Teleologia, Darwinismo e Economia Evolucionária: a controvérsia acerca do papel da Seleção Natural no comportamento da firma



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Teleologia, Darwinismo e Economia Evolucionária: a controvérsia acerca do papel da Seleção Natural no comportamento da firma



  1. Introdução

O uso disseminado do termo “economia evolucionária” é uma característica marcante do presente estágio das idéias econômicas. Apesar das raízes desta concepção estarem presentes nos desenvolvimentos do institucionalismo original de Thorstein Veblen e John Commons, as idéias evolucionárias que permeiam o pensamento econômico atual não estão necessariamente associadas ao apelo vebleniano de construir uma ciência econômica fundada em um ideal “pós-darwiniano” (Veblen, 1898).

Se num certo sentido, a difusão do termo “economia evolucionária” é uma característica típica do desenvolvimento atual das ciências econômicas1, por outro lado, apesar desta evidente popularização, constata-se que o rótulo “economia evolucionária” é recorrentemente esvaziado de sentido, uma vez que o termo não carrega consigo uma concepção “evolucionária” claramente definida.

Entender o conceito de “economia evolucionária” como uma abordagem que compreende os processos de desenvolvimento como transformação estrutural é, segundo Hodgson (1998), usual nas ciências econômicas. Porém, tal definição, sendo extremamente geral, permite pouca, senão nenhuma possibilidade de demarcação clara entre quais concepções econômicas podem ser compreendidas como “evolucionárias” e quais não2. Ademais, nos dias atuais, o uso do termo aparece ainda com menos restrições do que a dada pela definição geral acima, uma vez que muitos economistas publicam trabalhos em que utilizam a palavra “evolucionário” como mero sinônimo de algum tipo de consideração dinâmica. (Witt, 2008; Hodgson, 2001).

Diferentemente do que ocorre na Economia, nas ciências biológicas não ocorrem controvérsias sobre o estatuto e alcance da perspectiva evolucionária. Na Biologia produziu-se historicamente um robusto consenso científico, a partir do pioneirismo de Darwin (1859), acerca dos princípios e mecanismos que guiam os processos evolucionários. Tanto é assim, que cremos que, se existe uma forma de pensamento evolucionário apropriado para compreender os processos de mudança em diferentes arenas, para além da biológica, esta reside não no plano das analogias, mas sim num nível mais profundo, como um componente ontológico darwiniano que permite uma explanação unificada dos processos mais gerais dos fenômenos evolucionários.3

Portanto, este trabalho parte destes dois argumentos: o primeiro, de que atualmente observa-se um fenômeno de disseminação terminológica associado a um recorrente esvaziamento de sentido da idéia de “economia evolucionária” e, o segundo, de que a abordagem darwiniana conforma um código de ciência que comporta os princípios fundamentais de uma perspectiva verdadeiramente evolucionária.

Nesse sentido, a proposta deste artigo é entender, a partir de uma concepção fundada nos princípios que guiam o pensamento evolucionário darwiniano, um momento específico da história das idéias econômicas, identificado aqui como um período-chave para a compreensão dos caminhos que a perspectiva evolucionária seguiu nas ciências econômicas. Assim sendo, o artigo irá analisar de forma crítica a utilização do argumento da Seleção Natural dentro de um importante debate ocorrido em meados do último século, conhecido pelo rótulo de controvérsia marginalista. Desta forma, a apartir das concepções evolucionárias contidas no artigo de Alchian 1950, intitulado Uncertainty, Evolution and Economic Theory, procuramos mostrar como esse trabalho abriu caminho para duas abordagens “evolucionárias” distintas, cristalizadas nos trabalhos de Friedman (1953) e Winter (1964).

Partindo da caracterização do processo de Seleção Natural e de sua relação com a hipótese de maximização de lucros apresentada por Alchian (1950), analisaremos quais foram os desenvolvimentos teóricos decorrentes de tal construção elaborados tanto pela abordagem neoclássica, representada por Friedman (1953), quanto pela visão neoschumpeteriana, de Winter (1964). De forma paralela, o artigo buscará pontuar os fundamentos que caracterizam a metodologia evolucionária darwiniana, permitindo assim analisar as relações entre as distintas visões de Seleção Natural e maximização dentro da controvérsia marginalista, com os princípios evolucionários que governam a perspectiva darwiniana. Desta forma, buscaremos verificar a repercussão dos desenvolvimentos da biologia evolucionária sobre as idéias econômicas geradas neste debate específico e, ao mesmo tempo, analisar a consistência destas idéias a partir de um ponto de vista estritamente darwiniano.

