Tempo, sonho, trabalho e reencantamento. Temporalidades psicodramáticas para a contemporaneidade resumo



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Pedro Henrique D’Avila Mascarenhas




TEMPO, SONHO, TRABALHO E REENCANTAMENTO. TEMPORALIDADES PSICODRAMÁTICAS PARA A CONTEMPORANEIDADE

Resumo: O artigo discute a questão do tempo a partir de uma sessão de psicodrama público realizada no Centro Cultural São Paulo em 2009. Discute a teoria moreniana do momento, os conceitos de moleculariedade e molaridade da multiplicação dramática, a insignificância de Castoriades e o trabalho invisível de Dejours.

Abstracts: The article discusses the issue of time from a public psychodrama session held at the Centro Cultural São Paulo in 2009.Discusses the Moreno theory of the moment, the concepts of molarity and moleculariedade of the dramatic multiplication, the insignificance of Castoriadis and the invisible work from Dejours.

Palavras-chaves: psicodrama, multiplicação dramática, ponto de vista molecular e molar do diretor, insignificância, trabalho invisível, tempo.

Key words: psychodrama, dramatic multiplication, molecular and molar director`s points of view, insignificance, invisible work, time.
Introdução

Painéis na exposição: “As palavras e o mundo” no SESC Pompéia, em Julho de 2010.

As crianças brincam com as palavras, como vemos nestes painéis da exposição “As palavras e o mundo”. Curiosas, brincando tentam se introduzir nesta questão do tempo e das palavras. Brincando, o prazer de pensar vai se desenvolvendo.

O tempo é uma questão complexa. As palavras produzidas por poetas e filósofos são as que, a meu ver, melhor se aproximam do tema. Por isso vou recorrer a elas neste trabalho.

J.L. Moreno situa esta questão na teoria do momento. Como poderemos ver diversas formas de temporalidade estão em jogo. Elas são diversas e heterogêneas. Como isto se reflete no nosso trabalho de psicodramatistas? Apresento neste texto uma discussão sobre este tema, baseado numa sessão de psicodrama público realizada no Centro Cultural São Paulo, em 2009, dirigida por mim.

O tempo, como veremos, numa sessão de psicodrama varia profundamente. Qualquer que seja o estilo do diretor e o seu procedimento escolhido, seja psicodrama específico ou sociodrama ou qualquer outro que se identifique, não importa, a variação do tempo permanece. Não é o mesmo tempo para o diretor, o protagonista e o grupo. Também podemos observar que não é o mesmo no aquecimento, na dramatização e no compartilhar. Diversos tempos se entretecem.

Para vislumbrar este entretecido, como aquecimento para nos sensibilizar para novas visões, iniciamos o texto com indicações de algumas temporalidades: da crítica esportiva, uma interpretação sobre a partida que o Brasil perdeu no último mundial de futebol na África do Sul; da literatura, a temporalidade borgeana; da crítica psicanalítica, a temporalidade da insignificância de Castoriadis e uma breve visão histórica cronológica das temporalidades, segundo, Peter Pal Pelbart e Pierre Levi.

Temporalidade da derrota da seleção canarinho

Quando o Brasil perdeu para a Holanda, em Junho de 2010, pensei: o Brasil não perdeu para a Holanda, perdeu para si mesmo, parou de jogar no segundo tempo, após o gol contra e a Holanda não fez por merecer ganhar. Coisas do futebol. Dias depois deparei com uma crônica esportiva no jornal, da qual reproduzo o trecho a seguir:

“As culturas arcaicas se baseiam numa concepção cíclica do tempo e da vida. É como se o tempo não avançasse de modo linear, mas retornasse eternamente sobre si mesmo, como as estações do ano e as fases da lua. Seus rituais atualizam, como se fosse a primeira vez, acontecimentos antigos: a criação do mundo, a descoberta do fogo, a coroação do primeiro rei. No imaginário que envolve o futebol, agimos como essas civilizações ditas primitivas: estamos sempre no mesmo lugar. Maracanã, 1950. (...) State de France, 1998(...) Da onipotência à impotência, sem escalas. O terceiro ritual de atualização dessa síndrome bipolar, não preciso dizer, aconteceu no último dia 2, em Port Elizabeth, África do Sul.”

A força do imaginário futebolístico emerge para estupefação da torcida. Molda cada ação de cada personagem. Está ali para quem quiser ver. De repente Maracanã, 1950, Maracanaço de novo?

O que faz com que fiquemos submetidos tragicamente a tão primitiva temporalidade?

Felipe Melo fazendo falta no adversário no jogo contra a Holanda em 2010 e o final da copa de 1950, episódio conhecido como Maracanaço.


Temporalidade borgeana 

"And yet, and yet... Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino (...) não é terrível por ser irreal; é terrível porque é irreversível e de ferro. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; eu infelizmente sou Borges.

Amigo já basta. Se queres ler mais,

vai e faze de ti mesmo a escrita e de ti mesmo o Ser. (...)", pag 78

Este texto aponta para esta rede temporal entrecruzada que nos envolve e quando queremos conhecê-la, só nos resta apontá-la de dentro deste turbilhão, e concomitantemente sentir seu impacto em nós mesmos.


