba – é assim que ele vê a situação – é algo que não muda, o cliente mantém-se aparentemente no mesmo ponto, apesar de abrir um certo insight da situação. Usa esse “insight” no sentido de manter o “status quo” de sua mente. Então temos aí uma situação de manutenção do "status quo".

Seria essa a minha observação, independentemente do andamento do texto.



Relação com o “status quo”
Continuemos com o andamento do texto. Isto permitir-me-á relacionar a participação 3 e 4 e a contribuição de Bion com a minha hipótese de manutenção do “status quo”.

A contribuição do Participante 3 pode ser resumida como o analista e o analisando entrando numa simbolização infantil, ou numa imagem infantil, pois eles falam um com o outro de uma “forma mais unida”. Em seguida, o Participante 4 pergunta se essas simbolizações infantis como continentes não tornam mais fácil para o analista tolerar a situação analítica, salientando que no começo da sessão, parece que as palavras do paciente eram mais difíceis de serem atingidas.

As contribuições dos presentes permitem que Bion introduza a possibilidade de que paciente “aprenda algo, se puder, com o analista”. E, quanto a esse cliente especificamente, penso, coloca algo assim: “Bem, espero que você seja capaz de escolher as coisas certas. Penso que você vai revelar um ouvido surdo e um olhar cego para aquilo que estou tentando lhe dizer. Eu posso ver claramente que estou lhe dizendo algumas coisas que você não quer aprender, não quer ouvir, você não quer ver. Bem, eu não posso fazer nada a respeito disso, mas continue, por favor”.Eu algumas vezes já disse a um paciente”: “Se o que você está dizendo estiver correto, então eu sou a pessoa errada a procurar, você odeia estar comigo aqui, você odeia o que eu lhe digo, você não quer ouvir o que eu tenho a dizer; não há problema, porque, como você sabe, há muitos métodos e muitos analistas e a porta não está trancada. Portanto, você pode sair a qualquer hora que quiser. Eu não vou me colocar na posição na qual você poderia me processar por aprisioná-lo”. Bion diz que não diria isso ao paciente, mas manteria isso em mente. Coloca essa questão da liberdade e da intervenção, supondo um cliente que poderia querer pular pela janela, ele tentaria ficar na posição de impedir o cliente disso. Mas, fundamentalmente, Bion parece que examina a questão de não mudança, portanto, de não aprender. Considera, vamos dizer, uma atitude praticamente “deliberada” do paciente. Bem, aqui vem uma situação em que a leitura do texto dá a impressão de uma posição muito dura de Bion na dimensão da análise, como colocando o cliente numa situação que poderia constrangê-lo. Tenho impressão diferente dessa. O que ele traz estaria ligado ao “status quo”, a que me referi anteriormente. Bion amplia, trazendo a possibilidade e a liberdade que o cliente tem de não aprender, se ele quiser manter o “status quo”. Na minha experiência, às vezes eu tento trazer para o cliente isso que Bion diz, de uma forma minha. Por exemplo, se eu tento aproximar o cliente de alguma coisa - não que seja certo ou errado, que seja bom ou ruim, que esteja adequado ou inadequado - se tento dar alguma contribuição e o cliente, sem entrar em contato com o que ofereço, prefere outro caminho, procuro dar ciência a ele de que ele está seguindo outro caminho, porque o cliente não tem consciência disso e é preciso dar-lhe ciência de que segue outro caminho, segundo o viés do analista.
Como Bion trabalhava
As considerações acima despertam a curiosidade de saber como Bion trabalhava no contato com seus clientes. Não vamos saber, mas podemos fazer “conjecturas imaginativas “.

Às vezes, pessoas me fornecem suas impressões de que os textos de Bion contemplam somente aspectos muito regressivos da personalidade o que levaria certa dureza no trato com os clientes. Isto difere de informações que temos da prática clínica de Bion (algumas poucas informações) que sugerem ele ser uma pessoa que, no trato com seus clientes, usava de delicadeza, fina sensibilidade, atenção e dedicação muito grandes2. Mas acho que isso é uma outra coisa que talvez vejamos depois.


