Tecendo identidades das mulheres e promovendo direito a ter direitos: experiências na associaçÃo de riacho fundo



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TECENDO IDENTIDADES DAS MULHERES E PROMOVENDO DIREITO A TER DIREITOS: EXPERIÊNCIAS NA ASSOCIAÇÃO DE RIACHO FUNDO (ESPERANÇA-PB)
GT: Diversidade Sexual, Democracia e Promoção de Direitos
Cíntia Letícia Bittar de Araújo Eufrásio1

Marcelo Alves Pereira Eufrásio2


Resumo: O presente artigo tem por objetivo entender o lugar de constituição das diferentes identidades sociais e culturais a partir do trabalho artesanal da Associação da comunidade Riacho Fundo no município de Esperança – PB, bem como os espaços do feminino de constituição do direito a ter direitos a partir do pensamento de Hannah Arendt. Para tanto, foram levantados dados qualitativos a partir do perfil de algumas mulheres e homens pertencentes à Associação de Riacho Fundo a fim de perceber as diferentes transformações nas relações de gênero e as diferentes identidades assumidas por esses sujeitos mediante as mudanças que vem transformando as sociedades modernas. A identidade não é definida biologicamente, mas sim historicamente, para tanto, as diferentes identidades assumidas pelos sujeitos estão associadas às necessidades e exigências do tempo e do espaço nos quais estão inseridos. Desse modo, se evidencia que existe uma influência fundamentalmente imbricada das relações sociais e históricas com o material cultural, evidenciando a idéia de que no tocante às identidades das mulheres artesãs existem processos em construção de diferentes identidades e de direitos, que estão tecendo e sendo elaboradas a partir das experiências sociais.
Palavras-chave: Identidades. Relações de gênero. Direitos. Artesanato.
Abstract: This article aims to understand the place of incorporation of the different social and cultural identities from the craftsmanship of the Association of Fund Creek community in the municipality of Esperança - PB , as well as the spaces of the female constitution the right to have rights from thought of Hannah Arendt . For both , qualitative data were collected from the women and some men belonging to the Association of listing Creek Fund in order to understand the different transformations in gender relations and the different identities assumed by these subjects through the changes that has transformed modern societies . Identity is not defined biologically, but historically, therefore, the different identities assumed by the subjects are related to the needs and demands of time and space in which they are inserted. Thus, it is evident that there is a fundamentally intertwined influence of social and historical relations with cultural material, highlighting the idea that with regard to the identities of the women artisans there are processes in the construction of different identities and rights, which are being prepared and weaving from social experiences.
Keywords: Identities. Gender relations. Special Rights. handicraft.
1 INTRODUÇÃO

Este artigo pretende construir um estudo versando sobre o papel da mulher enquanto sujeito histórico, pertencente a uma sociedade na qual historicamente o homem teve papel de destaque nas decisões políticas, sociais, jurídicas e econômicas; particularmente na sociedade ocidental marcada por valores e preconceitos que definem a mulher como sujeito pertencente exclusivamente ao espaço privado, isto é, enclausurada às atividades domésticas. Esta constatação histórica, renegou a figura do feminino por muito tempo ao esquecimento quando se trata da constituição dos direitos políticos, civis, sociais etc. Esta problemática dissimuladamente ainda é possível se constatar em diferentes contextos, em virtude das formas como se desenvolveram as sociedades e as instituições no decorrer da formação histórica da humanidade, muito embora as mudanças ocorridas nas últimas décadas tenham trazido significativas composições sociais e culturais para a trajetória feminina, especialmente nas sociedades capitalistas.

É no tocante a composição das diferentes identidades que estas mudanças tem se evidenciado de forma acentuada, principalmente quando se relaciona as subjetividades e atuação das mulheres nas sociedades contemporâneas. A partir do estudo realizado sobre as mulheres artesãs da Associação de Riacho Fundo no município de Esperança – PB é que foi possível constatar uma experiência de construção de diferentes identidades a partir das diferentes transformações vivenciadas por um grupo de mulheres.

A historiografia tradicional marginalizou durante muito tempo a atuação das mulheres na sociedade, limitando-as ao espaço privado em detrimento do espaço publico, principalmente aquele representado pelo espaço da deliberação política e pelo poder de decisão. A Associação de Riacho Fundo no município de Esperança retrata justamente a quebra desse “paradigma”, procurando emancipar algumas mulheres da região a partir da inserção destas no trabalho artesanal dentro da lógica do espaço público, garantindo-lhes o que defende a filósofa Hannah Arendt como o "direito a ter direitos".

Na construção desse artigo, foi utilizado como referencial teórico no que diz respeito à identidade, Stuart Hall (2004) e Zygmunt Bauman (2005). No que refere as questões de gênero, utilizamos Mary Del Priore (1997) e Michelle Perrot (1988). Para a história oral, José Carlos Sebe Bom Meihy (2005). Para entender a construção do espaço público e da garantia de direitos políticos em Hannah Arendt, a pesquisa se amparou em Bittar (2005) e Arendt (1989; 1995).

Com base em levantamento bibliográfico para a fundamentação teórica, bem como em pesquisa de campo, foram realizadas entrevistas através do uso da história oral com algumas mulheres e homens da Associação, onde foi possível destacar algumas particularidades das vivências entre estes sujeitos.

Em face da problemática referente à construção de diferentes identidades a partir das transformações conjunturais concernentes à historicidade da mulher, optou-se por selecionar o universo de atuação feminina que está ligada ao espaço do artesanato de Riacho Fundo no município de Esperança – PB.

Na Associação de artesãs de Riacho Fundo, participam atualmente 25 pessoas, sendo 22 mulheres e 03 homens, cujo trabalho realizado se desenvolve em torno do fabrico de bonecas de pano denominadas de boneca Esperança, está é confeccionada através de um trabalho manual feito pelas artesãs. A produção é comercializada no município e no mercado externo de vários Estados.

Foram levantados dados qualitativos por meio de entrevistas semi-estruturadas com o propósito de perceber as relações sociais de gênero no tocante as questões de identidade, mediante os diferentes papéis ocupados pelos indivíduos envolvidos na produção de bonecas no espaço da Associação de Riacho Fundo, tendo objetivo entender o espaço público das vivências comuns e também a atuação destes na esfera doméstica, ou seja, no espaço privado.

Desse modo, consideramos o universo da pesquisa a partir dos indivíduos que estão efetivamente inseridos no contexto da associação das artesãs, como uma forma de contribuir para o estudo das diferentes relações de gênero e a construção de diferentes identidades mediante as transformações conjunturais de âmbito social e histórico.