“O tempo é a substância de que sou feito.” O impacto da passagem do tempo segundo cenas seqüenciais onde apareço, 1950, 1967 e 2010.

O desafio é transformar este impacto em criação. Já que são profundamente férteis as possibilidades deste turbilhão.

Por outro lado, contrariamente à concepção de tempo borgeana, isto é sua temporalidade, já é lugar-comum, hoje em dia, afirmar como tudo está tão vertiginosamente rápido. Como nossa experiência de presente aparentemente sem memória e sem futuro aponta para uma destemporalização cronológica, histórica, e nos joga numa insignificância sem precedentes.



Temporalidade da insignificância

O termo insignificância aqui está no sentido que Castoriadis a emprega, isto é, principalmente como ausência de conflito social e político. Ana Maria Fernández propõe acrescentar e detalhar esta concepção de insignificância somando a esta ausência de conflito social e político a crise dos modelos identificatórios, a impunidade dos esquemas de poder dominantes e a barbarização dos laços sociais, tanto públicos como privados , pag. 45-49. Assim caracterizado o chamado avanço da insignificância nos aponta para uma outra temporalidade da nossa contemporaneidade que promove novos modos de alienação na nossa sociedade.

Então, por um lado, a submissão trágica da seleção canarinho; por outro lado, o tempo borgeano, este redemoinho turbilhonado fértil; por outro ainda, o tempo do abismo da insignificância, do esgotamento de significações com esvaziamento de sentidos.

Vamos reter estes aspectos aqui apontados e caminhar pelo nosso trabalho contemporâneo de psicodramatistas. Antes, porém para nos aproximar deste temporal que nos turbilhona, que é esta questão do tempo, vamos, inicialmente, ver como essa experiência varia ao longo da história. Vamos colocar uma ordem cronológica, uma ordem vetorial histórica nesta questão do tempo.



A temporalidade segundo o tempo cronológico

Peter Pál nos apresenta, junto com Pierre Levi, uma classificação da sociedade em três tipos: 1) a primitiva, baseada na transmissão oral, 2) a civilizada na transmissão escrita, e 3) a contemporânea baseada na transmissão informática. Três tipos de sociedade, três modos de comunicação e transmissão e três modalidades temporais .

Na sociedade primitiva (como vimos na crítica esportiva de Couto a respeito da seleção brasileira de futebol) a repetição oral, com o seu incessante recomeço, compõe a experiência de tempo circular.

Segundo Orlando e Claudio Villas-Bôas, no Parque Nacional do Xingu:




“Pode-se mesmo dizer que, para o índio, o tempo não existe. Em que poderia interessar ao índio a contagem do tempo? Em nada, absolutamente nada. Para o “civilizado” o tempo é uma coisa marcada, contada minuto a minuto. Para o índio, continuam não existindo dias, semanas, meses, e anos. Existe, isto sim, o fluir silencioso das horas. Integrado ao meio, vive o presente.”


“Para o índio aldeado, o futuro é imediato. O tempo – como nós o entendemos, dividido em dias, semanas, meses e anos – para ele não existe; levado como é pela maré silenciosa das horas que passam, é integrado ao seu ambiente, num perene presente.”

Na sociedade civilizada com o surgimento da escrita, uma mudança se produz. A acumulação quase infinita do que pode ser transmitido rompe o tempo circular. A instauração da memória coletiva aponta para a flecha histórica. Com o surgimento do alfabeto e da impressão, a articulação do tempo se torna linear e histórica com passado, presente e futuro.   

Na sociedade informatizada, a rede de dados se atualiza a cada instante. Aqui com os modelos do hipertexto e da multiplicidade, a experiência rizomática do tempo se amplia.

Circular, vetorial e rizomática são imagens esquemáticas geométricas e discriminadas que nos apontam para um universo que é muito mais contínuo nas suas variações.   

Bem, agora sim, com os apontamentos anteriores da temporalidade canarinha, borgeana e da insignificância castoriadiana, mais este ordenamento cronológico histórico das concepções de tempo podemos iniciar uma observação singular: como podemos hoje olhar estas questões na nossa prática do trabalho clínico psicodramático? E qual é a sua importância?

Vou começar por um protocolo de uma sessão de psicodrama público no Centro Cultural São Paulo, ocorrida em Agosto de 2009, dirigida por mim.

Escolhi esta sessão em primeiro lugar por gostar dela. Em segundo, por trabalhar com o tema do sonho num psicodrama público. Penso que o sonho se por um lado é algo profundamente singular, único; por outro se trata de uma experiência comum a todos os humanos. Por fim articular a questão do tempo com sonho me pareceu ser um veio fecundo para pensar.

Desde 2003 este trabalho de psicodrama público no Centro Cultural São Paulo vem se desenvolvendo. Mais informações no site www.psicodramaccsp.wordpress.com. Vou descrever toda a sessão e depois retomá-la segundo critérios que vão nos interessar para esta exposição. O tema pré-estabelecido era: o sonho.