A questão de ajudar e a dor do analista
Voltando ao contexto da supervisão, Bion prossegue: “Assim, penso que o que quer que seja o que o paciente diga, não se deve perder de vista o fato de estarmos ali para ajudar”. Bem, esta afirmativa, eu creio, está clara, mas ele especifica: “Assim, nós, de fato, não concordamos com o paciente – que estamos lá para causar problemas ou para tornar as coisas difíceis para ele. Ele está livre para pensar o que ele quiser, mas nós também estamos livres para ser o que quisermos ser. Eu digo isso porque, me parece que este paciente parece que está querendo forçá-lo a ser o tipo de pessoa que é conveniente a ele”.

Para mim, creio que fica claro a que tipo de auxílio Bion se refere. Mas como existe a palavra ajudar, ela pode dar margem a muitos significados. Daí que o Participante 1 introduz uma situação que se refere ao ajudar. Ele, então, pergunta a Bion: “O senhor disse que está tentando ajudar o paciente e nós, aqui- eu, pessoalmente, penso - sabemos, muito freqüentemente, que esse não é verdadeiramente o serviço do analista. Gostaria de saber o que o senhor pensa a respeito disso”. Bion começa respondendo: É porque a língua é tão ambígua, tantas coisas diferentes podem ser entendidas pela palavra ajudar. Não há nada de novo a respeito disso porque o ‘Oráculo de Delfos’ foi quem esculpiu na pedra: ‘Conhece-te a ti mesmo’. Nós ainda não estamos neste ponto. Portanto, a idéia de que é útil e proveitoso conhecer a si mesmo não é nada novo." E, assim, Bion continua com suas observações.

Nesse ponto, tive a impressão que a formulação desse participante tivesse irritado e desencadeado uma resposta de Bion, ligada a uma espécie de armadilha que essa pergunta poderia parecer, ou como uma distorção do significado anterior que, para mim, era muito claro quando foi usada a palavra ajudar. O que me chamou a atenção foi que, logo em seguida, fiquei surpreso supondo que Bion poderia ter-se irritado, ou seja, Bion não se irritaria nunca. Se examinarmos o contexto da resposta seguinte, veremos a preciosidade da sua colaboração. Mas o que eu quero salientar é que esta foi impressão que tive. Relacionei, então, com aqueles tempos em que nós estávamos vivendo aquela situação. Será que eu teria essa impressão naqueles tempos? Eu estou tentando refletir sobre a contribuição de Bion e, também, o clima mental, clima de valorização, clima de aceitação que eram atribuídas a essas idéias. Embora eu tivesse me surpreendido hoje, eu estava pensando que, talvez, na época eu não me atrevesse, não tivesse a espontaneidade para ver que durante uma supervisão como essa, atendendo vários colegas, pudesse ser um homem ali, trabalhando diversas horas com pessoas como eu, que era um analista incipiente, e que poderia ser para esse homem uma situação penosa, difícil e que pudesse surgir alguma manifestação de irritação.

Certamente, a impressão foi minha ao ler o texto e que levou a essa divagação. Acho importante refletir sobre a importância que essa pessoa teve, quando viva e vivamente participando de forma preeminente no nosso pensamento.

Ainda nessa parte, quanto a conhecer-se – “conhece-te a ti mesmo”, do Oráculo de Delfos – Bion prossegue e diz que quanto à ajuda que nós podemos dar ao cliente, consiste justamente em tornar isso possível.

Ele enfatiza que o analista seria como um espelho; não é importante quem o analista é. O que importa é que o paciente possa ver, ao olhar para o analista, quem ele é. É a única coisa que o analista pode fazer para ajudar –refletir para ele, para ter uma imagem de si mesmo.



A idéia do espelho é bastante antiga da posição do analista. Comecei a indagar qual seria essa situação, levando em conta a posição do analista, diante de uma situação de aprender com a experiência emocional. Essa é uma questão que não me ficou clara. Bion prossegue e vai examinar a condição deste paciente, o qual vai tentar fazer com que o trabalho do analista esteja mais ou menos de acordo com as suas necessidades. E Bion, então, examina essa situação que é inerente à Psicanálise: “O paciente só pode ter o tipo de análise que ele merece”.