Nesse sentido, num primeiro momento, tem-se a impressão de dois mundos separados, o público pertencente ao homem e o privado a mulher, no entanto, a partir dos relatos orais, pudemos perceber que as duas esferas se inter-relacionam. Com as entrevistas das mulheres percebemos que estas progressivamente, passaram a ocupar o mundo do trabalho, assumir um novo papel social e profissional, mas, isso não excluiu suas tarefas domésticas, apenas a ampliou.

As mulheres que pertencem ao processo de fabrico das bonecas são constituídas a partir das identidades em movimento, conforme lembrou Bauman (2005), visto que se diferenciam pelas ocupações, pelos modos de ser, modos de fazer e modos de entender o processo ocupacional e as relações sociais entre produzir bonecas e assumir seus diferentes papéis de mãe, esposa, filha e operária.

Para tanto, foram entrevistadas duas mulheres, uma mulher A, 38 anos, casada, mãe de 03 filhos, estudou até o 9 ano do ensino fundamental, a outra entrevistada a mulher B, 35 anos, casada, estudou até a 4 série do ensino fundamental I, e, por último entrevistamos um homem A, 36 anos, casado, pai de 2 filhos e estudou até a 4 série do ensino fundamental I. Fizemos as entrevistas a partir de um roteiro com perguntas simples e objetivas, a fim de perceber e analisar as relações sociais que envolvem a questão da inserção da mulher no lugar social da produção do artesanato e a constituição das diferentes identidades que permeiam esse espaço e são assumidas por estes enquanto sujeitos multifacetados.

Para a realização dessas entrevistas fizemos o uso da história oral, conforme lembra Meihy (1996, p. 23), “história oral é um recurso moderno usado para a elaboração de documentos, arquivamentos e estudos referentes à experiência social de pessoas e grupos.”

Desse modo, este ensaio foi organizado em três partes. No primeiro, fazemos uma abordagem histórica a partir de alguns autores supracitados, sobre a construção histórica da identidade feminina a fim de perceber como as transformações estruturais repercutem na constituição das diferentes identidades

Na segunda parte, mostramos o universo de constituição das diferentes identidades a partir do trabalho artesanal da associação da comunidade de Riacho Fundo no município de Esperança. E, por último, mostramos o lugar social das mulheres artesãs a partir das entrevistas realizadas durante o levantamento dos dados.

Para tanto, as diferentes identidades assumidas pelos sujeitos estão associadas às necessidades e exigências do tempo e do espaço nos quais estão inseridos
TECENDO AS IDENTIDADES FEMININAS NA HISTÓRIA

Ao propor uma discussão sobre as identidades femininas se tem por objetivo tecer as relações entre as identidades femininas na história e as leituras sobre o objeto de nossa pesquisa, que se refere às identidades femininas e masculinas na associação de artesãs de Riacho Fundo no município de Esperança - PB.

A identidade é uma construção simultânea a partir das transformações conjunturais, que variam de acordo com o cenário social e histórico de cada sujeito. Assim, as transformações do mundo moderno geraram mudanças ao longo dos anos em relação às identidades dos indivíduos, influenciados pelas diferentes culturas contemporâneas.

Tradicionalmente, as referências que compuseram a identidade feminina até o século XIX, eram fundamentalmente as de filha, esposa e mãe, gerando assim, a construção de uma identidade baseada na fixidez e em seus vínculos familiares.

A partir da segunda metade do século XX, precisamente após o movimento cultural de maio de 19683, é que o movimento feminista e a bandeira de luta pelos direitos feministas ganham expressividade e dinamismo, a partir da expansão do feminino para diferentes lugares e espaços sociais. Com efeito, a mulher passa a assumir novos papéis sociais na família e no mercado de trabalho, ou seja, fundamentalmente as chefe de família e empregadas multifuncionais no âmbito público (diferentes setores laborais), passaram a redefinir sua identidade, mesmo não mudando completamente sua condição no espaço social, mas ampliando-se à condição de outrora, pois a mulher continuava sendo dona-de-casa, mãe, esposa e agora com alguns espaços profissionais, sua dupla-jornada de trabalho a levou para uma maior responsabilidade, sendo denominadas de supermulheres pelo senso comum da mentalidade paternalista pertencente a uma sociedade ainda marcada por valores machistas em torno dos diferentes papéis sociais ocupados pelas mulheres. (CAIXETA; BARBATO, 2010).

Entretanto, em contraposição a essa mentalidade que definia as mulheres de forma naturalizante, sugerimos que a construção de diferentes identidades não estão associadas a aspectos biológicos e morfológicos, mas, sendo ela definida como resultado do processo histórico-cultural de cada indivíduo, cuja noção deve ser entendida em diferentes percepções, ou seja, múltiplas identidades de gênero. Assim, “não nascemos homens e mulheres, nos tornamos homens e mulheres” Beauvoir4 (apud, TAVARES, 2008, p. 4), conforme as possibilidades que vão sendo sugeridas pelas experiências de cada sujeito com a cultura com que se relaciona.

No tocante as experiências dos artesãos de Riacho Fundo em Esperança – PB, se evidencia a possibilidade de entender que a composição das identidades locais se faz não a partir da composição de identidades já definidas e inertes, mas da possibilidade de inserção dos valores culturais e sociais como aglutinadores dos sujeitos, conforme se entende a partir das falas de um artesão, membro da Associação:
No começo tinha gente que dizia que não dava certo trabalhar com boneca, costurar para homem não e bom, mais hoje essas pessoas que falavam, querem uma vaga lá, e quem falava isso era os homens. Lá, tem vários tipos (trabalho), todo mundo lá trabalha por igual, cada pessoa faz o serviço completo, cada um pega uma determinada quantidade de bonecas e fica responsável de entregar ela completa.

(Homem A, casado, pai e artesão)

Desse modo, um sujeito social apresenta-se em diferentes situações e posições acionando uma multiplicidade de identidades, aquelas possíveis dele se identificar, mesmo que temporariamente.

Segundo Hall (1990), a identidade é uma questão que está sendo extensamente discutida na teoria social. O argumento principal é demonstrar que as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o individuo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. A assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma coragem estável no mundo social.