O protocolo  

Feitas as apresentações iniciais minhas, isto é, do diretor e da platéia contei um sonho que tive na última noite: sonhei que estava numa obra construindo a parte de comunicação; tinha que colocar os canos, por onde iria fluir uma comunicação, como se fossem conduítes. Os fios passavam por alguns lugares difíceis, e eu não sabia como fazer aquilo lá. Sentia aflição por não saber quando iria terminar. Talvez esta imagem tenha que ver também com outros trabalhos que estou fazendo, mas acordei pensativo neste aqui de hoje, do Centro Cultural.

Algumas das instruções que dei:

“Vamos dar um espaço para todos vocês chegarem aqui hoje: acomodar nas cadeiras e prestar atenção no corpo de vocês, parado, relaxado e mesmo assim com alguns movimentos involuntários, pequenos movimentos.”

“Pense em alguma palavra que expresse a sensação presente quando faz este exercício.”

“Abra os olhos e procure algum companheiro ao seu lado, desconhecido para conversar sobre estas sensações.”

“Procure outra pessoa que nunca veio aqui e converse sobre como é o trabalho aqui.”

“Convide a pessoa com quem acabou de conversar para vir aqui em cima no palco. Ande, cumprimente pessoas, ande de acordo com sua sensação de hoje, escolha um lugar para parar.”



Aquecimento específico:

“De olhos fechados procure um sonho inquietante, repetitivo ou não.”

“Escolha alguém que você não conheça, para compartilhar este sonho e formem pares para contar e ouvir estes sonhos.”

“Fale uma palavra de como estão se sentindo.”

Responderam: emocionante, nostalgia, alívio, tranqüilidade, medo, conexão, compreensão, imprevisibilidade, rigidez, curiosidade, equilíbrio, etc.

Escolha do protagonista:

“Quem quer contar este sonho para todos aqui neste grupo dá um passo para frente?” Dez pessoas se oferecem.  

“Mostrem com gestos e palavras soltas como é este sonho.”

“Faça o gesto e diga o nome.”

Depois,

“quem ainda quer detalhar mais a sua cena?”

Cinco permanecem. Passam a fazer o gesto mais expandido, congelá-lo numa postura estática e a platéia ressoa com ritmos e sons a cada gesto.

Após, os possíveis protagonistas se colocam lado a lado um do outro e a platéia se coloca atrás do gesto que mais a inquietou.



Início do trabalho com um protagonista:

Uma cena é eleita. Protagonista sente-se surpreso, estava com medo de se sentir excluído. É um sonho constante, duas vezes por semana se repete.

A última vez que sonhou foi na semana passada. Monta o quarto onde dorme, é uma sala. Mora com os pais. Descreve os quadros das paredes: um é uma foto dos pais, noutro são cinco fotos dele quando criança. Se pudesse mudar mudaria as fotos dele, mas dos pais deixaria.

“Um dos lugares que mais me conecto com o mundo, aqui tem tv, computador etc.”

“Antes de dormir o que pensa?”

“Na sexta-feira posso dormir até mais tarde. Vou poder fazer minhas coisas particulares. Fico pensando nas contas que terei de pagar durante a semana.”

“A produção do serviço está baixa e o chefe reclamando”

“Eu não rezo, sou agnóstico.”

Diretor- “Acabou de dormir e agora vamos entrar no seu sonho. Vou abrir uma cortina e entraremos no cenário do seu sonho.”

Protagonista – “Passou da meia-noite, tudo escuro e som da madrugada, não escuto nada. Só se escuta os murmúrios de longe: urrrr, urrrrr, urrr, de vários lugares.”

Diretor chama alguém para vir fazer o som.  

O protagonista continua:

“As paredes mal pintadas, cinza ou só tijolos. Estou numa fábrica. No começo parece que a fábrica está abandonada, parece vazia de gente viva, só eu. Eu quero sair e voltar para minha casa. Aqui é a junção de todos os lugares que trabalhei.”

“Parece um labirinto que não acho a saída”

“Tudo parece igual, eu só quero encontrar a saída. Parece conhecido. É noite e aparecem zumbis, mortos vivos que estão tentando me cercar e eu fugindo.”

”Fico mais angustiado, embora eu não tenha medo deles.”

Diretor chama alguém para fazer o papel dos zumbis.

Protagonista no papel de zumbi:

“salário, eu quero salário, urrr urrrrr. Mataram o chefe... trabalho...”  

“Sinto-me surpreso quando consigo passar o sonho assim.”

“Eu não quero ter contato com eles, não acredito que eles vão me matar, mas ficar perto deles não vai ser bom, eu quero sair daqui, eu quero sair eu já trabalhei, já fiz minha contribuição do dia quero sair daqui.”

“Tem que ter uma saída daqui, eu trabalho o dia inteiro saio da fábrica de noite volto para cá como estou aqui?”

“Parece que todos da empresa são zumbis.”

Diretor – Vamos sair do sonho e voltar para o seu sofá. Protagonista - “Às quatro da manhã tem que levantar e ir para o serviço.”

Diretor – “O que você pensa quando acorda?”