A liberdade e o limite
Não podemos forçar o cliente a aprender. Enfim, Bion enfatiza a liberdade que o cliente tem. O comentário que eu faço é que essa condição de liberdade, essa visão do cliente, tanto introduz uma posição muito clara de respeito a indivíduo, mas, também, creio, introduz a posição do limite na análise. Bion em várias passagens enfatiza o valor da análise, a sua importância e como os analistas muitas vezes não acreditam na efetividade dela. Mas aqui dá uma impressão clara de que estabelece um limite – o nosso trabalho depende de forças que não conhecemos, de forças que podem surgir no cliente como um desejo de não mudança ou, como havia tentado aproximar antes, de manter o “status quo”. Essa visão que estou tentando estabelecer é também alguma coisa do limite nas pretensões que talvez tenhamos como analistas, quiçá, o próprio Bion.
Epílogo
A leitura do trabalho precedente levou-me a duas linhas gerais de investigação. Uma é o que Bion estaria interessado em comunicar a partir do estímulo da supervisão. A segunda linha é o que supervisão despertou em mim. Talvez conviesse lidar com essas duas linhas sem tentar separá-las. Teremos pelo menos cinco aspectos a considerar.

  1. A folha. Bion fala, no decorrer dessa supervisão, sobre a decisão do analista de tomar ou não um cliente. Estabelece a semelhança com uma folha que cai de uma árvore e nós não sabemos de que lado ela vai cair. Estamos nessa situação para decidir se ficamos ou não com o cliente. Em Seminários Italianos, no último seminário, Bion faz referência a essa alegoria da folha (ele pede desculpas aos participantes pela forma como ele trabalhou), dizendo que no curso daqueles seminários ele tinha exposto as idéias como uma folha que cai de uma árvore no outono e ninguém sabe o destino que aquela folha terá. De fato, as idéias em Seminários Italianos – parece que até mais do que aqui em São Paulo – adquirem uma extensão vasta e extensa, trazendo questões às quais ele torna e retorna, considerando, por exemplo: qual seria o valor atual da contratransferência e do inconsciente; considera com muito destaque as questões ligadas ao córtex das supra-renais no feto, restos embrionários, as fontanelas ópticas e auditivas do feto. Tenho a impressão de que nesta supervisão há um esboço desse movimento de grande expansão. Possivelmente, Bion teve que se restringir àqueles movimentos possíveis e factíveis no momento disponível.

  2. A liberdade de não aprender. É um tema bastante difícil quando estamos trabalhando na prática clínica. O conhecimento teórico, a experiência, a necessidade de trabalhar e oferecer algo ao cliente, possivelmente, podem obstruir a visão da liberdade que o cliente tem de tomar o caminho que lhe parecer o melhor. Aliás, embora possamos, com a experiência, ter alguma visão relativamente segura dos caminhos que possamos tomar, é sempre surpreendente os caminhos que o cliente toma. Muitas vezes denota uma sabedoria oculta, muito longe de nossas cogitações e alcance, e que vão aparecer muitas vezes através de uma participação bastante rica e podem demonstrar que situações que tomaríamos, eventualmente, dentro de certos referenciais, como manifestações de uma linha psicótica da personalidade, talvez não o fossem.

  3. O espelho e a experiência emocional. Intrigou-me nesse trabalho a importância que Bion dá à posição de espelho para fazer com que o cliente possa ver a si próprio através do analista. A idéia é bastante interessante, particularmente como ele a desenvolve. De fato, não deve interessar a personalidade do analista, a vida dele, para o trabalho de análise, já que o que interessa é aquilo que o cliente possa perceber e, também, produzir nesta atividade. No entanto, esta colocação não deixou de intrigar-me embora eu possa muito facilmente acompanhá-la, entendê-la, aproveitá-la e estar até de acordo. Porém, não deixa de haver uma situação de paradoxo: como lidar com essas afirmações de Bion e a posição do analista frente à experiência emocional; como lidar com a situação de transformações que tendem a O? A meu ver, implicitamente, estamos lidando com situações profundas do analista, das quais ele só tem alguma notícia através da experiência emocional que se desenrola na sessão.