Nesse sentido, se entende, conforme Stuart Hall que:
A identidade torna-se uma ”celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificados ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. (HALL, 1990, p.13)

Em linhas gerais, o sujeito moderno assume diferentes identidades em diferentes momentos, mediante uma série de mudanças vivenciadas nas sociedades modernas, diferentemente das estruturas passadas que tinham nos fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Diante da contextualização histórica dos sujeitos sociais envolvidos na associação de artesãs de Riacho Fundo no município de Esperança – PB se vislumbra uma trajetória de relações permeadas por sistemas culturais que interligam os sujeitos a partir de diferentes identidades, que são modificadas em função das diferentes trajetórias de vida rodeadas pelas tramas e vivências cotidianas. Desse modo, em um lugar social perpassado entre vivências de homens e mulheres não há como constituir uma única identidade dos indivíduos deste lugar.

Para tanto, as diferentes identidades assumidas pelos sujeitos estão associadas às necessidades e exigências do tempo e do espaço nos quais estão inseridos.
AS IDENTIDADES LIQUIDAS OU EM VIAS DE TRANSIÇÃO?

Na obra “Identidade” de Bauman (2005), encontramos uma longa discussão sobre possíveis “identidades”, sentimentos de pertencimento a determinadas comunidades, círculos culturais e nação. Bauman trabalha a idéia de que o pertencimento ou a não identidade não são definitivos nem tão sólidos assim, mas negociáveis e revogáveis; tudo dependendo das decisões que o indivíduo toma, do caminho que percorre e da maneira como age.

Dentro desse círculo de pertencimento às identidades, poucos de nós, ou quase ninguém, está exposto a apenas uma comunidade de idéias e princípios de cada vez, como cita Bauman (2005, p.19):
As identidades flutuam no ar, algumas de nossa própria escolha, mas outras infladas e lançadas pelas pessoas em nossa volta, e é preciso estar em alerta constante para defender as primeiras em relação às últimas.
Sendo assim, percebemos que a identidade do indivíduo não é fixa e permanente, ela é construída mediante o espaço à qual este indivíduo está inserido e muda de acordo com o papel que este deseja assumir a partir da relação com o material cultural, como, por exemplo, nas teias sociais que envolvem os indivíduos nas relações cotidianas de trabalho, em que diante de mudanças significativas das ocupações profissionais, homens ou mulheres podem modificar sua trajetória de vida e de ocupação.

Tendo em vista a discussão acerca das identidades líquidas, nosso objeto de estudo procura abordar as diferentes mudanças das identidades femininas e masculinas a partir das transformações dos papéis sociais ligados à modernidade, que segundo Bauman (2002) é chamada “líquida”, tendo em vista a fluidez e volatilidade dos valores e comportamentos sociais dos indivíduos. Assim podemos perceber que as identidades são constantemente modificadas, renovadas e transformadas diante do líquido da modernidade em que os sujeitos estão inseridos, inclusive nas relações cotidianas vivencias em espaços sociais como da associação de artesãs de Riacho Fundo em Esperança – PB.

Na constituição dos papéis sociais dos sujeitos que trabalham com bonecas se percebe a fluidez e volatilidade dos valores das mudanças de identidades de homens e mulheres, principalmente quando pensadas a partir das suas ocupações domésticas e nas demais atividades de fabricação de bonecas ou na produção da agricultura familiar, conforme o depoimento de uma das artesãs:
Na associação eu ajudo a abrir a casa das bonecas todos os dias, logo eu levo meu filho todos os dias pra escola que fica ao lado da associação e aproveito e fico na associação. Antes eu trabalhava no roçado, na agricultura, na época do inverno pra plantar, ainda trabalho no roçado, agora eu acordo bem cedo deixo tudo pronto pra parte da tarde me dedicar as boneca, às vezes eu sinto falta de ta em casa descansando e fazendo as coisas da casa, mais preciso trabalhar. (Mulher A, casada, mãe e artesã).

Há uma forte ligação dos valores tradicionais da família com a composição das tarefas associadas às funções domésticas, que antes eram atribuições exclusivas das mulheres no contexto das moradas de Riacho Fundo, conforme o próprio discurso da entrevistada. Nesse sentido, ela não chega a valorizar suas atividades domésticas como sendo um tipo de trabalho valorativo, uma alusão às atividades outrora de atribuição exclusivas do homem, trabalhar no ambiente fora de casa. Por outro lado, existe neste discurso de Marilene, uma aproximação das atribuições masculinas e femininas, que na sociedade de Riacho Fundo já se evidencia posto que a entrevistada já trabalhou e ainda trabalha no roçado, no fabrico de bonecas e tem saudades das atividades de casa.

Bauman remete sua discussão sobre família, Estado e Igreja, presentes e importantes na “constituição da identidade” das pessoas. Afirma ainda que hoje as relações, eletronicamente mediadas, tendem a ser frágeis e fáceis de serem abandonadas e a capacidade de estabelecer interações espontâneas com pessoas reais se perde nesses relacionamentos virtuais, conforme fica evidenciado a seguir:
É isso que nós, habitantes do liquido mundo moderno, somos diferentes. Buscamos, construímos e mantemos as referências comunais de nossas identidades em movimento – lutando para nos juntarmos aos grupos igualmente móveis e velozes que procuramos, construímos e tentamos manter vivos por um momento, mas não por muito tempo (BAUMAN, 2005, p.32)
Nesse sentido, tornamo-nos conscientes de que a “identidade” não é algo sólido, não é permanente para toda a vida, a identidade é mutável e se consolida diante das decisões que o indivíduo toma, dos caminhos que ele percorre e a maneira como age. E a decisão de se manter firme a tudo isso é um fator crucial para constituição da “identidade”.