Buscando alcançar estes objetivos o artigo compõe-se de seis itens, além desta introdução. No segundo item organiza-se uma breve revisão dos principais desenvolvimentos da biologia evolucionária construídos durante a primeira metade do século XX, destacando o que ficou conhecido como a “teoria sintética da Evolução”, tida como o maior avanço do pensamento evolucionário ocorrido desde a publicação da Origem das Espécies (1859). Tal revisão histórica é essencial, pois trata exatamente da síntese final dos fundamentos do pensamento evolucionário moderno, pensamento este que influenciou fortemente a controvérsia marginalista através do trabalho de Alchian (1950) e as concepções de “economia evolucionária” desenvolvidas posteriormente. No terceiro item serão revisadas as idéias fundamentais do argumento de Seleção Natural e a idéia da firma maximizadora de Alchian (1950), assim como as decorrências teóricas desenvolvidas no trabalho de Enke (1951). No quarto item, apresenta-se o refinamento neoclássico destas idéias de fundo evolucionário, consubstanciado no trabalho de Friedman (1953). Procura-se evidenciar que Friedman altera a concepção de maximização de lucros do formato “animista” para uma hipótese “teleológica”, no sentido da crítica vebleniana. Na seqüência, no quinto item, elencam-se as principais críticas a esta concepção essencialista do argumento de Seleção Natural, evidenciando que esta abordagem não é compatível com os fundamentos teóricos das ciências evolucionárias modernas. No sexto item, analisa-se o conciso modelo evolucionário geral de Winter (1964), procurando evidenciar como esta construção pode ser legitimamente caracterizada como evolucionária e darwiniana, conquanto passível de ser compreendida a partir dos elementos metodológicos da “teoria sintética da Evolução” e das categorias analíticas darwinianas. Finalmente, num sétimo e último item organizam-se as considerações finais.





  1. Os desenvolvimentos científicos da biologia evolucionária: a teoria sintética da Evolução

O artigo de Alchian (1950) foi seminal para o debate acerca do argumento da Seleção Natural e a maximização de lucros da firma neoclássica. Os desenvolvimentos científicos daquele momento, principalmente no campo da biologia, foram extremamente propícios para a elaboração e a aceitação de sua analogia evolucionária.

Hodgson (1998) é claro em apontar que a idéia de Alchian era fruto de um momento de efervescência evolucionária nas ciências biológicas: “Capitalizing on the triumph of a new Darwinian biology, he made an explicit appeal to the metaphor of natural selection” (Hodgson, 1998: xxi).

Nesse sentido, é necessário compreender que durante a primeira metade do século XX, as ciências biológicas estavam realizando um profundo processo de reorganização e sistematização, que redefiniu as bases metodológicas da abordagem darwiniana. As palavras de Simpson (1947) enfatizam a importância desse momento histórico para o pensamento evolucionário:

Cabe ao futuro julgar, mas parece provável que se fez ultimamente maior progresso real na compreensão dos processos evolutivos do que em todos os séculos precedentes de estudos somados” (SIMPSON, 1947: 53).

De forma breve pode-se dizer que do início do século XX até os anos 30, vigorou um verdadeiro dilema a respeito da teoria da evolução darwiniana. Os naturalistas (paleontólogos e morfólogos) não estavam suficientemente familiarizados com os avanços da genética dos primeiros pesquisadores mendelianos e, através de suas observações, entendiam que as mudanças na natureza se davam de forma gradual: “(...) são contínuas, graduais – em geral não se observam mudanças súbitas e pronunciadas – progressivas e orientadas, continuam na mesma direção durante longos períodos” (Carter, 1953: 62). Os primeiros geneticistas, ao contrário de seus pares naturalistas e ignorando a rica literatura sobre variação geográfica e especiação, entendiam as mutações como rápidas e de grandes proporções, porém na maioria das vezes degenerativas, resultando mais em perdas do que na elaboração de estruturas. Mayr (2006) assinala desta forma a disparidade entre as abordagens destes grupos:

Os dois grupos lidavam com níveis hierárquicos diferentes: os geneticistas com a variação intrapopulacional ao nível gênico, os naturalistas com a variação geográfica das populações e das espécies. Quando geneticistas e paleontólogos, ou, geneticistas e taxonomistas se reuniam naquela época, as suas respectivas experiências eram tão diferentes que eles, aparentemente, eram incapazes de se comunicar uns com os outros” (MAYR, 2006: 133).