  4. O clima de alegria. O clima de alegria a que me refiro no texto diz respeito a todo o entorno da vinda de Bion. Seria uma situação de indagar quanto dessa alegria ou euforia não estaria ligado a dimensões de natureza muito profundas, da idealização ou da necessidade de um guia, ou da necessidade de uma doutrina nova. Hoje, já passados quase trinta anos dessa estada de Bion aqui em São Paulo, nós podemos verificar que muitos frutos rendeu a sua convivência conosco e, complementarmente, com os seus escritos. Mas, tenho a impressão que ficam indagações sobre a ruptura do “establishment” e as conseqüências que daí advieram. Necessariamente, o corpo institucional sofreu uma intervenção muito poderosa das idéias que aqui chegaram. Não vou tentar me deter nessa dimensão porque é uma situação muito difícil de examinar, além de poder estimular dimensões muito polêmicas.

Nessa mesma linha de pensamento, tive a impressão de que uma determinada manifestação de Bion pudesse estar ligada a uma irritação. É quando propõe ajudar o cliente; é quando ele diz da nossa meta de ajudar o cliente. Claro, pode haver confrontação com outras proposições de Bion, como Sem Memória e Sem Desejo, e assim por diante. Mas o que me interessou examinar foi a minha impressão de que ele estivesse irritado e a minha surpresa em ter tal impressão, embora a resposta dele fosse muito polida. Talvez aí lidando com dimensões arcaicas, quem sabe, ao mostrar surpresa diante da idealização. Estes fatos talvez estejam apontando para a necessidade de refazermos os nossos pensamentos a respeito das contribuições dos autores que estudamos.

5. Desarranjar o que foi arranjado. Em uma das passagens, Bion fala da velocidade com que os acontecimentos se sucedem na análise. Creio que essa chamada para a verificação - durante a própria sessão - de como as coisas se modificam extraordinariamente, pode ser refletida de forma impressionante sobre toda a obra de Bion. Talvez, nós tenhamos que examinar os seus arranjos e os seus desarranjos, o que trará um impacto fortíssimo no establishment mental de cada um de nós.
Pós-escrito

Comentar uma supervisão de Bion parece-me uma temeridade. Aliás, comentar qualquer trabalho me parece ser um ato temerário. Aceitei a incumbência, portanto, só me resta concluir que houve um cochilo no meu senso crítico. Porém, tomada a empreitada, tentamos executá-la.



Ao ler o material da supervisão, pareceu-me bastante difícil trabalhar com ele. Pensei em rastrear as principais idéias constantes no texto e caminhar, através de abstrações, tecendo comentários em nível teórico. Ligado a isto, li os Dez Seminários Teóricos que Bion fez aqui, em São Paulo, na ocasião, e também li, recentemente, os Seminários Italianos e os Seminários de Nova Iorque, mais ou menos da mesma época. Caminhar em abstrações pareceu-me difícil, bem como decidir o que selecionar ou encarar para efetuá-las. De maneira que havia alternativa que foi tomada. Esta era de, mais ou menos intuitivamente, ir seguindo o que brotasse na minha mente. E assim fui fazendo – servi-me do texto, mas fui trazendo o que foi brotando e fazendo os comentários conforme aquilo foi ocorrendo. Terminado o trabalho, voltei novamente à idéia de se não seria o caso de lidar com as abstrações em lugar de seguir o caminho que eu tomei. Assim, coloquei no fim uma pequena parte que chamo de Epílogo, onde tento alinhavar, de uma forma sintética, algo das abstrações. Deixei o texto conforme ele me apareceu; segue uma linha clínica e pode até parecer enfadonho a um analista experimentado. Assim, finalizando, nutro a esperança de contar com a paciência e a tolerância do leitor ou ouvinte.

1 Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

2 Impressões de minha análise com Bion de José Américo Junqueira de Mattos, Alter – Jornal de Estudos Dinâmicos, set/dez,1980, vol 10, n. 3, p. 113-127.





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