Hall (2004) reconhece que a identidade não é unificada, além de haver múltiplas identidades possíveis de identificar-se mesmo que de forma temporária. Conforme ele mesmo afirma:

Se sentirmos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortadora "narrativa do eu". A identidade plenamente identificada, completa, segura e coerente é uma “fantasia.” Ao invés disso, na medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente (HALL, 2004, p. 13).
Contudo, as mudanças relacionadas às questões de identidade estão ligadas a uma multiplicidade de diferentes papéis ocupados pelos indivíduos na sociedade. Para tanto, é interessante pensar naqueles que modificam sua identidade de acordo com sua própria vontade, escolhendo-as diante de amplas possibilidades, contrariamente àqueles que não têm direito a se manifestar e se encontram oprimidos por identidades impostas pelos outros, identidades de que eles próprios se ressentem, mas não têm permissão para abandonar e são estas que estereotipam e estigmatizam os indivíduos.
O LUGAR DA MULHER NA HISTÓRIA
No século XX, com o surgimento da Revista dos Annales de História Social e econômica, originária do movimento dos Annales a partir de 1929, novas vertentes construíram diferentes perspectivas de abordagem, substituindo a história político-diplomática pela vertente econômico-social, e na terceira geração na década de 1968 pela história cultural que ficou denominada “do porão ao sótão”. A história que antes se voltava a um viés total e global, com o modelo de historiografia positivista para a exaltação de “grandes heróis” passa agora a trabalhar com uma história fragmentada, onde o historiador pode tematizar diferentes abordagens sob qualquer perspectiva de viés interdisciplinar, a partir de abordagens múltiplas, desde que existam fontes históricas de pesquisa. Segundo Dosse5 (apud, NAVEIRA, 2008):
È preciso entender como a disciplina da história patinava em um pântano vazio de um objetivismo vazio e idiotizante; nada mais além do relato dos atos de “grandes” personalidades políticas e militares e seus “heróicos” feitos (na realidade, é muito fácil visualizar isso; para a imensa maioria de nós, brasileiros, basta lembrar de nossas antigas aulas no primário e no ginásio). A escola dos Annales quebra de uma vez por todas essa visão ao chamar para si a briga e colocar como eixos históricos: dados econômicos, estatísticas, modelos sociológicos, como nunca havia sido feito anteriormente.

Essa nova abordagem historiográfica leva em consideração estudos sobre vários aspectos da sociedade. A partir dos Annales, precisamente em sua terceira geração, a mulher passou a ocupar um papel de destaque na historiografia. Vários historiadores começaram a estudar a história das mulheres de maneira mais integral, diferentemente de outros historiadores que deixaram a mulher fora da história.

A terceira geração dos Annales foi a primeira vertente historiográfica a incorporar as mulheres nas abordagens históricas. Em especial Mary Del Priore, que trabalhou sobre a ocupação dos papéis femininos como resultados de uma construção social e histórica e que através de uma profunda pesquisa em documentos históricos, para poder traçar a trajetória das mulheres do processo histórico do Brasil colonial aos nossos dias. Segundo Perrot (2007, p. 16), “escrever a história das mulheres é sair do silêncio em que elas estavam confinadas”. Essa importante historiadora, em seus estudos sobre a história das mulheres partiu da história do corpo e das funções desempenhadas pelas mulheres no espaço privado até chegar à história das mulheres no espaço público, como seu papel na política, no trabalho e na sociedade. Fez uma relação entre as mulheres vítimas do patriarcalismo para chegar à história das mulheres ativas, onde tornou a leitura da história das mulheres uma questão de gênero em que envolve as relações entre os sexos.

Segundo Perrot (2007, p.17),

[...] Porque são pouco vistas, pouco se fala delas. E esta é uma segunda razão de silêncio: o silêncio das fontes. As mulheres deixam poucos vestígios diretos, escritos ou materiais. Seu acesso à escrita foi tardio. Suas produções domésticas são rapidamente consumidas, ou mais facilmente dispersas. São elas mesmas que destroem, apagam esses vestígios porque julgam sem interesse. Afinal, elas são apenas mulheres, cuja vida não conta muito. Existe até um pudor feminino que se estende à memória. Uma desvalorização das mulheres por si mesmas. Um silêncio consubstancial à noção de honra.

Contudo, não há como negar a importância e a participação efetiva da mulher na construção das múltiplas identidades do gênero humano ao longo da História, principalmente em espaços de construção da história local como das mulheres artesãs de Riacho Fundo em Esperança - PB. É imprescindível o reconhecimento destas múltiplas identidades que compõem o sujeito tido como feminino em diferentes momentos da História, mas é preciso reconhecer que esta ocupação de múltiplos espaços representa, também, o reconhecimento de mudanças sensíveis nas possibilidades de papeis assumidos pelas mulheres.

Sendo assim, o resultado destes múltiplos espaços identitários e as transformações que o gênero feminino vem passando no decorrer dos tempos, podem ser perceptíveis em sua nova participação no mercado de trabalho, na família, nas tramas da sociedade, na luta pela conquista de seus direitos e na sua ocupação no espaço público em detrimento do espaço privado em que esta assumia posição secundária.
DIREITO A TER DIREITOS NO ESPAÇO FEMININO
A filósofa Hannah Arendt (1906-1975), ganhou papel de destaque no cenário mundial com sua teoria política voltada às questões relacionadas aos conflitos políticos e militares de meados do séc. XX a partir dos regimes totalitários. Sua abordagem política permite entender a lógica dos regimes totalitários e em contrapartida propõe uma solução dialógica ao problema do poder individual e do expediente da violência a partir da dimensão de funcionamento da esfera pública como matriz da ação política.

Tendo convivido diretamente com a truculência advinda da 1ª e 2ª guerras mundiais, principalmente com a ascensão do imperialismo alemão e das perseguições nazistas anti-semitas, sua trajetória acabou sendo extremamente influenciada por estes elementos que, segundo ela, acabavam diluindo a política contemporânea e sua possibilidade de mobilização em torno da cidadania. Sua reflexão teórica nasce como uma manifestação corajosa contra os mecanismos de violência e de desumanidade que surgiam contra a possibilidade de garantia de liberdade dos indivíduos em coletividade.

Enquanto intelectual judia, Hannah Arendt esteve associada diretamente aos grandes pensadores de seu tempo, influenciada pelo filósofo Karl Jaspers, tendo-o como orientador no seu doutoramento concluído em 1928, sua trajetória foi profundamente marcada por sua influência filosófica kantiana, em que inspirado pelo imperativo categórico defendia que: “[...] politicamente, não existimos no singular, mas coexistimos no plural. A pluralidade da intersubjetividade requer a comunicação, e está pressupõe o que Kant chama de mentalidade alargada, isto é, um pensar sempre ligado ao pensamento do que o outro pensa” (LAFER, 1979, p. 186). Neste esteio é constituída a influência teórica de Hannah no sentido de aprender que a pluralidade de intersubjetidades da ação política coletiva é que molda a sua vontade em relação ao outro, que não permite a imposição de opiniões ou posições, mas a possibilidade do nascimento da liberdade a partir do diálogo e da ação.

Frente à posição de Jaspers também se direcionou profundamente ao filósofo alemão Martin Heidegger, com quem esteve ligada por muitos anos, mesmo quando este esteve associado ao partido nazista. Dele verificou-se que a relação dos filósofos com a política é uma relação carregada de dilemas, cuja tentação de servir à tirania é uma constante (LAFER, 1979).