Protagonista – “é sufocante, me deixa ansioso. Eu não tenho decisão certa para tomar. Solidão no serviço, não existe assunto no trabalho. Todos estão preocupados em ganhar dinheiro. Tudo que eu faço eu não tenho com quem falar. Outro lado da moeda é que eu gosto de filme de zumbi. O Homero quando fez o primeiro filme de terror - A noite dos mortos vivos - fez uma crítica à sociedade e a partir daí, todos os bons filmes de zumbi fazem esta crítica à sociedade de consumo. É o paradoxo entre o morto e o ser vivo, o morto é só impulso, mas o ser vivo é pior é por ganância.”



Multiplicação dramática

Diretor –“Vamos ficar aqui neste canto e ver o que a platéia tem para produzir a partir disto.”  

Diretor – “Quem quer entrar no sonho dele? Quem quer vir andar no sonho dele?”

”Mostrem com o corpo como se sentem?”

”Um de cada vez vem mostrar aqui.”

Passo a descrever com algumas palavras cada cena apresentada. Isto talvez traga certo incomodo para o leitor poder acompanhar. Serão 38 cenas esboçadas aqui com poucas palavras cada uma, assim como no trabalho psicodramático as cenas também são somente esboçadas:

Cena 1 O quadro do pai e da mãe dele era lindo!

2 Sem saída, desespero.

3 Só falar: lembrei quando era pequeno, minhas fotos eu joguei fora. Eu tenho mania de destruir, eu mudo os objetos da minha decoração toda semana.

4 Chefe: dinheiro tilintando nas mãos.

5 Criança sozinha andando.

6 Morto vivo trabalhando.

7 Não faz assim não, não, não, não. Ele não sabe trabalhar.

8 Não me fale vou por aqui me tira da onda.

9 Será que não tem outras saídas?

10 Ah criancinha lindinha do papai!!!

11 Sonhos da minha cabeça todos fora, jogar fora.

12 Todo mundo aqui só trabalha, que saco!! Não agüento mais, só robô, automático.

13 Nem todas as fábricas são assim, esta é uma fábrica da segunda onda, nem existe mais. Comentário do protagonista: Cemitério é cemitério, pode ser feio ou bonito.

14 Expressão verbal.

15 Música: A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro não pela metade, a gente não quer só comer. A gente quer comer quer fazer amor, a gente quer prazer e aliviar a dor. Eu quero te oferecer esta música.  

16 Música: Eu me sinto tolo como um viajante por esta fábrica, pássaro sem asa rei da covardia.

17 Sou a única pessoa que gosta de trabalhar, por esporte, por passatempo, para me sustentar. Eu não falo mal da minha empresa. O dinheiro me fez valorizar e progredir. Trabalho é primordial. Ame o seu trabalho.

18 Cena da criança que sou eu mesmo; com medo travada e os zumbis cercam.

19 Pai dando sorvete para a criança e batendo na própria testa como se fosse um demente.

20 No quarto que é a sala tem um sofá e um computador, quarto dos pais, quadro da infância, mas tem uma porta por onde você pode abrir e ver outras coisas. Não tenha medo. Comentário do protagonista: eu imagino uma porta do inferno, eu tenho mais liberdade dentro na internet, a porta é a porta do inferno.

21Bom dia como foi o final de semana? Vamos Lá ao parque do Ibirapuera. Vai ser um dia maravilhoso. Comentário do protagonista: Resposta você é solteira e não tem que se preocupar com dinheiro, você não tem família por isso fica ai solto

22 Oi amiga tudo bem e aí. Vamos combinar um dia e ir ao parque

23 Caramba eu tenho prazer de ficar em casa, Papai comprou computador para mim eu quero ficar aqui. TV a cabo sou filhinho de papai.

24 Oi tudo bem?  Aí eu tô com duas mulheres aqui, você não gostaria de sair em vez de ficar ai mofando sem fazer nada? Não.

25 Boleto bancário da faculdade, olha as suas dívidas!

26 Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta!!! Posso ser eu de novo.

27 A minha faculdade está ali.

28 Música: japonesa para o protagonista que é descendente de japonês.

29 Vocês só têm que dizer: SIM MESTRE. Na sala de aula, professor se dirigindo aos alunos.

30 Isto é sonho ou realidade? Ou uma coisa só.

31 Eu sou gerente e vou mandar todos embora. Ele toma remédio. Ele leva muito a sério. Vai dar prejuízo nesta empresa.

32 Vamos brincar de farei tudo que seu mestre mandar, 10 polichinelos agora. Às vezes quando o sonho se torna realidade, quando tudo se transforma em Deus, Deus se transforma em gente. De castigo eu sou Deus tem que obedecer ao mestre, o chefe.

33 Música de Raul Seixas: Maluco beleza - Quando você se esforça para ser um sujeito normal, fazer tudo igual eu por meu lado aprendendo um maluco total, total maluco, controlando a minha maluques misturada com minha lucidez. Vou ficar, ficar com certeza maluco beleza ahahaha eu vou ficar com certeza ahahahah. Eu do meu lado aprendendo a ser louco um maluco total mas na loucura real controlando a minha maluquidez misturada com minha lucidez vou ficar ahahah...