Assim sendo, ficou patente que faltava um fundamento lógico à teoria de Darwin que unisse estas perspectivas díspares e, de alguma forma, nesse momento, começava-se até mesmo a duvidar que a teoria darwiniana tivesse validade geral (Jablonka e Lamb, 2005: 21). A problemática girava em torno de duas questões centrais da teoria da Evolução: a primeira, era que não havia evidências diretas de que a Seleção Natural operava na natureza; a segunda, era que havia pouca compreensão a respeito de como as leis da variabilidade e hereditariedade atuavam. Gould (1982) aponta para o antagonismo das diferentes abordagens decorrentes deste momento específico:

Battles of the late nineteenth century had pitted two primary contenders against each other: 1) Darwinian natural selection, with its insistence upon random variation as raw material and selection as creative force; and 20 a host of otherwise disparate alternatives, including neo-Lamarckism and various styles of orthogenesis and vitalism, that proposed a creative role for variation itself and relegated natural selection to an executioner’s task as eliminator of the unfit” (GOULD, 1982: xviii)

Foi objetivando resolver estes pontos de conflito sobre a teoria darwiniana que, entre a década de 1930 e 1950, ocorre o que ficou conhecido como a segunda “Revolução Darwiniana”, a qual fundou as bases do desenvolvimento das ciências biológicas nos termos conhecidos atualmente. Desta forma, durante os anos 30, começou a ser construído o que conhecemos como a “síntese moderna da biologia evolucionária” ou simplesmente “teoria sintética da Evolução”. Tal desenvolvimento foi resultado de um esforço conjunto de especialistas de diferentes ramos das ciências biológicas, centralizado principalmente nos EUA.

Impelidos pela necessidade de coordenação e síntese, estes pesquisadores buscaram compreender as inter-relações dos diferentes aspectos da evolução. A superação das barreiras entre as especialidades dentro das ciências biológicas e a sua integração dentro de um arcabouço explicativo geral foi a característica fundamental deste processo aglutinador4. Assim sendo, foram criados diversos órgãos de pesquisa, principalmente nos EUA, que levaram a frente tais estudos:

Nos EUA , ele foi empreendido pela Comissão sobre Problemas Comuns de Genética, Paleontologia e Sistemática do Conselho Nacional de Pesquisa. Os trabalhos das comissões foram ampliados e colocados em base permanente com a fundação de uma Sociedade para o Estudo da Evolução (em 1946).” (SIMPSON, 1947: 52)

Segundo Mayr (2006), a síntese não foi propriamente uma revolução científica, mas foi uma unificação de campos de estudos evolucionários sob uma linguagem comum. Tal unificação foi caracterizada “nem tanto por novos conceitos revolucionários, mas mais por um processo de saneamento e pela total rejeição de várias teorias errôneas e crenças que haviam sido responsáveis por divergências anteriores” (Mayr, 2006: 135).

A idéia central desta síntese científica girava fundamentalmente numa combinação entre as contribuições dos trabalhos de Weismann e Mendel5: “Weismann´s ultra-Darwinism was combined with Mendelian genetics, which had adopted the concept of gene as the hereditary unit of biological information” (Jablonka e Lamb, 2005: 24). Hodgson (1998) assinala, neste mesmo sentido, a contribuição teórica fundamental proveniente deste processo de síntese que revolucionou as ciências evolucionárias:

Only then did the Mendelian gene became fully incorporated into the theory of evolution, giving a plausible explanation of the presumed variation of offspring and the selection of species. This had not been achieved by Darwin or any other nineteenth-century biologist”. (HODGSON, 1998: xxi).