Nesse sentido, a apreensão dos discursos filosóficos de seus mestres e a percepção dos elementos totalitários nas estruturas de poder que insurgiam no século XX irão se constituir como elementos influenciadores de sua teoria política. Para aquela filósofa a gênese do totalitarismo provém, preliminarmente, do anti-semitismo moderno e do imperialismo conforme apresentou em sua obra As origens do totalitarismo (1951). Daí que o anti-semitismo moderno aparece caracterizado pela intolerância e pela exclusão, fruto das tensões entre Estado e sociedade civil, que surgiram na Europa após a Revolução Francesa. Nesse contexto, a tradição judaica esteve vinculada ao fortalecimento do Estado, inclusive absolvendo as tensões da sociedade. O que torna propício o surgimento do anti-semitismo como instrumento de manipulação do poder no interior do sistema político, principalmente como medida contra os arranjos políticos construídos no cenário político moderno.

Salienta em sua obra no tocante as estratégias do totalitarismo para fortalecer a emergência do fenômeno na sociedade contemporânea que:


O estabelecimento de um regime totalitário requer a apresentação do terror como instrumento necessário para a realização de uma ideologia especifica, e essa ideologia deve obter a adesão de muitos, até mesmo da maioria, antes que o terror possa ser estabelecido. O que interessa ao historiador é que os judeus, antes de se tornarem as principais vítimas do terror moderno, constituíram o centro de interesse da ideologia nazista (ARENDT, 1989, p. 26).

A violência se faz contra o povo judeu, independentemente da atitude ou ação destes personagens, a principal estratégia dos modelos totalitários é constituída a partir do uso da mentira que desfigura os fatos para ajustá-los às necessidades do poder.

Por sua vez, lembra Hannah que o imperialismo se constituiu como resultado da emancipação política burguesa e surge quando esta deixa de se dedicar aos seus negócios privados e assume a gestão do Estado na Europa. Administrando a Europa através da dominação imperial, as conseqüências políticas deste modelo governamental prefiguram o paradigma totalitário a partir de falsos valores e ações reacionárias como o racismo, por exemplo, que acabou sendo o esvaziamento do senso de realidade dos europeus no convívio com outras culturas e nações propiciando o advento do genocídio de judeus e soviéticos. Desse modo, o expansionismo territorial teve o objetivo de criar uma dominação global por parte da Alemanha nazista e Itália fascista, principalmente. Além da burocratização que se instaurou como estratégia fortemente arbitraria em vias de fortalecer os regimes totalitários, os modelos nazi-fascistas constituíram experiências políticas mal sucedidas de estigmatização dos valores políticos que se alimentavam pelo poder advindo da violência contra os povos de tradição semita.

A emergência do totalitarismo e de suas diversas manifestações mediante as condições sociais, econômicas e culturais desde o final do século XIX, sobretudo em face do desafio do imperialismo capitalista representou um desafio para os teóricos contemporâneos, Hannah Arendt irá se inscrever como teórica defensora da filosofia política que proporcionou a solução democrática diante dos problemas advindos com os regimes totalitários.

Se em sua obra As origens do totalitarismo (1951), Hannah Arendt denuncia a conjuntura truculenta do poder despótico e desumano dos modelos governamentais que insurgiam no séc. XX, em sua obra A condição humana (1958), a filósofa oferece a oportunidade de entender a lógica de funcionamento do espaço privado e do espaço público a partir da contextualização histórica que tem por bases o surgimento da cidadania. Sendo assim, sua preocupação teórica se dá na tentativa de mostrar como o pensamento político foi se desvirtuando em função dos interesses individuais e privados pelo uso da violência através dos regimes totalitários, o que torna sua reflexão uma revalorização do espaço público e da ação política como elementos importantes diante da efervescência da ação política e da mobilização dos indivíduos organizados coletivamente.

A contribuição de Hannah Arendt é voltada para constituição da ação política como categoria imprescindível para entender a questão da liberdade e da participação dos homens nos destinos da humanidade. A teoria social e política arendiana são expressas, neste caso, a partir do contexto histórico da antiguidade clássica, com a Grécia e Roma, sendo que as categorias do espaço público e privado estão intimamente ligadas à funcionalidade do lugar de mobilização do sujeito social.

Chega à concretização do espaço privado e público tendo como pressuposto a contextualização da experiência da polis grega com a finalidade de entender o melhor espaço de convívio entre os indivíduos. Neste sentido, a experiência de vida nas cidades-estados da antiguidade lhe confere perceber o sentido da vida privada, que se constitui nas relações domésticas, nas atividades do trabalho e da produção (fabricação); enquanto a vida publica se forma na dimensão política que se realizava na ágora, ou seja, a praça pública onde os cidadãos gregos deveriam se reunir para discutir os assuntos de interesse da população da polis.

A cidade-estado acaba sendo o espaço institucional e territorial que se caracteriza pela distinção entre a dimensão pública e privada, de interesse comum e de interesse individual. Assim, no espaço privado não há necessidade de diálogo e de deliberações coletivas, pois não é de interesse de ninguém que não seja do possuidor da propriedade privada que as atividades sejam desenvolvidas, assim o foi na sociedade romana denominada de pater familiae, ou seja, chefe de família, gestor do lar, dos bens patrimoniais da família, matriz do patriarcalismo e do patrimonialismo.

Segundo Arendt (1993, p. 68) a esfera privada acabou construindo um melhor entendimento daquilo que se configura como sendo a esfera pública, logo:
É em relação a esta múltipla importância da esfera pública que o termo “privado” em sua acepção original de “privação”, tem significado. Para o individuo, viver uma vida inteiramente privada significa, acima de tudo, ser destituído de coisas essenciais à vida verdadeiramente humana: ser privado da realidade que advém do fato de ser visto e ouvido por outros, privado de uma relação “objetiva” com eles decorrente do fato de ligar-se e separar-se deles mediante um mundo comum de coisas, e privado da possibilidade de realizar algo mais permanente que a própria vida. A privação da privacidade reside na ausência de outros; para estes, o homem privado não se dá a conhecer, e, portanto é como se não existisse. O que quer que ele faça permanece sem importância ou conseqüência para os outros, e o que tem importância para ele é desprovido de interesse para os outros. [...] O motivo pelo qual esse fenômeno é tão extremo é que a sociedade de massa não apenas destrói a esfera pública e a esfera privada: priva ainda os homens não só do seu lugar no mundo, mas também do seu lar privado, no qual antes eles se sentiam resguardados contra o mundo e onde, de qualquer forma, até mesmo os que eram excluídos do mundo podiam encontrar-lhe o substituto no calor do lar e na limitada realidade da vida em família.