34 Música: Quando eu era pequeno, eu achava a vida chata os garotos da escola só jogava bola e eu queria ir tocar guitarra na TV. Veio à adolescência e pintou a diferença foi difícil de entender A garota mais bonita também era a mais rica me fazia de escravão ao seu bel-prazer Hoje eu tenho um sonho, e ilusões e romance empolga aminha vida como um outro qualquer.

35 Fala sobre a sua dislexia. Dá uma aula aí. Eu andei tentando entender o que é. Como você vê as coisas. Eu não sei como você está me vendo. Dê uma aula de dislexia. 10% da população tem isto. Dez por cento são iguais a você, traz eles para o palco. Comentário do protagonista: Fazer propaganda da dislexia. No meu caso a dislexia atrapalha eu reconhecer algumas palavras. Eu não conseguia acompanhar. Montar uma história para mim é difícil. Mais com relação à troca de letras. Tem gente famosa que tem. Einstein, Tom Cruiser, etc...  

36 Algumas pessoas têm dislexia, outras têm neurose... Música: reparando bem todo mundo tem piolho, tem mundo zarolho, meia furada, sujeira atrás da orelha... Só a bailarina que não tem

37 Piada, mas não é próprio para menor.

38 Sou a mesma coisa que você, um espelho, sou eu. Vamos contar um grande segredo! Você tem 44anos e eu 32 e somos virgens sexualmente. Eu não agüento tanto tempo depois da idade de Cristo eu não agüento mais. Agora não é mais segredo. Tá ligado que você é igual a mim.



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Diretor chama o protagonista para sentar na beira do palco junto a si.

Pessoas da platéia se aproximam e dizem:

1 “Eu entendi o que você falou, dos teus sonhos da sua foto da sua mãe do seu pai, estas coisas todas. Eu irei ser seu amigo.”

 2 “Só o pessoal que não me conhece, eu estou vindo aqui há dez meses. Eu abri mão de um sonho que eu tive para ouvir os sonhos dos outros tentar assimilar tudo o que foi passado. Foi para ajudar você. Torço. Sobre mim estes zumbis são também meus tanto à noite como de dia e eu fico lutando para me livrar são relacionamentos que eu não consegui ter contato, me entender, pessoas que eu perdi. Seja porque elas não quiseram ou eu não quis. Aquela criança travada que fiz naquela cena, sou eu, não consigo falar.”

3 “Engraçado que você falou que ficou surpreso pela escolha. Você foi o protagonista. Parabéns por você ter se exposto. Eu também fico muito tempo no computador com dor. Vale a pena sair do computador. E abrir a porta.”

4 “Vê sua história e seu sonho se realizando aqui. Uma coisa que me marcou muito. Eu já fui zumbi. Quando agente não toma as rédeas da própria vida, sem parar para refletir a gente vai viver sem ser do jeito que queria. Eu vivi bastante tempo assim. Eu sofri um acidente em 2006 e a partir daí olha o baque que eu tive que passar. Não precisava. O mundo psi sai para trabalhar e às vezes não para fazer isso. É muito fácil ser zumbi, a gente é seduzido o tempo todo para ser zumbi.”

Comentário do protagonista: “A sua cena foi a que mais me chamou atenção, me ligou a outra questão: os pais fazem aquela mega festa, e diferente da expectativa deles, ela fica zumbi na festa dos pais. Levar a criancinha para tomar sorvete.”

5 (quem fez o papel de zumbi) “Muito corajoso o trabalho. Muito forte. Eu sou meio aventureiro, mas eu não teria coragem de estar no seu lugar. Não conseguiria, acho muito grande seu trabalho.”

6 Diretor – “quão zumbi em muitos momentos da vida eu sou. Eu sou um diretor zumbi ou vivo aqui no Centro Cultural? Às vezes quanto mais quieto estou, mais vocês trabalham entre vocês. Às vezes é zumbi e às vezes é vivo ficar quieto. Senti muito próximo de você aqui no psicodrama você não é virgem, eu te sinto muito presente.”



Psicodrama Público no Centro Cultural São Paulo

 A temporalidade na multiplicação dramática 

 “Para que uma experiência dramática se enquadre no conceito de multiplicação dramática é necessário que a experiência grupal siga uma determinada sequência, tal como:

1- relato de uma experiência pessoal, ancorada nas cenas temidas;

2- dramatização da cena do protagonista explorada com os recursos necessários, de preferência a partir de uma cena que tenha acontecido com o protagonista, levando em conta os focos do protagonista e do antagonista;

3- jogos dramáticos criados pelo grupo em estado de espontaneidade / criatividade inspirados na cena inicial e improvisações que cada integrante do grupo rea­liza aproveitando a ressonância que a cena inicial produz. ”

Como evidenciar a experiência de tempo nesta sessão? Vamos dividir a sessão em duas partes: a primeira até o item Multiplicação dramática inclui o relato de uma experiência pessoal e a dramatização da cena do protagonista; e a segunda parte daí até o fim inclui os jogos dramáticos criados pelo grupo.