Através da idéia de que existe um processo de mudança evolucionária gradual, onde pequenas diferenciações, ou diferenciações maiores, nos cromossomos e, por conseqüência, nos indivíduos são sujeitas à seleção conciliou-se a perspectiva genética com a teoria da evolução darwiniana. De forma concisa, pode-se explicitar os conceitos desta abordagem sintética através dos seguintes pontos:



  • A herança se dá através da transmissão de genes, as unidades dos cromossomos. Os genes possuem informação sobre as características dos indivíduos e são o substrato físico da hereditariedade;

  • A variação (mutação) é derivada de mudanças acidentais nos genes decorrentes da falta de precisão na propriedade básica de auto-reprodução6;

  • A seleção ocorre sobre os indivíduos e depende da interação entre os ambientes e os fenótipos destes indivíduos7.

O gene, como fica evidenciado nos pontos explicitados acima, é o elemento principal que governa o processo de mudança na teoria sintética da Evolução. Huxley (1954) é claro em mostrar a “supremacia” do gene como unidade de análise evolucionária:

Um único mecanismo básico fundamenta toda a evolução orgânica: a seleção darwiniana agindo sobre o mecanismo genético. A seleção darwiniana é um princípio estabelecido, mas atua conforme a natureza do mecanismo genético”(HUXLEY, 1954:22).

Durante as décadas de 1940 e 1950, devido aos avanços da bioquímica, a teoria sintética da Evolução foi complementada pelas descobertas da biologia molecular. A constatação de que o ácido desoxirribonucléico (DNA) era a única substância hereditária nos processos biológicos e que havia um fluxo unidirecional de informação do DNA para as proteínas, mudou a forma de o homem pensar o gene. O DNA passou a ser reconhecido como regulador das atividades do gene e não apenas um codificador de proteínas e a relação entre genótipo e fenótipo passou a ser a relação entre plano e produto8.

A síntese moderna da biologia evolucionária lançou o estudo acerca da evolução a um novo patamar analítico. Os estudos genéticos ocuparam as difíceis “lacunas” teóricas da evolução da concepção de Darwin, explicando de forma consistente como se davam os processos de herança e mutação. Dobzhansky (1937) é claro em apresentar o caráter complementar da perspectiva genética na teoria da Evolução de Darwin:

Evolution is a process resulting in the development of dissimilarities between ancestral and descendant populations. The mechanisms that determine the similarities and offspring constitute the subject matter of genetics” (DOBZHANSKY, 1937: 9)

É paralelo a este contexto, de construção das teses centrais que guiaram a partir de então o pensamento das ciências biológicas, que a idéia acerca da Seleção Natural aplicada à hipótese de maximização de lucros da firma surgiu e foi desenvolvida. Como veremos, as repercussões dos avanços da biologia evolucionária deste momento histórico apareceram de forma variada no debate econômico deste período. Nesse sentido, podemos dizer que a controvérsia marginalista apresentou diversos argumentos evolucionários, muitas vezes apenas como efeito retórico, abstendo-se de uma abordagem verdadeiramente inspirada numa perspectiva darwiniana.




  1. O argumento da Seleção Natural e a maximização

Entre as décadas de 1940 e 1960, a sistematização alcançada pela economia neoclássica acerca da natureza e dos objetivos da firma fez emergir um profícuo debate sobre a validade dos fundamentos metodológicos dessa abordagem. A ampla discussão sobre o estatuto científico e os preceitos metodológicos da teoria da firma ficou conhecida como a controvérsia marginalista9 que ecoou nas interpretações surgidas na década de 50 no âmbito da teoria da firma nos trabalhos de Baumol, Cyert e March e Marris.(Screpanti e Zamagni, 1997: 387 e Mongin, P. 1997).

O trabalho de Alchian (1950), Uncertainty, Evolution, and Economic Theory foi um dos trabalhos seminais nesta discussão. Sua contribuição, largamente influenciada pelos desenvolvimentos da biologia evolucionária vistos no tópico anterior, foi extremamente influente nas abordagens subseqüentes, tanto na sua vertente neoclássica quanto em vertentes mais heterodoxas.

O “argumento da Seleção Natural”, conhecido também como hipótese da viabilidade, foi uma analogia biológica utilizada por Alchian (1950) e complementada por Enke (1951), para caracterizar o processo de competição capitalista entre as firmas. Através desta construção, Alchian buscou reformular as concepções acerca do comportamento da firma, afastando-se, de alguma forma, da abordagem fundada na maximização de lucros da teoria ortodoxa.