Nesta instituição social, sua principal característica é a economia, a administração do patrimônio individual que se faz na família. Arendt (1993) lembra que a distinção entre uma esfera de vida privada e uma esfera de vida pública corresponde à existência das esferas da família e da política como entidades diferentes e separadas, desde o surgimento da cidade-estado, isto, de certa forma, teria segundo ela, correspondido ao aparecimento e fortalecimento, mais tarde, da esfera social, que, no entanto, não é privada e nem é pública, acaba sendo um fenômeno relativamente novo, cuja origem coincide com o surgimento da época moderna e que encontrou sua forma política na formação do Estado Nacional.

Com essa separação histórica entre a esfera da polis e a esfera da família, as atividades da vida privada impediam o exercício da liberdade. Logo, a possibilidade de inscrever a ação política dos indivíduos como sujeitos sociais e participes das atividades coletivas além de representar a dimensão da cidadania, também foi o momento de incrementar a ação humana como valor supremo a partir da idéia de ação política.

Afirma o pensamento arendiano que as experiências humanas se fundaram na ação política que se faz fundamentalmente em três dimensões da atividade humana: labor, trabalho e ação. A primeira animal laborans, significa a necessidade do processo biológico, labor, significa trabalho, o processo em que o agente do trabalho diante de suas necessidades biológicas, procura trabalhar em prol de sua subsistência, em que forçosamente suas necessidades devem ser realizadas como valor natural. A segunda característica, denominada por Arendt (1993) de homo faber, é agente da fabricação, que cria coisas extraídas da natureza, convertendo o mundo num espaço de objetos partilhados pelos homens. Este ofício proporciona a fabricação de artifícios, obras artísticas, objetos dos mais variados que irá proporcionar longevidade há permanência do homem no mundo. Com o processo de industrialização advindo do sistema capitalista, os artesãos que detinham a dimensão do homo faber, converteram-se em homo laborans, suprimindo seu espaço de necessidade de subsistência e assumindo seu espaço de fabricação e de consumo individual, o que acabou dificultando a criação do espaço político, em função de que não há liberdade para criação da dimensão da participação coletiva, mas apenas da sobrevivência e do isolamento frente às exigências do modelo de sociedade industrial.

Para tanto, a terceira dimensão é representada pela vita activa, que propõe a libertação das duas esferas isoladas em nome da ação política. Nesta realidade, lembra Lafer (1979, p. 190) que se instaura a política como processo decisório e do agir, cuja “origem provém de agere (pôr em movimento) e gerere (criar, trazer) que exprime uma atividade no seu exercício continuo” e cuja relevância produz gestos e atitudes concretas. A ação política da vita activa necessita da concordância dos demais, surge da estrutura do diálogo e das vivencias comuns, mesmo que apareçam como conflituosas, pois a realidade dialógica possibilita a ação coletiva.

O que significa dizer que a essência da vida humana se faz na expressão do coletivo, assim denominado de vita activa6, ou seja, vida ativa. Não é possível entender a lógica de funcionalidade dos governos, das ações políticas sem a dinamicidade da articulação de indivíduos pensados coletivamente enquanto sujeitos sociais que vivenciam a experiência política concretamente, conforme entende a filosofia arendiana:


A vita activa, ou seja, a vida humana na medida em que se empenha ativamente em fazer algo, tem raízes permanentes num mundo de homens ou de coisas feitas pelos homens, um mundo que ela jamais abandona ou chega a transcender completamente. As coisas e os homens constituem o ambiente de cada uma das atividades humanas, que não teriam sentido sem tal localização; e, no entanto, este ambiente, o mundo ao qual viemos, não existiria sem a atividade humana que o produziu, como no caso de coisas fabricadas; que dele cuida, como no caso das terras de cultivo, ou que o estabeleceu através da organização, como no caso do corpo político. Nenhuma vida humana, nem mesmo a vida do eremita em meio à natureza selvagem, é possível sem um mundo que, direta ou indiretamente, testemunhe a presença de outros seres humanos. Todas as atividades humanas são condicionadas pelo fato de que os homens vivem juntos; mas a ação é a única que não pode sequer ser imaginada fora da sociedade dos homens. (ARENDT, 1993, p. 31, grifo nosso).
Nesse sentido, a capacidade humana de organização política teve seu maior apogeu na experiência grega, naquele contexto histórico, o centro das atenções não está formado na casa e na família, mas no surgimento da cidade-estado, que representa um espaço de deliberação e de ação, não significando que o espaço privado foi suprimido, mas valorizado pelo sentido de pertença em que cada sujeito deve ter em sociedade. Neste caso, o espaço privado se articula com as atividades publicas para que cada sujeito social se torne importante e respeitado na sua condição humana, que se constitui como sendo sua ação política.

Na verdade, o processo histórico que se desenvolve pela ação não resume a fabricação de utensílios manipulados conforme as necessidades humanas, mas representam as relações sociais e políticas que configuram relações humanas construídas a partir de teias de relações humanas em que todos os indivíduos estão envolvidos. Ao teorizar politicamente a vita activa, Arendt defende que não há superioridade entre modos de vida, assim sendo, as atividades humanas não são hierarquizadas, elas representam diferentes situações do homem e da mulher se inserir no processo histórico, que compõe a condição humana.

A esfera pública é o lugar das necessidades humanas, significa que os indivíduos se afirmam enquanto pessoas humanas uns em relação aos outros. Segundo Hannah Arendt (1993) a pluralidade humana se constitui como condição básica da ação e do discurso, mesmo que neles residam os aspectos da igualdade e da diferença. É por meio do discurso e da ação que o homem e a mulher podem distinguir-se dos demais, pois são atividades cuja existência precisa da iniciativa de cada sujeito individualmente.

Nesse sentido, a ação faz parte da identidade do individuo, sua atividade marcante é caracterizada pela ação, sem ela não há existência humana, conforme o pensamento arendiano (Op. cit., p. 31): “Só a ação é prerrogativa exclusiva do homem; nem um animal nem um deus é capaz de ação, e só a ação depende inteiramente da constante presença de outros”.