Nesta primeira parte surge um cenário mais delimitado no tempo e no espaço, isto é, o protagonista está na sua sala/quarto numa noite da semana anterior, os elementos mais significativos do cenário se destacam, os quadros, suas sensações anteriores ao sonho estão presentes. No sonho, o tempo, embora fique menos marcado, seus traços com comentários sobre a fábrica e o trabalho ressaltam. Como diretor identifico basicamente dois cenários: o local onde se sonha e o sonho /fábrica. Cenários e personagens relativamente bem construídos que despertam a identificação da platéia. Um todo com uma narração mais ou menos unitária em torno da história do protagonista. Como diretor, trabalho com a pesquisa da interação sociométrica dos personagens concretizados. Papéis complementares, sujeito e objeto aparecem. O cenário é delimitado e o tempo também. Para o protagonista a vivência do espaço e tempo creio que se dá num arco. Numa das pontas o aqui e agora do palco do Centro Cultural no outro extremo do arco seu quarto, na semana anterior, no dia que sonhou e o sonho. O sonho aparece como uma cena dentro da cena. Outro espaço-tempo onírico. Para o diretor, a vivência de tempo e espaço é em parte coincidente com o protagonista e em parte não. O compromisso com o método psicodramático e o espaço e tempo do aqui e agora se impõem. Lembrança de autores colegas, textos, todos os presentes de alguma maneira.

Na segunda parte o que acontece com estes parâmetros de tempo e espaço? Aparece uma mistura de tempo e de espaço. Cenas fragmentadas. Algumas cenas se referem às apresentadas pelo protagonista, e a maioria não se refere diretamente ou explicitamente às suas cenas. Algumas cenas poderiam ser agrupadas, girando em torno de algo, enquanto outras divergem totalmente. Algumas dizem respeito a diversas faces de uma fábrica e outras não tocam nesta questão. Algumas cenas familiares com crianças. Algumas denotam uma intenção de ensinar ao protagonista como ele deve resolver sua questão e outras não passam por esta intenção. O protagonista responde a estas sugestões, na maioria das vezes discordando. Na maioria delas não é possível caracterizar uma data. Aparece a dúvida se isto é sonho ou realidade. Aqui temos uma profusão de cenas sem uma caracterização nítida do local, do protagonista, e do tempo, se passado, presente ou futuro, ou mesmo se esta é uma cena que aconteceu de fato ou se é inventada agora. Cenas para serem vistas de forma desarticulada, mas com grande capacidade de exploração e de criar vivências. Cenas que apesar de sua ligação com a inicial estão desarticuladas com o referencial inicial de tempo, espaço e personagem. Mas que evidenciam vias novas. Aqui não temos uma narração única, mas uma narrativa que está além de uma determinada história. Aqui aparece a potência de fabulação, independentemente se estamos num regime de verdade ou de ficção. Como diretor trabalho seguindo as intensidades de criação, não me preocupo com personagens, delimitação de tempo ou espaço, interações sociométricas, papéis etc. basta delinear alguma intensidade criativa.

Para as pessoas do grupo que olham o protagonista criar cenas a partir do envolvimento e do que irrompe em si mesmo, isto é, criar cenas para si mesmo, se defronta, uma vez criada a cena, com esta mesma cena roubada por outro, segundo outro envolvimento. Co-criações, cotemporalidades ou contemporaneidades! Segundo o Dicionário “o que viveu ou existiu na mesma época” ou ainda “o que é do tempo atual” .

Para mim, diretor desta sessão de psicodrama, a passagem entre um estilo de direção e outro, isto é, da primeira parte para a segunda parte, provoca um desabamento e uma queda num vazio. É como se quebrasse o leme do navio que estava até aqui dirigindo. Em alto mar, em plena travessia fico à deriva. Pior do que isto, eu, o próprio comandante do navio quebro o leme, me proponho a isto. Que loucura é esta? Um mergulho coletivo com uma vertigem assombradora é verdade, mas não só isto. E o resultado, ao contrário da metáfora criada, não é o soçobrar. Mas descobrir novas rotas. É como se este navio sem leme tivesse se transformado numa garrafa lançada por um náufrago, uma garrafa vazia, mas com mensagens dentro conseguisse pela força de sua imersão traçar novas rotas, novas linhas. Um mergulho no obscuro em busca de luz. A diferença dos pontos de vista do diretor de psicodrama vem sendo nomeada como molar e molecular .

Trabalhar nesta ruptura da passagem de um tempo histórico vetorial, isto é, com passado, presente e futuro delimitados, para um tempo rizomático é suportar a emergência de movimentos súbitos e inesperados de novos estados mentais e, portanto, torna-se necessário suportar o seu vazio imediato de significação. Significa trabalhar com o luto da perda de significados conhecidos.

Não coloco aqui nenhuma valorização de um enfoque ou de outro, mas estou enfatizando a passagem de um para o outro. Nesta passagem o tempo deixa de ser um tempo cronológico, historicizado para ser um outro tempo sem imagem prévia. Criar a sua própria história considero ser de suma importância. O que enfatizo aqui é diferença entre tempo historicizado e tempo sem imagem prévia. O que está em questão é considerar tempo e história como sendo a mesma coisa.