Alchian (1950) defende que a hipótese de maximização de lucros não é estritamente necessária como ferramenta explicativa dentro da teoria econômica. Segundo o autor, os agentes operam num mundo caracterizado pela incerteza, onde a maximização de lucros não é um guia de ação factível. A imprevisibilidade dos fenômenos econômicos, conjuntamente com a inabilidade humana de trabalhar com um grande número de variáveis, compromete a concepção de firmas como entidades maximizadoras de lucros. Assim sendo, Alchian restringe a hipótese de maximização apenas a uma idéia de mundo onde não exista incerteza: “The only way to make profit maximization a specifically meaningful action is to postulate a model containing certainty” (Alchian, 1950: 255).

Nesse sentido, Enke (1951) também focou na incerteza para defender que a hipótese de maximização de lucros, no curto prazo, é inaceitável:

The explanation of this unreasonableness is not simple ignorance of the logic of profit-maximizing theories or the practical impossibility of knowing all the relevant functions of the moment and relating them to another. It is also that, in the face of future uncertainty, the profit-maximizing motive does not provide the entrepreneur with a single and unequivocal criterion for selecting one policy from among the alternatives open to him” (ENKE, 1951: 567)

A crítica de Alchian (1950) e Enke (1951) à hipótese de maximização de lucros, como bem observado por Hodgson (1998), encontra paralelo na crítica aos fundamentos da economia neoclássica levantados na obra de Thorstein Veblen. Nesse sentido, vale lembrar que a idéia de que a economia neoclássica imputa às firmas e aos indivíduos a lógica do “cálculo hedonista”, determinado sob um formato “animista” é a base da crítica vebleniana 10. Alchian, apesar de não dar créditos a Veblen, retoma a crítica deste autor e propõe como alternativa a retirada deste “animismo” com as vestes da maximização dos fundamentos do comportamento da firma. Por sua vez, Enke (1951) argumenta que apesar da firma se comportar buscando maximizar lucros, considerar que ela realmente os maximiza é uma coisa completamente diferente: “It is impossible for each isolated firm to maximize profits... The fundamental difficulty is that a desire to maximize profits does not provide the entrepreneur with an action prescription” (Enke, 1951: 568).

O argumento da Seleção Natural de Alchian (1950) é construído sobre a concepção de que as firmas buscam uma solução satisfatória ou lucros positivos, mas não necessariamente lucros máximos. Substitui-se, portando, a rigidez da pré-concepção do comportamento maximizador neoclássico pela resultante de processo de competição determinado pela busca de lucros. O sucesso, ou viabilidade, das firmas depende desta forma de sua sobrevivência num sistema econômico em que

Realized positive profits, not maximum profits, are the mark of success and viability. It does not matter through what process of reasoning or motivation such success are achieved. The fact of its accomplishment is sufficient. This is the criterion by which the economic system selects survivors: those who realize positive profits are the survivors; those who suffer losses disappear” (ALCHIAN, 1950: 255).

Assim sendo, Alchian (1950) aponta para as diferenças de lucros entre as firmas como critério geral de um processo de seleção de mercado onde somente as empresas lucrativas prosperam. É importante compreender nesse sentido que para Alchian (1950) a competição levaria a resultados bons, mas não necessariamente aos melhores (Anderson, 1988).

Assim sendo, Alchian retira de sua abordagem o fundamento de maximização defendido pela teoria neoclássica, substituindo-o pelo argumento da Seleção Natural onde: “The crucial element is one´s aggregate position relative to actual competitors, not some hypothetical perfect competitors” (Alchian, 1950: 213).

Hodgson (1994) destaca a importância desta abordagem pioneira de Alchian:

Alchian sees the idea of evolutionary selection less as a buttress and more as an alternative to the assumption that individual firms are attempting to maximize their profits” (HODGSON, 1994: 415)

Buscando evitar compreensões equivocadas a respeito de sua metáfora biológica, entendida nos termos da teoria sintética da Evolução, Alchian (1950) é enfático em dizer que a sua abordagem, que utiliza explicitamente o termo “Seleção Natural”, não considera que a mutação dentro do processo evolucionário “econômico” é construída de forma randômica, semelhante à variação aleatória dos genes da síntese moderna da biologia evolucionária. Alchian destaca que é evidente que a firma possui elementos de previsão e motivação que produzem um comportamento deliberado, completamente diferente, portanto, da forma como a variação aparece no mundo biológico.