A pluralidade humana acaba sendo uma categoria essencial para entender a teoria da ação política, visto que os indivíduos como iguais em condições humanas podem compreender-se entre si, inclusive possuindo a capacidade de concretizar seus planos conforme suas necessidades. A diferença entre os indivíduos reside na necessidade do discurso, do uso da palavra, quando ao comunicar-se com o mundo expressam suas necessidades, as quais, tornam os homens diferentes uns aos outros.

Lembra Arendt (1993) que o exercício de ação política é um aparecimento para o mundo público, um comparecimento com os outros a partir da atividade política. Nestes termos, se entende que entre os homens a coisa comum é a possibilidade de ver e ser visto, usar da palavra e ceder a palavra, ouvir e ser ouvidos. A iniciativa da ação é um nascimento para vida, daí reside à distinção entre vida e morte7, enquanto exercício político da ação e do aparecimento para o mundo com os outros o individuo nasce por meio da ação. A ação discursiva representa um segundo nascimento, uma novidade que se constitui no mundo, o que torna a iniciativa um elemento que estrutura o conceito de ação.

A participação de cada cidadão e cidadã nas ações e deliberações da dimensão política é essencial para entender a existência humana enquanto exercício da pluralidade, desse modo, a ação dos indivíduos no espaço público acaba sendo uma atividade fundamental para legitimar a atividade política.
AS FALAS DO LUGAR ENTRE O MASCULINO E O FEMININO
O interesse em pesquisar a composição das identidades de mulheres e homens na Associação de Riacho Fundo no município de Esperança – PB nos possibilitou perceber como se dá à construção de novas relações políticas sociais envolvendo homens e mulheres e analisar as diferentes identidades que são construídas mediante as modificações conjunturais históricas e sociais.

A participação da mulher no mercado de trabalho no âmbito público tem demonstrado literalmente novas perspectivas do gênero feminino na luta por esse espaço que se colocou como sendo exclusividade do masculino, e nos leva a entender que apesar de várias conquistas feministas pelos seus direitos nos diferentes lugares e espaços sociais, elas ainda encontram desafios em sua participação na esfera publica, para inclusive constituir o que o pensamento arendiano defende como sendo vita activa, diante de uma sociedade marcada por alguns valores que mantém certa resistência a ascensão da mulher diante da luta emancipatória no mercado de trabalho.

Nesse sentido, como revelam as mulheres entrevistadas, que houve resistência dos maridos quanto a sua participação na Associação tida como trabalho público, conforme ficou constatado nas falas:
(...) Lá no inicio no inicio mesmo meu marido não aceitou muito, logo no inicio quando se formou o grupo eu queria participar e perguntei ao meu marido se podia participar aí meu marido dizia que não era pra eu ir, porque não acreditava nesse trabalho... (Marilene do Nascimento Silva, casada, mãe e artesã).
Na época que agente formou esse grupo fazia parte 45 mulheres e atualmente estamos com 25, algumas viajaram, faleceram, outras saíram por conta do marido... (Mulher B, casada, mãe e artesã)
Percebemos também que as mudanças estruturais que vem transformando as sociedades modernas são responsáveis pelas novas identidades assumidas a partir dos sujeitos, diante das necessidades e vivências cotidianas. No caso das mulheres artesãs de Riacho Fundo foi evidenciado a necessidade financeira, que possibilitou a inserção destas no mercado de trabalho, principalmente pelo incentivo de alguns dos maridos, que viam nesta ocupação uma forma de melhoria significativa do orçamento familiar e não pelo incentivo relacionado à satisfação pessoal quanto a atividade profissional. Desse modo, nas palavras das artesãs se evidenciou o seguinte:
(...) Eu tava com o menino de três anos e meu marido não queria ficar porque dava trabalho mais depois que eu comecei a participar e ele viu que as bonecas estavam dando lucro que eu estava ganhando meu dinheirinho e ajudando em casa ele começou a me incentivar mais ainda, ficava com o menino... (Mulher A, casada, mãe e artesã)
(...) Inclusive meu esposo hoje é presidente da associação antes ele não queria que eu trabalhasse e hoje ele depende dessa renda da associação... (Mulher B, casada, mãe e artesã)

Tendo em vista que a identidade do indivíduo não é sólida e permanente, pois ela é construída mediante o espaço em que este está inserido e muda de acordo com o papel que ele deseja assumir diante de uma modernidade “liquida”, percebemos os diferentes papeis sociais assumidos pelos sujeitos de Riacho Fundo ligados às mudanças da modernidade. Como mencionou o entrevistado, que passou a participar da Associação, devido à lucratividade que esse trabalho tem e a necessidade financeira dentro de uma sociedade capitalista, aquele afirma que antes ele achava o trabalho do artesanato algo não promissor para a esposa, como ela mesma cita anteriormente, mas que ele nega em sua fala. No entanto, foi a partir das vivências da sua esposa que ele se inseriu na Associação e o trabalho artesão veio complementar a renda familiar conforme relata:


Comecei a participar através da minha esposa Núbia, eu via o trabalho dela e achei interessante e comecei a participar, eu nunca fui contra o trabalho dela... a situação que vivo hoje melhorou em 80%, aliás, pra todos da casa da boneca melhorou... (Homem A, casado, pai e artesão)

Sabe-se que diante as transformações ocorridas na sociedade em relação à ocupação da mulher no espaço público, houve uma série de mudanças nas relações de gênero, onde homens e mulheres passam a ocupar o mesmo espaço, mas percebe-se que mesmo diante de inúmeras transformações estruturais a atuação do espaço público ainda é bastante demarcado pelo gênero masculino, ficando o público e privado a cargo do feminino.

No espaço do artesanato sendo ele um espaço público, teremos uma divisão de tarefas onde as funções externas da Associação são exercidas pelo masculino, quanto às mulheres é designado a desempenharem funções internas naquela entidade cooperativa que acabam fazendo parte do ambiente privado. A fala de artesão nos ajuda a pensar sobre isto:
Sou o presidente da associação, compro material, vou pros correios mandar mercadoria, resolvo as coisas do banco, faço viagens para outros estados para as feiras de artesanato...

(Homem A, casado, pai e artesão).


Desse modo, as diferentes relações entre mulheres e homens a partir da Associação de Riacho Fundo nos remetem uma série de mudanças nos papéis sociais desses sujeitos, isto é, um tipo de arranjo social, que garantia de certa forma a construção do espaço público feminino de direito a ter direitos, quando as mulheres artesãs locais passaram a assumir diferentes identidades mediante as transformações das estruturais sociais e históricas locais, muito embora existam diferentes papéis assumidos pelo gênero feminino ainda estão relacionados a uma sociedade marcada por resquícios de uma mentalidade paternalista.