“The time is out of joint” frase dita por Hamlet no final da cena 5 do primeiro ato, pag. 51, que podemos traduzir por “O tempo está fora dos gonzos”. Esta é a frase escolhida por Deleuze para sintetizar suas teses sobre a emancipação do tempo. Questão desenvolvida nos seus livros sobre cinema. A multiplicação dramática se apóia nesta inspiração.

É no tempo cronológico com tempo e espaço delimitados, que predomina na primeira parte e se imiscui a todo o momento na segunda parte, é no meio dele que urge outro tempo e que o transforma. Um tempo e espaço da surpresa, do inédito. Tempo intempestivo. Tempo que já não está no aqui e agora e muito menos no lá e então da representação. Está entre. Inapreensível entre apresentação e representação. Não mais representação e ainda não apresentação. Talvez possa chamar a isto do caráter de negatividade do tempo da criação. A passagem por essa negatividade se constitui, a meu ver, essencial para a criação. Junto com Agamben e seus prefaciadores do livro “O que é o contemporâneo e outros ensaios”, podemos dizer:

“... uma autêntica revolução não visa apenas a mudar o mundo, mas, a mudar a experiência do tempo. (...) longe de determinações cronológicos causais, a revolução que Agamben pretende pode ser entendida como a constante interrupção da cronologia por um tempo outro, que Walter Benjamin chamava, na esteira de Paulo, Kairós, ou tempo messiânico.”

A temporalidade na Teoria do momento

Tradicionalmente no psicodrama o tempo aparece associado à teoria moreniana do momento com seus fatores: locus, status nascendi e matriz. Moreno distingue claramente o momento do presente.

“Deve ser diferenciada de “presente”. O presente é uma característica universal, estática e passiva, é um correlato de toda experiência, por assim dizer, de forma automática. Como transição do passado ao futuro, está sempre aí. O presente é uma categoria formal, distinguindo-se, por oposição, do momento, que é dinâmico e é uma categoria criativa. É através de um processo criativo espontâneo que a categoria formal do presente alcança significado dinâmico, quando, então, ele se torna um momento. Um processo completamente automático e puramente mecânico, como por exemplo, a repetição de um filme, possui também um “presente” como sua mais intensa e criativa experiência. Uma definição positiva de momento verificou-se pela sua confrontação, de um lado, com a conserva cultural em suas várias formas e, por outro com a espontaneidade-criatividade”. , pag. 427-428.

Ou ainda, se referindo à história:

“O momento não é um pedaço da história, mas a história é um pedaço do momento, sub specie momenti. Vivências impressionantes do passado se exteriorizam de alguma forma nas vivências atuais”. , pag. 85.

E os seus fatores são apresentados como integrantes inseparáveis:

“Numa filosofia do momento, três fatores devem ser enfatizados: o, o status nascendi e a matriz. Representam três ângulos do mesmo processo. Nenhuma coisa existe sem seu locus, não há locus sem status nascendi e não há status nascendi sem sua matriz. O locus de uma flor, por exemplo, está no canteiro onde cresce. O seu status nascendi é o de uma coisa em crescimento, tal como brota da semente. A sua matriz é a semente fecundada”. , pag. 105.

Matriz se refere a algo específico, irrepetível da realidade vivenciada que contém um germe de desenvolvimento determinante. Trata-se de uma resposta, uma reação a uma determinada situação. O locus se refere ao lugar (espaço) onde algo nasceu, mas também se refere à ação que desencadeará uma reação (matriz) e o status nascendi está relacionado com a dimensão temporal de um acontecer. O foco do trabalho psicodramático deveria ser investigar o locus para operar sobre a matriz. , pag. 54.

Todo este sistema conceitual aponta para uma temporalidade que em certas ocasiões é diferente da cronológica vetorial histórica, do passado, presente e futuro, mais ligada ao momento da criação. Mas em outras ocasiões, dependendo da leitura de cada psicodramatista, se encerra na descoberta da origem passada dos eventos.

 A temporalidade do sonho necessário para o tempo do trabalho.

Quanto ao conteúdo do protocolo em questão, podemos ainda apontar junto com Shakespeare que "Somos feitos do mesmo material que os sonhos e nossa curta vida acaba como um sono." , pag. 952, Shakespeare coloca esta fala no personagem mágico Próspero da peça “A tempestade”.

Assim como Borges no século XX aponta para a questão do tempo que nos constitui, Shakespeare, no século XVII apontava para a questão do sonho que também nos constitui.

O diretor também. Eu também sonhei e associei o sonho com o meu trabalho, no protocolo em questão. Uma parte do trabalho que na maioria das vezes não se integra com o fluxo do trabalho organizado. Mas é nele que se forja a potencialidade criadora.  

A parte invisível do trabalho. O tempo invisível.

O protagonista e o diretor trazem cada um seu sonho que relacionam diretamente com a cena de seus próprios trabalhos.

Desespero e terror são talvez os principais sentimentos desta cena para o protagonista. Aflição e uma expectativa pensante pelo lado do diretor.