Apesar de reconhecer a especificidade da variação intencional no comportamento da firma, Alchian (1950) aponta que mesmo se não se levasse em consideração o comportamento deliberado das firmas e se fosse presumido, equivocadamente, que a alteração no comportamento das mesmas pudesse se dar de forma aleatória – como ocorre no construto da teoria sintética da Evolução – observar-se-ia que dentro do conjunto amplo das ações individuais haveria certamente comportamentos que seriam os “melhores” no sentido da adaptação às condições vigentes. Desta forma, o autor defende que mesmo se as firmas agissem sem um propósito definido, a Seleção Natural selecionaria aquelas empresas que obtivessem lucros positivos. Hirshleifer (1977), em comentário a esta visão, complementa: “the environment would nevertheless select (“adopt”) relatively correct decisions in the sense of meeting the positive realized profit condition of survival” (Hirshleifer, 1977: 9)

A proposta de Alchian (1950) para entender o comportamento das firmas é compreendê-las como seguidoras de regras. Desta forma, o autor busca identificar regras de ação que estariam entre a variação de comportamento aleatório e seu oposto, ou seja, a hipótese maximizadora de lucros. Assim, Alchian traça dois comportamentos factíveis para as firmas: o comportamento imitativo e o comportamento baseado em tentativa e erro.

A explicação acerca do comportamento baseado em tentativa e erro chega a uma conclusão surpreendente, que abre um precedente teórico para uma nova concepção econômica acerca do comportamento maximizador da firma:

This has been used with ‘profit maximization’, wherein, by trial an ensuing success or failure, more appropriate actions are selected in process presumed to converge to a limit of ‘profit maximization’ equilibrium” (ALCHIAN, 1950:261).

A regra de ação baseada na tentativa e erro, portanto, abre uma perspectiva controversa na idéia de Seleção Natural na Teoria da Firma: no “limite” as firmas selecionadas tenderão a ser aquelas que maximizam11. Enke (1951) concorda com esta idéia e a desenvolve. Este autor argumenta que as forças que fazem a competição se ajustar no longo prazo acabam selecionando as firmas que alcançam lucros máximos, sendo que tal resultado ocorreria como uma decorrência lógica do processo de competição capitalista. Neste sentido, Hirshleifer (1977) sintetiza a visão de Enke:

As firms pursuing successful policies expand and multiply, absorbing a larger fraction of the market, a higher and higher standard of behavior becomes the minimum criterion for competitive survival. In the long run, viability dictates optimality” (HIRSHLEIFER, 1977: 10).

Porém, Enke (1951) pondera que o longo prazo, que ditaria a proeminência de comportamentos ótimos, não é algo temporalmente alcançável:

Unfortunately, as is well known, long run equilibrium is in practice never attained. The processes of long-run adjustment are always being interrupted, before they work has been completed, by some new autonomous event” (ENKE, 1951: 571).

Apesar disto, Enke (1951) assinala, no mesmo sentido de Alchian (1950), que o economista, conhecedor das tendências de longo prazo, poderia prever como as firmas se ajustariam com o passar do tempo. Se no longo prazo em condições de concorrência perfeita os participantes do mercado obtêm apenas lucros normais, não haveria espaço para comportamentos sub-ótimos, ou seja, somente sobreviveriam as firmas que adotassem regras maximizadoras de lucros. Nesse sentido, Enke, opinando sobre a teoria da concorrência monopolista de Chamberlin (1933), assinala a tendência de que somente as firmas com lucro máximo sobrevivam:

Professor Chamberlin´s use of marginal analysis in his theory of ‘monopolistic competition’ is acceptable as an approximation; surviving firms compete sufficiently that long run profits must be meager, and when profits are meager there is little latitude for suboptimum policies” (ENKE, 1951: 577)

Uma decorrência da idéia de Alchian (1950) e Enke (1951) é a abordagem realizada por Friedman (1953), que refunda a hipótese da maximização de lucros baseada nos termos “evolucionários” explicitados acima. Na seqüência buscaremos compreender os pontos fundamentais da intervenção de Friedman, a qual foi especialmente influente como argumento de defesa da concepção de maximização neoclássica dentro da controvérsia marginalista.




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