Portanto, o que ficou constatado na rede de relações sociais no ambiente de convívio das experiências e vivencias cotidianas do artesanato de bonecas de Riacho Fundo é que existe uma composição de diferentes relações identitárias, ou seja, nas atividades laborais e nas redes de relações entre homens e mulheres há diferentes arranjos de composição de valores, tarefas, saberes, ações etc., proporcionando a constituição de situações mutáveis e dinâmicas frente à constituição das identidades locais.

2 CONCLUSÃO

Ao estudar as relações dos diferentes papéis sociais no espaço da Associação de Riacho Fundo no Município de Esperança – PB entre mulheres e homens nos levou a perceber que a ocupação do espaço público mediante as conquistas obtidas pelas mulheres geraram uma série de mudanças na trajetória de vida desses sujeitos.

Através da pesquisa de cunho bibliográfica e exploratória a partir da pesquisa de campo na Associação de artesãos com base nas entrevistas realizadas, constatamos que as diferentes identidades assumidas pelos sujeitos são construídas e assumidas mediante as transformações conjunturais de acordo com espaço social e histórico, onde o sujeito social a partir de diferentes situações e posições sociais passa a assumir possíveis identidades mesmo que de forma temporária.

Contudo, constatamos que diante de uma sociedade chamada de “líquida” para Bauman (2002), tendo em vista a inconstante fluidez de valores e comportamentos sociais dos indivíduos, essa situação de indefinição e mutabilidade leva a composição de diferentes identidades a serem constantemente modificadas a partir do lugar social em que estes estão inseridos. Desse modo, essa constatação se dá em função daquilo que outrora já foi constatado, de que existe uma influência fundamentalmente imbricada das relações sociais e históricas com o material cultural, evidenciando a idéia de que no tocante as identidades das mulheres artesãs, há na verdade um processo em construção de diferentes identidades, que estão tecendo e sendo elaboradas a partir das experiências sociais, embora identidades culturalmente associadas de forma naturalizante ao feminino e ao masculino, não sejam abandonados.

Outro aspecto a considerar na ótica da formação das diferentes identidades dos sujeitos pesquisados são seus modos de conceber as relações sociais na Associação de artesãos de Riacho Fundo, por parte de homens e mulheres inseridos naquele ambiente, primeiro como uma situação necessária para as mulheres que precisam trabalhar para complementar a renda doméstica e vêem nesta experiência fabril e comunitária uma possibilidade ocupacional de garantia de trabalho, em seguida, quando os homens percebem os valores escondidos na produção de bonecas, como, por exemplo, o aumento da renda, e passam a incorporar este espaço de trabalho como sendo também masculino, em grande medida, comprovando o posicionamento teórico de Hall (1990), quando defende que a identidade torna-se uma ”celebração móvel”, que é formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. Neste sentido, a produção de identidades se constitui como um conjunto de experiências históricas, que se revelam nas relações sociais que tecem as experiências culturais.

A noção de espaço público e participação política ora apresentada no pensamento político da filósofa alemã Hannah Arendt propõem de antemão que a convivência no habitat público permite incorporar também a esfera privada, principalmente quando observada a realidade do associação de Artesãs de Esperança-PB, em função de sua dimensão social. Assim, os indivíduos em estado de necessidade de convivência comum precisam aprender a se articular uns com os outros a partir de suas próprias necessidades vitais, como a necessidade de raciocinar, dialogar, comunicar e vivenciar experiências em comum.

Os espaços de constituição de identidades de homens e mulheres ganharam diferentes sentidos em diferentes contextos socioculturais mediante as transformações estruturais em diferentes épocas do seu desenvolvimento, levando os indivíduos a assumir diferentes papéis sociais e constituir variadas identidades.

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.


_____________. A Condição Humana. 6. ed., Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

BITTAR, Eduardo C. B. Hannah Arendt: o poder, a opressão e o espaço da política. In. Curso de Filosofia Política. 2. ed., São Paulo: Atlas, 2005. p. 250-262.


CAIXETA, Juliana Eugenia; BARBATO, Silviane. Identidade feminina – um conceito complexo. Um feminismo. Disponível em: http://www.umarfeminismos.org/feminismos/docs/simonebeauvoir.htm. Acesso em: dez. 2013.

DEL PRIORE, Mary. História das Mulheres no Brasil. Ed. 3º, São Paulo: Contexto, 1997.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1990. 101p.

LAFER, Celso. Hannah Arendt. In. CARDIN, Carlos Henrique. Teoria Política. Brasilia: UNB, 1979. p.185-185.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. MANUAL DE HISTÓRIA ORAL. Loyola, São Paulo, 1996.
NAVEIRA, Olívia Pavani. Os Annales e as suas influências com as
Ciências Sociais
. Disponível em: http://www.klepsidra.net/klepsidra16/annales.htm. Acesso em: dez. 2013.

PERROT, Michelle. Minha História das Mulheres. Tradução Ângela M. S. Côrrea. São Paulo: Contexto, 2007.




1 Historiadora, Pós-Graduada em História e Acadêmica do curso de Direito da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas - FACISA.

2 Doutor em Ciências Sociais - UFCG. Professor do curso de Direito da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas - FACISA e Pesquisador Bolsista do CNPq - Nível C.

3 O movimento cultural de maio de 1968 na França nasceu de uma greve geral contra medidas governamentais do presidente Charles De Galle, principalmente em função das reivindicações estudantis e das minorias sociais, como negros, estrangeiros e mulheres à época (VALLADARES; BERBEL, 1994, p. 92).

4 Disponível em: http://www.umarfeminismos.org/feminismos/docs/simonebeauvoir.htm. Acesso em: dez. 2013.


5 Disponível em: http://www.klepsidra.net/klepsidra16/annales.ht. Acesso em: dez. 2013.

6 Neste caso, a vita activa serve de terminologia para representar as responsabilidades da esfera pública, de modo especial às ações política, mas sem deixar de lado o conjunto das atividades ligadas a preservação da vida e das atividades humanas.

7 Cf. Os gregos já expressavam esse entendimento quando experimentavam a vivencia na polis composta de cidadão a partir do séc. V a.C. Morrer é viver no isolamento, na condição de privação “viver uma vida inteiramente privada significa, acima de tudo, ser destituído de coisas essenciais à vida verdadeiramente humana” (Op. Cit., p. 68).



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