O que pensar do tempo do trabalho e do tempo do sonho hoje? 

Christophe Dejours traz algumas idéias a respeito.

Como compreender as diversas contradições da psicodinâmica e psicopatologia do trabalho? Para responder isto Dejours parte da tese da centralidade do trabalho nos domínios: da formação da identidade, na superação da desigualdade entre homens e mulheres, na evolução política da sociedade, na possibilidade da produção de novos conhecimentos.  Restringindo-se na questão da formação da identidade desenvolve seu raciocínio.

As novas formas de organização do trabalho: avaliação individualizada, busca da qualidade total e terceirização em larga escala constituem uma revolução, aumentando consideravelmente a pressão produtiva, o isolamento e a solidão. Em outras palavras a insignificância de Castoriadis que vinha me referindo algumas linhas atrás. No lugar da confiança, da lealdade, e da solidariedade surge o cada um por si, a deslealdade e a desestruturação do convívio. “Solidão em meio à multidão.”

Entre o que se prescreve para o trabalhador e a atividade real dele surge uma série de obstáculos, trata-se da resistência da matéria dos utensílios, das máquinas, das pessoas. Entre o propósito de um psicodramatista e o seu real trabalho surgem muitos obstáculos. Para enfrentá-los, o trabalhador usa sua inteligência, descobrindo sozinho um caminho para superar estes obstáculos. Um caminho que passa pela impotência, fracasso desistência, sofrimento e também pela persistência e pela busca. Pela insônia, pelo sonho, pelo completo engajamento do seu corpo no trabalho. Dessa intimidade com a tarefa nasce a capacidade de resistir ao fracasso e ao sofrimento.

“Portanto, a princípio, trabalhar é fracassar e sofrer” . O sofrimento é o que vai mover o sujeito a buscar solução para se libertar desta aflição. Esta luta também conduz a um deslocamento de si mesmo, isto é, altera a própria relação com o trabalho, se transforma a si mesmo. O trabalhador, inclusive o psicodramatista, adquiri novas competências, permite aprimorar-se e ter prazer com o trabalho. Aqui se emprega a expressão criada por Dejours “trabalho vivo”. 

Existe uma parte invisível no trabalho. Um tempo invisível. A irritação, o desencorajamento, a dúvida sobre a própria competência, não são vistos. O mau humor com a família, as insônias os sonhos, ocupam um tempo essencial para a imaginação elaborar uma solução para o trabalho. “O sofrimento, em geral não pertence ao mundo visível” . Mas é nesta parte invisível que se plasma a criação de novas soluções.

Por que o trabalhador se arrisca nesta aventura? Por que eu, psicodramatista, me arrisco nesta aventura? Em troca da contribuição busca uma retribuição. Não só material, mas simbólica. Um reconhecimento. Trabalho cumprido, sua utilidade e qualidade. Este reconhecimento vai permitir uma passagem do fazer para o ser. Ser mais inteligente, mais competente, mais seguro de si mesmo depois do trabalho do que antes dele. Fortalecer a identidade. O reconhecimento por parte dos pares faz sentir pertencendo a uma equipe, a uma profissão. Em troca do sofrimento e da solidão um pertencimento, um desenvolvimento da identidade. 

“O trabalho, por meio da ação do reconhecimento, constitui uma segunda chance para edificar e desenvolver nossa identidade e adquirir assim uma melhor resistência psíquica em face dos desafios da vida” .

Certas organizações do trabalho favorecem a psicodinâmica do reconhecimento, e outras destroem sistematicamente essa dinâmica da contribuição e da retribuição. “Tudo depende da formação de uma vontade coletiva a fim de reencantar o trabalho” . 

Utilizando-se o referencial de Castoriadis diria que o reencantamento aqui apontado se dá pela articulação magmática do tempo, do mundo, do trabalho com o tempo do mundo onírico. A articulação magmática diz respeito a uma lógica que está em oposição e complementação da lógica aristotélica. Que se aproxima do processo primário de Freud. Que domina o inconsciente freudiano e que permite associar o lógico com o ilógico. Magmático significa uma articulação de tempos cronológicos com outros tempos fora dos gonzos.

Castoriadis chama a isto de subjetividade reflexiva , na qual o eu toma contato com sua imaginação radical criadora, isto é, com o fluxo incessante de representações desejos e afetos da psique. Aliás, esta é a característica central da psique tanto para Moreno como para Castoriadis.

Toda a complexa questão do tempo aqui, neste trabalho, está apenas esboçada através da indicação de suas relações com a teoria moreniana do momento, com as diversas temporalidades da seleção canarinho, a borgeana, a da insignificância de Castoriadis, a molecularidade e a molaridade da multiplicação dramática, o caráter de negatividade do tempo criativo, o Kairós de Benjamin, o tempo invisível do trabalho de Dejours.

Tudo isto, se para algo serve, gostaria de assinalar a necessidade de outra experiência de tempo, como base para nos expor no compartilhar de nossas existências. Compartilhar de tempo para a contemporaneidade!  


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Autor: Pedro Henrique d´Avila Mascarenhas

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